O PROFETA

Lino Raposo Moreira
Cadeira nº 8

A certeza era imperturbável. O mundo ia acabar, contudo somente mais tarde ele me anunciou a grande nova. Não seria daqui a bilhões de anos, quando a Terra, por querer voar muito perto do Sol, qual Ícaro com suas asas soldadas com cera, cairia na estrela e se transformaria em pó, à semelhança do que acontece com seus habitantes desde o começo dos tempos. Dessa última vez não seria simplesmente pela ação do tempo que morreríamos, e sim pela ação do caos e do mesmo fogo que hoje, distante, nos dá vida.

O desastre seria em alguns meses, ou no máximo em um ano. Não adiantaria recorrer aos deuses, rezar, chorar, pedir, implorar. Não havia esperança de tudo se passar como na canção em que “anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”, porém tudo continuara como sempre, exceto pelas confissões de pecados mortais e veniais, com muito barulho, confusão e divórcios.

Apesar da certeza da catástrofe próxima, não se via nele sinal algum de desespero, diferentemente de um personagem de um filme de Woody Allen. Ao saber, ainda bem criança, do destino inexorável de nosso planeta, ele entrou em depressão, da qual não se recuperou durante toda sua longa e angustiada existência.

Quando o profeta pegou-me o braço, arrastou-me a um canto e disse que precisava falar comigo urgentemente, pensei logo num pedido de ajuda. A filha estava doente, a mulher hospitalizada, o pai precisava “tirar uma chapa”, ele tinha uma dor de dente insuportável, ou algo pior. Contudo, quando pensei um pouco, fiquei surpreso, pois era bem raro se ouvir sua voz. Eu mal conseguira falar com ele duas ou três vezes em mais de dois anos. Se não lhe dirigissem a palavra, era capaz de ficar o dia todo mudo, como um monge distante das agitações mundanas. Ele dava a impressão de não querer incomodar, nem ser incomodado, mas cumpria diligentemente suas obrigações. Portanto, aquela conversa só podia ser especial, assunto de vida e morte.

Com a aproximação do fim terreno, certeza adquirida em leituras das sagradas escrituras de sua religião, ele me escolhera para ser salvo. Embarcaríamos numa nave espacial capaz de nos levar em segurança a qualquer lugar do universo. Não atinei com a razão da escolha, nem perguntei nada.

Recusei a oferta. Continuaria com os pés firmemente plantados na Terra, velha conhecida, em vez de me aventurar no infinito, sem ter certeza de chegar a nenhum paraíso, exposto a meteoros desgovernados. Eu já ficaria satisfeito, se pudesse escapar das ameaças deste mundo: altos impostos, livros de autoajuda, juros altos, falsas promessas de época de eleição, desemprego crônico, epidemia de cadastros inúteis, vírus da internet, buracos nas ruas, messias eletrônicos, sequestros de pessoas, juízes venais, companhias telefônicas, distribuidoras de energia elétrica e muito mais. Quem poderia garantir que os problemas não seriam os mesmos em outro corpo celeste? Melhor morrer aqui mesmo, em vez de penar pelo universo sem ter onde repousar, andando de estrela em estrela, feito um andarilho universal. Talvez essa figura de ficção, pois de ficção ele parecia ser, depois de tanto tempo caçado, mas finalmente alcançado, Osama bin Laden, até então intangível como um fantasma, onipresente e onipotente, tivesse aceitado uma carona. Seria sua chance de sobreviver. Afinal, o exército mais poderoso da Terra era o perseguidor dele. Essa oportunidade inesperada seria a única de escapar mais uma vez e definitivamente do Tio Sam, que a tão longe não chega. Agora, porém, ele estava morto.

Mas, ponderei, não era o mundo que se acabava. Nós é que acabávamos o mundo, pela poluição do ambiente e a destruição da fauna e da flora. Além disso, eu já estava salvo, garanti. Salvo da ignorância pelos livros e de acreditar nesse tipo de fuga, no fim do mundo amanhã e em paraísos terrestres ou cósmicos. Ele me olhou serenamente e disse algo sobre o dia do Juízo Final, quando eu, por fim, acreditaria em suas palavras.

Quando olhei para ele pela última vez, seus olhos brilhavam como uma nave espacial na escuridão da infinda vastidão do universo, tão bela como o sol, a lua, as estrelas, os cometas. Naquele momento, o profeta, pensei, era a própria imagem da felicidade. Nunca mais ouvi falar dele. Era como se não tivesse existido aqui neste planeta.

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