O CENTENÁRIO DE ARNALDO FERREIRA

Benedito Buzar
Cadeira nº 13

Arnaldo de Jesus Ferreira nasceu em São Luís no alvorecer do século XX, a 6 de outubro de 1904, quando o Brasil procurava consolidar as suas instituições republicanas e o Maranhão desejava ajustar as suas estruturas políticas, econômicas e sociais ao novo modelo advindo da erradicação do regime monárquico e do sistema escravocrata.

Filho do português Antônio José Ferreira Júnior, que com 11 anos de idade, e sozinho, no final do século XIX, deixou as terras lusitanas para tentar ganhar a vida no Brasil e enriquecer, em aqui aportando, fincou âncoras em São Luís e como todo o português que se prezava, buscou o comércio para ganhar o pão de cada dia. Dedicado ao trabalho e com enorme força de vontade, conquistou um lugar ao sol no cotidiano da cidade, a princípio como balconista, numa firma instalada na Praia Grande, cujo dono era um patrício.

Com o passar dos anos, alcançou dois objetivos: primeiro, ficou rico e criou o seu próprio estabelecimento comercial, a firma Ferreira & Cia; segundo, casou, a 8 de setembro de 1903, com a maranhense de boa estirpe Ruth Machado de Jesus Ferreira, com a qual, além de Arnaldo, o primeiro pela ordem cronológica, teve mais quatro filhos: Alberto, Carlos, Sebastião e Maria José.

O pai de Arnaldo, ao matriculá-lo no Instituto Maranhense, para aprender a ler e a escrever, também o colocou para trabalhar na sua firma e fazendo a mesma coisa que ele ao chegar em São Luís: ser balconista.

Inteligente e sagaz, o filho de Antônio José deu conta dos dois recados: estudava com afinco, enfronhando-se cada vez mais no universo das letras, e revelava, também, fantástica vocação para o comércio, fazendo com que o pai se orgulhasse dele e não escondesse a esperança de que seria, no futuro, um comerciante de mão cheia, pois talento, tino e capacidade de trabalho não lhe faltavam.

Com pouco mais de vinte anos, Arnaldo projetou-se nos estudos e na atividade comercial, a ponto de ser diplomado contador, à época, profissão que todo jovem maranhense desejava, razão pela qual foi guindado a sócio e fundador de uma nova empresa criada pelo pai: Ferreira, Irmãos & Cia, também localizada na tradicional Praia Grande. O crescimento da firma, mercê do impulso dado a ela pela ação dinâmica e renovadora de Arnaldo, foi de tal forma estrondoso, que não demorou muito tempo para se transformar em uma das mais organizadas e fortes de São Luis.

Bem sucedido na faina comercial, faltava-lhe, contudo, um ingrediente para completar a sua felicidade. Encontrar uma moça para namorar, noivar, casar, enfim, ser a sua inseparável companheira, com a qual construiria um lar e ter os filhos que sonhava. Essa moça, um dia, apareceu na sua vida e teve com ela um relacionamento tão afetuoso, que, a 8 de setembro de 1926, com 22 anos, a levou, evidentemente com o consentimento dos pais, o português Raimundo Antônio Macieira e Ana Augusta dos Reis Gomes Macieira, à presença de um padre e de um juiz, perante os quais prometeu juras de amor e contraiu matrimônio. Seu nome: Amélia dos Reis Gomes Macieira, irmã dos médicos Carlos e Guilherme e do engenheiro Emiliano. Desse casamento, nasceram os filhos Murilo e Maria Lúcia.

TEMPOS DE EMPRESÁRIO

A marcante presença da firma Ferreira Irmãos & Cia na cena comercial de São Luís e a ascendente projeção do sócio Arnaldo Ferreira na condução dos negócios da empresa fizeram com que ele, a partir de 1933, começasse a desempenhar ações junto às chamadas classes produtoras, na função de diretor da Associação Comercial do Maranhão, entidade que, pelo que representava como força produtiva e poder de fogo político que detinha, era constantemente convocada pelas autoridades governamentais a oferecer opiniões e sugestões relacionadas aos interesses públicos, principalmente nas questões orçamentárias, encaminhadas à Assembléia Legislativa.

Entre 1936 e 1945, fez-se figura proeminente das diretorias da Associação Comercial do Maranhão, ocupando invariavelmente o cargo de tesoureiro, em razão da facilidade no trato com assuntos financeiros. Nesse período, o Brasil vivia sob a égide da ditadura getuliana e o Maranhão era administrado por interventores. Nem por isso, a diretoria da ACM deixou de travar diversas lutas contra os que se encontravam à frente do poder, pois não admitia que os eventuais governantes interferissem nos assuntos da instituição, sobretudo quando desejavam manipulá-la ou aumentar e criar impostos, sem ser consultada.

As ações desenvolvidas por ele foram de tal modo marcantes que levaram os comerciantes a convencê-lo a aceitar o cargo de presidente da entidade, que precisava de um líder audacioso, hábil e competente, haja vista que o país estava deixando a fase autoritária para retornar à democracia. Dessa forma, Arnaldo Ferreira aceitou a incumbência e tornou-se presidente da Associação Comercial do Maranhão, durante 13 anos, ou seja, de 1945 a 1958, ao longo dos quais a entidade enfrentou questões desafiadoras, advindas do processo de reconstitucionalização e das iniciativas deflagradas no campo econômico, após o término da II Guerra Mundial.

Com efeito, por decisão e convocação da Federação das Associações Comerciais do Brasil, a Associação Comercial do Maranhão, capitaneada por Arnaldo Ferreira, se fez presente na Conferência de Teresópolis, quando foram discutidas providências destinadas à normalização da vida econômica do país.

Nessa linha de raciocínio, a diretoria da ACM, na tentativa de soerguer a economia estadual, celebrou convênio com o Governo do Estado, mediante o qual seriam abertas estradas vicinais, para facilitar o transporte de mercadorias e gêneros de primeira necessidade, além da distribuição de sementes e venda de ferramentas a preço de custo aos lavradores e da prestação de assistência médico-sanitária, nas regiões banhadas pelos rios Itapecuru, Mearim e Pindaré. Posteriormente, o convênio foi revogado em função da criação da Campanha da Produção, sem a participação financeira do Estado e mantida com recursos das empresas.

Paralelamente, fomentou a fundação de Associações Comerciais no interior do Estado; instalou em São Luís a Delegacia Estadual do Senac e do Serviço Social do Comércio; criou a Campanha dos Mil Sócios; restabeleceu São Luís como porto de escala dos navios do Lloyd Brasileiro, cuja supressão causara prejuízo à importação e exportação; adotou o Plano de Melhoria do Algodão e do Arroz; introduziu um programa de modernização do parque têxtil do Maranhão; lutou contra a ameaça do governo dos Estados Unidos de proibir ou dificultar a exportação do óleo de babaçu para aquele mercado; criou o Programa da Economia Maranhense, para orientar o comerciante do interior; implantou o Conselho de Contribuintes do Estado, promoveu a I Conferência das Classes Produtoras do Maranhão, instalou o Instituto do Maranhão, para receber assistência técnica e financeira da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (Programa Ponto IV); estimulou a abertura de agências bancárias no Maranhão, destinadas à democratização do crédito.

TEMPOS DE CULTURA

Em que pese a sua integral dedicação aos negócios privados e às atividades na direção da Associação Comercial, Arnaldo Ferreira não se descuidava das coisas do espírito e dos assuntos culturais, pois desde a adolescência era um grande devorador de livros, priorizando os clássicos da literatura brasileira e estrangeira. Por conta disso, orgulhava-se de possuir a maior biblioteca particular de São Luís, em qualidade e quantidade, a qual, depois de sua morte, foi doada pela família ao Departamento Regional do Sesi. Cultor, portanto, das belas-letras, ainda jovem, começou a militar na imprensa maranhense, defendendo sempre com denodo as boas causas através de artigos, muito dos quais sob o pseudônimo de João Maranhense. Mas não colaborou apenas nos jornais e revistas de São Luís (O Imparcial, Tribuna, Diário do Norte, O Combate, Diário de São Luís, O Globo, A Pátria, Jorna do Povo e Atenas), colaborou também em periódicos de outras partes do país, escrevendo acerca de temas econômicos, literários, artísticos e históricos.

Além dessa produção jornalística, publicou obras de extraordinária importância para a historiografia maranhense, como Notícias sobre Frei Cristóvão de Lisboa, Problemas maranhenses, Alcantarenses do século XVII na Companhia de Jesus, Dias Carneiro e Souza Bispo, Atualidade de Vieira, Jesuítas do Maranhão e Grão-Pará.

Pelo fato de ser um intelectual renomado e prestigiado aqui e alhures, tornou-se membro de relevantes instituições culturais, dentre as quais a Sociedade de Cultura Artística do Maranhão, de que foi vice-presidente e presidente; consultor técnico do Diretório Regional de Geografia, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e da Academia Maranhense de Letras, eleito, para esta última instituição, em 15 de fevereiro de 1951, e empossado a 8 de setembro do mesmo ano, para a Cadeira Nº 27, patroneada por Dias Carneiro e vaga pelo falecimento de Souza Bispo.

No seu discurso de posse, exortou: “Quero crer que, além do fator amizade, outro vos norteou ao aceitardes a minha candidatura – o de homenageardes a classe a que pertenço, o de distinguirdes, embora através de um de seus mais humildes representantes, esses homens tão caluniados e que tanto contribuem para a riqueza e o desenvolvimento do nosso querido Brasil.”

Ao saudá-lo, em nome da Casa de Antônio Lobo, o acadêmico Pedro Braga Filho enfatizou: “Afeito ao trato do comércio e da indústria, não escapou à vossa argúcia de historiador bem-intencionado e honesto o ambiente em que se desenrolaram os feitos históricos e a todos eles – fatos e personagens – soubestes sempre, com entusiasmo, dar o devido lugar, pesquisando-lhes a origem, medindo-lhes a impressão e interpretando-lhes – dos fatos e dos personagens – as consequências e as atitudes.”

TEMPOS DE OUTRAS ATIVIDADES

Levando em conta que o seu desempenho à frente da Associação Comercial do Maranhão era sobremodo marcado pela seriedade, honestidade e competência, Arnaldo Ferreira recebeu convite para ocupar cargos importantes na administração pública estadual e em organizações não governamentais. Quando o interventor Saturnino Bello, também empresário, assumiu a chefia do Poder Executivo do Maranhão, no período de transição da ditadura para a democracia, o convocou para cumprir duas relevantes funções: gestor da Secretaria de Fazenda e Produção, e presidente do Banco do Estado do Maranhão. Os substitutos de Saturnino Bello, respectivamente, Elizabetho Barbosa de Carvalho, Sebastião Archer da Silva, César Aboud e Eugênio Barros, o mantiveram na presidência do BEM.

Em setembro de 1952, após seis anos prestando inestimáveis serviços àquela instituição de crédito, Arnaldo Ferreira renunciou à presidência do Banco do Estado. No relatório encaminhado aos acionistas, em contundente libelo, afirmava que apesar do seu esforço, “[n]ão [encontrou] o menor apoio de parte dos governantes, parecendo, assim, que a função do Banco do Estado, como elemento de auxílio às classes que movimentam a riqueza pública ainda não foi bem compreendida pelas autoridades a quem compete promover esse intercâmbio.”

Mas a biografia de Arnaldo de Jesus Ferreira, tão rica de bons e sadios exemplos, não se esgota apenas nas atividades, cargos e funções acima apontadas. No curso de seus 54 anos de vida, participou altiva e ativamente de várias outras ações, no exercício das quais mostrou sempre ser um homem que correspondia às expectativas que dele se esperava. Ao colaborar e prestar serviços em órgãos ou instituições, como a Legião Brasileira de Assistência, Junta Comercial do Maranhão, Justiça do Trabalho, Centro Caixeiral, Associação dos Empregados no Comércio de São Luís, Asilo de Mendicidade, Sindicato do Comércio Atacadista de Gêneros Alimentícios de São Luís, Conselhos Deliberativos do Sesc e do Senac, deixou a força da sua determinação, da sua eficiência, do seu dinamismo e do seu talento empreendedor. O seu falecimento ocorreu na madrugada de 13 de outubro de 1958, exaurido por uma enfermidade que o atacara impiedosamente. O seu desaparecimento, pelo que representava como figura humana querida, estimada e respeitada, causou um enorme impacto nos meios empresariais e culturais do Maranhão

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