O OUTRO CAMINHO PARA MORDER A LÍNGUA (*)8

Sonia Almeida

Cadeira nº 20

A escrita deste artigo me faz voltar no tempo e repensar meu percurso profissional, revendo seus antecedentes. Porque, no princípio de minha trajetória teórica em Letras, uma muralha de regras se levantou diante de mim e o sentimento de impossibilidade de atravessar para o sentido era a argamassa que se consolidava a cada dia e de modo cada vez mais firme. Aprendi que as regras me orientariam a escrever e que a melhor escrita exigia que tudo fosse colocado no lugar correto. Chegou a vez de desistir ou de seguir em frente, mas, em um segundo momento, eu encontrei a possibilidade de ser professora de língua por meio da aventura de ser professora de linguagem.

Na dimensão da linguagem,1 pelo menos, eu sentia que podia voar: me soltei em balões de neon, em teatro de sombras, na leitura

* Texto reescrito e atualizado para esta Revista, cujo título refere-se ao romance

O Outro Caminho, do escritor e acadêmico Pe. João Mohana.

do universo. Fiz, literalmente, viagens imaginativas com música e cantoria. Quem estudou comigo com certeza não esqueceu de um tempo feito da descoberta do essencial nas letras, à medida que me desviava do padrão. Foi meu grito e minha ruptura.

E lá ia eu naquela estrada, “desafiando o coração, cantando em prosa ou canção, feito uma ave cantadeira.” 2 Cantávamos sempre essa música de Paulinho Pedra Azul. Essa e outras. Antes, durante e depois das aulas. E, é claro que, sobre mim, pelo menos por um tempo, pesaria o juízo da loucura

Continuei mesmo assim. E fui me dando conta: não sabia ler para além da tagarelice (BARTHES, 1987, p. 9) 3 Não me dava mais a meus escritos – poemas que encantavam a minha mãe. No trabalho que eu passei a fazer por conta dessa espécie de “surto”, impulso, retornei à língua. Alguns conceitos e diferenças entre língua e fala, para algumas licenças, não bastaram para que minha intuição ficasse satisfeita (SAUSSURE, 1988.) 4 Porque tinha mais coisa sim. Eu sabia. E não encontrava. Mais tarde fui saber que não encontraria. E que, a despeito de não encontrar, continuaria procurando. Para sempre. Porque a procura supriria a minha falta

Dali em diante, muitos fatos foram acontecendo. Havia no ar uma sede de leitura. E eu fui como uma ave cantadeira falando de linguagem. Ora estudava gramática pelo ofício; ora às ocultas, enquanto os equívocos transferiam para ela o lugar dos pilares do preconceito linguístico.5 Entre intuir e achar que saberia, ganhei durante um tempo um canto triste de Penumbra6 e de Palavra cadente.7 Vivia ainda uma aula falida. E, sobre mim, continuava a pesar o juízo da loucura

Perdi parceiros, amigos, pares, par. Galguei outros lugares na minha sede de fluência, para acordar espaços insondáveis. E muitas coisas chegaram da leitura do texto literário. As gramáticas me ofereceram as regras da norma culta; a linguística, outras gramáticas, porque colocou a língua sob a metáfora do jogo e das jogadas. E a literatura virou meu laboratório das infinitas possibilidades linguísticas

Ler o texto literário passou a requerer de mim que acionasse outras gramáticas. Além da normativa,8 a internalizada 9 e a descritiva.10 Teria então que afinar o entendimento do conceito de regra. Não seria mais apenas aquilo que deveria ser. O erro deixou de ser desvio da norma culta, mas tudo o que fosse agramatical.11 Fora do sistema. E a literatura me exigiu mais visões de língua: a imaginária e a fluida. 12

O texto literário me mostrou que, ao ler a língua fluida, identificaria o viés da língua portuguesa em que a singularidade13 estava se expressando, ao bel prazer do aconchego de se sentir em casa pela identidade;14 mostrou também que, na amplitude das infinitas possibilidades, o escritor produz efeitos diferentes. E eu entendi que essa experiência linguística – para ser existencial, estética, psicanalítica, desejante – acontece na língua 1, a constitutiva do inconsciente.15 Não necessariamente a língua materna, porque a língua 1 pode não coincidir com a materna. A língua 1 é a dominante. Só a literatura, lida na língua 1, pode virar o leitor do avesso, tocarlhe o inconsciente, porque joga o processo de leitura no ápice da transliteração, a passagem do significado para o sentido.16

Para o projeto da escrita deste capítulo, foram necessárias essas explicações iniciais. O texto selecionado precisa também da ativação da gramática descritiva e da internalizada e de um foco que ative conhecimentos básicos gramaticais e linguísticos e outros conhecimentos prévios para que as quebras sintáticas ou sintagmáticas favoreçam a explosão de sentidos. É um movimento da condição de quebra sintática para jogo estético e literário. Isso produz uma polissemia que leva o leitor para dentro de si e draga o que do leitor se esconde nas camadas quase esquecidas do inconsciente. Algo meio leitura, quase um mergulho em buracos feitos por quebras de linearidade sintática, próprios da fluidez. São os momentos que podem ser traduzidos por quedas para o silêncio; janelas para dentro. Algo assim: discutirei os desafios do texto de fruição (BARTHES, 1987, p. 20-21).17 Haverá, para isso, um item sobre as gramáticas para ler literatura e a discussão será aplicada em excerto da obra – O Outro Caminho – do escritor, Pe.João Mohana.18

Pretendo responder por que, no processo de leitura, se o leitor levar em consideração apenas os princípios da gramática normativa, tornará reducionista o ato de ler. Precisarei transitar por questões gramaticais e linguísticas na apreensão estética do sentido.

  1. Do texto de prazer ao texto de fruição

Ali pelos anos oitenta, tempo em que a leitura passou a ser um assunto cheio de promessas de prazer, eu estava em plena ebulição, à procura do sentido das letras. Muito me comoveram os cartazes e cartões com aqueles dizeres que viraram emblemas de quem aderiu a uma espécie de nova pedagogia da leitura. Dois entraram no glossário do meu discurso (Pêcheux, 1997): ler é um prazer e ler para ser. Para mim, faziam todo o sentido. Mexiam comigo. Alteravam as decisões da minha vida profissional.

Comecei a ler mais. Virei literalmente uma missionária da leitura. Mas, quando chegou a vez de eu dar conta do recado e desconstruir textos literários especiais, ler passou a ser mesmo mais trabalho do que prazer no meu glossário sobre leitura. Ler passou a exigir e continua exigindo um preço altíssimo, uma atitude sempre única para a qual jamais estaremos preparados, nem se a releitura for de um texto preferido. Cada ato é um e único.

Valho-me das definições de Barthes (1987, p.21-22)19 para justificar o que digo. Para ele, o texto de prazer “contenta, enche, dá euforia (…) vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura”. Só que ele traz outra possibilidade: o texto de fruição: o que “põe em estado de perda (…) desconforta, faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem.” (BARTHES, 1987, p. 24)20

Quando chega a mim essa noção de que prazer de ler é reducionista, no sentido de manter o leitor equilibrado e que é necessário à fruição o estado de perda que põe em crise a relação do leitor com a linguagem, eu chego ao cerne desta questão: a literatura exige que o leitor enfrente o desconforto também da fluidez linguística, reflexo dos estados existenciais do escritor que vai acordar os do leitor

Só a gramática normativa, a que a escola ensina, própria da língua imaginária, não põe o leitor em estado de perda, não faz vacilar “as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças”. O que faz da leitura uma fruição é também a quebra das expectativas do leitor. Fruir um texto é o despertar do sentido também de tudo fora do lugar normativo, porém dentro do espaço sistemático. Não de tudo no lugar correto, que o leitor foi ensinado a encontrar.

Por isso, o leitor precisa de mais gramáticas. Quanto mais melhor. Que cheguem as orientações do que deve ser a língua; do que é realmente a língua por seus usos; do que acontece com o falante, independente de ele saber o que ela é ou deve ser. O leitor precisa passar pelo normativo, pelo descritivo e pelo que tem internalizado como conhecimento linguístico que ninguém a ele precisa ensinar. Por aí, ele terá algum alento para sustentar suas expectativas quebradas, lugar dos mergulhos pelos quais será tragado em todas as dimensões pelo texto-fruição.

E divago aqui: a leitura é uma espécie de pescaria. Só que, enquanto o leitor se distrai procurando o sentido nas linhas que lê, ele é que acaba sendo pescado. E isso é muito bom. Mais que leitura, é a experiência da linguagem.

  • O Outro Caminho: um texto-fruição

Texto de fruição (BARTHES, 1987, p.24)21 é um conceito para tudo o que, ao ser desconfortável ao leitor, por conter quebra de expectativa, torna-se draga de suas profundezas, desobstruindo seus guardados interiores, presos e em silêncio. É um outro viés de leitura, imperdível, apesar de ser também trabalhoso e doloroso processo.

Sobre esse outro caminho que draga o leitor em sua irresistência e vulnerabilidade diante da fratura de suas bases históricas, culturais, psicológicas; da consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, acrescento a fratura das bases linguísticas que fazem ser literatura O outro caminho. Aqui já estou tratando da obra de João Mohana.22

Trato de uma obra a que sempre me refiro nas minhas aulas de Português. Porque traz uma experiência dos anos noventa que me disse muito sobre a vida, sim, mas muito e principalmente sobre as imagens de língua – da língua portuguesa – e dos limites que meu ofício de professora sem a literatura poderia ter. Lembrando aqui das muralhas, diria que as falas do Pe. Eyder – protagonista da narrativa – acordou muitos dos meus silêncios e me fez saber que com a linguagem não se brinca, porque o que parece calado fala; o que parece escondido se mostra; o que é inconsciente se manifesta, dando seus sinais por quebras linguísticas também.

Em resumo: Pe. Eyder, protagonista do romance, vive para realizar o desejo materno de vê-lo padre. Já na condição do celibato, apaixona-se por uma mulher a quem chamam de Viúva. Não resistindo aos encantos dela, passa a viver as consequências de um escândalo: uma marca sempre presente que passou a fragilizar a credibilidade de seu ministério ali e nos outros lugares em que viveu

O que destaco deste romance como fruição são as fraturas gramaticais e linguísticas presentes no discurso do Pe. Eyder, na expressão de insatisfação por sua condição de padre e da culpa irreparável por causa do desejo que sentia por Viúva na total impossibilidade de vencer as tentações da carne que ela despertava nele.

Na escritura da obra, o sentido tem uma voz própria. A insatisfação de ser padre tem voz que reverbera internamente. O desejo fala. O silêncio fala. Dá-se o concerto dessas vozes, em uma repercussão caótica de sons e estruturas que se misturam. Nos momentos em que o texto cala qualquer tagarelice, o leitor entra em silêncio numa escuta do em-si-mesmo-existencial do Pe. Eyder, que compartilha o concerto das vozes da escuridão que vêm do mato: é a polifonia do mundo, espelhando a angústia que insurge numa espécie de surto fonológico da composição estética do texto:

Os grilos porfiavam com os sapos, que já tinham vencido as
cigarras, mais cedo. As cigarras violoncelavam fazendo zum,
zum, zum…sem vontade de terminar. Os sapos, parece que se
zangavam e resolviam entrar no concerto. Engoliam som e
devolviam aumentado, logo em seguida. Glu, Glu, Glu. Levavam
dois minutos entre um glu e outro. Os cururus demoravam mais
tempo. Três minutos. (…) As jias castanholavam ran-ran-ranran-ran. Os grilos diziam de vez em quando que eram grilos.
Grilo…Grilo… Grilo. Eu imitava parodiando. Eyder… Eyder…
Eyder… E José da cozinha lavando a louça: Zé… Zé… Zé… E o
vento do lado de fora, piruetando no quintal, chicoteava a chuva,
parece que descontente com a cadência da dança. Um chicote
fino que zunia no ar ressoando em meu ouvido: Zin… Zin… E a
chuva chorava, porque eu via escorrerem lágrimas pelas rótulas
da varanda. O vento surrava de novo. Zin… Zin… Os galhos
das árvores machucavam papel. Algum capricho. Os passos de
José davam sinal de trabalho lá dentro. E os meus passos davam
sinais de ociosidade, dentro de mim na minha cozinha interior.23

Faço a descrição linguística do excerto acima, espelhando o estado angustiante do padre. Faço aqui alguns destaques desse jogo caótico de uma sinfonia significante exterior que sai da escuridão dragada pelas vozes que falam dissonantes na alma do padre, porque porfiavam entre conter o desejo ou ser vencido por ele. Por isso, nesse contexto interior, os grilos porfiavam com os sapos que já tinham vencido as cigarras.

Ora, me parece que os grilos, também sendo vencidos, sairiam perdedores, assim como, em um dado momento, o corpo do padre desconhece as proibições que tocam a alma feito cigarras que alertam para o perigo. E essa culpa é tão forte que parece não ter fim, e seria bom que não tivesse, porque tem prazer no som do violoncelo – mesmo no extremo de sua capacidade de produzir seu som grave.

Essa sensação de engolir som com dificuldade própria da angústia do padre provocada pela culpa, e a mistura de todos os sons em contexto de chuva chorando lágrimas projetadas pelas rótulas das janelas, enquanto o vento zunia chicoteando, era o espelho da alma do padre que, no extremo da culpa, precisou também do chicote, tal qual o vento fazia na chuva sob o som de folhas de árvores sendo amassadas ao extremo de um sacrifício necessário.

No trecho a seguir, há quebra linguística na esfera sintática, entre misturas sistemáticas de frases e textos, imagens e desejos que alteram a estética do dizer da devocional e funciona como draga dos universos insondáveis de quem experimenta o texto-fruição. Tudo se expressa na escuridão da noite que chove chicoteada pelo vento, como reflexo do que está acontecendo na alma do Padre Eyder:

O retrato era maravilhosamente diabólico. Rasguei. Atirei
os pedacinhos na cesta, mas ele ficou todo inteiro dentro de
mim. Mexia-se para um lado. Virava-se para outro. Erguiase. Levantava-se. Espreguiçava-se. Sorria maliciosa, feiticeira
quase. Levou nisso, o retrato, até a noite. Depois do jantar não
dei voltas pelo largo. Não quis. Não pude. O retrato picotado
dentro da cesta continuava movendo-se inteiro dentro de mim.
Às oito abri um livro. Passei mais de uma hora com ele aberto
em cima da mesa, sem conseguir ler duas linhas. Viúva não
deixava. Sorria, e era só. Fechei o livro. Atirei-me na cama.
Rolei 20 vezes de um lado para outro. O relógio da sala-de-jantar
bateu 10 horas e eu continuava rolando. Viúva não me soltava.
Recitava três jaculatórias. Nada. Os olhos de Viúva sorriam
das jaculatórias. Ó Maria concebida sem pecado. Os olhos de
viúva… Ó Maria concebida sem pecado. A boca de Viúva…
Ó Maria concebida sem pecado. O pescoço de Viúva. Minha
Nossa Senhora, o pescoço de Viúva. Doce coração de Maria. O
pescoço de Viúva estava no retrato como é na realidade. Doce
coração de Maria. Bem feito, longo, esbelto. É assim o pescoço
de Viúva. Longo, bem feito, esbelto. Doce coração de Maria.
Continuava revirando na cama com Viúva e o Coração de Maria.
Lembrei-me da disciplina e parti para ela como um leão. (…) 24

Fazendo a descrição linguística do excerto acima, é visível, audível e sensível que a culpa do padre Eyder tem ritmo. Tem cadência. É cortante. Os tipos de frases produzem esses efeitos.

Leio: “O retrato era maravilhosamente diabólico. Rasguei. Atirei os pedacinhos na cesta, mas ele ficou todo inteiro dentro de mim.

Conjecturo: se o padre tivesse dito “O retrato era maravilhosamente diabólico, rasguei e atirei os pedacinhos na cesta, mas ele ficou todo inteiro dentro de mim”, o efeito não seria o mesmo. A frase entrecortada faz com que pareça que o padre rasgou o retrato de coração partido.

Descrevo: as frases entrecortadas continuam. E o efeito é de cortar o coração do leitor: “Mexia-se para um lado. Virava-se para outro. Erguia-se. Levantava-se. Espreguiçava-se. Sorria maliciosa, feiticeira quase. Levou nisso, o retrato, até a noite.”

Analiso: além da estrutura entrecortada, a personificação do relógio e sua caracterização falavam do poder de sedução que Viúva exercia sobre o padre Eyder. Não era o retrato em si, mas Viúva que era “maravilhosamente diabólica”. O retrato da tentação. A tentação em figura de gente.

Descrevo ainda o ritmo do batuque da culpa. “Recitava três jaculatórias. Nada. Os olhos de Viúva sorriam das jaculatórias. Ó Maria concebida sem pecado. Os olhos de viúva…”

Percebo que os cortes são mais profundos. Aparece uma frase nominal fragmentária: “Nada”. Depois, há as frases fragmentárias feitas só do vocativo e do desejo. “Ó Maria concebida sem pecado”: quase uma frase interjectiva. “Os olhos de Viúva.” E então ele vai de “Ó Maria concebida sem pecado. O pescoço de Viúva” para “Minha Nossa Senhora, o pescoço de Viúva”. Reparo que a substituição da vírgula pelo ponto faz toda a diferença.

Volto a analisar: o que eram frases diferentes e separadas passam a ser termos da mesma frase. Uma espécie de paradoxo, simultaneidade de opostos, até que, na organização linguística, o pescoço de Viúva, com tudo o que ele oferece de sedução, passa a predominar sobre a reza do padre. “Doce coração de Maria. Bem feito, longo, esbelto. É assim o pescoço de Viúva. Longo, bem feito, esbelto.”

Ouço o som do texto. Sinto os efeitos das frases ora entrecortadas, ora de arrastão, ora de ladainha.25 Repenso nessa descrição linguística o conceito de coerência textual.26 Analiso os conceitos de frase e vejo que, da reza, só resta a invocação, o mais é o que invade a pretensa santidade do Padre: o desejo por Viúva, provocado pelos traços sensuais do pescoço dela. Dos olhos e da boca também: “Ó Maria concebida sem pecado. Os olhos de viúva… Ó Maria concebida sem pecado. A boca de Viúva… Ó Maria concebida sem pecado. O pescoço de Viúva. Minha Nossa Senhora, o pescoço de Viúva.”27 E a intensificação dessa mistura reforça a coerência do caos

  1. Descrição linguística, análise e devaneio

Eis um trecho de uma obra-fruição. Este excerto produz quebras que geram no leitor o desconforto necessário à fruição. É um padre extravasando o que ele tem de humano: suas fragilidades carnais, desejantes, desestabilizadoras de valores e expectativas, bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a inconsistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças estremecidas por uma paixão diante da qual o padre cede

O jogo da incoerência traz, no conflito linguístico, o conflito da culpa. Tudo isso, entrando em crise, produz seus efeitos. Faz entrar em crise a relação com a linguagem e com o leitor também. Traz a incoerência como recurso de coerência, a inconsistência como recurso de consistência. Vira uma draga que traga o inconsciente do leitor pelo ralo do inevitável caos vivido pelo padre.

Essa confusão linguístico-textual em nenhum momento é assistemática. E a incoerência é inevitável pelo paradoxo vivido pelo celibato. O padre não pode, mas quer. Não deve, mas deseja além de suas forças. Tenta se refugiar, mas é invadido pelas imagens sedutoras daquela mulher. E a descrição linguística mais viável se dará por meio do respaldo teórico das gramáticas.

A normativa sustenta a análise sintática como ponto de referência. Sustenta os conceitos de frase. Os tipos de frases. O viés intencional também. E ao entrar na perspectiva do estilo, na estilística da frase, é possível visualizar as marcas do Português Brasileiro ainda descrito mais no plano da estilística, por exemplo, por meio do que se denomina anacoluto.28

A análise estrutural, internalizada e descritiva, também é fundamental. A frase precisa ser lida de como-ela-deve-ser a comoela-pode-ser; de como-ela-pode-ser a como-ela-está-sendo, na dimensão do uso que faz a língua ser lida a partir do modo como ela realmente se mostra

É importante não perder a sistematicidade dessas fissuras. Reconhecer e identificar a integridade dos sintagmas. Promover o surto até onde a coerência possa ser capturada. Isso acontece no texto de fruição. O sentido acorda nessa quebra de expectativa entre como-eu-aprendi-que-seria e como-está-sendo-agora. É na falha que a natureza humana vira conteúdo na noite da orquestra de sapos, rãs, jias, cigarras, grilos. É nesse caos que o padre e suas culpas fazem o sentido do romance, numa espécie de angústia linguística.

  • Devaneios quase finais

As discussões deste capítulo – que levaram em consideração as gramáticas e não a gramática para a experiência do texto de fruição – desequilibram a relação entre os espaços da área de Letras que padecem da hipótese de que podem ser comodamente ocupados, num tipo de especialização pedagógica e/ou investigativa, sob filiações teóricas exclusivistas.

Parto dos seguintes princípios: toda descrição e análise de dados é um ato de leitura; os métodos de análise são atos de ler e todo objeto se dá como um texto a ser lido. No equívoco da hipótese de o texto ser equilibrado, totalmente transparente, quem sabe a leitura estivesse no âmbito do prazer. Mesmo sem localizar a discussão na metodologia, mas no ensino, contextualizando-a na leitura do texto literário, a perspectiva poderá tomar um desses dois âmbitos: texto de prazer ou texto de fruição e assim sucessivamente.

Ou seja, todo ato de ler tem seu início na descrição linguística que depende das três gramáticas, a priori: a internalizada, a normativa e a descritiva. Elas, articuladas de forma intradisciplinar, proporcionam os atos interpretativos não só do-que-está-dito, mas também do modo como-está-dito.

Os modos de dizer manifestam uma organização particular cuja análise reúne o que o leitor sabe sobre a língua nas três perspectivas acima referidas e acrescidas de outros conceitos que podem fazer valer as fissuras linguísticas, que quebram as expectativas normativas e acordam o leitor para a fruição. Discurso (1997) é um desses inúmeros conceitos. Aquilo que extravasa e traz de fora para dentro do texto: a relação dele com as realidades e suas histórias e ideologias.

Chamo a atenção para a diferença entre norma, regra, erro, gramaticalidade, agramaticalidade, sistematicidade, assistematicidade linguística.29 Volto minha atenção à relação entre norma e normal. Associo regra ao sentido prescritivo do termo; agramaticalidade e assistematicidade ao que ao falante não é dado escolher, quando o fato é próprio do sistema. E volto àquilo que pode flutuar nos usos30 e aquilo que é categórico.31

Eis aí um espaço de encantamento: viver mediado por um sistema linguístico que não impede o falante de vagar pelos sentidos, quando o que o prende são linhas que juntas formariam um novelo. É este flutuar que estou chamando de devaneio. E essa condição de leitura depende da descrição linguística. Sem isso, seria impossível morder a língua para viver a angústia linguística expressa em O Outro Caminho.

O narrador não disse claramente que o Padre Eyder estava se sentindo culpado. Que ele era mais um gemido na escuridão somado ao dos grilos, rãs, sapos. Que a lágrima da chuva na janela era o reflexo do pranto que ele derrama da angústia de estar apaixonado. Que ele estava arrependido de ter cedido aos desejos da carne. Nada disso está dito por ele diretamente

As onomatopeias construídas pelo que ele ouve na escuridão fazem sentido ao caos de seu gemido de dor na alma. As gotas de chuva, sendo lágrimas nas rótulas das janelas, é uma metáfora que expressa que ele está se identificando com a tempestade, porque nele também chove. A mistura contraditória entre textos é uma ruptura linguística de um desejo que precisa ser interrompido. É uma frase das jaculatórias e uma frase de seu desejo. É o pecado martelando linguisticamente no meio da reza

E esta é uma leitura que excede ao devaneio do padre pela culpa compartilhada com o leitor, numa espécie de gagueira entre o que ele precisa fazer: rezar e se arrepender; e o que ele está fazendo: desejando Viúva. O que ele precisa lembrar: o voto; o que ele precisa esquecer: Viúva. O que ele não consegue fazer: nem rezar, nem esquecer Viúva

Esta é uma interpretação do que a organização linguística sugere:

As jias castanholavam ran-ran-ran-ran-ran. Os grilos diziam de
vez em quando que eram grilos. Grilo…Grilo… Grilo. Eu imitava
parodiando. Eyder… Eyder… Eyder… E José da cozinha lavando
a louça: Zé… Zé… Zé… E o vento do lado de fora, piruetando
no quintal, chicoteava a chuva, parece que descontente com a
cadência da dança. Um chicote fino que zunia no ar ressoando
em meu ouvido: Zin… Zin… E a chuva chorava, porque eu via
escorrerem lágrimas pelas rótulas da varanda. O vento surrava
de novo. Zin… Zin… Os galhos das árvores machucavam papel.
32

E “os galhos das árvores machucavam papel”. Eis uma metáfora que está no campo da audição. As árvores sacudidas pela ventania são galhos machucando papel. O gemido de Eyder é mais uma onomatopeia na escuridão. Não dá para ler esse romance sem vivenciar a culpa e a angústia da vitória das proibições. Não é possível vivenciar um voo de paz, quando a alma está em plena tempestade de conflitos. Uma tempestade linguística que toca o leitor e reverbera em contextos de escuridão.

O pescoço de Viúva estava no retrato como é na realidade.
Doce coração de Maria. Bem feito, longo, esbelto. É assim o
pescoço de Viúva. Longo, bem feito, esbelto. Doce coração de
Maria. Continuava revirando na cama com Viúva e o Coração
de Maria.33

Leitura é trabalho de descrição linguística. Na experiência do texto-fruição, o que escrevi até aqui é devaneio de leitor provocado pelas marcas linguísticas que içam a alma, como o anzol fisga um peixe desavisado que morde a língua.

REFERÊNCIAS

1             ALMEIDA, Sonia. Alegorias. 1. ed. São Luís: Litograph, 1992.

2             AZUL, Paulinho Pedra. Ave Cantadeira. In Jardim da Fantasia. [Sl], RCA Victor,

1982. Disco sonoro, L. A. Faixa 1. (3:37)

3             BATHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Editora Perspectiva. 1987, p.9.

4             SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1988.

5             BAGNO, Marco. Preconceito Linguístico – o que é, como se faz. 15. ed. São Paulo:

Loyola, 2002.     

6             ALMEIDA, Sonia. Penumbra. 1. ed. São Luís: Litograph, 1998.

7             Idem. Palavra Cadente. 1. ed. São Luís: Litograph, 2001.

8             LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José

Olympio, 1976. 

9             PERINI, Mário A. Sintaxe. São Paulo: Parábola, 2019.

10           LABOV, William. Padrões sociolinguísticos. Trad Marcos Bagno, Maria Marta  Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso. São Paulo: Parábola, 2008. [1972]

11           POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1996, p. 78.

12           ORLANDI, Eni Pulcinelli; SOUZA, Tânia Conceição Clemente de. A língua imaginária e a língua fluida: dois métodos de trabalho com a linguagem. In:

ORLANDI, Eni Pulcinelli. (Org.). Política linguística na América Latina.

Campinas, SP: Pontes, 1988.

13           ALMEIDA, Sonia. Escrita no Ensino Superior: a singularidade em monografias, dissertações e teses. 01. Ed. São Paulo: Paulistana, 2011.

14           HALL, Stuart. A identidade cultural na pósmodernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006, 102 p.

15           LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998b. [1964].

16           ALLOUCH, Jean. Letra a letra: Transcrever, traduzir, transliterar. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Campo Matêmico, 1995.

17           BARTHES BATHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Editora Perspectiva. 1987. p. 20 – 21.

18           MOHANA, João. O Outro Caminho. Rio de Janeiro: Agir, 1974.

19           BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Editora Perspectiva. 1987.

p.21 – 22.

20           BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Editora Perspectiva. 1987.

p.24

21           BATHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Editora Perspectiva. 1987. p.24

22           MOHANA, op. cit.

23           Ibid., p. 83

24           Ibid., p. 101,102

25 GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna: aprenda a escrever,

aprendendo a pensar. 13. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1986.

26           KOCH, Ingedore; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. 16. ed. São

Paulo, SP: Contexto, 2004.

27           MOHANA, op. cit., p. 102

28           MARTINS, Nilce Sant’Anna. Introdução à Estilística. São Paulo: Edusp, 1989.

29           POSSENTI, op.cit.; PERINI, 2019.

30           LABOV, op.cit.

31           PERINI, Mário. A Gramática Gerativa: introdução ao estudo da sintaxe portuguesa.

Belo Horizonte: Vigília,1979.

32           MOHANA, João. op. cit.

34           Ibid

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