TRÊS CRÔNICAS DE AMOR AO CINEMA (*)

José Ewerton Neto

Cadeira nº 11

Ôôôôôôô FILME TRISTE!

Toda vez em que alguém fala que viu um filme triste ou que leio sobre isso, a primeira coisa que me vem à memória é a canção Filme Triste, cantada pelo Trio Esperança, que eu escutava na infância, compungido, e que me dava vontade de chorar porque a música, além de bonita era triste de lascar, que começava com um alegre “meu broto me avisou que ia estudar” e terminava em lágrimas.

O curioso é que o título Filme Triste, na letra da canção,não se refere ao filme em si, mas às circunstâncias em torno do que aconteceu externamente ao desenrolar do filme. Ou seja, um filme não precisa ser triste para gerar uma situação desconsoladora e, possivelmente, a melancolia causada por um filme pode estar relacionada a razões muito pessoais como emotividade, dissabores anteriores etc.

*5 As três crônicas foram publicadas no jornal O Estado do Maranhão, do qual o autor é colaborador regular há mais de dez anos.

Como sou vidrado em listas (inclusive nas camisas) a ponto de ser chamado O listador em prefácio feito pelo confrade e cineasta Joaquim Haickel no meu último livro de contos, não pude ficar incólume a uma lista que vi na net nomeando os filmes mais tristes do cinema a partir de uma escolha de entendidos.

Da seleção constatei que só havia assistido a um filme da citada série, onde despontam À espera de um milagre (Frank Daraboni,1999); Amor (Michael Haneke,2012); Hotel Ruanda (Terry George, 2004); O garoto (Charlie Chaplin); O campeão (Franco Zeffireli, 1979) e O menino do pijama listrado (Mark Herman 2008).

Vi O campeão e, possivelmente, o filme de Chaplin (o ‘talvez’ acontece porque minha memória não distingue um Chaplin de outro, tão marcantes são as suas interpretações).

O interessante é que O campeão não me marcou com uma carga particular de melancolia ou tristeza. Os momentos mais tristes que guardo do cinema, nem sempre estão ligados aos filmes anunciados como tais, mas sim a algumas cenas deslocadas muitas vezes do foco principal, a reboque do inesperado, que nos arrebatam e se tornam enternecedoras pela comoção que nos assalta, de repente. Lembro, sem tempo de rastrear mais a memória que, dos tantos filmes aque assisti, uma das cenas mais pungentes e impactantes foi a do filme A escolha de Sofia, no momento crucial em que a personagem tem de escolher, entre os dois filhos que tanto ama, aquele que entregará ao seu algoz para morrer.

Outras cenas marcantes das quais me lembro surgem preferencialmente vindos da minha memória de infância e adolescência, talvez porque as emoções estivessem mais à flor da pele, ainda não cristalizadas pelas perdas futuras e irremediáveis de entes queridos. Nelas porfiam o momento em que o príncipe Ben-Hur, em desesperada busca de sua mãe e irmã escravizadas, as encontra num vale de leprosos, com os rostos desfigurados que tentam esconder, em vão, entre lágrimas. Igualmente, em Dr.Jivago, a cena em que o médico e poeta Jivago vê passar a paixão de sua vida na calçada, Lara, parte em sua busca e morre de um ataque fulminante, talvez seja tão dolorosa quanto triste. Sob os ecos da belíssima canção Tema de Lara, torna-se arrepiante.

A despedida do ET, do famoso filme, também foi um momento tocante que emociona pela forma como o diretor soube expressar a arquitetura do sentimento dolorido da perda de um ente que se tornou querido.

MELHOR FILME DE FAROESTE QUE VI NÃO ASSISTI

O melhor filme de faroeste que vi foi O homem dos vales perdidos, embora jamais tenha existido filme com esse nome.

Seus outros verdadeiros títulos foram, Shane, que ganhou vários Oscar e, na versão em português, Os Brutos também amam (título mais bonito, aliás, que o original em inglês). Não vi o filme na tela, repito, mas isso não significa que não o tenha visto e me deslumbrado. Porque o vi de uma forma que hoje já não é possível: quase um livro, sem ser um livro; quase um filme, sem ser um filme.

Explico: nos idos dos anos 60/70, uma editora de origem mexicana, acho, chamada Editormex, publicava revistas que reproduziam com fotos originais, em quadrinhos, a mesma sequência dos filmes de sucesso, e eu, adolescente, logo me tornei viciado nelas. Como não ficar? As revistas reproduziam os filmes tais e quais, reproduzindo os diálogos e acrescentando comentários à narrativa, quando necessário, a cada cena fotografada. Pude levar para casa vários filmes; de Tarzan a faroestes clássicos como Pistoleiros do entardecer e O último por do sol. Tarzan virou Antar em quadrinhos, e Shane (Os Brutos também amam) virou O homem dos vales perdidos. Pelo belo achado do título se deduz que quem fazia as versões dos títulos e os comentários entendia do ramo. Era fatal que um jovem apreciador de filmes, e de livros, ficasse seduzido.

O homem dos vales perdidos tocou-me, porém, de uma forma especial, a ponto de mandar encaderná-lo com mais quatro filmes de que mais havia gostado. Guardei o volume com carinho, mas um dia, após minhas idas e vindas ao Rio para concluir os estudos, descobri que havia sido extraviado. Foi como se tivesse rompido um dos alicerces do melhor da minha memória infantil.

Anos mais tarde, encontrei numa locadora o filme e, um tanto desconfiado (temia me decepcionar), o levei para conferir. Mas qual!, as imagens em tecnicolor, embora magníficas, contrastavam com o preto e branco da revista, e tornavam a sequência um tanto ‘adocicada’ e menos densa. Não vi reproduzida na tela da tevê a tensão tantas vezes vista no passado, quando era possível perdurar o olhar em cada foto e captar a grandeza íntima de cada personagem em imagens que, a meu critério,tanto podiam se mover como se estratificar. Interrompi a exibição da fita na tevê e prometi sair à caça da emoção perdida.

Há coisa de um mês, tive a feliz ideia de recorrer à Internet e eis que encontrei, após várias tentativas infrutíferas, um exemplar de O homem dos vales perdidos num sebo do Rio de Janeiro. Quando contemplei, finalmente, a revista em minhas mãos, não pude evitar o ritual de admiração e lembranças que se anteciparam à leitura. Só então, pude rever o filme/revista que, com a mesma intensidade de antes, comprovava o talento anônimo de quem fazia os comentários. P. ex: na impactante foto ampliada da cena em que Jack Palance (que personificava o símbolo da maldade no pistoleiro Wilson) escancara o seu sorriso de cascavel, trespassando a foto para sibilar a fragilidade do pobre posseiro friamente executado, o narrador comenta: “Foi um brinquedo para o pistoleiro. Um brinquedo selvagem que encheu de alegria o seu coração de bandido.”

Enfim, o melhor filme de faroeste que vi, sem ter assistido, se fez memória eterna, desta vez em minhas mãos.

OS TRÊS FILMES DA MINHA VIDA

Quinta feira passada, na sede da AML, o cineasta e escritor Joaquim Haickel palestrava sobre o tema Literatura/Cinema para estudantes do Curso de Letras do colégio Pitágoras, quando, após exibir uma preciosa lista de seus filmes preferidos , devolveu a pergunta à plateia. Boa parte desta se manifestou, até que fui instado pelo palestrante a me pronunciar.

À pergunta não foi difícil responder até porque já havia escrito , no passado, a respeito. Apenas, não me referi ao melhor filme, tecnicamente falando (mesmo porque me faltam requisitos para tal), mas, sim, aos que mais me marcaram, em diferentes épocas de minha vida.

  1. Na infância, Ben-Hur

Difícil descrever o deslumbramento propiciado por esse filme a uma criança do interior (morava em Guimarães) em visita de férias a São Luís. Recordo perfeitamente que, extasiado com o eu via na tela do cine Éden, levado pela minha tia Rosa Ewerton, nem percebi que ela se incomodava com a durabilidade (quatro horas de projeção) do filme. Ela sugeriu que voltássemos outro dia, mas a criança teimosa e atrevidamente recusou-se, nesse que foi talvez o meu primeiro grito de independência, que me foi propiciado pelo cinema. Pelo cinema e, claro, pela paciência afetuosa de minha saudosa tia.

                      O segundo capítulo da história foi adquirir um álbum de figurinhas do filme, cujos                      cromos reproduziam as cenas reverberadas para sempre pela crônica cinematográfica: a corrida de bigas, a guerra nas galés, etc

  • Na adolescência, Doutor Jivago. O Doutor Jivago não foi só um filme exuberante como os filmes épicos vencedores de Oscars. Havia alguns ingredientes que o distinguiam. A belíssima música de fundo, Tema de Lara, conseguiu a proeza de ser executada nas rádios tanto quanto as músicas dos Beatles. A fotografia do ambiente das planícies gélidas da União Soviética, como um personagem à parte, aderidos à beleza selvagem de Julie Christie (Lara), uniam poesia, romance e o drama intenso de uma época revolucionária. Lembro, em especial, da cena em que a plebeia Lara invade, pobremente vestida, um salão de festa da nobreza russa para tentar matar um homem rico que a degradava e prostituía. Após praticar o atentado, Lara percorreu o ambiente, de volta às ruas, com uma dignidade intocável que aviltava a pretensa nobreza dos presentes. Jamais uns olhos verdes de tão intensa suavidade serviram de contraponto, em uma cena do cinema, ao desespero de uma mulher com sua sexualidade ultrajada.
  • Na idade adulta, A primeira noite de tranquilidade

Desses filmes dos quais não se têm informações e só se entra no cinema porque a noite está tranquila até demais, ou melhor, entediante. Referências, apenas a do ator principal, Alain Delon, que não era, necessariamente, a garantia de um grande atração. Filme que se revelou, porém, marcante para mim em quase tudo, até mesmo na atriz principal, desconhecida, de semblante tão belamente trágico como a frase que foi dita a seu respeito em uma cena do filme: “Muito presente, pouco passado, nenhum futuro”, que pareceu se aplicar depois à jovem atriz. Um filme denso, pungente, melancólico, sobre dramas típicos de um casal em dissolução, tendo como personagens principais um professor inteligente e poético e a juventude sem rumo. Segundo Rubens Edwald Filho, Alain Delon com sua soberba atuação, desfez definitivamente a impressão de ter sido apenas um rosto bonito. Ah, sim, a primeira noite de tranquilidade era a morte.

NAURO MACHADO NA ESTRADA DO SUNA: POESIA E EXÍLIO NA MODERNIDADE

Wandeilson Silva de Miranda (*)

“Cultivo minha terra/como uma prisão.”
Nauro Machado, Destino, Funil do ser.
“E elle nunca voltou. Nunca se viram
Voltando o Sunavíctimas sagradas
Que ao sacrifício por destino foram:
Voltam as multidões sobre as pegadas
Suas; os Guesas, não. (…)
Elle esperava juncto da vertente
Cair a tarde, a noite. E no deserto
Do coração formou-se-lhe o concerto
Da vingança e do amor eternamente
E cada noite da montanha ao cume,
Aos seios do luar subia a treva,
Na exactidão do ódio e do ciúme,
Ao silencio em que amor se occulta e eleva.”
Sousândrade, O Guesa(88).

*2 Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), realizou mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente é professor associado da Universidade Federal do Maranhão.

“P ARA QUE POETAS em tempos de penúria?”, perguntou-se certa vez Hölderlin em um poema seu, certamente para nos alertar da desmedida ausência de sentido que já se fazia sentir em sua época e que se alastrava como sombras vespertinas sobre o Ocidente; talvez alertasse da queda fatal e irremediável que a palavra poética viria a sofrer durante os séculos posteriores. A sua pergunta é antes de tudo uma constatação. A constatação de tal alerta se concretiza em todas as instâncias da vida moderna. Percebe-se como se pulverizaram rapidamente todos os segmentos dos valores, dos ideais e perspectivas, e, em meio a tantos anti-humanismos, deflagrouse também guerra à verdade – ou pelo menos ao que se entendia por ela na tradição. A penúria à qual se referia Hölderlin não corresponde à pobreza material a que alguns comentadores aludem, mas ao descompasso espiritual entre os homens, o naufrágio de todos os ídolos, o desmoronamento de todas as certezas, a morte de Deus, anunciada por Nietzsche e, logo depois, a morte do homem anunciada por apocalípticos e messiânicos desconstrucionistas. O tempo da penúria é o fim de todos os possíveis, o acabamento (Vollendung),1 no dizer de Heidegger, que submeteu o ser a um esquecimento de ordem planetária, onde o homem institui o aniquilamento da vida e de tudo aquilo que aspira ao nobre e ao belo; a planificação de todas as esferas e segmentos da existência, sujeitando esta ao controle e às práticas operacionais e técnicas que infiltram através de seus dispositivos o niilismo radical e temerário. O niilismo é o veneno pirrônico que corrói e desfigura todas as representações mais caras à história, colocando em seu lugar o nada. O nada aqui não significa uma negação absoluta, um não-ser, mas também não estamos falando do nada num sentido de uma angústia essencial, pois esta, quando elevada, quando altaneira, cria; o nada deve ser compreendido enquanto uma indiferença total e tediosa, tédio talvez já atávico aos modernos.2

A penúria é o império do terror, como terrífico é ver uma criança despedaçada em meio a combates entre países dos quais nem sabemos o nome; e se lhe escutarmos o nome, nós o esqueceremos logo depois do noticiário esportivo. O terror de um niilismo triunfal que incendeia aviões, e podemos vê-lo, em tempo real, cair sobre as torres de um império que assiste apavorado pela primeira vez auma lança atingir não apenas a sua carne, como foi o caso de Pearl Harbor, mas o seu coração. Assistimos preguiçosamente, deitados em nosso sofá, à morte de mais de mil pessoas fulminadas pelo calor ou esmagadas debaixo de toneladas de concreto e ferro. O terror técnico que alavanca todas as contendas e conquistas da ciência, da quebra dos átomos à exterminação maciça de homens, mulheres e crianças, seja nos campos de extermínio empreendidas pelo canibalismo do Estado autoritário nazista, ou nos gulags socialistas de Stalin, seja a vaporização atômica, quase instantânea, executada pelo Estado democrático norte-americano. Basta um minuto e o deserto amplia-se devorando tudo. O deserto é a força aniquiladora e destrutiva das potências maquínicas de uma razão violentamente técnica e operacional. A penúria é o extremo daquilo que certa vez disse Goethe: “E Deus deixou aos homens apenas a noite e o dia.” Parece realmente ser nessa medida pendular que mensuramos a nossa existência e nos enfronhamos a nós mesmos na rotina pulverizada e fragmentada dos deveres cotidianos. Quando Hölderlin se pergunta “Para que poetas em tempo de penúria?”, ele constata a experiência extrema na qual o moderno está imerso. O moderno é aquele que não possui lugar. A peregrinação é a sua atividade. O moderno é aquele que é convocado a cumprir “o sacrifício da individualidade finita. (…) O moderno é a missão de devir o que se é.” 3

Nestes tempos de penúria, o poeta e a poesia parecem dois párias, dois estrangeiros atravessando um reino totalmente estranho à sua língua, e por isso mesmo o silêncio é a sua sombra mais fiel. O poeta moderno é totalmente estranho ao seu destino. O artista chegou àquele instante do qual fala Gombrich, em sua obra A história da arte: “A vida do artista nunca estivera isenta de dificuldades e angústias, mas uma coisa pode ser dita em favor dos ‘bons’ tempos: nenhum artista precisava perguntar por que viera a este mundo.” 4 No entanto, no final do século XIX e na primeira metade do século XX, intensificaram-se a criação e prática da maioria das vanguardas, testemunha-se o surgimento das mais diferentes e estranhas poéticas… parece que havia um “ismo” para cada nova proposta! Definitivamente, foi um período rico e definidor de todas as inovações estéticas surgidas durantes esses dois últimos séculos, como esclarece Gilberto Teles.5 Pode-se imaginar que aí o poeta, mais do que nunca, está dentro da história. A arte torna-se não apenas uma técnica de imitação da natureza ou seu aperfeiçoamento, mas agora se constitui através de suas próprias regras e diretrizes, não tendo mais a natureza como espelho e medida para a sua elaboração. A arte assumia, também, pelas mãos das vanguardas, o caráter ativista de atuação abertamente política, intencionalmente programática, ideológica e militante. A arte e o artista já não serviam apenas para construir capelas e/ou adornar a casa dos aristocratas e burgueses; agora a arte era instrumento de e da revolução, cooptava em si estratégias de ação e formação ideológica. O artista parece estar em casa, dono de seu pensamento e de sua arte, comia pouco e bebia muito, e tinha pelo caminho um mundo todo para transformar. A Belle Époque nos faz acreditar nisso. Porém, percebe-se o declínio rápido de tais estratégias, a euforia estética é seguida pela melancolia e pelo desespero de duas guerras mundiais que levaram para o túmulo, em menos de cinquenta anos, quatro gerações das mais produtivas da Europa.

Hoje, é certo, fala-se da morte da arte, e mesmo da morte do artista, ou pelo menos do verdadeiro artista, e a todo custo tenta-se pensar o lugar que ocuparia o criador e a criação poética dentro de uma sociedade hiper-tecnizada, onde o desenvolvimento tecnológico criou e deslocou o sistema da linguagem tornando possíveis outros suportes de comunicação, outros modos de criação que operam a partir da cristalização dos métodos já conhecidos, ou refutam drasticamente as conquistas anteriores, como alerta Vattimo, em seu livro O fim da modernidade:

Como o conjunto da herança metafísica, também a morte da arte
não pode ser entendida como uma “noção”, de que se possa dizer
que corresponde ou não a um estado de coisas, ou que é mais
ou menos contraditória logicamente e que se possa substituir
por outras, ou cuja origem, cujo significado ideológico, etc., se
possa explicar. É,antes, um evento, que constitui a constelação
histórico-ontológica na qual nos movemos. Essa constelação é
uma trama de eventos histórico-culturais e de palavras que lhe
pertencem, os descrevem e os co-determinam. Nesse sentido
geschicklich, destinatal, a morte da arte é algo que nos concerne
e que não podemos deixar de encarar. Antes de tudo, como
profecia-utopia de uma sociedade em que a arte não existe
mais como fenômeno específico, suprimida e hegelianamente
superada numa estetização geral da existência.6

E mais adiante o mesmo autor afirma:

As poéticas das vanguardas recusam a delimitação que a
filosofia, sobretudo a filosofia de inspiração neokantiana e neoidealista, lhes impõe; não se deixam considerar exclusivamente
como lugar de experiência ateórica eaprática, mas se propõe
como modelos de conhecimento privilegiado do real e como
momentos de eversão da estrutura hierarquizada do indivíduo e
das sociedades (…).7

Que esse pensamento estético em seu curso de especulações tenha por fim colocado em xeque o fundamento da verdade tal como era compreendida é inegável; destarte, fiquemos atentos, pois pela própria apofania ontológica tal pensamento não fecha o circuito discursivo sobre a verdade, antes, por consistir em uma de suas intenções primordiais, ambiciona tornar circular todo pensamento sobre a verdade do real. Daí a importância de toda a hermenêutica nesse último século, bem como os hiperbolismos do pensamento francês pós-68. Foi a arte, essa Hydra, como dizia Valery,8 que influenciou a Filosofia a caminhar para uma separação entre esses termos (a verdade e o belo), não negando ou suplantando uma verdade por uma mentira, mas aceitando a condição da ilusão como ponto tão fundamental quanto a verdade.

Tomando emprestado o termo de Valéry, podemos dizer que a modernidade é essa Hydra, esse sem fim de cabeças, de distorções, essa polifonia incontável, essa inumerabilidade de poéticas. A modernidade é o saco sem fundo da relatividade dos valores, da vida, da verdade, do conhecimento, um mundo onde todos têm a sua razão, mas por fim ninguém tem razão alguma… sintoma de décadence, segundo Nietzsche, de esgotamento de todas as filosofias, e por que não dizer o desmoronamento de tudo que poderia ser considerado nobre e de suporte para a ação humana, tudo aquilo que os grandes homens, em todos os campos a custo elevado ergueram como farol no meio da noite. Porém, quem está livre, quem pode realmente dizer que não participa desse espírito de décadence? Pois o cancro duro dessa morte tediosa, essa morte sem luta, como cabe aos niilistas passivos que somos, não é uma simples constatação, uma avaliação clínica num corpo outro que não nos pertence, que está fora como um objeto, mas é antes uma vivência, um modo de ser, uma experiência mundo-epocal da qual ninguém pode se desviar, pois ninguém pode pular a história, como também não se pode pular a própria sombra.

Porém, em meio à tagarelice hodierna poucos são aqueles que levam consigo a fortuna ímpar de pensar e viver esse despedaçamento, de senti-lo e comunicá-lo com precisão matemática, trilhando selvagemente os caminhos dessa modernidade, construindo sem tergiversar em meio às ruínas do que fora tradição. Nauro Machado amalgama essa tensão singular, essa violência singular que caracteriza todo o século posterior advindo daquelas palavras de Hölderlin, que ele denominou de “noite dos deuses”, o afastamento e o esquecimento de tudo aquilo que seria sagrado. E talvez o afastamento, do ser para uns e dos deuses para outros, tenha sido tanto que para nós tornaram-se, como diz Nauro: “Um puro hálito/ no pensamento.” 9

Este ensaio aponta a questão do exílio, mas como já fica claro, parece que é mais fácil denominar aquilo que não é exílio dentro de toda a poesia, dentro de todo o sentimento que arrebata o poeta, defraudado de seu posto de aedo, lançado entre as colunas de um templo antiquíssimo e esquecido, perdido de algum modo e sem destino aparente para tudo aquilo que se lhe assenta no espírito. O exílio, o desterro, é uma das piores penas que se pode imputar a alguém, comparável talvez apenas à morte, pois o banimento é um tipo de morte, já que sobre o exilado se lança uma mortalha de esquecimento. Conhece-se bem o que seja um exílio político, mas o que se pode entender por um exílio poético? Talvez o próprio autor destas linhas não tenha condições de explicar e exemplificar o que se poderia compreender por tal exílio, pois ele não é simplesmente um afastamento obrigatório, um degredo geográfico imposto, não é uma coação que exige que alguém saia de um lugar para o outro, apesar disto por si só já ser terrível.10 O degredo poético, se é possível falar nesses termos, seria um esquecimento, um tipo especial de esquecimento, é claro, pois não é apenas o varrer da memória as lembranças de um fato ou de uma pessoa, mas se compara a um certo desprezo, um olvidamento que cerceia as possibilidades de retorno do esquecido, por isso esse esquecimento é radical, fatal, pois destrói o esquecido ao lhe encobrir o significado e a dignidade. Esquecer provém da palavra excadere, que etimologicamente significa cair; por isso, o esquecimento possui um caráter ruinoso e problemático, pois, na queda, o esquecido não pode mais retornar. Sobre o exílio poético poderíamos arrematar dizendo que seria tal como essa queda: um funesto movimento para dentro da noite, numa trajetória vertical, como quem desce um abismo. Um processo diabólico de afastamento das partes e de aviltamento do seu sentido.

II

Hoje, sem pestanejar, nos perguntamos: o que é o poeta, quem é o poeta, o que é a poesia, para que serve tudo isso? Temos que perguntar para não nos esquecermos ainda mais do significado desses termos. Estas perguntas seriam consideradas irrisórias há alguns séculos. Hoje, no entanto, o poeta deve responder aos homens o porquê da sua existência, por que ele não deve ser esquecido, por que não deve ser lançado nessa queda infernal que é a modernidade, e que esse inferno, em particular para o poeta, é não haver mais espaço para a palavra poética.O poeta e a poesia são arremessados para dentro dessa noite, conquanto os salões, as galerias, a grande massa consumidora e os meios de comunicação abram suas portas para a arte. Seria uma terrível contradição tal acontecimento se desde já não estivéssemos atentos e prontos para entender que o que se chama de arte é apenas a leviandade de um século que qualifica de gênio qualquer um que possui marketing e está do agrado damass-media. Hoje, mais do que nunca vivemos o império da cultura, mas da cultura fake, a cultura filisteia e depravada. Há apenas o poeta e a poesia remix. Impera sobretudo.

(…) a necessidade de convencer o empresário, o homem do
lucro, a reinvestir seus resultados “em cultura”, espaldado em
mais uma lei de incentivo fiscal. Vale como axioma, isto é, como
impensado e autoevidente, que “quanto mais cultura melhor”.
Mas numa época repleta de centros, agentes e produtores culturais
são justamente as questões de que a cultura cuida (ou deveria
cuidar) que permanecem esquecidas no interior da “cultura de
massa”. O que impera é a pressa. O que importa é já ter visto
(sobretudo os impressionistas, os surrealistas ou Picasso). O que
incomoda é ter que ajuizar.11

Sabemos analiticamente ou intuitivamente que falta algo à arte. Mas, o que está faltando à arte? A pergunta não é retórica e é totalmente aceitável caso se possa compreender a urgência da questão. Não se quer aqui responder pela quididade da arte, mesmo quando por esse quid esteja implícita certa forma de interpretar a realidade. A pergunta pela arte é essencialmente uma pergunta sobre como compreendemos e interpretamos a realidade. O que é a arte e o que é o artista? Que estranha circularidade hermenêutica sustenta essa relação? Não há artista sem a obra e vice-versa. Esse vínculo fundamental somente é original quando nesta relação algo é criado por meio de certa violência, certa dose de crueldade. Obra e artista vivem uma existência em perigo, em campo de combate oculto e silencioso, porém decisivo para a criação do sentido humano.

Nauro Machado é um poeta que se opõe a toda essa história da arte moderna aqui esquadrinhada. Como um pilar, uma montanha, Nauro se ergue contra essas ervas daninhas que insulsa e opacamente se alastram pela contemporaneidade. Willian Myron Davis diz sobre a poesia de Nauro o seguinte: “O eu poético de Nauro, fazendo-nos mais um eco da música das esferas, como testigos de um cataclisma no céu, sempre medita o tema do silêncio, da angústia, da noite e do sonho, numa atmosfera meio animal.” 12

A eleição temática privilegiada por Nauro e elencada por Willian Davis demonstra o quanto esse poeta está imerso no que se pode chamar de modernidade, o quanto a sua poesia respira os ares dessa construção caótica e fragmentada que inaugura o pensamento e a experiência contemporânea. Tudo de algum modo corresponde a esse naufrágio universal, essa angústia que mesmo empalidecendo nestes últimos tempos, ainda mantém a sua intensidade, brotando cá e lá dentro da arte e de alguns poucos poetas. A metáfora para toda essa vivência só poderia ser a noite, a escuridão primeva que se aloca em tudo e nela reside submetendo tudo ao seu domínio ancestral e primitivo. A poesia de Nauro é uma cartografia desse continente, ele mesmo que como homem-poeta atravessou o século XX e galgou as suas órbitas mais intempestivas, retirando dessa massa liquefeita toda uma sensação poderosa e altiva, um sobrevoo sobre essas representações que marcam todo um sentimento vivo e destrutivo de um mundo que gira sem sentido ou ordem.

Há algo de heroico na sua obra, na sua vida, aquela sedimentação terrosa e grossa que preenchem os campos depois da terrível erupção vulcânica; no solo, a superfície é o resíduo das entranhas, como a palavra é a superfície onde se depositam os restos de uma guerra. Há algo de belo e monumental na sua obra que faz lembrar aquilo que Melville disse quando desenhava o quadro de uma obra que alcançou o equilíbrio, nas suas dimensões arquitetônicas; ela, segundo Melville, se parece com “os grandes animais, calmos, imensos, poderosos”. Há uma generosidade incontestável em um tal acontecimento e não apenas uma fortuna em palavras e sílabas com as quais Nauro Machado construiu sua obra; a sua generosidade maior está nessa entrega à intuição, ao desamparo, aos saltos suicidas, à fome pródiga, ao abandono às visões noturnas e solitárias, à descida cotidiana aos bueiros da alma. Escafandrista de mares profundos, Nauro foi incansável em sua procura, sua dor e angústia foram alimentadas pela provocação de um pensamento perquiridor, de uma alma dilacerada pela própria ânsia de vida e de viver. Como ele mesmo nos diz em Apicerum da clausura, soneto 40:

Não para mim a vida sem meu lastro
não para mim a vida sem meus passos.
Se à cova vou galgando ventre e mastro,
à vida sou meus pés e sou meus braços.
Não para mim a vida ser o rastro
do que passou em escombros e cansaços
e será tão só a terra então qual astro
perdido além de céu em mais espaços!
não para mim a vida sem palavra,
nela fazendo o que me forja e lavra,
nela tirando, em mim, o que me fez.
E o pavor maiúsculo do Ser
a contemplar-me a imagem, ainda vê
não para mim a vida ser só paz

Há um quê de sagrado na poesia de Nauro, como sempre há nas grandes poesias, pois elas se excedem, embriagam-se de si, e por meio de um êxtase catártico e revelador, possuem a capacidade de nos embriagar pela sua sobriedade, sua medida apolínea e luminosa, como se o seu poder fosse o de descer em meio à escuridão de nossos sentidos e pensamentos e os organizasse em nosso favor. Ao mesmo tempo que admoesta as feras da nossa alma, cuidando, aplacando, também as exorta para o alto, exigindo delas a sua natureza mais brutal e violenta, que entre grunhidos e urros saídos de suas gargantas sinistras e estranhas, elas afirmam a própria natureza dessa vitalidade animal. Nauro, através dessa força unifica-se e constrói em sua poética toda uma atmosfera pavorosa e tensa, exercendo com a palavra um domínio singular sobre essa adversidade aparentemente impossível de ser observada e entendida. Ricardo Leão, em seu trabalho sobre Nauro, assinala tal questão, onde a força da poesia nauriana determina-se não num domínio lógico e sintático sobre a palavra. O sentido de sua poesia constrói-se dentro de um mundo mais vasto e terrível e, para compreendermos o seu tirocínio, devemos descer ou subir com ele pelos meandros imagéticos, suas construções por vezes violentas, por vezes embaralhadas, por vezes repentinas. Diz o crítico: “Daí a natureza irracionalista da metáfora construída por Nauro, moderna em todos os sentidos, pois se apropria da imagem concreta e a transforma sem, entretanto, suprimir a sua existência”.13 É na polissemia que Nauro conquista a sua poética, o seu poema, “ (…) não quer dizer. Ele diz”, completa Ricardo Leão.

Concordo plenamente com Fritz Teixeira de Salles quando afirma que a poesia de Nauro movimenta-se em uma “(…) dança entre Apolo e Dionísio. É nesta confluência de universos que Nauro Machado sofre e doma seu verbo.”14 O mundo como tragédia é a marca de sua visão que se constrói por toda a sua obra, montando através de um pensamento anagógico a permanência dual e inconciliável da vida: Deus-Nada, Morte-Vida, Corpo-Alma, Alegria-Angústia, Solidão-Amor, etc. Nauro, em sua poesia, sustenta um jogo entre semelhanças e diferenças, não querendo suprimir nem um nem outro, mas é obstinado em manter a tensão das forças contrárias, pois é nessa manutenção das diferenças que irrompe a beleza e a verdade da guerra, do conflito incessante que fundamenta toda a existência. Tempo e eternidade, como dois sentimentos inseparáveis e inconciliáveis de uma mesma vida. Em Parreirais de Deus:

E para sempre nós somos
o instante por Deus levado,
mergulhando nos assomos
da escuridão do pecado.
A memória do que fomos,
quem no-lo traz, deste lado
aonde, rotos, nos pomos
a um futuro tresnoitado?
Malogrado astros cegos,
presos os pés pelos pregos
também sobre olhos e seios,
eis-nos sós e já transidos,
eternamente despidos
na água suja dos asseios.15

Ou como nessa poesia retirada de A travessia do Ródano (2002b, p.355):

Sinto que subo, e desço, e rodopio
tremendo todo e de mim despejando
alguma chama vinda do alto cio
de alguém incógnito e nascido em quando.
E sigo então em mim como um mar, um rio…
E sou também um mundo miserando.
E tenho sede. E sofro o fogo e o frio
desse espetáculo fatal, nefando.
É a morte vinda pelo além que chega
como trazido para noite leiga
dessa paisagem toda feita em sombra.
Dessa paisagem ao meu corpo dono
de uma morte aprendiz do eterno sono
pela visão que a minha treva assombra.16

O desastre e ao mesmo tempo a força de Nauro é ser fiel a um sentimento, a uma intuição. A escrita é o que lhe permite viver, a escrita é o que o devora, “ser poeta é duro e dura, e consome toda uma existência”, como ele mesmo diz no final de seu poema chamado O Parto17. Há uma intransitividade, uma voz que o provoca e ensandece, sua poesia é antes de tudo uma terrível e poderosa oração, voraz e ansiosa, procurando o alto e o altíssimo, a elevação mais luminosa, ao mesmo tempo que vertiginosamente cai em precipícios, charcos turvos e negros, no sem-fundo e no semsentido de tudo que existe. Sua poesia procura unir o que é mais alto ao mesmo tempo que para isso necessita do que seja pútrido e vil, de tudo que é contingente e efêmero, pois a vida deve ser entendida em sua completude – não há luz sem escuridão. Porém, não há uma dialética em Nauro, já que essas forças contrárias não resultam num terceiro termo que equilibra e harmoniza as partes, a tensão, o conflito; o agon é a própria essência e o encontro de toda a existência. Seus oxímoros são a concretização dessa intuição. Há uma “lógica” trágica dentro de toda a poesia de Nauro. Essa intuição tornada o leitmotiv de toda a sua poética é responsável por uma metafísica própria e densa. A vida possui uma ferida trágica, um conflito inconciliável; ela é uma experiência que deve ser vivida com extrema intensividade, na borda do precipício. Nauro aproxima-se radicalmente da afirmação de Scott Fitzgerald: “Toda a vida é, obviamente, um processo de demolição”. Por pensar decididamente, no limite do suportável, o lugar da morte e da finitude humana em meio a esse drama cosmológico, Nauro extrai sua poesia do ventre da experiência contemporânea, mas também supera a poética moderna, pois não permanece acorrentado aos grilhões do niilismo passivo ou negativo, nem se entrega às experiências estéticas suspeitas e midiáticas. Nauro, através de um sentimento pensado e um pensamento sentido, busca em toda parte aquilo que o insufla e o inspira. Nauro estabelece em sua escrita a aceitação de uma destruição intransitiva, intransitiva pois inalienável, não podendo ser esquecida ou afastada. A sua poesia é afirmação ou aceitação heroica de uma navegação sem retorno. A escrita torna-se algo terrível, correspondendo a um dilaceramento cotidiano, uma busca por um Fora, um Outro que o persegue incansavelmente, algo que vive em sua carne e lhe é o algoz e o libertador simultaneamente, porém sempre inalcançável. É afirmando através dessa intuição o caosmo que se apresenta a extemporaneidade de Nauro. Sua arte pertence a outro tempo por pensar o tempo para além do agora, é uma poética da modernidade, mas também carrega com ela elementos da tradição, porque acima de tudo sua arte e pensamento lançam-se dentro das mais profundas e terríveis dimensões do drama humano, desenvolvendo assim uma poética universal e perene. A poesia de Nauro é universal, pois arremata com sua força poética a universalidade desse drama, não faltando a ele a potência, a certeza do voo que atravessa o espaço, em suma, ele é senhor do seu entusiasmo.

A sua índole trágica possui essa força e ânsia que encontramos em poucos poetas. Sabemos o quanto é raro a permanência da escrita e o aumento da exuberância da criatividade no correr dos anos. Poucos poetas conseguem manter o ritmo de Nauro. Sua obra é superior a três dezenas de livros, entre inéditos e antologias, o que torna difícil escrever sobre ele, pois no meio de tão vasta obra, sentimos que nos escapa alguma coisa, acreditamos que não nos demoramos mais atentamente naquele ou noutro verso, que não amadurecemos o suficiente para compreendê-lo melhor. Nauro é “um planeta preso – sem garganta – à voz”, como ele diz em um poema seu intitulado Urano18, palavra que é anagrama de seu próprio nome. Em suma, não há leitor que saia incólume das mãos de Nauro. Não há leitor que não fique a orbitar em torno desse planeta Nauro-Urano.

Mesmo com esse repertório, essa inegável autenticidade, essa incontestável maestria na construção dos poemas e sonetos, o domínio técnico, a minuciosidade em cada verso, a sonoridade tensa e bravia, como pancada funda na sensibilidade dormente do indivíduo contemporâneo, como um ribombar sonoro e metálico, sua poesia, como disse Drummond, é “alta e impressionante”. Porém, o que vemos é o descaso, o silêncio quase sufocante que se ergueu no seu próprio país e mais drasticamente na sua própria província. Não que lhe faltem admiradores, ou fiéis amigos, ou mesmo o reconhecimento, mas nunca lhe foi dado o verdadeiro valor, reconhecida sua altura e ainda não se elaborou por parte dos críticos e teóricos um amplo e profundo quadro da dimensão poética de Nauro; ainda não lhe foi dada a oportunidade cabida para que a sua obra fosse promovida com brilho e força como alguns dos mais altos nomes da poesia brasileira, tais como Drummond, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima ou Cruz e Sousa, como sugerem alguns críticos.19 Poucos são os que realmente possuem trabalhos meticulosos e aprofundados sobre a obra de Nauro. As próprias instituições e seus respectivos profissionais parecem tê-lo esquecido. Não por considerarem Nauro sem as devidas qualidades poéticas, mas simplesmente por descaso e resistência, festejando autores de outras paragens e mesmo de talento duvidoso, ou ao gosto da moda.

É incontestável: o exílio de Nauro se inicia na sua própria terra. É algo sentido pelo próprio poeta, e reclamado por ele, algo como um desencontro profundo e que lhe dá desgosto. O povo que se encontra em tantos poemas seus é de algum modo surdo ao seu canto e lhe vira as costas. Em um de seus mais belos poemas, Ofício, Nauro diz:

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
e dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! e me mandam bater
serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.
e me mandam pro inferno, se inferno houvesse
pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio da minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
e depois ninguém sabe mesmo do espaço
que ocupo, desnecessário espaço de pernas
e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
o mundo restará o mesmo sem minha quota
de angústia e sem minha parcela de nada.20

Não pretendo destacar nas suas obras as passagens e poemas que fazem menção a essa questão, pois não pretendo fazer aqui um diagnóstico de um ressentimento, mesmo porque não é como um ressentimento que deve ser entendida a relação conflituosa entre Nauro Machado e a sua província. Um conflito que se dá em diversos planos e em graus diferentes, em tantos aspectos multifacetados que não pode ser estudado em algumas páginas. Nauro se refere a São Luís de diversos modos, e em seus diversos modos canta também uma São Luís única, imaginada, cidade de Campanella,21 cidade outra que não São Luís, cidade sonhada, procurada, utopia para além dos mirantes e janelas dos casarões. Nauro descreve uma São Luís “madrasta”, cidade má e vingativa que mata seus filhos; uma São Luís noturna; uma São Luís solidão; uma São Luís fêmea insolente;22 uma São Luís dos domingos; uma São Luís pútrida e perdida;23 uma São Luís túmulo-tumba, começo e fim de sua vida;24 uma São Luís-Troia arruinada; uma São Luís prisão, cárcere definitivo do poeta Nauro;25 uma São Luís mitológica, encantada, experimentada por Nauro em todos esses aspectos separadamente ou simultaneamente. Assim como há a Buenos Aires de Borges, a Dublin de Joyce, a praga de Kafka, há a São Luís de Nauro, ilha metáfora do poeta-ilha que é ele mesmo uma São Luís separada do continente, desgarrada e solta no meio do mar. São Luís das águas e dos subsolos, sepultura do poeta, mordaça sobre tudo o que é e o que foi. São Luís prisão ruinosa onde Nauro depositou seus melhores anos. São Luís do passado e do presente, São Luís sempre fonte viva de amor e desilusão. “Cultivo a minha terra/ como uma prisão”, diz ele em Funil do Ser. Suas palavras devem ser pensadas e medidas, pois o poeta não é aquele que vive da tagarelice, o silêncio é sua fonte de palavra, a palavra é a formalidade de sua meditação. O exílio se impõe nessa ilha que o coloca de lado e que, frente à sua poesia, o interpela com desdém e “escárnio”.

Mas, como dissemos no início deste trabalho, o exílio não é algo que se origina em torno deste ou daquele outro poeta, mas de toda a poesia, de toda a arte fora dos padrões favorecidos pelo reino midiático e voluntarista da cultura em geral. Em Nauro, a anábase dessa degenerescência torna-se mais diagnosticável, pois a sua poesia não serve para aqueles que gostam de facilidades na digestão, que possuem o organismo frágil e delicado. A sua poesia é densa, formal, metrificada, rítmica, alucinada; ele, como diria Deleuze, balbucia, gagueja, escreve em outra língua tornando nova a sintaxe, reconstruindo ou destruindo sentidos. A semântica é torcida pelo seu poder adstringente. Nauro é dos escritores que viram demais, ouviram demais e saem de dentro da noite com os olhos vermelhos. A sua obra está longe de toda essa armadilha onde caem os que estão à procura de reconhecimento e não de poesia em seu sentido original.

Nauro possui, como poeta que é, o sentimento inato, quase religioso que o liga à sua poesia e ao seu povo. Para quem canta Homero, senão para o mundo grego? Para quem canta o poeta senão sempre para seu povo, preservando em sua poesia a memória e o sentimento de unidade e coesão entre cada indivíduo? A aspiração e a provocação romântica de uma poesia nacional e de sentimento nacionalista é apenas a ênfase em um elemento que sempre residiu na experiência poética. A poesia procura a unidade, o pátrio, como diria Hölderlin, o país natal onde a palavra poética revela o cuidado e o exercício do coração, onde a poesia revela uma sabedoria acerca da vida. Esse é o mesmo sentimento que reside em todos os grandes poetas da Antiguidade, ensinar ou alertar sobre a vida e seus perigos, sobre aquilo que pode ser sentido e talvez apenas pensado pela e na forma de poema e poesia. Ao poeta nunca faltou esse exercício de pensar a Vida. Diz Nauro:

É tudo estranho e vago nesta terra!
Ouço chorar o tempo nas esquinas
onde a morte se embrenha no que berra
triunfal entre ovelhas e vaginas.
Aqui cresceu meu sonho e o chão que o enterra
pisado vai por putas e meninas
que se ajoelham ante a aberta serra
rasgando em hímens o ouro de outras minas.
Se nesta terra aborto sonhos maus,
vestindo dias e noites nos calhaus
de escura mente – onde olho o mundo em ovo,
como fazer-me vou de fala, a minha,
a desenovelar de uma só linha
o fio imortal que me unirá ao meu povo?26

O poeta não pode render-se ao simples fato que o silêncio do seu povo o tortura,27 há também a revolta ou o distanciamento frente àqueles que não o compreendem. Nauro também revida, sendo irônico, mordaz, elementos difíceis de encontrar em sua poesia, já que a sua arte privilegia o tom austero e conciso, sua poesia se demora na experiência dolorosa e aturdida da vida. Numa paródia bem-humorada, Nauro expressa um canto a favor do exílio, um exílio que ironicamente o afaste de São Luís. Contrariamente ao poema que é patrimônio da literatura brasileira, escrito por Gonçalves Dias, Nauro em tom de paródia diz:

Não permita Deus que eu morra
Nesta terra em que nasci:
Que a distância me socorra
E com turbinas me corra
De quem minha nunca cri.
De que minha foi madrasta
Desde o início ao anoitecer,
Que como gosma emplastra
o infinito que desastra
Meu desespero de ser.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossos bosques têm mais vida.
Mas, somente a merecê-las,
Se abram os olhos que, ao vê-las,
Têm a córnea pervertida.
Nosso céu tem mais primores
Quando o crepúsculo baixa:
São os mendigos e as suas dores
Carregando nos andores
Como defuntos em caixas.
Onde cantou o sabiá,
Cantou outrora a cotovia.
E hoje cante, em outro ar,
Nenhuma ave, que as não há
Nesta terra, morto o dia.28

A poesia de Nauro é a confirmação de toda a sua atualidade, ao mesmo tempo em que se afirma como uma poesia que marca o devir fundamental da contemporaneidade, a saber: a ausência de morada para toda e qualquer representação, o conflito inerente que perpassa e inaugura toda a estética da modernidade, incumbida da tarefa infinita de interpretar e reassumir os paradigmas herdados da tradição e compreendê-los a partir de outras diretrizes, negando e afirmando, mas sempre pelo caráter crítico e corrosivo que caracteriza a empreitada dessa interpretação. O poeta é, de alguma forma, o andarilho privilegiado dessa era, pois a sua coragem é a de não deixar no esquecimento os centros decisivos de toda a existência humana. Pode ser considerada arte aquela que ainda pretende e encaminha o homem para compreender sua vida a partir de um sentimento de totalidade, não necessariamente de eternidade, mas de força e afirmação, seja do que é mais vil e ridículo, seja daquilo que pode ser considerado como mais elevado.

III

Sousândrade, segundo Sebastião Moreira Duarte, foi um dos primeiros poetas a assumir dentro de uma construção dita tradicional, no caso, a epopeia, um tema eminentemente moderno, essa sensação de ser “gauche na vida”.29 Tal como Nauro, Sousândrade foi também poeta marginal em sua época, sendo verdadeiramente descoberto por estudos bem posteriores à sua morte. Mas isso não o impediu de escrever um dos mais belos poemas da língua portuguesa, O Guesa, que narra as peripécias e aventuras de um homem sagrado. Guesa é aquele que viaja e trilha as mais diversas culturas, os mais diversos países, mas acima de tudo vivencia o caminho percorrido como a forma de encontro e descoberta de si – o Guesa errante é uma odisseia moderna. O Guesa é o andarilho, o peregrino, aquele que se desloca, que não possui pátria, pois sua pátria sempre está em um outro lugar. A estrada do Suna é a grande metáfora, o caminho por onde o Guesa se aventura e descobre o amor e a morte, sedimentando na sua vivência mítica os elementos concretos que nortearam a sua aprendizagem. É nessa estrada que se dá toda a sua odisseia e tragédia. Odisseia que se encarna em uma grande meditação, uma meditação que busca um sentido para o futuro, conquanto se entregue aos destroços do passado aquilo que foi e talvez não voltará. Eis aí o maior périplo poético, cortando as Américas e a Europa. Sousândrade, poeta-viajor, reflete sobre o destino dessas nações, junto ao destino do próprio Guesa que se estabelece na crença de que o destino, por mais obscuro que seja, inscreve-se de modo “Varonil”, “solitário e Verdadeiro”. O Guesa não é tributário do Velho Mundo, mas pertence às florestas virgens e selvagens da América. A estas palavras de Sousândrade retiro do livro de Sebastião Moreira Duarte que nos ensina que, em tempos de penúria, em tempos ruinosos e febris, a qualquer um é dada a possibilidade de “ser individualidade própria e a próprio modo acabada – enamorada e crente de si própria.” 30 Nauro Machado, na estrada do Suna, revela quão rica e poderosa ainda é a vivência poética, o quanto a poesia ainda inaugura e revela, pela sua força e enigma, novos mundos e significados, e como, na contramão de todo esse bulício que impera, a palavra é ainda fonte viva de transformação e sentido. Nauro:

Falhei de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde, em represália,
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
“de ti já sou, por fim, teu falso irmão”,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
Descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-me a mim – dela incapaz –,
mas sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
uma verdade feita de alfabeto. 31

NOTAS E REFERÊNCIAS

1 Diferenciamos aqui acabamento (Vollendung) de plenificação (Vollkommenheit). O acabamento consiste numa última configuração de uma determinada instância e a plenificação seria, inversamente, a possibilidade de abertura de um novo começo.

2 Pode-se considerar que a indiferença é o modelo de todas as ações do homem moderno. Este, talvez, já anunciado no Zaratustra de Nietzsche como o homem mais feio de todos, ou, como gosto de colocar, o último homem, o homem sem rosto, pois não se dirige a nada, não quer nada, cheio de desdém para com todos e para com tudo. O homem sem rosto seria o anti-humano oriundo do acabamento metafísico, ou melhor, o desvirtuamento do empreendimento metafísico.

3 CAVALCANTE, Márcia de Sá. Pelos caminhos do coração. In: Reflexões, Friedrich Hölderlin. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 1994, p. 15

4 GOMBRICH, Ernst. A História da arte. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 1999, p. 199.

5 Cf. TELES, MENDONÇA, Gilberto. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

6 VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p.41

7 Ibdem

8 Cf. VALÉRY, Paul. Discurso sobre a Estética. In: Teoria da literatura em suas fontes. Ver referência. (Org.) Luiz Costa Lima. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

9 MACHADO, Nauro. Funil do ser. São Luís: Edufma, 1995, p. 67

10 Lembro-me aqui do que Borges disse em uma entrevista concedida a Thiago de Mello. Após ter sido exilado da Argentina, durante o período ditatorial mais forte do peronismo, ele se encontrava na casa de um amigo que residia no México. Após o jantar, sentado na varanda, olhando a planície e o campo, sentia o fim do dia terno e morno. Dentro da casa tocava no aparelho um tango, ao escutá-lo Borges chorou copiosamente lembrando da sua Argentina. O tango o arrastou por uma profusão de sensações e pesares. Porém, nesse caso fica mais patente o poder dessa saudade quando o próprio Borges nos conta que ele detestava o tango, por considerá-lo uma música de baixo valor, por pertencer aos cabarés e prostíbulos da Argentina.

11 A Cultura é o Ópio do Povo (Editorial). In: O NÓ GORDIO, revista de metafísica, literatura e artes. Rio de Janeiro, N° 1, p. 5-6. Dezembro 2001.

12 DAVIS, William Myron [orelha do livro]. In: MACHADO, Nauro. Funil do ser. São Luís: Edufma, 1995.

13 LEÃO, Ricardo. Tradição e ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 2002, p. 349

14 SALLES, Fritz Teixeira [orelha do livro]. In: MACHADO, Nauro. Apicerum da clausura. Rio de Janeiro: Editora Cátedra; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1985.

15 MACHADO, Nauro.Parreirais de Deus. In: Jardim de infância. São Luís: Lithograf, 2000a, p. 103.

16______. A travessia do Ródano. In: Jardim de infância. São Luís: Lithograf, 2000b, p. 355.

17 Cf.______. Campo sem base. Rio de Janeiro: Revista Branca, 1958.

18 Cf. ______, 1995, p.18.

19 Cf. o comentário de Fábio Lucas In: MACHADO, Nauro. O pão maligno com miolo de rosa. São Luís: Lithograf, 2004.

20 MACHADO, 2002a, p. 79.

21 “Esta não é São Luís, a que é real./ Tua cidade, a buscas noutro espaço,/ entre milhões de postes telegráficos,/ e telefones, tumbas solitárias/ mostrando o número a dedos e ouvidos./ Trocando tudo, como desde a infância/ fazes no sangue, poço sem memória/ sobre cadáveres de velocípedes/ pedalando do outrora as tuas pernas,/ fica adiante a cidade que buscas./ Tua cidade, a buscas noutro nome: / Piqui chamada, a da Bocaina morta?/ A cidade de Deus, sem Campanella,/ não poderia jamais, mudada tanto,/ agora ser também de lepra igual/ a esta cidade que em sonhos visitas./ (Ou em pesadelo, tártaros sem dentes?)/ Teu pai trabalha um duplo esquecimento/ para o banquete à boca enfim vazia/ nesta cidade que em sombras visitas./ Nesta cidade estranha à que foi tua,/ nunca mais falará teu pai contigo” (Ibdem, p.22).

22 “Mostra a cidade à própria cidade!/ Mostra a cidade, sua ruína e fama,/ aos esplendores que o teu sexo invade/ na imunda boca sobre imunda mama. Abre-te toda! Mostra-nos tua idade:/ trezentos e mais anos! E derrama / – como mulher – tua cumplicidade/ de quem se entrega, nua, à tumba-cama./ Goza com ela, no teu orgasmo duplo,/ o que de mim te falta e que não supro/ multiplicado n vezes, em n’s. Abre-te toda, mãe despossuída,/ por mim levada no que a própria vida/ desbaratou em pó, em fezes, em pedra, em pênis.” (MACHADO, As Órbitas da Água. In.: Nau de Urano. São Paulo: Siciliano, 2002d, p.173).

23 “São Luís, Maranhão, lugar de vulvas,/ de partos longos como velocípedes/ correndo em dor na força de alheios bíceps/ entreabrindo estradas de anis curvas./ São Luís, Maranhão, lugar onde uivas,/ misérias astrais de infernais ourives/ trabalhando, em vez de ouro, só as varizes/ dos mortos sonhos das matérias ruivas./ São Luís, Maranhão, lugar de esgotos/ das ratazanas vis, de ratos outros,/ perambulando insones nos desvios./ São Luís, Maranhão, ó terra minha!, / onde nasci e onde bebo embriagado a vinha/ do Bacanga e do Anil, dois ébrios rios.” (MACHADO, op.cit., p.116)

24 “São Luís-Desterro-peste,/ presa a mim a qual pedra-pome:/ a de alguém que compromete/ com Deus seu próprio nome?/ Porque meu nome com n/ e de província restrita,/ é da solidão que infrene,/ pelo meu arrabalde grita,/ porque meu nome com n/risca o verso, assina a tumba,/ para que depois encene/ o drama que enfim o assuma/ Porque meu nome com n/ não se une com podre letra,/ não se mistura além, em/ verbo de outro, como em greta, (…).”. (MACHADO, 2004, p. 58,59).

25 “Cantar-te-ei, cidade, qual se amada/ fosses até o final dos que têm ossos,/ para, no amor, cantar-te desamada/ a destroçar-me ao chão dos meus destroços./ Cantar-te-ei, cidade, em todo e em cada/ imundo beco ou rua aos passos nossos,/ e em moribunda noite à madrugada/ trazendo o chumbo dos soluços grossos./ Cantar-te-ei, cidade, o início e o fim/ com todo o corpo. E até no podre rim/ carregado por crápulas fiéis,/ cantar-te-ei, de imunda, o Senhor-Morto/ me conduzindo ao cais do último porto,/ onde dormirei eterno sob teus pés.” (MACHADO, Nauro. A Travessia do Ródano. In: Nau de Urano. São Paulo: Ed. Siciliano, 2002b, p.45).

26 ______. Nau de Urano. São Paulo: Siciliano, 2002e, p. 130.

27 “Com o poder do povo não conto,/ para traduzi-lo em meu canto,/ embora o tenha em fome e carne./ Embora o sofra em minha boca,/ abrindo igual a qualquer outra,/ com sua metáfora e seu sêmen./ O poder do povo tem-no outros,/ como o tem do poder de esgotos,/ como o tem da aura do Poder.” (MACHADO, Nauro. Jardim de infância. São Luís: Lithograf, 2000c, p. 50).

28 ______. Melhores poemas. (Seleção de Hildeberto Barbosa Filho). São Paulo: Global, 2005b, p. 170,171.

29 Recomendo aqui a leitura da obra O périplo e o porto (DUARTE, Sebastião Moreira. O périplo e o porto. São Luís: EDUFMA, 1990). Com toda certeza Sebastião Moreira Duarte é mais um autor esquecido e exilado dos centros de conhecimento. Sebastião Moreira Duarte é dono de uma obra de crítica de extrema inteligência e perspicácia. Sua ausência dentro do currículo dos cursos, em especial em Letras, demonstra mais uma vez a penúria de nossas universidades.

30 DUARTE, 1990, p. 39.

31 MACHADO, Nauro. Nau de Urano. São Paulo: Siciliano, 2002c.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Carrinho de compras