O INFERNO DE KAFKA

Ronaldo Costa Fernandes
Cadeira nº31

Oinferno dos romances de Kafka é um inferno circular. O personagem K. de repente cai numa aldeia à qual não foi chamado (O castelo), ou recebe uma intimação para responder a um processo de um crime do qual não sabe de que é acusado (O processo). Quando se inicia a ação, no segundo caso, o personagem vive sua rotina do escritório de seguros e é envolto numa trama diabólica, em que não consegue escapar, circunscrito a idas a tabeliães e salas esquisitas de júri e às visitas constantes a advogados estranhos e idiossincráticos. Em Metamorfose, logo quando se inicia a novela, o personagem se torna uma barata. O personagem passa a viver naquele mundo que é o seu, mas transformado. O mundo transformado, porém, é o mundo em que vivemos. É como se o personagem acordasse para uma supra-realidade que é a realidade em si. Não há saída do círculo, senão a morte. A ideia de um mundo circular leva a consequências narrativas: o personagem roda em torno de uma só solução para o seu caso: em O processo, livrar-se da acusação; em O castelo, encontrar-se com Klamm e resolver sua situação inicial de agrimensor.

Os dois Ks dos dois romances ficam num jogo de bobinho de futebol. Ele corre de um lado para o outro a fim de que a burocracia resolva seu problema que, num, é empregar-se como agrimensor e, noutro, livrar-se de um processo penal. Todos os empurram para outro ator que lança para outro a responsabilidade (O processo) ou o enreda mais na trama, ou ainda tentam explicar como as coisas funcionam na aldeia ou nos cartórios e os Ks não entendem, se confundem, aprofundam sua discordância, estranham ou se acostumam às estranhezas, não percebem as minudências, se afastam cada vez mais dos seus objetivos que se tornam objetos inalcançáveis. Toda a luta dos Ks dos dois romances é estabelecer a unidade perdida antes que chegasse na aldeia ou que se findasse o processo que o consome.

O narrador de Kafka é curioso; ele repassa aos personagens as dúvidas sobre as atitudes e descrições de outros personagens. Num momento da literatura do século XX, em que o narrador estava sob suspeição, o narrador kafkiano dos romances também deixará de ser onisciente a fim de que participe da questão do instituto da verdade única. Os personagens assim assumem a direção da narrativa, como no caso de Amália, que descreve a aparência física de Klamm em O castelo. A intenção é dar a K. a imagem física do homem que ele busca para resolver vários problemas, entre eles o consentimento para casar-se com Frieda, ex-amante de Klamm. Nesse trecho, o personagem pratica o que é o recurso mais usado para apresentação do estado emocional ou psicológico dos atores envolvidos na trama. A dialética kafkiana não permite que se estabeleça, como em outros romances da mesma época, uma dúvida ou sobreposição de informações que façam o leitor desnortear-se com o acúmulo de descrições contraditórias e o levem não a desconfiar do narrador mas a ter uma visão plural do personagem descrito. Vamos pegar até mesmo um autor do século XIX, como Dostoievski, que além de o narrador ir mostrando as contradições do personagem, outros personagens mostram pontos de vista divergentes sobre a figura em questão. O autor russo vai mais além: o próprio personagem se contradiz, reafirma-se, desdiz-se, numa confissão desenfreada. Em Kafka, contudo, ocorre a formação física e psíquica a partir das visões das outras personagens sobre determinado personagem. Ou ainda a visão mutante que o personagem sofre diante da visão dos outros, da comunidade, da lei ou da burocracia.

Se os dois romances muito se assemelham, se afastam no que toca à fuga do lugar indesejado. Em O processo, K. deseja escapar do cerco jurídico, da ameaça à sua liberdade e do cerceamento dos seus passos como cidadão. Em O castelo, K. deseja ardentemente ingressar como membro da comunidade, seja por meio do acesso à Klamm, seja por intermédio das mulheres. A profissão se oferece neste último como uma forma de ingressar na comunidade, fazer parte de um coletivo e não ser visto como um estranho (não se pode fugir da análise dos livros sem pensar em sua condição de judeu de Kafka, infelizmente). No primeiro, a condição de réu o afasta do mundo comunitário; no segundo, participar da vida da aldeia é fundamental para que ele se sinta em casa. Desta maneira, aceita a condição de servente da escola e renuncia ao serviço de agrimensor a fim de que possa ingressar no coletivo mesmo em posição inferior e em atividade servil.

Gunter Anders anota que nos textos dos seus romances o herói não segue adiante na ação, não há um conceito de “desenvolvimento”. O romance parece iniciar-se com um estampido, que daria lugar a uma especulação dos atos do personagem. “Pois a única ação verdadeira de seus heróis consiste em pensar e repensar as mil possibilidades que, como um feixe de luz, irradiam daquele ponto dos acontecimentos” (p. 39, Kafka: pró e contra, ed. Perspectiva).

As relações amorosas são gratuitas e espontâneas, ao mesmo tempo que não existe nexo com as convenções sociais. Em O castelo, Frieda é balconista numa taverna e amante do misterioso Klamm, logo K. a arrebata e ambos vivem uma relação conjugal, moram juntos e mantêm relações amorosas e sexuais livremente. Do mesmo modo, em O processo, a gratuidade e fogosidade se oferece à empregada do advogado que K. frequenta, embora aqui não exista uma relação contínua e sugere-se sua promiscuidade, em nome da pena que a moça sente em relação aos que buscam o patrão e sentem o peso da obscura lei. Não apenas não há realismo enquadrado pela vigência da moral da época – o absurdo poderia manter um comportamento sexual reprimido – mas também o que nos dá curiosidade é a facilidade com que Kafka organiza a trama, escusando-se de criar qualquer enlevo inicial ou provocar cenas que antecedessem, por exemplo, ao exaltado amor de Frieda por K

Menos que a desromantização, o que impressiona é a gratuidade. Este elemento vai se tornar fulcral na prosa kafkiana romanesca, pois é ele que permite os encontros e fornece um conflito que antes não existia. De repente, Olga, irmã de Barbanás, que trabalha para Klamm, está apaixonada por ele, apesar de o ter visto apenas uma vez. Criou-se aí um impasse surgido da gratuidade. Ela permite que K. avance ou recue conforme o humor dos personagens. Se a dona da pensão quer ver K. longe do universo da comunidade, assim como os burocratas da aldeia que o rebaixaram, Olga e Frieda, gratuitamente, o acolhem no grupo.Observa-se a necessidade de ingressar num mundo ordenado como a aldeia de O castelo como uma forma de ser aceito pelo pai e pertencer ao mundo não-judeu. Mesmo que o pai seja despótico e o julgue constantemente (O processo), e mesmo que a aldeia seja um espaço onde reina a hierarquia e as relações de poder sejam dominantes

Kafka, nos dois romances, trabalha com dois elementos fundacionais: a ausência de vida privada e a obsessão. Os dois estão interligados na medida em que em que os Ks partem para atuar nos espaços públicos e privados dos outros. Não lhes cabe mais recolhimento e privacidade ou intimidade, os atos ocorrem sob os olhares curiosos dos outros, como a dizer que na modernidade estamos mais que vigiados, que o homem se tornou público. Em O processo, o herói percorre os labirintos da justiça ou a casa do advogado; em O castelo, a aldeia toda parece curiosa e participa da vida íntima do casal K. e Frieda. Os dois pares de policiais num romance e os dois assistentes em outro, mostram a vigilância que não permite a intimidade. No mundo kafkiano, todos têm uma opinião sobre o herói e ninguém pode esconder nada de alguém porque participam da sociedade pública que pode julgar o indivíduo e não o deixar viver em privado. Ao mesmo tempo, a obsessão ocorre nesse espaço desprovido de vida reservada. São dois os tipos de obsessão – haverá mais, mas aqui ficamos com apenas dois –, a obsessão ativa e a passiva. A primeira está em O processo, em que a ação de processar torna o personagem vítima de uma burocracia; e a segunda, em O castelo, quando o personagem busca obsessivamente chegar a escalões superiores.

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