FERREIRA GULLAR: INSPIRAÇÃO E NÁUSEA (*)10

Daniel Blume
Cadeira nº 15
Era manhã de domingo: 4 de dezembro. Fui tocado por uma triste notícia: a morte de Ferreira Gullar, meu poeta preferido. Quase um amigo, por tanta afinidade na interação leitor/escritor. Pensei: maranhense, membro da Academia Brasileira de Letras, jornalista, cronista, crítico de arte, está com Camões, Gonçalves Dias, Drummond, Bandeira e poucos outros no panteão dos poetas da Língua Portuguesa e tão aqui, mesmo que longe e bem alto tenha ido, por meio da poesia.

Entretanto, ele mesmo disse:
Mas sobretudo meu corpo nordestino
mais que isso/maranhense
mais que isso são-luisense

*10 Este texto sobre o poeta Ferreira Gullar está baseado em dois livros. As referências biográficas estão em: GULLAR, Ferreira. Autobiografia Poética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. As citações poéticas, em: GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

Ou seja, quanto mais íntimo, mais imensidão. E não menos. A grandeza era mais sentida quanto mais perto de suas origens ele chegava

Acerca de seu pseudônimo, declarava que
(…) para não ser confundido com um certo José Ribamar Pereira,
cuja escrita tinha qualidade duvidosa, e porque Ribamar era
nome bastante comum no Maranhão, passou a assinar Ferreira
Gullar, usando o Ferreira do pai com uma versão inventada do
Goulart da mãe.2

Na noite anterior, eu havia terminado de ler a última edição do seu livro “Toda Poesia”. Por meses, lia e parava. Refletia e relia. Engasgava e prosseguia. Por vezes, os poemas me traziam uma pressão no tórax: era a poesia de Gullar, sua náusea diante do vivido. Depois dessa triste notícia, pensei: homens como Ferreira Gullar morrem, mas não deixam de existir. Teve o privilégio do reconhecimento em vida. Recebeu vários prêmios, como Camões, Machado de Assis e Jabuti. Chegou a ser indicado ao Nobel de Literatura por professores americanos, brasileiros e portugueses.3 Muito homenageado, nomeou de teatro a avenida. Doutor honoris causa, sua obra foi objeto de teses e livros.

Gullar era crítico contundente dos governos que não reputava corretos. Independente e coerente, ele usou verbo, história e coragem para apontar para a direita ou para a esquerda. Pagou o preço com exílio e incompreensão.

Os poemas de Gullar quebraram o paradigma da forma, ao revelar que poesia é o que se escreve. Não como se escreve. Estava certo, mesmo sem querer ter razão. Preferia ser feliz com a poesia e com seus princípios.

O olhar poético de Gullar transcendia das frutas, mesmo das que apodreciam na cozinha, para a poesia; perscrutava a essência do estrume na flor (tema recorrente em sua obra). Encontrava a poesia do cotidiano das ruas de São Luís e do Rio de Janeiro. Usava o poema como captura essencial até quando sentia carregar consigo “garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas”4

Na verdade, Gullar não carregou consigo a cidade, ele foi a cidade e a cidade permanece em seus poemas:

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade.5

Na minha casa, mesmo antes de me tornar leitor, Ferreira Gullar foi uma referência poética familiar, porque, no cotidiano, viviam palavras e fotos dele nos livros sobre a mesa da cozinha, da sala de jantar e nas conversas que escutava sobre ele nos estudos de literatura e na preparação de aulas de leitura e redação onde seus versos eram destacados como motes para fazer outros fluírem em seus textos.

Desse convívio ficaram impressões sobre Gullar e questões que, de forma ainda mal elaborada, guardei, sem saber que responderia depois, em parte, porque da poesia pouco se responde. Entretanto, sempre me intrigou o fato de um poema ser sujo e fazer parte de uma antologia, diria universal, entre os melhores. Decidi conhecê-lo mais profundamente: trouxe seus livros para a mesa que hoje tenho para as minhas próprias leituras e comecei a ler seus poemas que tanto me surpreendem

Para o poeta, então, a inspiração é uma espécie de náusea, já que, por confissão própria, o poema é vômito. Se o vômito traduzido em verso traz a substância do vivido, é sinal de que a vida é a consequência do que azedou. Em sua autobiografia poética, Gullar confessa:

No Poema sujo, creio eu, deu-se uma explosão de tudo que fora
elaborado durante os anos de 1962 e 1975. É certo que nada
disso foi planejado (…). Ao pensar escrever aquele poema – na
noite em que me veio o ímpeto de escrevê-lo – iniciei começá-lo
como uma espécie de vômito do vivido.”6

Encontrei em parte a resposta: o poema é sujo porque é vômito do vivido. Recende a sujeira. Excreta o que há de mais podre no mundo:

Me reflito em tuas águas
recolhidas: (…) no banho nu no banheiro
vestido com as roupas
de tuas águas
que logo me despem e descem

diligentes para o ralo
como se de antemão soubessem
para onde ir…” (…)
rolamos com aquelas tardes/ no ralo do esgoto
e rolo eu
agora
no abismo dos cheiros
que se desatam na minha carne na tua, cidade
que me envenenas de ti, que me arrasta pela treva
me atordoas de jasmim7

A poesia é a mistura de inspiração e náusea no poeta atordoado pela beleza, apesar de todo excremento. E Gullar é salvo pelo perfume que nasce da química do estrume. É assim que o poeta sente em si a contradição:

Num cofo no quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)8
… era abrigo e afeto (…) fonte de uma alegria ainda que suja e secreta/ o cuspo morno a delícia do próprio corpo no corpo…9
Ah minha cidade verde (…)
Minha úmida cidade (…)
Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa
de vergonhas que a família abafa
em suas gavetas mais fundas…10

Mesmo o poema sendo a consequência da inspiração, sob a metáfora da relação náusea e vômito; mesmo que o vômito seja o vivido e a semente seja plantada no estrume, exala desse cenário o perfume e a beleza que a poesia faz explodir e nem toda a negação desse milagre consegue represar e conter, porque:

[…]da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)11

E ainda:

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas,
Flexível armação que me sustenta no espaço
Que não me deixa desabar como um saco
Vazio
Que guarda as vísceras todas
Funcionando
Como retortas e tubos
Fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
E as palavras
E as mentiras (…)12

Não por acaso, a obra de Gullar começa por A luta corporal, poemas escritos de 1950 a 1953. Em seguida, O vil metal (1954- 1960). Romances de Cordel (1962-1967). Dentro da Noite Veloz (1975). Poema Sujo (1976). Na vertigem do dia (1980). Barulhos (1987). Muitas vozes (1999). Por último, Em alguma parte alguma (2010). O autor optou por não inserir na coletânea o seu livro inicial “Um pouco acima do chão” (1949).

Por felicidade, esta minha terra me deu um poeta que aprofunda a realidade que eu vejo e me ensina caminhos de perceber a velocidade do tempo, das coisas e dos lugares. Ritmos da vida que ora se arrasta, ora passa na velocidade da agitação ou da lentidão dos afazeres. Por isso é tão diferente o domingo da segunda-feira; por isso é tão diferente a velocidade das coisas na sala e na cozinha; por isso a noite é feita mais de som que de silêncio.

Aqui sobre a minha mesa, onde torno pessoais algumas leituras familiares, vivem os poemas de Gullar que falam a este leitor até o ponto da náusea nas noites cheias de sons das perguntas sobre a vida e sobre o vivido propício às crises de vômito que eu tenho. Gullar, um mestre que me ajudou a entender sobre estrume e cheiro; perfume e flor, ou seja, sobre o perfume da flor e o lugar onde ele nasce: o humano nos outros e em mim.

NOTAS E REFERÊNCIAS
1 GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015, p. 290)
2 GULLAR, Ferreira. Autobiografia Poética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 154.
3 Ibid, p. 157)
4 GULLAR, op.cit., p. 284)
5 Ibid., p. 341)
6 Ibid., p. 58) Revista da Academia Maranhense de Letras 149
7 Ibid., p. 328-329.
8 Ibid., p. 286.
9 Ibid., p.327.
10 Ibid., p.326-328.
11 Ibid., p.286.
12 Ibid., p.288.

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