DISCURSO DE POSSE DO ACADÊMICO
DANIEL BLUME NA CADEIRA Nº 15,
EM 2 DE DEZEMBRO DE 2021

“Grandes coisas fez o Senhor por nós, pelas
quais estamos alegres.” (Salmo 126-3)

– I –
Senhoras e Senhores,
Hoje é o tempo que bate na porta. É mesmo de leite condensado a lembrança mais longínqua de minha educação. Falo daquela salada doce de frutas preparada pelos próprios alunos da então “Escolinha João e Maria”, sob os olhos atentos das professoras, com carinho de tia. Tempo em que Cristina, Dulce e Mercedes ainda davam os primeiros passos que chegariam ao consagrado “Colégio Literato”, onde estudei até o científico. A elas devo muito do que sou. Naqueles tempos de escola [e lá se vão mais de quatro décadas], nunca imaginei que ingressaria neste importante Sodalício. Nem ousei sonhar. Mas estava sendo preparado. Aqui destaco os meus pais, Sonia e Djalma. Não trato apenas da formação de minha
personalidade. Não cuido apenas do incentivo aos meus estudos. Falo do exemplo caseiro (e cotidiano) do amor pela escrita e pela leitura,
além da busca pela realização e pela conquista positiva. Basta dizer que — pela primeira vez na história desta Casa fundada em 10 de
agosto de 1908 — uma mãe fará, nesta tribuna de honra, o discurso de recepção a um filho como membro efetivo e confrade da Academia
Maranhense de Letras.

– II –
Pois bem! Sei que, ao longo da minha existência, sob a condição de acadêmico, terei a missão de manter perenes as memórias e as
obras de Odorico Mendes, Godofredo Viana, Silvestre Fernandes, Erasmo Dias e Milson Coutinho. Optei em não descer a minúcias
para não me tornar sobremodo extenso nestes tempos líquidos, até porque estamos em sede de um discurso. Porém, não posso descurarme
da tradição, nem abrir mão do prazer de falar do patrono e dos ocupantes da Cadeira n. 15 da AML, dos quais conheci pessoalmente Milson Coutinho. Milson nasceu na cidade maranhense de Coelho Neto, em 9 de março de 1939. Homem culto, mas de hábitos simples. Sempre
bem-humorado e afável, com um cigarro na boca. Depositário de respeito e de confiança, foi tudo o que quis. Historiador, jornalista,
acadêmico, procurador do Estado, conselheiro seccional da OAB, desembargador, além de presidente do Tribunal de Justiça do Estado
e do Tribunal Regional Eleitoral, onde eu, desde estudante de Direito da Universidade Federal do Maranhão [atualmente dirigida pelo
acadêmico/reitor Natalino Salgado Filho], passava nos lançamentos dos livros de Milson, sem imaginar que — um belo dia — integraria

aquele tribunal como juiz eleitoral por dois biênios. Muito menos imaginava que, anos depois, sucederia ao grande Milson Coutinho
na AML, instituição que presidiu e para qual, muito além daquela foto na galeria de honra, é uma saudade que não cessa.
Certamente, Milson foi o maior pesquisador — de todos os tempos — da história das instituições maranhenses. Aqui falo dos
poderes legislativo, judiciário e executivo. Escreveu, por exemplo, Apontamentos para a História Judiciária do Maranhão, O Maranhão
no Senado, História do Tribunal de Justiça – Colônia, Império, República, A Presença do Maranhão na Câmara dos Deputados, Os
390 anos da Câmara Municipal de São Luís, e Constituições Políticas do Estado do Maranhão. Destaco também as seguintes obras de
interesse histórico: Apontamentos para a História do Maranhão, A Revolta de Bequimão, A cidade de Coelho Neto na História do
Maranhão, e Fidalgos e barões: uma história da nobiliarquia lusomaranhense, um estudo sobre as famílias tradicionais de nosso
Estado. Faleceu aos 81 anos, no dia 4 de agosto de 2020, em São Luís. A saudade de Milson não é maior porque, pouco antes de partir,
deixou-nos o seu irmão, Elsior, membro efetivo desta Casa. Os dois, inclusive, parecem-se bastante. Não falo apenas da competência,
mas da aparência e do jeito. E, como Milson, Elsior – juntamente a outros irmãos – costumava soltar a voz nas luaradas vida adentro. Os
Coutinho, portanto, estão aqui.

– III – O patrono da Cadeira nº 15 da AML era de São Luís. Manuel Odorico Mendes nasceu no dia 24 de janeiro de 1799, em um belo
casarão na Rua Grande. Ainda adolescente, foi estudar em Portugal, onde permaneceu de 1815 a 1824, ano em que retornou ao Maranhão. Além de jornalista, foi um aguerrido político do Brasil Monárquico. Deputado na Câmara do Império por vários mandatos, fazia oposição a Pedro
I. Chegou a bradar diretamente ao Imperador que seu compromisso não era com governos, mas com o povo do Maranhão, que o elegera.
Mendes era tido como grande orador, além de polemista. Uma forte mistura, para dizer o mínimo. Poeta satírico, ganhou mesmo dimensão no mundo literário como tradutor. São de Odorico Mendes, por exemplo, as primeiras traduções para o português das obras completas de Virgílio e Homero, sendo o precursor da moderna tradução criativa. Depois de uma vida dedicada à política e à literatura, Odorico retornou à Europa. Morou com a família na França, mas acabou falecendo inesperadamente em uma viagem à Inglaterra, no dia 17 de agosto de 1864, em um vagão de trem. Ressalto que vida e obra do meu patrono estão detalhadas em trabalhos acadêmicos do professor Sebastião Jorge, membro desta
Academia Maranhense de Letras. Destaco também que o maranhense Manuel Odorico Mendes foi distinguido como Patrono da Cadeira nº 17 dos membros correspondentes da Academia Brasileira de Letras, a Casa de Machado de Assis.
Entre os seus descendentes, está o escritor francês Maurice Druon, que inclusive já esteve em visita nostálgica ao Maranhão na
companhia de Josué Montello e José Sarney. O saudoso membro da Academia Francesa de Letras era bisneto de Odorico Mendes.

– IV –

Godofredo Mendes Viana, fundador da Cadeira n. 15 da AML, nasceu na cidade de Codó em 14 de junho de 1878. Estudou no Liceu Maranhense. Depois, foi para a Bahia cursar Direito. Após seu bacharelado, exerceu os cargos de promotor e juiz, até que ingressou na política do Maranhão, Estado que acabou por governar de 1923 a 1926.

Em mensagem ao parlamento maranhense, em 5 de fevereiro de 1923, a menos de uma quinzena de assumir o governo, disse que a
“educação primária se requer disseminada no Estado, e não quase que centralizada na capital”, época na qual o Estado contava com cerca de
850 mil habitantes. Disse ainda: “não há de ser negada instrução aos nossos conterrâneos, proporcionando-lhes uma educação deficiente
e manca.” Godofredo foi também deputado e senador. Como parlamentar e jurista, participou diretamente da redação da Constituição Brasileira
de 1934. Em sua última década de vida, tornou ao magistério, dedicandose a escrever em jornais do Maranhão e da Bahia, bem como a
participar dos trabalhos desta Academia Maranhense de Letras. Dentre os seus trabalhos literários, estão Poemas bárbaros,
Musa antiga (poesia), Paixão de caboclo (romance) e Padre Francisco Pinto (novela). Em um de seus sonetos, versa que “A vida
é uma canção dolente/Um suspirar em vão de magoa em magoa”.

Como ocorre com todos nós, sua vida não foi uma sucessão de vitórias. Consta na ata da AML, datada de 24 de julho de 1916, que Viana então disputou a presidência da Academia com Ribeiro do Amaral, que ganhou a disputa. Viana obteve apenas um voto. Provavelmente, o seu.
Faleceu no Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1944. Ao norte do Maranhão, no litoral próximo à divisa com o Pará, fica o município bem denominado de Godofredo Viana, onde nascem os godofredenses.

– V –
O segundo ocupante da Cadeira n. 15 da AML foi José Silvestre Fernandes. Maranhense, nasceu em Arari no dia 1º de agosto de Sua mãe morreu no parto. Por iniciativa do pai, aos nove anos veio para São Luís estudar na Escola Normal, o que não o impediu de fundar o primeiro jornal de sua cidade natal, batizado de A Luz. Silvestre Fernandes focou sua vida no magistério. Inicialmente, na cidade de Cururupu. Depois, em São Luís. Mais tarde, lecionou na Escola Pedro II, no Rio de Janeiro, então capital da República. Segundo Silvestre, “O mestre não pertence a si próprio, integra-se na sociedade em que vive”. Apesar de um tanto gago, o professor dominava a turma com seu conhecimento. Além de educador, foi um geógrafo prolífico. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Ingressou na Academia Maranhense de Letras em 1948 e aqui foi saudado pelo acadêmico Achiles Lisboa. Escreveu vários livros didáticos adotados nacionalmente. Por exemplo, Cartilha das Crianças, Geografia 1, 2 e 3 e Matemática das Crianças.
Como pesquisador, publicou Os sambaquis do noroeste maranhense, O assoreamento da costa leste maranhense e Os semideltas do nordeste maranhense. Em Baixada Maranhense, analisou as características geológicas da região. Dentre as suas publicações como literato, destaco Ilha dos Lençóis, divulgada na revista da AML, na qual descreve a influência dos fenômenos da natureza para a formação das lendas do Maranhão.
Ou seja, explica como mito e realidade se conectam em nossa terra. Silvestre Fernandes morreu em 1971 no Rio de Janeiro, aos 82 anos. É patrono da Cadeira n. 17 da Academia Arariense de Letras, na cidade onde possui nome de praça com busto em bronze.

– VI –
Antes de Milson Coutinho, a Cadeira n. 15 da AML era ocupada por José Erasmo Dias. Ludovicense, nasceu em 2 de junho de 1916.
Jornalista e crítico literário, Erasmo era o que podemos chamar de “uma figura”. Culto, carismático, audaz, polêmico e irreverente.
Tinha pena desaforada nos jornais da época. Ativista da vida literária do Estado, era notívago. Um boêmio inveterado! Presença constante
no Bar do Brega, ZBM e Moto Bar. Foi prefeito interino de São Luís. Deputado estadual por dois mandatos. Destemido — no início da carreira — fazia oposição ao poderoso Vitoriano Freire, senador que mantinha, então, a hegemonia política do Maranhão. Erasmo Dias elegia-se, especialmente, pelos discursos eloquentes lançados não somente da tribuna parlamentar, como também da Praça João Lisboa, aqui ao lado da AML. Utópico e sarcástico, sua maior obra talvez tenha sido ele próprio, com sua língua de fogo, que oscilava entre as luzes e as
trevas, mesmo entre a sanidade e a loucura fronteiriça dos gênios.

O poeta Nauro Machado — a quem tive a satisfação de dar algumas caronas depois de eventos literários — era um de seus amigos íntimos. Descreve-o no livro Erasmo Dias e Noites, publicado postumamente, depois da morte de ambos. Segundo Nauro, Erasmo Dias personificou como ninguém a concepção do escritor como modelador de atitudes. Seus cacoetes eram imitados, seu estilo existencial moldado no viver perigosamente, saltando sobre abismos na embriaguez dionisíaca do culto báquico, um modelo a ser seguido por todos aqueles que na província tinham por sonho a vocação, quase sempre desmentida, do caminho literário.
Erasmo Dias deixou muitas obras inconclusas, mais por ausência de sistematização do que por falta de inspiração ou de tempo. Das concluídas, escreveu as novelas Rapsódia das muitas Terezas e Maria Arcangela, esta adaptada para o teatro por Aldo Leite com direção de Reynaldo Faray. Também publicou Páginas de crítica, onde analisa o estilo de alguns expoentes da literatura universal, como Hemingway.

O mestre dos Apicuns, já abstêmio e recluso, faleceu em 14 de maio de 1981, não antes de escrever “Tanka para uma partida”, o poema de sua própria morte.

– VII –

Senhoras e senhores! Neste dia de posse, preciso ratificar a missiva que dirigi aos acadêmicos quando de minha candidatura para a Academia Maranhense de Letras. Hoje, para minha alegria e para meu orgulho, meus confrades. Assim o faço mesmo que com palavras distintas e em circunstâncias diversas, pois não a fim de pedir, mas sim de agradecer pela acolhida neste dia feliz.

Prezados acadêmicos! Nem todo escritor de nossa terra formaliza a pretensão de integrar a Academia Maranhense de Letras, mas todos conhecem a Casa de Antônio Lobo, espaço prestigioso na história do Maranhão. Para além da relevância literária, sempre vi, quase como um
mistério, as vestes escuras sob as medalhas douradas que têm a imortalidade como conteúdo simbólico. Falo dos autores das obras do robusto acervo maranhense, os quais se tornam, paralelamente, guardiões de nossa memória intelectual. Sempre me despertou respeito a liturgia por detrás daquelas cortinas vinho que se abrem ao público, revelando não só a anfitriã de lançamentos, posses e outras solenidades de cunho cultural, mas também a erudita educadora secular, que guarda o acervo original do pensamento e da arte maranhense.
Meus amigos! Sinto que hoje, realmente, o tempo bate na porta de minha vida, na qual compartilho sonhos com Priscila, Beatriz e
Valentina.

Ao longo de quarenta e quatro translações, estudei, pelejei e ousei ganhar mundo sem me desgarrar do Maranhão. No vai-evem dos caminhos, tive o prazer de publicar livros, de participar dos eventos e de conhecer os membros desta Casa de Antônio Lobo, onde honrado ingresso disposto a colaborar com sua importante missão institucional. Então, eis-me aqui! Com os nós da garganta e da gravata; e, ainda, com aquele gosto de leite condensado na saliva das perspectivas.
Muito obrigado!

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