RÉQUIEM PARA TRÊS MEMORÁVEIS

José Ewerton Neto

Cadeira nº 11

NAURO POETA, POETA NAURO*

Morto Nauro Machado, as declarações em louvor à sua memória não se demoraram em exaltações à sua obra poética, pois esta, já consolidada e sabida, disso não precisava. Com notável freqüência, aqui e ali se preferiu destacar alguns aspectos singulares de sua trajetória de vida, como escritor e, principalmente, como personagem de si mesmo, com toda a refulgente abrangência que, no seu caso, isso lhe propiciou.

De todas as excepcionais virtudes de seu talento múltiplo (era também ensaísta e cronista) nenhuma terá se estratificado mais no horizonte da imortalidade do que a de ter sido um poeta na verdadeira acepção da palavra (perdoem-me o clichê ), como hoje em dia já não há. Um autodidata que desde cedo, na juventude, incorporou e escolheu como objetivo maior de sua vida a dedicação ao exercício da poesia em sua totalidade e sem concessões. “A danação divina”, “a maldição benfazeja”, “o veneno da tristeza na alegria ou vice-versa”, enfim todas essas imposições que fazem parte do labor cotidiano de quem dedica sua vida a tanger os píncaros da glória, sabendo-se, no entanto, torturantemente preso às amarras de sua sina: essa dedicação solitária do escritor a um ofício que é duro, mas como dura! , como ele muito bem soube destacar em versos de quem vivia e sabia do que estava falando.

E que poucas vezes teve sua tradução artística expressa de forma tão escancarada e sublime como no filme Infernos, de Frederico Machado, seu filho, quando este conseguiu, com raro talento, captar todo esse formidável compromisso de um artista (seu pai) para com sua vocação. Ali estão o poeta andarilho, os livros que amava, a febril intensidade de sua vocação, a pulsação de seus versos em sua voz, o desapego às formalidades e às convenções quando em busca de sua liberdade poética, e a fotografia da incorporação das ruas e luzes da cidade como personagem dessa sua cruzada, de forma tal que, em contrapartida, acabou se tornando, ele mesmo, personagem de sua cidade, como destacaram alguns. Nauro Machado foi magnificamente feito ator de si mesmo, nesse curta-metragem tão premiado, evocando em seu roteiro, mesmo sem citação, os famosos versos de Fernando Pessoa : “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” Quem o sucederá?

Conversávamos, eu e alguns amigos escritores, sobre essa impossibilidade. Uma plêiade de notáveis poetas continua, graças a Deus, a ritmar a pulsação do coração poético da ilha, de forma que, quer queiram quer não, quer insistam em desfigurá-la ou não, esta jamais se dissociará de seu destino de ser a Atenas Brasileira. No entanto, o formato de alguém transformado em sinônimo da poesia a ser apontado nas ruas por mendigos, desvalidos, boêmios, intelectuais, ou simplesmente fantasmas do cotidiano, que apontavam a Nauro Machado como se aponta a alguém de quem se percebe a aura de uma significância impalpável, já não existirá mais.

Pois os tempos modernos são plenos de velocidade, instabilidade, fragmentação e disputa pela sobrevivência e de espaço nas ruas e nas redes sociais. A poesia continuará jorrando nos intervalos dessa azáfama, mas não se espera que se aproprie e se concentre em determinados indivíduos motivados a fazer mais que de suas vidas poesia (como fez Rimbaud, por exemplo, em certa fase de sua existência), da poesia suas vidas. Como cumpriu Nauro Machado, poeta.

O EXISTIRMOS DE JOMAR MORAES**

EXISTIRMOS: a que será que se destina? Se pensarmos na existência da humanidade, como um todo, não se encontrará resposta fácil para esta questão na ciência, sendo necessário que nos socorramos da religião e da fé como solução para esta indagação tão vital, mas tão secundarizada no dia a dia dos homens. “Não se preocupe em entender, a vida é absurda!”, já sentenciava Clarice Lispector.

Diante das falas emocionadas das últimas homenagens prestadas a Jomar Moraes (não cabe aqui a descrição de sua rica biografia tão conhecida de todos) por representantes da AML, da sociedade, amigos e parentes, ficou-me a convicção de que o “existirmos” de Jomar Moraes se destinou, por vontade própria, à cultura e aos livros, usando como veículo para a consumação dessa sina, por ele escolhida, a AML, instituição à qual dedicou quase uma vida inteira.

Ao enfatizarem essa simbiose, os confrades Benedito Buzar,presidente da AML, e Lourival Serejo, em ocasiões distintas, sugeriram que Jomar Moraes tantas vezes tivesse sido a própria AML, enquanto teve vida para incorporá-la, no exercício dessa capacidade de encontrar essa destinação, tão rara em muita gente, que motiva a própria existência. “O segredo da existência humana consiste não apenas em viver mas em encontrar um motivo para viver”, disse o escritor russo. O resto (e como foi grande este resto!) foi, entre outros dons, a sua generosidade tão decantada e exaltada pelos parentes e amigos.

No meu caso, essa generosidade se manifestou através de uma amizade de raízes antigas e familiares (meu pai Juvenil Ewerton aprendeu a tocar saxofone com o seu genitor Alípio de Moraes, que era músico e compositor) e facilitou-me a posterior inclusão na vida literária maranhense, primeiro ao possibilitar a publicação, pelo extinto Sioge, que dirigiu, do meu primeiro livro de poesias chamado Estátua da Noite quando, vindo da adolescência, eu não sabia que podia vir a ser poeta e, depois, ao enviar para o escritor e cineasta José Louzeiro, sem que eu soubesse, os originais da novela O prazer de matar que, depois de uma resposta encorajadora e entusiasmada do consagrado escritor maranhense, mostrou-me que eu podia vir a ser escritor.

“Pois quando tu me deste a rosa pequenina” é o verso seguinte de Caetano Veloso, que sucede ao verso-indagação do início desta crônica e que pertence à, talvez , sua mais bela composição, o xote Cajuína, que por sua vez foi composta em homenagem ao poeta e compositor piauiense Torquato Neto, precocemente morto. Esse verso, que não é uma rima e, muito menos, uma solução, como diria Drummond, sugere que o “existirmos” de determinadas pessoas, quando especiais (por terem encontrado a sua destinação), complementam e ajudam o “existirmos” de tantas outras. O que também foi evocado pelo escritor Chico Poeta em homenagem póstuma a Jomar Moraes durante suas exéquias, quando exaltou jamais haver se constrangido, pelo contrário, sempre se orgulhou, de ter usufruído e tirado proveito dessa generosidade intelectual de Jomar Moraes, uma “biblioteca ambulante” a serviço da comunidade, como eu também me referi , em entrevista no mesmo dia de sua morte , reproduzida nas páginas do jornal O Estado do Maranhão.

Pois foi essa rosa cristalina da esperança na cultura e nos livros, que densamente povoou o seu “existirmos”, que ele espalhava para iluminar a destinação de tantos outros, como eu, no rumo da vocação literária ou artística, a que repousava, entre outras rosas que lhe foram presenteadas em seu ato final; oferendas recíprocas que levou em sua viagem, no rumo de sua, agora sim, imortalidade.

UBIRATAN TEIXEIRA***

“Enfim, um escritor sem estilo”, assim Millôr Fernandes anunciava suas páginas humorísticas, ironizando o meio literário a que pertencia, onde o estilo decantado de alguns escritores era uma espécie de grife, ao seu modo de ver, risível. Millôr não foi o primeiro; já havia, em São Luís, Ubiratan Teixeira, mas não porque sua escrita não tivesse estilo próprio, mas porque assim parecia se proclamar, sem nunca tê-lo dito, ou, talvez, pensado. Era, certamente, um escritor sem estilo (no sentido libertário de não se prender a nenhuma amarra intelectual) até mesmo por causa de sua versatilidade cultural: repórter, jornalista, teatrólogo, crítico, cronista e romancista.

E, no entanto, pelo menos na crônica (matéria que entre aquelas que abraçava me insinuo por dever de ofício), Ubiratan tinha um estilo inconfundível. Não carecia de assinatura em qualquer um de seus textos para que o leitor intuísse que, nas entrelinhas daquela disposição de letras e palavras, vibrasse um Ubiratan Teixeira, cujas ressonâncias mais recorrentes eram a disposição do enfrentamento, o libelo contra injustiças literárias, o apego à cultura genuinamente maranhense, a verve iconoclasta e a disposição de se situar à margem dos “refinados ou bem-nascidos”, com um estilo (olha aí o estilo) irreverente e direto, suportando um Eu, por vezes exacerbado em sua disposição de colocar-se na linha de tiro, tendo ao fundo personagens que tornava o mais possível fictícios, mesmo que fossem reais: a tal da recriação da realidade.

Essa tal recriação da realidade, que é o calcanhar de Aquiles de todo escritor, especialmente do cronista, quando o domínio da linguagem por si não é suficiente para reinventar o fato corriqueiro. Ubiratan Teixeira certamente tinha esse dom, extraído de suas idiossincrasias que o faziam também, no conto e no romance, galgar patamares mais elevados, como quando atingiu, talvez, o ápice de sua arquitetura literária ao compor a pequena novela Vela ao crucificado, cuja dimensão simbólica de denúncia contra a injustiça social foi de tal dimensão que alargou-se a ponto de estender-se ao teatro e ao cinema quando se tornou, pelas mãos do cineasta Frederico Machado, um curta-metragem que granjeou, com justiça, vários prêmios nacionais e internacionais.

Essa inquietação cultural em Ubiratan, resvalando na paixão, estendia-se de modo especial ao teatro. Sei pouco da matéria, porém o suficiente para inferir que ele era uma de suas mais preciosas referências locais, mormente porque exercia, entre outras facetas desse gênero, a condição de crítico teatral. Mesmo papel que praticou no jornalismo cultural, onde talvez tenha sido o último crítico literário regular deste estado. E foi exercendo esse ofício que ele, com o título de O Bom Livro Maranhense, destacou, um dia, o livro deste cronista O Oficio de Matar, imediatamente depois de republicado pela editora Revan, do Rio, o que muito me envaideceu, pelo inesperado do fato e pela autenticidade conhecida do seu autor. Penso que foi a partir desse dom de agudeza literária, que ele se bateu, meio desordenadamente, talvez, contra a indiferença com que sempre foi tratado pelos departamentos de ensino das escolas desta terra, o conteúdo literário aqui produzido. Cansei de ver em suas crônicas, como uma voz que clama no deserto, o lamento contra essa opacidade de visão que fazia – e faz – com que por aqui o texto literário de um autor maranhense seja tratado com indiferença pelos que selecionam o material paradidático de nossas escolas, mesmo que o texto seja de melhor qualidade que os de fora, tenha recebido prêmios ou tenha sido distinguido no sul do país.

(A propósito, que tal escolher o conto citado acima, Vela ao Crucificado, como matéria de leitura curricular dos estudantes já para o próximo ano, caros professores e diretores de escolas maranhenses? Assim se prestaria uma homenagem póstuma ao escritor e se demonstraria, para bem do aprendizado dos alunos, que o insistente reclame de uma de suas vozes mais vibrantes não deixou de ecoar).

Ferreira Gullar, poeta de sua geração, quando perguntado uma vez sobre o motivo por que escrevia, respondeu que era porque a vida não bastava. E repetiu isso outras vezes como se tivesse descoberto, num achado originalíssimo, a solução da questão. Ora, qualquer cientista ou estudioso sabe que não só para escritores, como também para o mais mísero organismo vivo, a vida não basta, tanto assim que luta desesperadamente para viver – e sobreviver, sem que a consciência sequer do que seja a vida lhe seja minimamente palpável. Portanto, não é essa a resposta. Prefiro, como indução de resolução, para essa e outras questões, a frase extraída do livro O Quarto do bispo, do escritor italiano Piero Chiara, quando este, num belo momento, resume toda a aventura humana nas palavras “A gente vive e ama onde está, como pode, e quando a situação se apresenta”.

Ubiratan Teixeira amava a literatura ao seu modo, como podia, e quando a situação se apresentava e, a partir daí, agora sim, fez com que a vida não lhe bastasse, o que lhe permitiu passar a fazer parte do ilustre panteão dos maranhenses, cuja glória extraída do amor aos livros

*Publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 14.06.2014

**Publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 04.12.2015 ***Publicado no jornal O Estado do Maranhão,em 18.08.2016

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