VIEIRA NOS LENÇÓIS MARANHENSES

Joaquim Itapary
Cadeira nº 4
Quanto mais a gente lê sobre a vida do padre Antônio Vieira, a cada vez que se tenta penetrar a densa floresta dos seus intricados Sermões, na medida em que nos vamos familiarizando com a multiplicidade de temas tratados em suas cartas, sempre em linguagem clara e sintética, precisa, mais nos surpreendem assombrosas ações por ele cometidas ao longo da sua existência, sempre iluminada, tanto da inexcedível fé nos dogmas da religião que pregava quanto pela demonstração, desde a juventude, de genialidade intelectual incomparável.
Contudo, parece que tais qualidades espirituais e intelectuais de Vieira camuflaram sob a sotaina negra da Companhia de Jesus um corpo que, embora frequentemente acometido de moléstias, mas desde o noviciado treinado na submissão a todo tipo de trabalhos humildes, obscuros e às vezes repugnantes, disciplina adotada naquela irmandade como método para ensinar a seus membros como vencerem o amor próprio e os apetites humanos, serviram bem de arcabouço e sustentáculo mental para descomunal grandeza e tanta força humana. Na verdade, porém, Vieira sempre se viu às voltas com problemas de saúde. Provavelmente – dizem alguns biógrafos seus -, teria sido tuberculoso crônico, doença muitas vezes exposta por indissimuláveis escarros de sangue, amiudados com o passar dos anos e a chegada da velhice. De Paris, a 11 de março de 1646, seis anos antes de vir para a Missão do Maranhão (1652), em Carta ao marquês de Niza, naquele ano ainda conde da Vidigueira, financiador da primeira impressão (1644) das Trovas do Bandarra, ele próprio expõe seus padecimentos em razão de frequentes sangrias, talvez único remédio a que se submetesse com alguma regularidade: Eu estava em uma cama sangrando dezasseis vezes, (sic).
Note-se que, naquele mesmo ano, o padre cumpriria delicadíssimas missões diplomáticas em Paris e Haia, além de redigir a célebre e controversa “Proposta em favor da Gente de Nação”, ou seja, em favor dos portugueses descendentes de judeus (escrito que, mais tarde, alentaria o rol de fundamentos às acusações que lhe valeram a condição de réu da Inquisição), a quem o padre já havia recorrido, em 1647, diante do estado de penúria do erário real português, para a obtenção de 300 mil cruzados efetivos, prontamente entregues pelo cristão novo Duarte da Silva ao rei D. João IV, por este utilizados na organização da armada que viria da metrópole bater os holandeses e fazê-los levantarem o cerco à Bahia. Como seus padeceres não se extinguissem jamais, dezessete anos depois, já expulso do Maranhão, o jesuíta, em Carta a D. Rodrigo de Meneses, sempre queixoso dos danos que lhe inflingiam frequentes e dolorosas sangrias, revela: “Confesso a V. Sa. Que, depois de três vezes morto e três vezes ressuscitado neste ano…”
Pois bem, não deixa de ser notável o fato de homem assim fisicamente tão frágil haver enfrentado perigos e maus tratos – inclusive os decorrentes de assaltos de corsários – naturais das desconfortáveis e temerosas viagens de travessia do Atlântico, sete vezes por ele empreendidas, ainda em meados do século XVII, quando o percurso do mar Oceano representava aventura não raro mal-sucedida em arribações a costas inóspitas, infestadas de selvagens canibais, ou em irremediáveis e trágicos naufrágios. Igualmente a alguns companheiros jesuítas, Vieira, mais vivido na amenidade da Corte metropolitana e entre as formais delicadezas dos gabinetes diplomáticos, quando levado a deixar a espartana modéstia da cela natural, sofreu hostilidades da natureza e das gentes brasileiras, principalmente no período da Missão do Maranhão e na Amazônia.
Mas, o que era a Missão do Maranhão, tão querida de Vieira desde muitos anos antes da sua vinda efetiva para este Estado? Em carta de 1º de junho de 1656, feita do Maranhão ao conhecido cronista Simão de Vasconcelos, então Provincial Jesuíta do Brasil, Vieira sintetiza o que a constitui: “O estado da Missão, em suma, é ser ela a maior em número de almas… de quantas hoje tem a Igreja”. Sumariando, pode-se hoje descrevê-la assim: a área geográfica da Missão se estendia desde o rio Amazonas até o Camocim, no Ceará. Aldeias indígenas se achavam dispostas por cerca de 2.400 quilômetros de linha costeira, em oito diferentes capitanias. Nesse imenso território religiosamente assistido por tão poucos missionários (a 30 de setembro de 1626, da Bahia, em carta anual ao padre Mucio Vitelleschi, Geral da Companhia de Jesus, Vieira, por comissão do padre Vice-Provincial, registra que “Sustenta esta província do Brasil, pouco mais ou menos, 120 padres da Companhia:… e quatro no Maranhão”). Nota o padre que membros de outras ordens católicas “se queiram intrometer a entrar em algumas Aldeias”. Cerca de trinta anos depois, a ação de religiosos de outras ordens e irmandades havia resultado, de fato, no “descimento” – quer dizer, apresamento e escravização – de milhares de índios utilizados, de modo cruel e desumano, em atividades econômicas geradoras de vultosa renda, convertida em imobilizações prediais, prataria e alfaias, ou remetida para a sede dessas mesmas entidades. Essa realidade está perfeitamente narrada na Informação que deu o padre Antônio Vieira sobre o modo com que foram tomados e sentenciados por cativos os índios do ano de 1655.
No ano de 1655, a jurisdição dos jesuítas no norte do Brasil abrangia a Missão dos Tupinambás, sob a direção do padre. Francisco Veloso; a dos Nheengaíbas, do padre João de Souto Maior; a dos Pacajás, também do padre Souto Maior; a dos Araquis, do padre Francisco Veloso; a do Rio Negro, do padre Francisco Gonçalves; a dos Carajás, do padre Tomé Ribeiro; a dos Poquis, do padre Manuel Nunes; a do Rio das Amazonas, do padre Manuel Pires, e a de Ibiapaba, do padre Antônio Vieira.
Sem esquecer a atribulada Entrada do Tapajós, a Missão dirigida pelo padre Vieira no rio Tocantins, principiada a 10 de dezembro de 1653, conforme está narrada em Carta ao Provincial do Brasil, padre Francisco Gonçalves, provavelmente encerrada no mês de janeiro de 1654, é exemplo da submissão do grande missionário às mais terríveis mortificações, sujeição somente explicável por incomuns e inabaláveis sentimentos religiosos de Fé e Esperança.
Porém, a tudo sobreleva, em martírio e destemor, a indescritível jornada do padre Antônio Vieira à Serra de Ibiapaba, acidente que define, hoje, a fronteira entre o Piauí e o Ceará, planejada e realizada com o objetivo de evangelizar os índios daquela região sujeitos à doutrinação religiosa dos holandeses. Segundo o mesmo sacerdote,

“no sítio da serra de Ibiapaba havia três aldeias de nação To[a]bajara, em que contaram até mil e seiscentas almas, e que cedo seriam três mil; que afora esta nação havia ao redor dela muitas outras de língua não geral”.

Esta incrível aventura é narrada no livro de João da Veiga La Mission d’Ibiapaba – Le père Antônio Vieira & Le droit des Indiens, 1998, ed. Chandeigne / Unesco (Paris).
Segundo relato do próprio missionário, as viagens de barco do Maranhão ao Ceará eram prática quase que impossível, em razão da continuada oposição das poderosas correntes marítimas oriundas do Cabo das Tormentas e dos ventos que, de lá emanando, de ordinário sopram em borrascas. Tanto que outros jesuítas, nomeadamente os padres Antônio Ribeiro e Pedro Pedrosa, havendo intentado viagem idêntica em junho de 1656, ficaram detidos no mar, dormindo sobre as âncoras, durante cinquenta dias antes de tomarem a foz do rio das Preguiças, próxima dali onde hoje é a cidade de Barreirinhas, no Maranhão.
Ainda assim, Vieira decide-se a arrostar o mesmo sacrifício. A 3 de março de 1660, se embarca com dois padres e cerca de cinquenta pessoas na comitiva, na maioria índios. Impaciente com a lentidão do marear, Vieira desembarca na boca do mesmo rio e segue por terra numa jornada de aproximadamente 730 quilômetros (Narra Vieira: “sem nenhum abrigo para o sol que nas areias é o mais ardente; porque em todas elas não há uma só árvore”), viagem assim sintetizada por Ivan Lins:“A pequena tropa, exposta às chuvas, ao sol, e às picadas de milhões de insetos e mosquitos venenosos, teve de atravessar quatorze rios”[Inclusive, o rio Parnaíba – então chamado Pará ou Para-guaçu, isto é Riogrande, definidor dos limites entre os atuais estados do Maranhão e do Piauí],

“e os areais imensos dos lençóis, pisando a areia, sobre abrasada, movediça que ora lhes fugia debaixo dos pés, ora lhes açoitava as faces, impelida por ventos tempestuosos que era mister rompê-los como quem rompe uma corrente. … Ao cabo de vinte e um dias…”

[No Relatório, Vieira diz terem sido 35 dias os gastos na viagem que antecedeu à sua] “chegou o heróico missionário a seu destino, o corpo quebrantado das fadigas, e os pés inchados e em chagas, pois os trouxera descalços durante a caminhada”. Finda a Missão de Ibiapaba, Vieira desce a serra, caminha mais de 150 quilômetros até Camocim, no litoral (CE), toma um barco e a 29 de junho já está em São Luís! A esse verdadeiro espetáculo épico/ dramático o escritor português Eduardo Loureço, no prefácio de La Missions’Ibiapaba, da autoria de João Viegas, já citado, denominaria de Opéra ou réquiem sans spectateurs. Excepté Dieu.
Não podemos deixar de referir, neste ponto, o fato de no sermão, ainda não datado até o presente, intitulado Exortação Doméstica em Véspera de Visitação, na Capela interior do Noviciado, na Bahia, dirigido aos noviços da sua Companhia, o padre Vieira haver pronunciado as seguintes palavras com as quais decerto faz sucinto relato dos sofrimentos padecidos pelos integrantes da Missão do Maranhão. No exórdio da oração, o sacerdote remarca aos noviços o fato de, mesmo com poucos membros, não haver duvidado se socorrer “as gentilidades do Maranhão com tantos e tão fervorosos missionários, não menos que quinze: maior número que o que Cristo escolheu para a conversão de todo o mundo”. Diz, a seguir:

“Saem três noviços do noviciado em Portugal, sem mais que seu bordãozinho na mão, e o seu alforge ao tiracolo, debaixo das capas remedadas: e que fazem? Caminhando pelas estradas, vão sempre a pé, e com os olhos baixos, pedindo esmola, e sustentando-se pobremente da que lhe dão, e mais pobremente da que lhe negam, recolhendo-se de noite aos hospitais, e, onde os não há, dormindo nos palheiros: para que? Para que aprendam, se endureçam, e se costumem a padecer. E que mais fazem? Entrando pelas vilas e lugares convocam os meninos, e gente rude, vão às Igrejas ou ermidas; sobem ao púlpito; primeiro que tudo ensinam a doutrina cristã, logo falam temerosamente da morte, do juízo, e do inferno, bradando com vozes ainda delgadas contra os pecados: e para que? Para que se experimente comumente nos ouvintes; porque ouvindoos daquela idade se enternecem, e eles os persuadem tanto com suas palavras, como com a sua modéstia e exemplo.”

Continuando a exemplificação dos percalços e dos sacrifícios que aguardam os missionários da Companhia com imagens vívidas do Evangelho, ou com situações reais por ele mesmo vivenciadas, Vieira compara a missão cristã dos jesuítas à de João Batista, como profeta, pregador e precursor missionário. Talvez, naquele instante o grande sacerdote tivesse em mente e ainda sentisse as agruras dos dias quando missionou no Maranhão, especialmente os tormentos das jornadas ao longo do rio Tocantins e daquelas de São Luís, pelas desérticas solidões das escaldantes areias dos Lençóis Maranhenses, até os altos da longínqua Serra de Ibiapaba, ainda mais ingente e penosa:

…” já ia [ João Baptista] diante dos nossos mostrando-lhes como o haviam de imitar e seguir. Ele havia de morar no deserto; os nossos pelos matos e pelos bosques: ele havia de vestir peles de camelo; os nossos o burel de algodão grosseiro e tinto nos tijucos: ele havia de sustentar de gafanhotos; os nossos até de lagartos: ele havia de matar a sede com mel silvestre; os nossos com o lodo dos charcos, e com as cacimbas das praias: ele havia de batizar no pequeno rio Jordão; os nossos no imenso Amazonas: ele havia de converter homens, a que chamou víboras, mas da sua nação e da sua língua; os nossos, a homens de se pode chamar de feras, em línguas tão estranhas e bárbaras, como as vozes dos brutos. Para isto hão de sair e partir d’aqui, deixando as capelas doiradas, e os corredores azulejados, e os eirados de flores, e vistas alegres; sem saudades, sem repugnâncias, sem temores, antes com júbilos de alegria, e saltos de prazer; Exultavit in gaudio infans in uteromeo”.

Quem haja experimentado as dificuldades para vencer a subida da Serra da Ibiapaba, com mais de 1.000 metros de altitude, e conhece a deserta região dos Lençóis Maranhenses, com quase uma vintena de rios com fozes abertas em litoral de mares bravíssimos, onde hoje apenas aventureiros modernos conseguem trilhar superequipados, a bordo de potentes máquinas de alta tecnologia, há de avaliar o martírio desse homem extraordinário, e de seus companheiros que, faz 342 anos, participaram dessa verdadeira jornada épica pela fé.
Não obstante todo esse inimitável sacrifício e o extraordinário zelo na conversão e liberdade dos índios, toda a sua ação fundamentada em um discurso nitidamente universalista alicerçado no amor ao próximo, e no convite à tolerância cristã, nota bem Pedro Calafate, professor da faculdade de Letras de Lisboa, no ensaio “Antônio Vieira ou o elogio da tolerância”, o imortal missionário receberia, no Maranhão, a paga do ódio, da intolerância e da inveja expressa nas traições de que foi vítima, na maldade com que se viu perseguido, e nas humilhações a que seria submetido. Na “Petição ao Conselho Geral da Inquisição”, documento no qual revela a sua concepção paternalista do poder político, o próprio padre, ordinariamente recatado e moderado em tudo que se referisse a si próprio, revela-se amargo:..

“consegui geral ódio, não só dos moradores de toda aquela terra, senão também dos governadores e ministros que lá vão de Portugal, e de outros ainda maiores, que, sem lá irem, por vias públicas e ocultas têm lá seus interesses.”

Entre seus perseguidores Vieira destacava, sempre, as autoridades que o rei constituía no Maranhão, principalmente os governadores vindos de Portugal, aos quais denominava “rendeiros”, pelo modo como desfrutavam o poder. A estes, em particular, o padre condena em sermões e cartas antológicos, como o faz na Carta a D. João IV, escrita em São Luís do Maranhão aos quatro de abril de 1654: “Tudo neste Estado tem destruído a demasiada cobiça dos que o governam, e ainda depois de tão acabado não acabam de continuar os meios de mais o consumir.”
Note-se, também, haver sido o grande missionário jesuíta vítima da incompreensão, para não dizer da inveja, que lhe minava a autoridade e o respeito dentro da própria congregação religiosa a que pertencia e honrava. Na já referida Carta de 1º de junho de 1657 ao Provincial Simão de Vasconcelos, conhecido cronista, o padre Vieira reclama o fato de já se haverem passado três anos sem que a Missão por ele chefiada recebesse a visita e a supervisão de um superior, fato que julgava inaceitável porque a Missão do Maranhão era tanto parte da província do Brasil quanto as demais, sendo estas, no entanto, assistidas com grande assiduidade. Inconformado mostrou-se Vieira com essa discriminação porque, segundo o seu dizer, “…no Maranhão não só se esperam, mas se estão experimentando maiores serviços de Deus, e maiores proveitos das almas do que em todos os outros lugares do Brasil.” Não obstante a evidente importância da Missão do Maranhão, o padre insurgia-se contra o mutismo da Província do Brasil e dizia não entender como a irmandade sabia tudo e tudo divulgava sobre Províncias e Missões até do longo Oriente e sobre o Brasil e, particularmente, do Maranhão, nada divulgasse.
Espírito impregnado da mais santa e piedosa tolerância, Vieira atribui boa parte dessas perseguições e desventuras ao fato de que “a inclinação natural, entre os Portugueses, sempre pende para o pior…” Razão essa que fundamenta a afirmação ao rei D. João IV, na proposta a este feita em favor dos judeus, segundo a qual haveria entre os lusitanos um costume que os distingue dos filhos de outras nações e que os “inclina ao ódio e à inveja, detrações, acusações, falsos testemunhos e todos os outros gêneros de dizer e fazer mal, como se vê por experiência”. (Obras Escolhidas, Antônio Sérgio e Hernani Cidade, vol. IV, p. 43).
23.jan.2005

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