CRÔNICAS REUNIDAS(*)9 SOBRE O BOM LIVRO MARANHENSE

JOSÉ EWERTON NETO

Cadeira Nº 11

  1. Vieira no Maranhão, de Ronaldo Costa Fernandes

Neste romance de ficção histórica, Ronaldo Costa Fernandes se afasta dos temas tradicionais de seus contos e romances para construir, mesmo que não tenha tido essa intenção, uma homenagem à sua terra, o Maranhão – e que homenagem! Para tanto centrou sua trama em torno de um de nossos personagens historicamente mais ricos e emblemáticos, o padre Antônio Vieira. Vieira, no romance, paira, por assim dizer, como um farol, iluminando a sequência dos fatos, mas sem ter influência ou participação no desenlace dos mesmos. Mantendo-o equidistante de sua criação imaginativa, Ronaldo paulatinamente edifica um

* As crônicas reunidas foram publicadas no jornal O Estado do Maranhão, de 2020 a 2021.

significativo registro de uma época, da qual até os maranhenses mais letrados sabem pouco. Aos poucos, o leitor vai percebendo que, com suas palavras, o autor traçou um denso painel em que suas frases substituíram registros documentais, desenhos e mapas de uma fase embrionária da nossa formação como povo. É um romance cujo fascínio não está no mistério da trama, não linear e quase inexistente, mas na composição dos tipos: fortes, devassos, estúpidos e aventureiros, e na descrição dos eventos que se desenrolam em torno desses personagens, o que nos transporta para o passado como se estivéssemos – perdoem o clichê – viajando através do tempo.

Certamente fruto de árdua pesquisa, esse tipo de abordagem literária, a meio caminho entre crônica dos acontecimentos e romance , ao mesmo tempo que contribui para eternizar a aura de um ser humano especial, quase um mito, o padre Vieira, insere, por conta das comezinhas necessidades e tragédias cotidianas à sua volta, a sua face humana

Uma obra enriquecedora que deveria ser recomendada para leitura em nossas faculdades, especialmente para os futuros profissionais de Letras e História

  • Anônimos, de Lindevânia Martins

Os contos de Lindevânia Martins possuem o dom das aberturas poderosas, sugestivas e originais. Leva-se algum tempo para aferir isso porque, extasiados, somos motivados a ler sempre mais, com progressivo interesse, já que o que vem pela frente não se desloca do mistério ou da inquietação prometida. Pelo contrário, nos conduzem a mais labirintos perfeitamente delineados, sem que se tope com as costumeiras bizarrias que, de algum tempo para cá, se tornaram um caminho fácil para escritores que, menos dotados de talento, ficam emparedados no espaço curto de um conto, descambando para o epílogo grotesco ou ineficaz.

Assim, em dilacerantes contos como A língua, ou A coisa sem nome, para citar apenas estes, Lindevânia consolida a narrativa de seus contos em um todo monolítico, fazendo com que o start-up impactante perdure até o final, para deleite do leitor.

  • Litterae semper, de Alexandre Lago

Este segundo livro de Alexandre Lago sobre a mesma temática pode ser considerado, dada a linguagem accessível e dinâmica, tanto como livro de iniciação à boa literatura, como de aprimoramento, para os mais versados.

Mesmo aquele que já tenha viajado literariamente por “mares nunca dantes navegados” há de encontrar, aqui, o tesouro da ilha que julgava perdida e dotará sua navegação ( a leitura é uma viagem) de um fértil manancial de obras muito bem escolhidas e sutilmente postas à disposição do leitor através de uma arquitetura de compartilhamento em que o autor concede , além do resumo da obra, sua abalizada opinião

Mais um livro que deveria enriquecer o acervo de nossas escolas maranhenses, trazendo em breves pinceladas um conhecimento abrangente, didático e estimulante sobre o que de melhor a literatura mundial já produziu.

  • O tormento de Santiago, romance, de Lourival Serejo

Um dos contos policias mais conhecidos universalmente, segundo Mário Prata, é a história de Adão e Eva, porque traz três dos elementos principais que caracterizam uma narrativa nesse gênero. O crime cometido (o pecado), o mistério sobre a motivação, e o julgamento. No caso do romance de Lourival Serejo o julgamento é a parte que tem maior relevância já que, numa abordagem singular, é na análise psicológica do modus vivendi de cada um dos juízes que o autor fornece a chave para que o leitor tente captar o mistério que se avoluma diante do crime e da punição. É nesse ponto que a novela sai dos contornos da aventura policial para se dotar de uma abrangência filosófica e jurídica a ponto de deixar o crime em segundo plano para estornar, dos perfis descritos, a capacidade que o elemento humano tem para o bem e para o mal e, consequentemente, para o crime.

Dissecando os julgadores ao invés do criminoso, de repente expostos sob o mesmo manto da fragilidade humana que nos faz cometer crimes e sermos julgadores, o mistério que cada ser humano é aparece ostensivamente nas máscaras exibidas para a sociedade, descritos com sutil ironia pelo autor que, com originalidade, consegue reverter a tônica da narrativa policial deixando o imprevisível por conta do leitor

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