HOMENAGEM A BANDEIRA TRIBUZI

Raízes Franciscanas de um Grande Vulto da Cultura Luso-Brasileira

P. Vitor Melícias, OFM

 (Ministro Provincial OFM,

Acadêmico da Academia Internacional de Cultura

Portuguesa e da Academia Portuguesa de História)

NESTE FIM DE TARDE de 3 de outubro, precisamente dia e hora em que, em 1226, Francisco de Assis, poeta e santo, entrava na glória do Paraíso e da História, é com emoção, podem crer, que, em comunhão com a multidão de Irmãos Franciscanos que, em todos os conventos espalhados pelo mundo, agora mesmo, estão cantando o Trânsito do Poverello (ou passagem de São Francisco à outra vida), aqui, envergando o burel seráfico, sob o honroso colar da nossa Academia, desejo homenagear o tempo e modo franciscano de um grande vulto da cultura luso-brasileira: Frei José Pinheiro Gomes, ou Bandeira Tribuzi, seu posterior pseudônimo literário.

Em 26 de março do corrente ano de 2012, presidindo a sessão solene do Senado brasileiro, comemorativa dos 90 anos do Partido Comunista do Brasil, José Sarney, antigo Presidente da República Federativa do Brasil e emérito acadêmico desta nossa Academia Internacional de Cultura Portuguesa, proferiu um importante discurso a propósito da sua “longa proximidade com o Partido Comunista”, e afirmou:

Bandeira Tribuzi – José Ribamar Pinheiro Gomes – um dos
cinco maiores amigos que tive em minha vida, tinha chegado de
Portugal.
Seu pai, velho comerciante português do Maranhão, ia à missa
das cinco horas da manhã na igreja do Carmo, para depois ir abrir
seu armazém. Mandou Tribuzi para um seminário franciscano
em Portugal. Ele o cursou e a ele deveu seu sólido conhecimento
de humanidades.
Um dia Tribuzi não aguentou mais ser frade, fugiu para Paris
e ali desapareceu. Depois de dois anos, seu pai conseguiu
recambiá-lo para São Luís e colocou-o a trabalhar no Armazém
Pinheiro Gomes. Da Europa trouxe suas ideias marxistas. Entrou
a doutrinar-me. Tudo me parecia muito correto, fascinante, mas
tinha um ponto que me afastava. Era o tema religioso. […] Eu e
Tribuzi estivemos juntos pelo resto da vida. […]
Governador do Maranhão, em plena vigência do regime militar,
fiz de Tribuzi meu principal auxiliar. Sem ele muito do que
realizamos seria impossível. Resisti a todas as pressões para
afastá-lo.

Comecei, ilustres acadêmicos, senhoras e senhores, por evocar este discurso de Sarney, porque ele esteve na origem e razão de estarmos aqui hoje.

Numa das minhas visitas, como Ministro Provincial dos Franciscanos, ao Convento de Penafiel, em abril deste ano, o então aí residente Padre Arlindo Barbosa, escritor e poeta, entretanto falecido a 20 de maio de 2012, que fora meu professor de português no seminário – um dos melhores professores que tive em toda a vida, como há dias declarei ao Diário de Notícias – veio dizer-me:

O ex-presidente do Brasil, José Sarney, fez há dias um elogio a um poeta brasileiro que foi antigo franciscano da nossa Província, e meu colega

O ex-presidente do Brasil, José Sarney, fez há dias um elogio a
um poeta brasileiro que foi antigo franciscano da nossa Província,
e meu colega na Filosofia, em Montariol. Já na altura ele escrevia
poesia e outras coisas, que publicava na Escola Franciscana –
revista interna dos estudantes de Filosofia, exemplar único que
circulava entre os professores e estudantes. Seria interessante
que algum dos nossos Frades investigasse e recuperasse o que
aí houver.

Fui no encalço. Além do Arquivo da Província, onde se encontra ao pormenor todo o seu processo individual – incluindo a certidão de batismo, o registo de entrada no colégio, todas as notas de estudos e de comportamento, atas, por ele manuscritas e assinadas, de tomada de hábito, emissão e renovação de profissão religiosa, etc. – encontrei escritos seus, inéditos para o exterior, tanto naAlvorada Missionária, revista interna do Colégio Seráfico de Montariol (Braga), que ele frequentou entre 1937 e 1942, como na Escola Franciscana, revista do Coristado, isto é, dos professos estudantes de Filosofia, também em Montariol, neste caso entre 1943 e 1945

O jovem Pinheiro Gomes, sonhador e poeta, não podia não ter sorvido nos ares franciscanos de Montariol aquele sentimento “comunista” de opção preferencial pelos pobres, ao jeito do comunitarismo dos Atos dos Apóstolos, que levou muitos a classificarem Cristo, ou mesmo Francisco de Assis, como “o primeiro comunista”.

Em sintonia com o melhor pensamento e filosofia econômica da Escola Franciscana, na defesa do pobre e da doutrina do destino, ou vocação, universal de todos os bens, seguramente diria, com Pedro Olivi e Guilherme de Ockham – grandes mestres da economia ao jeito de Santo Antônio de Lisboa e de São Bernardino de Sena –, “tudo é de todos, antes de ser e mesmo já sendo de alguém”, pelo que, por este título de propriedade universal, radical e originária, o primeiro a ter direito de usar os bens é aquele que em extrema necessidade deles precise.

JOSÉ TRIBUZI PINHEIRO FERREIRA GOMES nasceu em São Luís do Maranhão em 2 de fevereiro de 1927, filho do português Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes e da brasileira de ascendência italiana, Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes.

Aos cinco anos, em 1932, vem para Portugal, para Travassô (Águeda), de onde era natural seu pai, que ali tinha casa e família que visitava com frequência.

Dito com a graça com que Bandeira Tribuzi o escreveu no poema Breve memorial do longo tempo (uma espécie de “história da minha vida em verso”, escrita em 1977, ano da sua morte):

Adeus. Lá vou
para o exílio português
navegando pelo patriotismo de meu pai
que desconfia das letras brasileiras
e gostaria que todos os filhos
nascidos no Brasil fossem bons portugueses
até no sotaque com que ele
resistia aos seus sessenta anos brasileiros

O pai, profundamente religioso, que a memória coletiva dos franciscanos portugueses ainda hoje inclui entre os maiores benfeitores de sempre, e a quem o Boletim Mensal, órgão oficial da Província, em fevereiro de 1942, a páginas 51, se referia como “o nosso ilustre Amigo e Terceiro Franciscano de Travassô (Águeda)” (sabemos que o seu sonho era que houvesse em Travassô cinco franciscanos, tantos quantos os Mártires de Marrocos, padroeiros da freguesia), orientou-o para os Franciscanos, onde estudou durante cinco anos Humanidades (1937-1942) no Colégio de Montariol, em Braga, tomou hábito e fez um ano de Noviciado (1942-1943), em Varatojo, Torres Vedras, e, de novo em Montariol, completou o curso de dois anos de Filosofia (1943-1945).

Dos arquivos da Província Portuguesa da Ordem Franciscana, em Lisboa, e dos do Colégio de Montariol, em Braga, além de fotografias constam todos os seus dados pessoais atinentes, desde a “Certidão de Batismo”, em 19 de março de 1927, na Capela do Hospital Português de São Luís do Maranhão, à “Declaração de Não Impedimentos para entrar na Ordem”, com a curiosidade de vir datada de 12 de novembro de 1942, constando dos arquivos – como refere o Padre Henrique Pinto Rema nos Apontamentos da Crónica da Província –, que o Ministro-Geral autorizou a sua entrada no Noviciado antes de chegar esta declaração do Arcebispo de São Luís, pelas dificuldades de correio com o Brasil, e por ele já viver em Portugal desde os cinco anos –, bem como todas as notas de estudos, de aplicação e de comportamento obtidas.

Encontram-se, também aí, o “Termo de Admissão ao Noviciado” e o “Termo de Tomada de Hábito”, onde, em nota marginal, se pode ler: “secularizou-se em VIII de 1945”, bem como o “Termo de Profissão e de Renovação de Votos” e o pedido de dispensa dos votos, em 25 de julho de 1945, concedida em 12 de agosto desse mesmo ano, conforme documento original a ele anexo.

Aluno absolutamente regular, um tanto acima da média em classificações escolares e com bom comportamento, Ó(timo) em Música e aluno de 17 e 18 em História e Geografia, os colegas recordam o jovem poeta como educado, elegante e simpático. Formou-se em ambiente propício ao estudo, à concentração e à leitura.

Na arte de bem escrever e bem dizer teve bons mestres e colegas mutuamente estimulantes.

O seu principal professor de Português, então simultaneamente Professor e Reitor do Colégio Seráfico, e mais tarde Ministro Provincial, Padre Fernando Félix Lopes, era escritor de fino recorte literário, e foi ilustre acadêmico da Academia Portuguesa de História, que postumamente lhe publicou a Obra Completa em três preciosos volumes. Era professor e mestre de língua, de estilo e de princípios arraigadamente franciscanos e conformes com o pensamento de Antônio Sérgio e dos pensadores da Metanoia. Nas aulas e preleções inculcava a arte de bem escrever (como há dias me recordava um colega do Curso de Filosofia de José Pinheiro, Padre Virgílio de Freitas, aqui presente), quando dizia aos alunos “musique mais o texto, dê-lhe musicalidade”.

Pela influência, ao menos indireta, na formação literária e artística de Pinheiro Gomes, é de mencionar também entre os seus professores, o notável orador e poeta Padre Mário Branco, mais tarde escolhido para proferir o sermão de exéquias do Presidente da República Marechal Carmona, que deixou vasta obra poética de profundo sabor franciscano, felizmente quase toda publicada, ou preservada no Arquivo da Província Portuguesa da Ordem.

Com homens e saberes como estes, aprendeu Bandeira Tribuzi. Como aprendeu com os franciscanos brasileiros da Voz de Petrópolis, que lia regularmente e que cita nos seus textos de juventude na Escola Franciscana.

De homens como estes, digo, e de um saber difuso que vinha do escol dos frades, pensadores decididamente modernos, da famosa Voz de Santo António, editada em Montariol e encerrada por veicular pensamento e doutrina de vanguarda que, mais tarde, a Igreja veio a consagrar, surgiram as raízes franciscanas do gênio poético, livre e profundo, virado às causas e à defesa dos pobres, dos perseguidos e dos desafortunados da poesia tribuziana.

Nos três momentos típicos do percurso formativo franciscano: Colegial (seráfico), dos 10 aos 15 anos, entre 1937 e 1942, em Montariol, Braga; Noviço, dos 15 aos 16 anos, entre 2 de agosto de 1942 e 8 de setembro de 1943, em Varatojo, Torres Vedras; e de Corista (estudante de Filosofia), dos 16 aos 18 anos, de novo em Montariol, Braga, José Pinheiro Gomes – ou Frei Pinheiro Gomes, que também assinava Pinheiro, ou Pinheiro Gomes, ou Frei Pinheiro, ou, simplesmente P. G. – compôs, declamou e publicou uma quantidade impressionante de textos (de juventude) que, por não terem divulgação pública exterior à Ordem, são praticamente inéditos. São textos publicados na Alvorada Missionária, revista dos colegiais de Montariol, no seu Diário Inédito que menciona no poema Dia 4, e na Escola Franciscana, revista trimestral dos estudantes de Filosofia.

Declamava-se e recitava-se muito nos Colégios e Seminários franciscanos. Récitas, autos e saraus, conferências e textos em poesia ou em prosa, proferidas ou produzidos pelos alunos, eram o pão-nosso de cada dia e elemento imprescindível da formação. Na Associação de Conferências, na Academia Duns Escoto, por eles internamente constituídas e dirigidas, bem como na redação e direção da revista, Tribuzi compôs, recitou, declamou e publicou muito nesse contexto. Era, aliás, dos mais ativos, e, por quatro vezes, foi “cronista”.

Ser escolhido para “cronista”, quer na Alvorada Missionária, como na Escola Franciscana, era distinção com que muito poucos, pouquíssimos, eleitos eram obsequiados. Correspondia ao reconhecimento por mestres e condiscípulos das capacidades e dons acima da média, designadamente, na arte de bem escrever. Ora Bandeira Tribuzi foi-o por duas vezes na Alvorada Missionária, e por outras duas na Escola Franciscana, o que, claramente, denunciava o repórter, o jornalista, o escritor que já por ali andava e que colegas e mestres como tal reconheciam.

O incentivo à arte poética dos alunos estava na tradição formativa franciscana, mas, certamente no tempo de Tribuzi, não seria alheio ao ego coletivo dos jovens estudantes de Montariol o estímulo trazido pelo fato de, poucos anos antes (em 1934) o poema Romaria de Vasco Reis, também ele estudante franciscano, ter vencido o prestigiado Prêmio Antero de Quental em concorrência com a Mensagem de Fernando Pessoa, preterida, é certo, por razões formais de burocracia do prêmio (não tinha as cem páginas exigidas para se candidatar).

Os poemas, crônicas do dia a dia, conferências ou artigos acadêmicos, recensões de livros, e textos de crítica literária que, não obstante a curta idade, revelam já uma impressionante maturidade, autoconfiança e sentido crítico, conduzem-nos, já, às grandes linhas de pensamento e cuidado de forma que fizeram de Bandeira Tribuzi um dos mais insignes vultos da cultura lusófona, ou, se preferirem, luso-brasileira, daquele de quem Sarney um dia escreveu: “Sem Tribuzi, outra seria a nossa história literária” e a quem o Maranharte, boletim de Arte Literária de São Luís do Maranhão, em sintonia com o coro geral dos autores, se refere, em 6 de setembro de 2008, como “uma das figuras mais admiradas da nossa terra: o poeta, o jornalista, compositor, professor, economista e teatrólogo Bandeira Tribuzi.”

Revelar este espólio literário desconhecido, ou esquecido, precisamente nesta Academia Internacional de Cultura Portuguesa em contexto da recentíssima homenagem que, no passado dia 8 de setembro, de novo lhe foi prestada pela sua Cidade, é não só homenagear o homem, mas, sobretudo, incentivar o conhecimento e estudo da sua obra. Por isso aqui viemos.

Terminado o Curso de dois anos de Filosofia, onde, como ele mesmo diz com graça, “se desaprende o catecismo”, saiu da Ordem com a invocação de “sentir-se sem vocação para continuar na Ordem Franciscana”, regressando a Travassô e rumando a Coimbra, onde terá frequentado estudos na área da Economia e Ciências Sociais (matéria que a brevidade da minha investigação não permitiu confirmar)

Em dezembro de 1946, está de regresso a São Luís, para colaborar com o pai. Aí, desde logo, se envolveu em atividades sociais e na vida cultural com os jovens intelectuais, criando com Lucy Teixeira um grupo de pendor modernista ao qual se associaram nomes como Bello Parga, Sarney, Ferreira Gullar e Lago Burnett.

Logo em 1948 publica o seu primeiro livro de poesia Alguma existência (que o seu colega e confidente P. Virgílio de Freitas me diz ter visto já com este título em esboço de compilação em Montariol), considerado o início do modernismo maranhense, por vezes dito da terceira geração do modernismo brasileiro.

Poeta, jornalista, criou logo um pequeno jornal sobre literatura, Malazarte, e, no ano seguinte, já com Sarney, a revista AIlha. Trabalhando em jornais, como O Dia e A Tarde, veio a ser, de novo com Sarney, fundador de O Estado do Maranhão.

Entretanto, publicou uma vastíssima obra poética, como Rosa da esperança (1958), Safra (1961), Sonetos (1962), Pele e osso (1970), Breve memorial do longo tempo (1977), Poesias completas (1979), Rosamonde (1985) e Tropicália consumo & dor (1985). Também foi publicada, postumamente, a novela Da conveniência de fazer-se um deputado conveniente (1985), e Formação econômica do Maranhão: Uma proposta de desenvolvimento (1981), já reeditada e de muito interesse teórico e prático na área da economia.

Porque interveniente pessoal e direto, que melhor que ninguém conhece a matéria e os fatos, remeto-vos para o nosso distinto Confrade Acadêmico José Sarney, sobre o papel de Tribuzi no modernismo maranhense:

Fundamos um movimento cultural, o neomodernismo, com
Bello Parga, Madeira, Lago Burnett, Ferreira Gullar – então José
Ribamar Ferreira –, Evandro, Lucy Teixeira, Floriano Teixeira,
Figueiredo, estes últimos pintores modernistas. Nosso grupo
rompia com o passado parnasiano e logo entramos em combate
com o Centro Cultural Gonçalves Dias, que reunia os jovens
intelectuais tradicionalistas.
Eis que, por sorte do destino, chega ao Maranhão o jovem
Bandeira Tribuzi, que trazia de Portugal, como diz num dos
seus sonetos “Fernando Pessoa na bagagem”, e nos desvendou o
mundo dos poetas novos de Portugal, José Régio, Miguel Torga,
Sá Carneiro, Antônio Boto e todos. Juntou-se a nós e assumiu a
liderança do grupo por “droit de conquête”.

Reproduzindo a opinião unânime da crítica literária brasileira

Bandeira Tribuzi representa para a literatura maranhense, em
1948, o que Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Mário
de Andrade representam, entre 1922 e 1933, para a literatura
brasileira, introduzindo no panorama da cultura literária
maranhense as melhores conquistas do Modernismo, onde lhe
não era nada estranha a influência dos portugueses Fernando
Pessoa e Mário de Sá Carneiro, ou do seu compatriota Manuel
Bandeira.

Para a história da introdução do Modernismo no Brasil, e mais concretamente no Maranhão, os estudiosos de Bandeira Tribuzi, e do movimento, não podem deixar de conhecer as posições, claras e firmes, que, tão jovem, do lado de cá do oceano, já tomava, e deixou em notáveis textos de prosa na Escola Franciscana.

De fato, escalpelizando e rebatendo com impressionante rigor as posições antimodernistas de Alfredo Pimenta, Frei Pinheiro Gomes, citando Pessoa e outros, manifesta inequívoca opção militante pelo Modernismo. Termina assim um dos seus textos na Escola Franciscana: “E, concluamos, pode estar a Poesia Modernista (sic, em maiúsculas) descansada que não são críticas como a do Sr. Pimenta que detêm o curso ou diminuem o seu real valor. E, de resto, ‘ninguém é profeta na sua terra’, por isso deixamos ao tempo a missão de fazer justiça.” Profético! É coisa de se ler e meditar. Tinha 18 anos! E era frade. Um hino à liberdade de ensinar e aprender nas escolas franciscanas.

Aliás, ele mesmo tinha consciência de que fazia poesia seguindo os novos cânones (ou a falta deles!) do Modernismo. Assim, em nota explicativa a um dos seus poemas, diz: “[…] Não gosto de fazer poesias para recitar em público. Os aplausos fazem mal à poesia, mas enfim… […]É claro que [nesta poesia inspirada no Fedro de Platão], fui obrigado a desvios poéticos e cristãos… É de ritmo moderno, e por isso peço desculpa se feri a delicada acústica de alguém!” Notável. Repito: era frade e tinha 18 anos.

Tribuzi, ou José Pinheiro, era dotado de talentos vários. Já como estudante compunha música, escrevia e declamava poesia, proferia conferências, fazia recensões e crítica literária… numa polivalência, de tendências modernas, que os próprios colegas estudantes notavam e apreciavam. A folhas 130 da Escola Franciscana de 1945, o colega escolhido para presidente desse número, notava na rubrica “Agradecimentos”: “Em seguida, ao Frei José Pinheiro, alma dinâmica e original, adaptada ao tempo que atravessa, agradecemos os seus símbolos modernistas em todos os ramos da arte.”

Era modernista na poesia como na música, que compunha e executava com primor, e no desenho (até o carimbo da Biblioteca de Filosofia ainda hoje em uso foi por ele desenhado…), como fez questão de salientar o seu colega estudante que presidiu à edição do número de 1945, onde escreve: “Agora, seja-me permitido agradecer […] ao Frei Pinheiro, autor de vários desenhos modernistas a encimar poesias do mesmo teor e, além disso, fotógrafo exímio.”

Os próprios colegas não se eximiam de o reconhecer e já então tratar por modernista. Num outro “Agradecimento”, na Escola Franciscana, pode ler-se: “as páginas do seu talento, todas elas respiram um hálito fresquíssimo de modernismo inconfundível.”

Foi no claustro que ele se fez tal, e como tal dele saiu para o vasto mundo da cultura. No Maranhão e no mundo.

A obra poética, jornalística e econômica de Tribuzi, tal como as suas opções políticas e posicionamentos sociais, só podem ser adequadamente compreendidas conhecendo-se e tendo em consideração o patrimônio humanístico com que regressou ao Brasil, sobraçando, de um lado, Fernando Pessoa, como ele mesmo diz num dos seus poemas, e do outro, não menor, o saber e sentir franciscano, muito distante de um saber meramente “fradesco” (como alguém depreciativamente já pretendeu insinuar).

O que levou da formação e estudos em Montariol não o empobreceu nem diminuiu ou envergonhou. Valorizou-o, tal como valorizou a cultura portuguesa que, tão radical e identitariamente, se identifica com os valores franciscanos, como bem referiu nesta Academia Frei José Rodríguez Carballo, aquando da sua alocução pelos 800anos de fundação da Ordem Franciscana, e fundamentadamente o têm salientado homens como Jaime Cortesão, Agostinho da Silva ou Oliveira Martins.

Quem conhece e quem lê a obra de Bandeira Tribuzi e pressente as razões profundas que o levaram a opções políticas e tomadas de posições sociais, que, inclusivamente, o levaram à prisão, em 1964 (sob o regime ditatorial), e a compromissos institucionais com o Partido Comunista Brasileiro, sente o pulsar do frêmito franciscano do jovem cavaleiro andante de Assis e do fogoso poeta, de quem Sarney pode dizer: “sua vida passou a ser, então, uma militância contra aquilo que achava injusto. Mas, não era uma atitude política, era uma atitude poética.”

Como, também, escreveu Joaquim Itapary Filho, em 1981, na apresentação da primeira edição de Formação econômica do Maranhão – Uma proposta de desenvolvimento, de Tribuzi:

As lides políticas, às quais se entregou franciscanamente,
humildemente, e, às vezes, anonimamente, mas com exuberante
paixão e invulgar determinação, não turbaram a sua visão
científica dos fenômenos econômicos e sociais ocorridos à sua
volta, nem lhe embotaram a erudita capacidade de compreensão
dialética da história maranhense.

No poema Consideração Universalista, escrito quando fez 22 anos, três anos depois de sair do Convento, Tribuzi afirma:

[…] Me sinto subitamente povoado
por longínquos sentimentos de raízes,
soma de proporções, familiares,
distância incalculável da matriz […].

É uma dessas raízes, a raiz franciscana, da sua matriz, que importa revisitar para melhor entender e saborear a seiva e fruto de tão preciosa árvore.

Num texto de rara beleza e enternecedora emoção, em que a inteligência e o coração falam a uma só voz, publicado no dia a seguir à morte de Tribuzi (9 de setembro de 1977), com o título Por Quem Choram as Casuarinas, n’O Estado do Maranhão, jornal que ambos haviam fundado, José Sarney diz: “Não conheci ninguém tão bom, tão avesso ao ódio, tão desinteressado da maldade humana. Ele tinha sempre um sentimento da paz.” Que é outra forma de dizer: era um verdadeiro franciscano, era de raiz franciscana, radicalmente franciscano.

Como acontece com a árvore de raiz escondida sob vigoroso tronco e fartos frutos, o seu inequívoco saber e sentir franciscano exala forte e firme daquela raiz profunda e de forte seiva que, mesmo sem ser pronunciada, está em cada verso como poesia de fraternidade, liberdade e sonho franciscano de igualdade.

A poesia de Tribuzi tem, de facto, o sabor franciscano do “Despertar do Menino” com que Pinheiro Gomes viveu, por oito vezes, a emocionante tradição das noites de Natal em Montariol, cujo canto Christus natus est nobis, com luzes de pavio rasgando a escuridão dos corredores conventuais, emocionou gerações e ressoa ainda, saudoso, em todos os que o viveram no arroubo místico, tão tipicamente franciscano, de um menino de Greccio que nasce e renasce, pobre, ao frio e ao gelo, sem que, finalmente, aconteça o Amor e o Pão pelos quais veio sofrer.

É assim, por exemplo, no poema Preces:

O Cristo de Belém, filho de carpinteiro,
nasceu tão frágil. Era tão pobre, não
tinha onde hospedar-se, nem hospital-maternidade,
nem pediatra [… mas…] Nasceu tão fácil…
E o Cristo que havia de nascer em
cada coração?
Oh parto penoso e árduo: há dois mil anos a mãe –
humanidade – geme e sofre e esse Cristo não nasce!
[…] madalenas choram em vão
ninguém multiplica
… o peixe e o pão
não haverá mais salvação?
faça-se Cristo o coração
faça-se Cristo o coração.

Sermão mais franciscano, mais ao jeito de Montariol, não há! Eu não conheço.

Isto é franciscanismo, é Montariol, das raízes até aos píncaros do ideal franciscano.

Este mesmo sentimento franciscano da espera, de urgência, num acontecer sempre prometido e ainda nunca alcançado, é sentimento constante desta poesia. Assim, parafraseando e citando Antônio Nobre, que admirava e já jovem mencionava, e cujo retorno poético retomou em poemas como Tropicália, onde ao ritmo de “que é dos pintores do meu país estranho / que é dos pintores que não vêm pintar meu país?”, Tribuzi transmuda em “cadê os sábios do meu país estranho / cadê os sábios que não vêm sabiar?” e em “cadê os profetas do meu país estranho / cadê, porque não vêm profetizar?”

Ou ainda em Tropicália, consumo & dor, no poema Samba/ Coral, este pedacinho de franciscanismo:

... Se a fome é igual
e o pão também
e a Terra é mãe
porque não vem
o Pão geral?

E segue, ao jeito de José Régio, cujo modernismo admirava e
já no Escola Franciscana comentara:

Se é a colheita um mutirão
poderá haver boca sem Pão?

– Eu digo não!

E depois:
Eu digo não! Eu digo não! Eu digo não!

Régio diria: “Sei que não vou por aí!”

Aliás, esperança, alegria e paz são a ótica franciscana com que olha o mundo de injustiças, violências e opressões em que vivemos e que permanentemente denuncia. A própria morte é quase sempre na sua obra encarada à maneira da melhor e mais antiga tradição franciscana: como chegada a bom porto após o naufrágio da vida. Faz, lembrar a Crônica de Salimbene, célebre historiador franciscano, ao referir a morte de São Francisco nestes termos:

Anno Domini MCCXXVI quarto
Nonas Octobris transiit beatus
Franciscus, Ordinis Fratrum Minorum
institutor et dux, exhuius mundi
naufragio ad celestia regna
diesabatti sero…
et sepultus est die dominica in civitate Assisi.

Finalmente: um poeta de alma franciscana, um poeta livre, solto, universal, fraterno e ecumênico, bem à maneira de São Francisco de Assis e dos seus frades, grito de alma pelo “amor, o único despacho de todas as Igrejas sem igreja” (últimas palavras e final apoteótico da sua Obra poética).

Aliás, toda a obra e pensamento de Tribuzi encaixam à perfeição (e apareça quem com tempo e saber o investigue e explique) na trilogia do pensamento franciscano das três casas: oikos / ecologia (fraternidade universal), economia (igualdade de bens de todos para todos) e ecumenismo (liberdade no respeito de todos pelas crenças de cada um, “único despacho, diria Tribuzi, das Igrejas sem igreja”!).

Esta raiz franciscana do seu pensamento alimentou-a, no dia a dia, com mestres, entre os quais já evoquei os padres Fernando Félix Lopes e Mário Branco, como o músico Padre Manuel Valença, o helenista Padre Eusébio Dias Palmeira, o escritor Padre Alberto Teixeira de Carvalho, ou o filósofo Ilídio Sousa Ribeiro, e com companheiros, como o Padre Arlindo Barbosa. Também entre as leituras que lhe eram proporcionadas, havendo entre elas merecer investigação e especial atenção a revista franciscana Voz de Petrópolis da Província Franciscana brasileira da Imaculada Conceição, que, como disse, várias vezes Frei Pinheiro Gomes cita nos seus artigos.

Seguramente que quem quiser aprofundar as raízes do pensamento de Tribuzi encontrará na Voz coisas muito interessantes sobre o Modernismo no Brasil e, eventualmente, sobre a própria escolha do nome Bandeira para, associando-o ao apelido materno, formar o pseudônimo Bandeira Tribuzi.

Assim, por mero exemplo, no número de novembro de 1941, que ele seguramente leu, pois cita o Itinerário de uma Geração, artigo de J. C. de Oliveira Torres, precisamente na mesma página onde tem cabeçalho e início um interessante texto de Frei Basílio, OFM, intitulado Os Franciscanos nas Bandeiras Paulistas, no qual se enaltecem “os intrépidos bandeirantes”, “acompanhados por sacerdotes capelães geralmente religiosos de diversas Ordens”, incluindo “os Franciscanos da Província da Imaculada Conceição a acompanhar bandeiras e expedições que os tornaram beneméritos da pátria.

Além da obra amplamente conhecida no Brasil, ou da que foi postumamente divulgada pelas instituições, por seus amigos e admiradores, e pelas edições promovidas por sua viúva e pelo filho, Francisco Tribuzi, também ele poeta e dinamizador do movimento de divulgação dos “Poetas Mortos”, falta conhecer-se e difundir esta fase primeira e que deu aso e força geradora aquilo “que já trazia quase pronto de Portugal”, como dizem os seus biógrafos, e que seguramente está na base do seu primeiro livro Alguma existência, seguramente iniciado em Montariol e por ele publicado logo no ano seguinte ao seu regresso, e que é considerado pedra de toque e cunho angular de toda a sua produção literária.

No contexto e termo de uma série de homenagens públicas que a cidade e os intelectuais brasileiros, incluindo Jorge Amado e muitos mais, lhe promoveram em celebração do seu 50º aniversário, Tribuzi veio a falecer prematuramente a 8 de setembro de 1977, no Hospital Português em que fora batizado, em resultado de grave crise cardíaca, rodeado pela família e por sua meio-irmã, Religiosa, “com a mais cristã de todas as mortes” – palavras de José Sarney – a pronunciar as palavras de Cristo: “Pai, seja feita a tua vontade”, conforme testemunha o Padre João Mohana, que lhe ministrou os sacramentos no leito de morte.

Coisas do destino, diria alguém: morre aos 50 anos, precisamente no dia 8 de setembro, dia da Natividade, dia em que, 34 anos antes, fizera a sua Profissão Religiosa como Franciscano, em Varatojo, dia da sua cidade natal, São Luís, “cidade-presépio” como ele a cantou na Louvação a São Luís, poema e música de sua autoria, que veio a tornar-se o hino oficial da cidade. O mesmo hino que Edson Vidigal refere quando escreve: “Uma das coisas mais bonitas, conquanto tristes, da vida de Bandeira Tribuzi, ocorreu quando a procissão levando o seu corpo pela rua do Passeio para a rua do Cemitério do Gavião, irrompeu num canto geral, como se todos houvessem ensaiado, a Louvação. Um poeta franciscano merecia isto!

É felizmente vasta a bibliografia sobre Bandeira Tribuzi. São muitos e grados os autores que sobre ele escreveram, e não é este o lugar nem o ensejo para mencionar, mas penso que esta fase e face do seu tempo poético anterior merece bem que mais estudiosos a ele venham.

A cultura portuguesa, luso-brasileira, lusófona, sairá fortalecida.

Esta minha comunicação, concebida como homenagem em Academia, grito de encantamento pela descoberta de um grande vulto da nossa cultura comum, não é, de modo algum, um estudo ou trabalho aprofundado, nem muito menos completo. Tivera eu engenho e tempo, com que gosto trabalharia “O Tempo e o Modo Franciscano de Bandeira Tribuzi”.

Aqui, hoje, faço apenas o anúncio e o convite aos investigadores, portugueses e brasileiros, para que aprofundem e valorizem esta tão inédita como preciosa dimensão de Bandeira Tribuzi. De parte da Ordem Franciscana, facultaremos todos os elementos a quem, no Brasil ou em Portugal, o queira fazer.

Se cultura é conjugação de valores que se assumem e como tal se difundem e defendem, Bandeira Tribuzi, o nosso Frei José Pinheiro Gomes, é um grande vulto da cultura brasileira, portuguesa e franciscana. Na sua poesia (que como ele mesmo diria, é muito mais que verso) são de genuína cultura franciscana, portuguesa e brasileira, os valores que prevalecem e às gerações se transmitem.

Honra, glória, homenagem ao seu nome e aos valores, que em Montariol sorveu e em pérolas de arte poética nos deixou, bem como às causas de justiça, igualdade, liberdade e fraternidade que, franciscanamente, encarnou e ressoou. Impulso seja dado à cultura de humanismouniversalista de fraternidade e de liberdade, que seguramente bebeu com o leite das letras e das rezas nas faldas de Montariol, e de que na poesia, na economia e na política, em todos os púlpitos da sua curta mas farta vida, foi ímpar arauto e defensor.

Bandeira Tribuzi é nome grande, estro maior, da literatura e da história do Brasil (e, porque não?, de Portugal e da lusofonia), tem nome de rua em São Luís do Maranhão e em São Paulo, nome de Escola, de Associação de Ensino Superior, de ponte (em São Luís) e até de Memorial, na sua cidade, mas tem, sobretudo obra vasta, já publicada ou ainda inédita, e tem discípulos. Associemonos às gerações que o aplaudem

Associando-nos, pois, à recentíssima homenagem de São Luís do Maranhão que, nos 400 anos da sua fundação, de novo o condecorou, a título póstumo, em solidária sintonia com o seu amigo e nosso emérito acadêmico, José Sarney, e com todos os que em Portugal e no Brasil, ou em toda a lusofonia, o respeitam, a Academia e a Cultura Portuguesa, bem como a Ordem cujo hábito com tanta dignidade na sua juventude envergou, lhe prestam a mais calorosa e justa, ainda que algo tardia mas sempre atempada, homenagem.

Viva Bandeira Tribuzi, Frei José Pinheiro Gomes!

Honra e glória, repito, ao seu nome. Conhecimento e divulgação à sua obra!

Academia Internacional de Cultura Portuguesa, 3 outubro de 2012

Destacado pelo círculo, Frei José Pinheiro Gomes (Bandeira Tribuzi) com seus colegas franciscanos do Colégio de Montariol, em Braga, Portugal.

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