SOBRE A FUNDAÇÃO DE SÃO LUÍS (*)7 DA CIDADE DE NAZARÉ (1536) AO ITAPECURU (SÉC. XVII)

Rafael Moreira

Sócio Correspondente

[Nosso intento nas páginas que seguem não foi outro senão clarificar alguns pontos sobre o debatido problema de como e em que condições surgiu e se formou a cidade de São Luís, que vemos mais como “um processo” que acontecimento com data e hora marcadas. Aproveitando o texto apresentado em mesa-redonda no IIIº Congresso Ibero-americano de História Urbana (Ciudad de México, nov. 2019) e suas Atas, refundido em artigo mais extenso publicado on-line na revista “História (São Paulo)” da Unesp em setembro de 2021, aqui o deixamos à atenção do leitor, acrescido de alguns dados que não lhe alteram a substância.]

* À memória de João Renôr (fal. 2016), o único índio timbira

maranhense que conheci doutorado pela Sorbonne; e de Luiz Phelipe Andrès

(fal. 2021), o francês-suiço de Minas mais maranhense que existiu.7

Os “Barbados” do Maranhão foram uma comunidade muito peculiar. Descendentes em parte dos colonos vindos de Portugal – decerto recrutados em volta do santuário de Nª Srª da Nazaré, padroeira dos navegantes contra naufrágios, no litoral centro-oeste do país entre Óbidos e a Batalha1 – povoar a primeira urbe da América portuguesa: a cidade de Nazaré fundada em março de 1536 pelo capitão Aires da Cunha na ponta da Ilha Grande do Maranhão (Ypaon-açu) por conta dos donatários – o grande escritor humanista João de Barros (que possuía lá perto a Quinta de Alitém, a sul de Pombal) e o poderoso financeiro Fernão Álvares de Andrade – com o objetivo escondido de ir conquistar por terra o mítico reino inca do El Dorado ou ‘Birú’, ou seja o Peru, de que por esses mesmos anos Pizarro e seus companheiros se andavam apropriando; mas esquecidos, desmoralizados e abandonados a si mesmos pelo poder real, começaram por volta de 1570 a se ‘indianizar’, convivendo e fundindo com os Tapuias ou Jê locais, falando sua língua e adoptando sua cultura e forma de vida. Mas sem nunca abandonarem o uso do ferro, tanto em armas como em utensílios, e conservando o traço genético da pilosidade que lhes deu o nome por que eram conhecidos pelos vizinhos (como os Méxica chamavam os espanhóis por suas longas barbas). Antes dessa perda de identidade, muitos tentaram voltar a Portugal nos navios disponíveis, mas foram ter, perdidos e desgarrados, nas ilhas do Caribe, dando talvez origem à designação de Barbados dada à mais oriental de entre elas.

Os que ficaram – dum contingente inicial que montava a 1500 casais e 130 soldados a cavalo num total de 12 barcos: armada “tam poderosa como as de Colombo, Vasco da Gama, Cortez e Pizarro reunidas”2 – foram se afastando do litoral, frequentado por corsários, aventureiros e traficantes de pau-brasil, e estabeleceram no baixo vale do Itapecuru, perto da Ilha Grande. Os próprios filhos de João de Barros, vindos dirigir a colônia durante 5 anos (1556-1561) após a morte de Aires da Cunha, a fim de tentar salvar o investimento feito, haviam construído uma fortaleza na foz do rio e lançado as bases da colonização agrícola e pecuária, prosseguida por Luís de Melo da Silva, também naufragado em 1573 no mesmo fatídico lugar do fundador, a identificar com as traiçoeiras rochas submarinas do Parcel de Manuel Luís.3 O que não retira significado à iniciativa pioneira do cronista e gramático João de Barros: “the cause that Brasil was first inhabited by the Portingales”, como dizia em 1578 o explorador inglês Richard Hakluyt ao embaixador de Portugal em Londres, Antônio de Castilho (BOXER, 1981, p. 31). Se o ensaio colonizador de Duarte Coelho no Nordeste – o primeiro bem sucedido, em 1535 -, não passara de uma rede de ‘vilas’ de pequeno porte, a tentativa frustrada de Barros na costa Norte tinha o alto estatuto oficial de ‘cidade’, só igualado por Salvador da Bahia quinze anos mais tarde

Talvez seja esse o motivo porque a historiografia dominante no Brasil – de maioria sulista – tem ignorado o feito da cidade de Nazaré, relegada ao domínio do mito e do malogro.4 Não fazia mais que continuar a versão oficial do poder luso, a quem interessava alimentar a crença na inacessibilidade da faixa litoral à navegação pelo regime de correntes, ventos e marés, perigos dos baixios e ausência de bons portos, como meio de manter afastada dessa região equatorial a concorrência dos navios das potências rivais: da França, sobretudo.

Foi exatamente daí que veio a ameaça mais direta ao domínio luso nessa zona. Como é bem sabido, em agosto de 1612 a armada de 3 velas capitaneada pelo huguenote Daniel de la Touche, senhor de la Ravardière, que partira cinco meses antes de Cancale, na Normandia, a fim de fundar uma colônia protestante no Norte do Brasil, apoiada pela regente Maria de Médicis, chegava ao porto de Jeviré na ilha de Maragnan. Nela vinham 4 missionários capuchinhos do convento de Paris – condição do apoio régio – para converter à fé católica os nativos dessa ‘Terra sem Mal’, que logo se tornariam seus cronistas e principais apologistas.5

Mas, após dois anos de explorações, levantamento cartográfico e inventário da fauna e flora locais, tal projeto da ‘França Equinocial’ chegava a um beco sem saída na sequência da paz com Espanha, que incluía o casamento do rei-menino francês Luís XIII com uma princesa espanhola e o restabelecimento da soberania ibérica na terra equatorial, expulsando os “corsários” que a haviam ocupado: em março de 1615 o rei Filipe II de Portugal (III da Espanha) dava ordem ao governador-geral português do Brasil Gaspar de Sousa de “lançar fora os franceses de todo aquele sítio … sem perda de uma hora de tempo”.6 Agindo prontamente, ele lançou a ‘Jornada do Maranhão’ em que o mameluco Jerônimo de Albuquerque venceu Ravardière na crucial batalha de Guaxenduba de 19-20 de novembro de 1614 – a mais importante vitória militar em toda a história do Norte brasileiro, segundo o almirante Max Justo Guedes, por ter permitido incorporar esse vastíssimo território ao corpo do Estado do Brasil7 – apoiado no seu controle dos povos indígenas, entre os quais ainda não são mencionados os Barbados mas que seguramente aí estavam, ainda que sob outro nome.

Tem escapado aos historiadores o fato de o centro do poder militar francês, o Fort Saint-Louis fundado no alto da acrópole da Ilha Grande do Maranhão (onde hoje está a esplanada do Palácio dos Leões e a Sé Catedral de São Luís), ter sido erguido sobre as ruínas da antiga cidade portuguesa de Nazaré, despovoada e abandonada quatro décadas antes. Afirma-o sem lugar a dúvidas um relato oficial espanhol de c.16408 ; e aliás é lógico, pela falta nessa costa de lugares propícios à fixação de povoados permanentes segundo os modernos critérios europeus. O anônimo relator espanhol escreve, depois de narrar a tentativa frustrada da cidade de Nazaré: “Los que entraron con Juan de Barros, discurriendo el Marañon, y siendo la navegación en aquel tiempo menos entendida, unos se consumieron, y otros pasaron a Indias Occidentales, y no quedó de su fundación mas memoria que en la Isla de San Luís algunos vestígios de una fortaleza que empeçaron los fundadores, cuyos cantones y esquinas eran de piedra de Alcantara [calcário branco dos arredores de Lisboa], y sobre estos erigió Monsieur de la Reberdiere la que hallamos elaño de 1615.” (f. 53v); e mais adiante: “ … la isla que llaman de San Luís en que los franceses tenían la fuerça de San Luís, que mudamos el nombre en el año de 1615 quando se echó de ella a Monsiur de Rauardiere, y la llamamos San Phelippe [precursora de São Luís], y aqui fue la población que empeçaron los hijos de Juan de Barros, y no continuaron por no ser en aquel tiempo la nauegacion para alla tan bien entendida, y les faltó socorros.” (f. 56v)

Assim se compreende por qual motivo até hoje não foi encontrado documento algum de fundação da cidade de São Luís: quer em 1612 pelos Franceses – se eles criaram algo mais que o Fort Saint-Louis, batizado em homenagem a seu soberano e invocação ao santo rei Luís IX, e o Port Sainte-Marie (hoje Praia Grande), únicos topónimos referidos em suas prolixas fontes; ou em 1615 pelos Portugueses, o que nos parece mais natural, dado só então ter começado a existir um órgão municipal com vida própria e suporte físico, com ruas e casas permanentes. É porque a cidade já tinha existência legal: mesmo que só em germe ou embrião, mas efetiva.

Mostra-o bem sua ocorrência na Cartografia, onde surge indicada pela primeira vez no atlas do ‘Livro de Marinharia’ de João de Lisboa c.1560 9 ; e sobrevive em muito à sua curta história real – qual memória ou ‘fantasma’ de algo que se sabia ter existido, mas não muito bem onde o localizar – na cartografia portuguesa até cerca de 1580, e ainda em pleno século XVII na holandesa (Blavius em 1625 e a ‘Brasiliae Tabula’ de Jansonius de 1647, por exemplo)10 A atual cidade de São Luís – que ganhou naturalmente esse nome pelo número de colonos franceses que ficaram a povoá-la depois da mudança de domínio (mais de 300, ao que parece) – é a herdeira da antiga Nazaré11criada oitenta anos atrás por Aires da Cunha e seus sócios João de Barros e Fernão Álvares de Andrade: primeira povoação com estatuto de ‘cidade’ do território brasileiro. E foram os “Barbados”, salvos de desaparecer pela imersão na vida selvagem, que ajudaram a recuperar seu carácter oficial da usurpação francesa e quem mais defendeu a continuidade de sua memória.12

Mas os acontecimentos cedo se encarregariam de desatar esses laços, e fazer pender para o lado do mais forte tal equilíbrio de forças, tão proveitoso ao crescente domínio colonial português. Como o cacique tupi maranhense Momboré-açu dizia aos Franceses acabados de desembarcar em sua terra – num discurso que devia figurar em qualquer antologia de História do Brasil -, ele começara por ver os perós (Portugueses) muito amigáveis dando-lhes presentes, para depois mudarem de atitude e tentarem escravizá-los.13 No lapso de duas ou três gerações, os foragidos da falhada cidade de Nazaré tinham se mesclado com os nativos indo a ponto de perder sua identidade nacional, degradando-se de ‘civilizados’ ao nível de ‘selvagens’ (do ponto de vista europeu) como única maneira de conseguirem sobreviver no meio da natureza hostil e completamente estranha do Novo Mundo

A primeira referência a essa população mista, fruto da mestiçagem ‘para baixo’ (downgraded) – ou melhor: com seu ambiente natural e humano – dos sobreviventes lusos da empresa da cidade de Nazaré, ocorre no curioso livrinho publicado em Lisboa em 1624 Relação Summaria das Cousas do Maranhão … dirigida aos Pobres deste Reino de Portugal pelo capitão Simão Estácio da Silveira, natural dos Açores, que comandou em 1618 uma frota trazendo 300 casais de colonos açoreanos para virem povoar a cidade de São Luís, de que foi o primeiro juiz. Para ele não existe melhor lugar no mundo. No seu capítulo IV, “Os filhos de João de Barros no Maranhão”, depois de narrar o pouco que então se sabia da fundação da cidade por Aires da Cunha em “1535” (confusão com o ano de partida da armada) e sua perda, escreve:

“… a gente que escapou …as consummio o tempo … sem ficar
outro rasto mais que
descobrirmos agora um Gentio na comarca de antre o rio
Monim e o Itapicurú, que
he em tudo differente do Gentio da terra, porque vivem em
sobrados, comem pão de
zaburro e não usão da farinha de mandioca, nem de arcos e
frechas, e por devisa crião

barbas como os Portuguezes, e por isso os circumvisinhos os
chamam de Barbados,
como os de que atraz fica dito, e os de Mexico chamavão aos
companheiros de Fernão
Cortez, e tem umas espadas como achas e umas zagaias de
arremeço, com que são
temidos e valentes, e dizem que são descendentes de brancos,
a que elles chamam Perós
… he comtudo Gentio tão bárbaro ou mais que o outro; e porem
não quizerão nunca paz
nem trato com os Francezes, dizendo que elles não erão
verdadeiros Perós.” (p. 11)

Os cronistas gauleses – Claude d’Abbeville, e sobretudo Yves d’Évreux, tão atento ao quadro local e etnográfico que descreve – nunca fazem menção de tais índios de origem portuguesa, que não os contactaram, ou teriam então outra designação étnica que ignoramos qual fosse. Mas essa simpatia pelos colonos lusos não tardaria em desaparecer: com o incremento dos cultivos e o multiplicar dos engenhos de açúcar, a rápida expansão colonial e sua demanda de mão de obra escrava – a ‘Civilização’ – os foi empurrando para o interior e tornando cada vez mais aguerridos e ferozes em defesa de sua cultura, velha de apenas um século. Se Simão Estácio os considerava por 1620 “mais bárbaros que os Tupinambá” (indício de que já existiam fraturas e uma conflitualidade global), o ouvidor-mor de origem francesa14 Maurício de Heriarte ignora sua existência na década seguinte – salvo talvez englobados sob a designação genérica de “indios de corso” ou “barbaros de corso”, descritos como “falsos, cobardes, traidores, carniceiros, crueis, amigos de novidades, … homicidas, mentirosos, aleivosos, gente de pouco credito e nenhuma caridade, sem conhecimento da fe.”: sinal de uma imagem tão negativa quanto possível. E uma geração mais tarde as coisas tinham piorado: esses tapuias, já chamados.”15

No século XVII eles foram se estruturando em aldeias, cada vez mais populosas e densas devido ao constante crescimento demográfico. A pressão para se ‘aldearem’ não era mais que uma estratégia do poder colonial para os concentrar tornando-os alvos de fácil submissão, após haverem domesticado a selva inacessível aos europeus, demarcado o território abrindo caminhos que tornavam possível seu mapeamento, e preparado o solo para cultivo de roças e estabelecimento de engenhos de açúcar. Tal política era favorecida tanto por missionários quanto pelas autoridades como passo prévio à conquista.

De início, esses “Barbados” não tinham sua identidade bem definida, sendo englobados sob a designação genérica de ‘Gentios’ e ‘bárbaros’ ou ‘tapuyas de corso’. Os cronistas capuchinhos da França Equinocial – que eles combateram, garante Simão Estácio – os ignoram, e Maurício de Heriarte/Yriarte compreende-os decerto nos ‘Indios de corso’ que, sob diferentes nomes, infestavam o baixo Itapecuru (fol. 9) a partir do meado do século. Em parte, podem ter sido trazidos da Ilha Grande pelo procurador da Fazenda do Maranhão, o pernambucano Antônio Moniz Barreiros, fundador em 1622 dos primeiros engenhos de açúcar no vale do Itapecuru,16 de quem a Câmara de São Luís se queixava em 1624 ao Rei que “levou a maior parte do gentio desta ilha para a terra firme”17; embora decerto esse movimento migratório já tivesse começado desde muito antes, espontaneamente

O que argumentamos é que se tratou sobretudo de um instrumento de colonização europeia por interposta pessoa, por assim dizer. Os engenhos de açúcar iniciais, as grandes fazendas de gado, povoações, vilas e cidades europeias irão se estabelecer em cima de aldeias indígenas, beneficiando do esforço, valor e habilidade desses inocentes nativos, assim utilizados sem terem disso qualquer consciência. Vemos isso bem nos núcleos urbanos e seu entorno (Rosário, Itapecuru-Mirim, Codó, Coroatá, Caxias, Aldeias Altas, Pastos Bons…) e nos centros pioneiros da produção açucareira no baixo vale do rio Itapecuru, onde desde cedo se forma uma aristocracia latifundiária branca muito poderosa. Aí surge já em 1625-30 o projeto de transferir a capital do recém-criado (legal em 1621, efetivo em 1623) ‘Estado do Maranhão’, o que foi impedido pela força econômica dos comerciantes de São Luís; ideia novamente tentada pouco após a expulsão dos Holandeses, em 1648. 18

Cremos ainda não ter sido notado que o conhecido mapa da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro) ‘Descripçam dos Rios Para e Maranham’ de João Teixeira Albernaz de cerca 1632 (cota: CAM.01.002 – Cartografia), apresenta bem visível na margem esquerda do rio Itapecuru, acima da ‘Cachoeira’ e ‘Fortaleza’ que seguem à sua foz, frente a um ‘Emgenho de asucar’ e antes de outro, uma vasta área terraplanada tendo do lado a legenda: ‘Aqui se ha de fazer a Pouoação pera cabeça do estado’.

Nela se vê um interessante esquema de cidade de modelo regular, de que só as ruas estão indicadas – talvez já traçadas no terreno -, na tradição ibérica do quadrado com quadrícula de 6 quadrados menores, com a igreja no topo e o lado oposto encostado na linha do rio (Figura 1). Foi um projeto que não vingou, mas que retomava em versão mais simples o do engenheiro-mor Francisco de Frias de Mesquita para São Luís.

Da mesma região veio a melhor parte da dinâmica social que definiu o perfil histórico do Maranhão seiscentista: a revolta que culminaria com a expulsão dos Holandeses em 1644, liderada pelo senhor de engenho Moniz Barreiros; e o motim de protesto contra o ‘Estanco’ ou monopólio estatal (1685) que teve à cabeça o abastado lavrador Bequimão (Beckmann), cristão-novo que seria enforcado: o primeiro ensaio independentista do Brasil. Mesmo sem ter recebido a capital do governo, o Baixo Itapecuru dirigiu de facto na sombra a política do Estado durante o século XVII.

O testemunho do Padre Antônio Vieira se situa entre esse dois momentos (e agradecemos ao confrade Joaquim Itapary chamar sobre ele nossa atenção). Chegado a São Luís como missionário em 1653, seu primeiro impulso foi lançar a jornada de descobrimento e pacificação dos temíveis “Barbados”, que então tanto davam que falar. Mas diante das dilações do capitão-mor e oposição dos colonos preferiu dirigir no Pará a missão do Tocantins e a de Marajó – antes da de Ibiapaba -, convertendo os Nheengaíbas, Cambocas, Mapuás, Mamainases, Aruãs, Anaiás, Guajarás, Pixipixis, Tupinambás, Poquiguaras, Catingas, Boseas, Jurunas, Pazais, Nondanas, Tapijós, Arnaquizes, Tricujus, e outras nações (LISBOA, 1866, p. 363-400) Sem correspondente nas referências. Em carta ao Padre Provincial do Brasil, de 4 de abril de 1654 mas referindo uma anterior perdida, Vieira escreve: “A última coisa, que continha aquela carta, eram as prevenções que se ficavam fazendo no Maranhão, para a jornada e descobrimento dos índios Ubirajaras, chamados por outro nome os Barbados, no rio Itapicuru. Assentou-se esta missão com o capitãomor em 27 de fevereiro do ano passado, para se fazer em maio depois das últimas águas…”.19 Na mesma carta dissera que, em reunião com o capitão-mor após chegar, “logo assentamos que a primeira missão fosse o descobrimento dos índios Ubirajara, de que he fama nestas partes que são descendentes de homens da Europa que aqui vieram dar em um naufragio.”

Se tivermos em conta que o nome Ybirajara (com o “u” fechado, pronunciado à francesa) é termo tupi significando “senhor da lança” – conforme o título do romance indigenista de José de Alencar, de 1874 – e recordarmos as azagaias que segundo Simão Estácio da Silveira tornavam tais índios valentes guerreiros, temos de concluir que os “Barbados” eram então sempre conhecidos pelo nome que lhes davam os outros – portugueses ou tupis –, mas seguimos na ignorância de como se designavam a si próprios. A versão de provirem de europeus lançados à terra continuava, porém, circulando com plena credibilidade, menos detalhada em Vieira do que em Simão Estácio.

Nas palavras do amazonista inglês John Hemming, “Uma das mais indomáveis tribos das florestas do Maranhão era a dos barbados.” Mas deles por enquanto quase não se ouve falar: esquivos, fugidios como todo Tapuia, estes ‘índios de corso’ (isto é: errantes, sempre de corrida) tinham-se afastado para sul e espalhado nos vales do Itapecuru, Monim e Mearim sem pouso certo, infiltrandose entre outros grupos de sua nação linguística Jê para assaltar os locais portugueses – fazendas, engenhos, fortes -, que ripostavam como podiam. Sabemos que em 1690-95 aí foram atacados pelo paulista Francisco Dias de Siqueira – um bravo bandeirante para uns, bandoleiro para outros -, mas sem qualquer êxito;20 e em 1715-1716 o governador do Maranhão Cristóvão da Costa Freire assaltou em vão uma aldeia da “belicosa nação” dos Barbados,21 sem conseguir capturar nenhum de seus moradores. 22

Novos dados23 falam do ramo de Barbados ‘Verdadeiros’ deambulando pelos vales do Monim e Mearim, talvez até ao Jaguaribe, forçados em 1683 por vaqueiros – da Casa da Torre de Garcia de Ávila, sem dúvida – a se estabelecer no Parnaíba, com sua aldeia mais populosa, ‘Óbos’, acima do delta na região de Caxias, sem querer fazer a paz com ninguém; e de outros Barbados, os ‘Ronxé’, muito violentos com os demais índios, de que haviam assassinado dezenas de crianças para as comer e expulso de suas terras “por ser grande o número de [sua] gente e muito espalhados.” Uma ‘Descrição do sertão do Piauí remetida ao … Bispo de Pernambuco’ em 1697 cita 36 etnias por essas ribeiras, mas não a dos Barbados.24

Por seu modo de atacar de surpresa fugindo de seguida eram classificados como “gentio de corso” (algo parecido com o modo de atuação de piratas ou corsários), embora vivessem em aldeias e ‘aldeotas’ bem construídas, protegidas por fossos e estacadas. Sua inquietação se torna quase nervosa a partir do início do século XVIII,

quando aumenta a pressão dos colonos para ocupar seu território e os reduzir à escravidão. Em 1712 fazia-se “guerra justa” aos Barbados do rio Mearim, e 4 anos depois contra os do Itapecuru; mas “mesmo com a morte de 700 índios os conflitos continuavam”.25 A abundante documentação oficial da época pouco os refere, porém, preferindo ao que parece designá-los por seus nomes tribais mais específicos de Guanarés, Aroazes e talvez outros: em carta a D. João V de 1726, ou num parecer do secretário do Conselho Ultramarino, André Lopes de Lavre, pouco após 1738, por exemplo. A invisibilidade das comunidades nativas já vem de muito antes do século XIX, sem qualquer dúvida

Dir-se-ia até que vem de seu início: é-lhes conatural. Tal mundo era uma mistura confusa, um magma indiferenciado de populações erguendo-se como uma muralha contra o invasor branco da Europa, que as percepciona como mosaico de ‘nações’ e ‘tribos’ à luz das próprias categorias ideológicas que vai criando – índios, tupi/ tapuia, e toda a lista infindável de pseudo-etnônimos… – mas com escassa correspondência com o real; identidades surgidas ao acaso de circunstâncias ou de uma chefia, surgindo aqui para se fundirem ou renascer ali com outro nome, até sair de cena, não sem dissensões ou conflitos internos e ocasionais pactos ou cumplicidades com o inimigo comum. Bom exemplo disso é o episódio da morte por traição do Pe. João de Avelar: 8 nativos barbados vieram com um missionário do Itapecuru a São Luís fingindo serem Guanarés e oferecendo-se para guiar um ataque contra a aldeia dos Barbados na área de Peritoró, mas na verdade para desviar a tropa mandada consigo contra rivais Guajajara de que se queriam vingar.26

Em 1719, o novo governador ou vice-rei, historiador Bernardo Pereira de Berredo, levava essa expedição punitiva contra os Barbados de Peritoró (vale do Itapecuru) aos campos do sertão do Mearim até Santa Maria do Icatu. A 1 de abril de 1724 o escrivão da Câmara da cidade de São Luís atestava como no ano anterior o governador João da Maia da Gama ordenara “que se fosse povoar por portugueses as terras dos índios Barbados e as dos índios Caicaízes, e que em suas terras se devia estabelecer uma povoação com o nome de São José do Mearim”:27 a finalidade era garantir o interesse dos fazendeiros que se haviam instalado no vale do Mearim para criar gado e estabelecer engenhos de cana, e a ordem “taxativa” no sentido de se dominar e sujeitar por guerra todos os índios do Mearim: “…ir assentar o seu arraial nas mesmas aldeias dos Barbados para que se o puder fazer com segurança assim o executar, e se não o puder fazer consultem a parte que for mais conveniente para se situar por ora, até virem os indios e entretanto aldear e segurar”.28 E de 1723 a 1727 o grande missionário Padre Gabriel Malagrida pacificava os Caicaízes dos rios Itapecuru e Monim, e a seguir os Barbados do Mearim, não sem vicissitudes devido à resistência de seus pajés

ssitudes devido à resistência de seus pajés. É então que se lhes confere o golpe de misericórdia: em 30 de março de 1726, a Junta das Missões reúne em São Luís para se decidir a enfrentar de vez os ataques dos Guanarés, Aroazes e Barbados da serra de Ibiapaba já aldeados pelo Padre Malagrida – e a ‘limpeza’ é completa até ao rio Mearim. O morubixaba barbado, Parapopaya, pede a paz e se declara formal e oficialmente vassalo do rei de Portugal, sendo então fundadas duas novas povoações sob controle dos Jesuítas: a Aldeia Nova dos Barbados Grande e a Pequena (Açu e Mirim), provavelmente perto de onde hoje se situa a movimentada encruzilhada rodoviária de Peritoró, em local ainda não definido pela Arqueologia.

Um raro documento gráfico – hoje solto – do Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, que é peça única, mostra que desde 6 de janeiro tinha ocorrido o massacre da Aldeia Grande dos Barbados, na Ilha do Angical (o angico é uma árvore típica da paisagem do cerrado parecida com a mimosa, cujos frutos têm propriedades estupefacientes), no alto vale do rio Itapecuru, entre os igarapés de Peritoró e de Pirapema, uns 260 km a sul de São Luís – que tanto os nativos tinham retrocedido na sua fuga ante o avanço dos ‘civilizados’.

Trata-se do desenho colorido feito sobre quatro folhas de papel coladas, de 84 por 60 cm no total (AHU-CARTm-009-D.0846), que acompanhava alegadamente uma carta enviada de São Luís a 9 de julho de 1726. O autor da planta pode ser o mesmo capitão Francisco de Almeida – sobre cuja identidade nada sabemos – que comandou a ofensiva de 6 de janeiro contra a populosa ‘aldeia grande’ dos Barbados: segundo Hemming, “a coluna de Almeida sofreu pesados ataques. Ele repeliu hordas de Barbados desde a manhã até o final da tarde, mas conseguiu entrar nessa grande aldeia”,29 pela sorte fortuita de os ‘índios cristãos’ que lutavam a seu lado, Aruãs do Parnaíba, entoarem cânticos durante a noite – e os Barbados, seus parentes, acudirem.30

Desprovido de título, mas com legendas e uma longa descrição da aldeia – como se fosse um apêndice da carta -, mostra em detalhe (Figura 2) o plano do povoado em forma de ferradura com uma praça central quadrada, no meio dum terreno a que conduzem 10 caminhos retos simétricos, dos quais três recebem designação: Estrada dos Guanarés (povo vizinho), Estrada do Miarim (o rio) e Estrada dos rollos (pedaços de pau com que os índios se treinavam na ‘corrida das toras’ ainda hoje bem conhecida entre os Timbira, Canela, e outros tapuias atuais.31 A planta parece-se muito com a de uma aldeia timbira, como nos observa a antropóloga Rose Panet, com a única diferença de esta ser mais redonda, traçada em círculo perfeito.32

Na margem da folha está desenhada a ilha onde se situava a aldeia (Ilha do Angical) e o lugar em que se colocara o material (Bagaje). O vocábulo escrito na estrada oriental, Abalrruada, significava ‘acometida, atacada’; e há indicações da posição dos soldados lusos (Emfantaria, 3 vezes) e nativos (Gentio). A legenda diz:

“Contava esta aldea dos indios da nação Barbados de 291 cazas
como se mostra neste mapa
emtrando / as seis cazas grdes, que ‘stão no meyo da dº aldea
das quais ser/via huã dellas pª
almazem das armas q. são as suas frexas / e paos tostados, e nas
sinco se acomodavão os indios
solteiros / porq. nas cazas que ficão no circuito da aldea
moravão os cazados / acomodandosse
em cada huã dellas seis, sette e outto Cazais / com toda a sua
familia, e nenhum destes indios
faz a barba / e por esta rezão lhe chamão os barbados, e se dis
procedem dos primeiros conquista
dores q. vierão a Cide. de S. Luis do Maraªm. e pºr damno que
lhes / fazia o gentio que habitava
naqª ilha se retirarão pª o rio Itapecuru / e emtre este e o de
Mearim fizerão a sua habitação fazendo
pazes com / os indios daquelle sertão cuja aldea se não havia
descuberto, e somte. vinhão / aos rios
acima declarados, e tambem a Cappniª do Piauhy fazer os
damnos q. se / tem exprimentado sem q.
lho podessem embaraçar as tropas q. em todos os / annos se
mandavão pª a defença daql.es moradores. Esta aldea fica a pte. do sul nas cabeceiras do Rio Pirituró

Artisticamente muito belo é o traçado sinuoso das árvores, que quase parece querer recolher o ritmo e contrastes de harmonia das ‘Árvores da Vida’ persas ou mogóis (o que pode indicar uma formação do autor no Oriente, possivelmente em Goa),33 e o equilíbrio tonal das cores em aquarela. É o primeiro testemunho gráfico dos Barbados – e o último.

Daí em diante eles serão uma comunidade apagada até desaparecer por completo, fundidos noutras. Em abril de 174034 o governador João de Abreu Castelo-Branco ordenava aos morubixaba dos Barbados ‘aldeados’ a cessão de 150 guerreiros armados para irem combater as tribos inimigas no Amazonas; e 12 anos depois um requerimento do ‘principal’ da Aldeia Grande, o índio Estêvão, pedindo ao rei D. José I para confirmar sua carta de sesmaria dum terreno, é o melancólico canto do cisne da outrora temida nação dos Barbados,35 de que mal resta memória no século XIX.

Era ténue a linha – mais social que étnica – separando colonos de colonizados. A distância cultural entre o português, ou europeu “civilizado”, e o “selvagem” do Brasil e da América foi bem menor do que fomos habituados a acreditar: bastava ‘atravessar o rio’ e despojar-se de seus atributos e hábitos (roupa, traços corporais, crenças, língua, e outros sinais classificativos) adotando os locais adequados ao clima e ambiente, para se tornar ‘um deles’ e mudar de identidade. Basta pensar nos 6 jovens tupinambá maranhenses levados em 1613 a Paris (FARIA, 1961, p. 112-120), onde ficaram hospedados no Faubourg Saint-Honoré, foram recebidos em audiência por Luís XIII e sua mãe a regente Maria de Médicis – com gravuras do saracoteio de maracás dançado no Louvre – e criaram família; ou, inversamente, nas muitas cenenas de portugueses e franceses adotados por ‘sogros’ nativos que se fixaram em tabas pelo Brasil, ou nos bandeirantes do Sul que falavam o guarani melhor que português. Do sertanista Domingos Afonso Mafrense, senhor de 30 imensas fazendas de gado no Piauí (at. 1674-1711) e com tantos filhos de nativas que nem lhes sabia o número, diz-se que já mal se expressava na língua materna. E de locais nascidos no seio cristão dos Jesuítas, mas que abusos ou opressão social forçava a mudar de campo liderando movimentos de revolta contra o poder colonial, há casos como o do interessantíssimo mestiço Manuel (Mandu) Ladino, vindo de Pernambuco por 1710 atiçar no Parnaíba e Poti o “levantamento geral dos tapuias do norte”.36

Há que estudar em si mesmo esse fenômeno de etnias e cidades que ao longo do tempo se desestruturam e desfazem, dissolvendo se no meio ambiente quase sem deixar traço de si; povos e nações inteiras que se deixaram extinguir e desaparecer, ficando apenas grupos dispersos, isolados, desagregados. O historiador antropólogo goês-americano-paulista John Manuel Monteiro propôs a consabida “Etnogênese” (2001), decerto sugestionado pelo então recente debate terminológico e a visão renovada das invasões bárbaras do Império Romano37; mas talvez seja melhor falarmos em Etnoentropia como perda de energia, a ponto dela se dissipar até desvanecer e aniquilar, dissolvida em outras; ou numa Urbanoclastia, em que a identidade civil se quebra em fragmentos e desaparece, engolida pelo entorno natural e humano: a perda na História, em suma.

Julgamos, assim, ter deixado demonstrado que João de Barros – um dos homens de letras mais relevantes do Renascimento português – foi não só o primeiro donatário do Maranhão como o verdadeiro fundador da cidade de São Luís, ainda que por interposta pessoa e outra entidade; e que seus sobreviventes, devido à fluidez da sociedade nativa brasileira dos primeiros séculos, além de o terem deixado em sérios apuros financeiro e moral, mudados de forma nos Timbira atuais acabaram se constituindo num ativo protagonista de sua história.

Ainda há muito a fazer, nesse terreno de estudo das interações sociais e étnicas38 e seu fruto na fundação de cidades e povoações no Brasil-colônia.

Lisboa, 4 de outubro 2021

REFERÊNCIAS
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3 MOREIRA, Rafael. “A criação da rede urbana do Norte do Brasil: séculos XVIXVII”. In: Teixeira, Manuel (coord.). A Construção da Cidade Brasileira.
Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

4 VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil. 4ª ed, comentada por Capistrano de
Abreu. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907, p. 187-192.

5
DAHER, Andrea. O Brasil francês. Singularidades da França Equinocial 1612-15.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

6
MEIRELLES, Mário Martins. França Equinocial. São Luís: Secretaria de Cultura /
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982, p. 99.

7 GUEDES, Max Justo. A França Equinocial. In: História Naval Brasileira, I (2). Rio
de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1975, p. 560.

8 Descripcion y principio de aquel estado” [Brasil], na miscelânea “Sucessos del Año
1624”: BIBLIOTECA NACIONAL DE ESPAÑA, Madri, Ms. 2355, fols. 51-56, a
publicar em breve. Temos em preparação um estudo sobre esse polémico tema da
fundação da cidade de São Luís do Maranhão: questão muito discutida mas pouco
estudada com base em informação documental inédita, tão abundante nos arquivos
europeus.

9 Portugaliae Monumenta Cartographica, I, p. 173 (MOREIRA, 2004, p. 196).

10 Isa Adonias lista uns 20 mapas quinhentistas que assinalam a ‘Cidade do
Maranhão’ – ou, mais frequente, ‘Cidade de Nazaré’ – junto a um ícone urbano
pairando algures no espaço livre junto à Ilha Grande (ADONIAS, 1963). Para os
mapas holandeses cfr. outros estudos (MEIRELLES, 1996).

11 A cidade é bem indicada no lugar da atual São Luís no esquisso da barra do Maranhão
desenhado em 1537 por um espião do imp. Carlos V ao descrever a costa do Brasil.
In ARCHIVO GENERAL DE INDIAS, Sevilha: Patronato, Est. I, Caj. 1, Legajo
1/23, Nº 1 (RICARD, 1923/1976, p. 122).

12 Não apenas no próprio lugar – onde ainda hoje permanece a central Rua de Nazaré
-, mas levada a Belém do Pará, onde o Círio de Nazaré (nascido no início do séc.
XVIII no santuário onde terminava a ‹Estrada do Maranhão›) é a manifestação de
religiosidade popular mais forte no Norte do Brasil.

13 D’ABBEVILLE, 1614, p. 149 (trad. Sérgio Milliet, São Paulo: Livraria Martins
Editora, 1945, p. 115).

14 Mauricio de Heriarte, ‘Descrição do Estado do Maranhão, Pará, Gurupá, Rio das
Amazonas’, 1662, ms. Biblioteca Nacional da Áustria sobre expedição BelémQuito de Pedro Teixeira, 1637. Heriarte – basco Yriarte: talvez legista da ‘França
Equinocial’ ficado ao serviço de Jerônimo de Albuquerque – veio a ser auditor,
ouvidor e provedor-mor do Estado do Maranhão após 1621: em 1655 (após 23 de
maio) documenta-se o juiz da Câmara Mauricio d’Eriarte (XIMENDES, 2013, p.
262). Descoberto e publicado o ms. (VARNHAGEN, 1874), não tem sido estudado: a única nova ed. que conhecemos é o facsímile da Imprensa da Academia, Graz, Áustria, 1964 (citação in fol. 14).

15 MORAIS, Francisco Teixeira de. ‘Relaçam Historica e Politica dos Tumultos que
sucederam na Cidade de Sam Luis do Maranhão, com os sucessos mais notaveis que
nella acontecerão…’, 1692, ms. Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa,
‘Série Vermelha’, nº 681 (Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro. Rio de Janeiro: XL, 1877), p. 76,77.

16 MARQUES, César A. Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão.
São Luís, 1870. 3ª ed. (ampliada por Jomar Moraes): Academia Maranhense
de Letras, 2008, p. 74.

17 Queixa da Câmara ao Rei, 10 de fevereiro de 1624: AHU, Maranhão, cx. 1, doc. 77.

18 Carta régia de 13 de maio de 1648: “Pª Francº Coelho de Carvalho govºr do
Maranhão, sobre se não mudar a çidade de São Luis pª o çittio de Tapecurú” (AHU,
Cod. 275, fol. 135).

19 VIEIRA, Padre Antônio. Cartas. vol. I, Coord. e anotad. J. Lúcio de Azevedo,
Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925 (reed., Lisboa: IN-CM, 1997).

20 HEMMING, John. Red gold. The conquest of the Brazilian Indians. Londres:
MacMillan, 1978. Trad.: Ouro vermelho. São Paulo: EDUSP, 2002.

21 BERREDO, Bernardo Pereira de. Anais Históricos do Estado do Maranhão. Lisboa,
1749 (4ª ed.: Rio de Janeiro: Tipo Editor/Alumar, 1988).

22 Sobre essa campanha de Costa Freire contra a aldeia de ‘291 casas’ dos Barbados
v. carta de D. João V (19/dez/1716) no ‘Livro Grosso do Maranhão’ (Anais da
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 67, 1948, p. 146-7), que refere “o mappa [da
aldeia] que nos remettestes”: o que permite a suspeita de ser o mesmo desenho a
que aludiremos adiante, que o Catálogo do Projeto ‘Resgate’ data de 1726; ou uma
1ª via. Só ulteriores pesquisas o poderão vir esclarecer.

23 RENÔR FERREIRA DE CARVALHO, João. Jornada de João Velho do Valle
(1685-1687). Teresina: EDAFPI, 2015.

24 ENNES, Ernesto. A guerra nos Palmares (Subsídios para sua história). Rio de
Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1938, p. 387-9.

25 BOMBARDI, Fernanda. Pelos interstícios do olhar colonizador: descimentos de
índios no Estado do Maranhão e Grão-Pará (1680-1750). São Paulo: mestrado em
História, USP, 2014, p. 81. Mimeografado.

26 MELO, Vanice Siqueira de. Cruentas Guerras: Índios e Portugueses nos Sertões
do Maranhão e Piauí (1ª metade do Século XVIII). Belém: Mestrado em História,
UFPA, 2011, p. 113.

27 RENÔR FERREIRA DE CARVALHO, João. As Guerras Justas e os Autos de
Devassa contra os índios da Amazônia no período colonial. Imperatriz: Ética,
1997, p. 17

28 ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO, Lisboa: ‘Maranhão’, cx. 839, ‘Papéis
avulsos’ (RENÔR, ibid.).

29 HEMMING, op. cit., p. 542.

30 Mais detalhada descrição em MELO, 2011, p. 85-91.

31 Curt (Unckel) NIMUENDAJU, 2001, “A corrida de toras dos Timbira”, Mana, 7,
Rio de Janeiro (orig. alem.: 1944). As toras eram troços cilíndricos do tronco de
buritis de 1 m de comprido por 50 cm de diâmetro, com o peso médio de 100 kg,
com que é preciso correr 3 km para mostrar sua virilidade.

32 LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural (trad. de Anthropologie
structurale, Paris: Plon, 1ère éd., 1958). Rio de Janeiro: Tempo brasileiro,
1967.

33 Se o desenho for de 1716 podemos afastar a hipótese da autoria pelo próprio
governador: Cristóvão da Costa Freire, senhor de Pancas, era de família ilustre e
alta posição social e política, mas com currículo banal de ‘militar de côrte’, apenas
se tendo notabilizado como jovem capitão na Guerra da Sucessão da Espanha
(1702-1713).

34 ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ, Cod. 25, doc. 271, fol. 70. Sobre
os Barbados, ver o cético João F. Lisboa, ‘Jornal de Timon’, Obras, vol. II, São
Luís, 1865, p. 510-3 (Nota G: “Dúvidas acerca dos indios dictos Barbados”).

35 Petição de 29 de março de 1752 (CUNHA, 1998, p.562). Confessamos certa
relutância em usar o termo ‘índio’ para referir os nativos do Novo Mundo, já que
procede do erro de Colombo de julgar em 1492 ter atingido a Índia; antes pensamos
que se deveria estabelecer consenso para encontrar melhor designação alternativa.

36 Para a história deste episódio, ver Vanice Siqueira de MELO, 2011, p. 108-12.

37 O novo conceito de ‘Ethnogenesis’, em vez dum ‘Volkerwanderung’ (GOFFART,
2006, p. 1-22) e a visão tradicional de Roma oposta aos ‘Germanos’, pode servir de
base a um estudo inovador do confronto Europeus vs. ‘índios.

38 Damos aqui preferência às relações sociais sobre as diferenças étnicas, não por uma
desvalorização da Antropologia, mas por julgarmos que a Sociologia tem maior
força explicativa no domínio do comportamento humano.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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XIMENDES, Carlos Alberto. Sob a mira da Câmara. Viver e trabalhar na cidade de
S. Luís (1644-1692). São

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