KAFKA LEU E GOSTOU

Ronaldo Costa Fernandes

Cadeira nº 31

Kafka gostava de Walser. Benjamin gostava de Walser. Estas duas opiniões fizeram com que Robert Walser, autor suíço do princípio do século XX, não fosse esquecido e, mais ainda, tivesse o aval de um transgressor e de um crítico de visão acuradíssima. Mas em Robert Walser, de O ajudante, não há a transgressão kafkiana. Seria o curioso caso de se perguntar por que razão Kafka, cuja literatura diverge da de Walser, vai abonar o escritor suíço. As respostas poderiam ser muitas. Mas causa estranheza que um romance “realista”, de costumes, possa ter agradado a quem via a realidade de uma maneira deformada, alegórica, destoante e fantástica.

A história de O ajudante tem por cenário uma bucólica região campestre, onde um empresário sonhador, Tobler, contrata para serviços de escritório um ajudante de nome Joseph. O narrador cola-se ao personagem principal e, embora conheça as reações e angústias dos outros personagens, aprofunda-se na mente do ajudante. Joseph é sonhador, ingênuo e frequentemente devaneia.

Suas observações, embora corretas, são expressas numa forma cândida, como um menino grande. Esta é inclusive a forma de escrever de Walser: um estilo comedido, sem grandes arroubos ou construções, apenas restrito ao relato pueril de Joseph. O que dá certa graça ao romance é justamente o contraste entre a “empresa” do sr. Tobler que se afunda em dívida, o mundo real de sua família, e a visão idílica do seu secretário que vê beleza e encantamento até mesmo na névoa do rigoroso inverno.

Desconhecido do público brasileiro, Walser escreve até os cinquenta anos. Depois, até sua morte, em 1956, aos 78, ficará internado em clínicas psiquiátricas. É encontrado morto, no Natal, caído na neve. Embora com grande repercussão em sua época, Walser entrará num limbo na literatura de língua alemã, só mais recentemente redescoberto. É um resgate frutífero, desses que a crítica dizia não ocorrer mais, porque estavam aparelhados para não incorrer em preconceitos que fizeram renegar as vanguardas de todos os tempos.

O ajudante é um livro publicado em 1908 e poderia ser considerado uma novela longa, já que o narrador prende-se a um só personagem e, linearmente, o acompanha até o final, numa linha reta narrativa, desprovida de polifonias ou escritura mais elaborada. Walser apostou todas as cartas – talvez apostar não seja o termo para um escritor que não revia seus textos e era perseguido pela sombra familiar da loucura – todas suas cartas, repito, no vigor da narração pura e simples.

Joseph, o ajudante, aos poucos deseja fazer parte da família, sente-se integrante da natureza em volta, da casa aconchegante, intromete-se nos assuntos profissionais e familiares de modo pouco ortodoxo. Esta disfunção entre empregado da empresa e pretenso membro da família não assumido cria uma atmosfera de conflito sutil que conduzirá a trama a seu desfecho final. A ironia, sempre a ironia, é que vai desfazer o ar sério e de crítica à família burguesa que existe no romance, mas não nos parece o foco central do romance.

Joseph é um intruso na família burguesa. Um ser invasor na paz da família, mesmo derruída pelo adultério da mulher e falência financeira do marido. Este ser intestino que, ao final percebe a fragilidade do mundo que elegeu como ideal e pacífico, mostra uma certa perplexidade frente a um quadro que pintou e, afastando-se para ter uma melhor perspectiva, percebe que não é aquilo que projetou imprimir na tela.

O livro de Walser tem um lado moderníssimo: pouca trama. Mas é só. O romance se inicia com a chegada do ajudante na casa do Sr. Tobler e acaba quando, desiludido, o ajudante parte. Pouca coisa acontece para um romance de 1908. Não há fatos extraordinários, mudanças de clima ou enredo, peripécias. É uma narração monocórdia, linear e “ingênua”. Se Machado – contrariando um germanófilo que odeia a literatura brasileira – escrevesse em alemão, o seu Memorial de Aires (que é o livro mais fraco da segunda fase) talvez enlouquecesse mais ainda os leitores como Kafka. Mas Machado escreveu em língua periférica, num país periférico. Walser, pelo menos com seu Oajudante, se não é um dos grandes pré-modernos, encanta, existe aqui uma magia além do cânone.

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