FALTA UM*1

Ana Luíza Ferro

Cadeira nº 12

São Luís sempre foi um porto a receber ou despachar os mais diversos barcos, trazendo ou levando uma carga mais do que preciosa, que é tanto mais leve quanto mais habilidoso é aquele que a transporta: poesia. A cidade se tornou a confluência de vários rios carregados de poesia, a desembocarem na baía de nossa rica literatura. E São Luís virou, toda ela, uma praça de poetas.

Eis que agora, numa feliz iniciativa, alguns desses vultos da poesia passaram a se encontrar numa praça esculpida no centro histórico da urbe quatrocentona. São dez: Ferreira Gullar, Catulo da Paixão Cearense, Nauro Machado, Sousândrade, Bandeira Tribuzi, José Chagas, Gonçalves Dias, Maria Firmina, Dagmar Destêrro e Lucy Teixeira, todos a repercutirem o seu talento para terras d’além-mar. É claro que não seria possível reunir, a um só tempo e em um único lugar, todos os poetas que já honraram e honram a Atenas Brasileira com a relevância de sua pena, a exemplo

*Publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 3 e 4.10. 2020. Seção Opinião, p. 4.

dos olvidados Raimundo Correia, Maranhão Sobrinho e Corrêa de Araújo, mesmo que a lista se restringisse ao passado, como foi o caso. Permite-me, leitor, entretanto, lamentar, com particular ardor, a falta de um. Explico.

                Ontem sonhei. E, à medida que sonhava, um senhor calvo, de largo sorriso e jeito simples, apareceu de mansinho e se incorporou ao meu filme. Estávamos na Praça dos Poetas, com São Luís aos nossos pés e o rio Anil a se impor na paisagem. O personagem foi logo dizendo que nascera nesta ilha, que era seu destino, que aqui vivera desde pequenino, “a estender os braços pelo mundo todo”, mas que queria o continente, pois, embora tivesse o mar consigo, queria ainda a rosa, por isso jogara fora a âncora e fora parar no Piauí, onde conhecera a sua musa Maria Nazareth, com quem se casara, tendo como padrinhos ninguém menos do que Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Carlos Drummond de Andrade… E depois se estabelecera no Rio de Janeiro. Não se queria só.

                Nesse momento, interrompeu a história para cortejar a sua cidade. Comentou, admirado, que não havia alma que se fechasse “à serena alegria daquela paisagem de sol, azul, cal, madeira das janelas, paredes luminosas, a suavemente mergulhar nas águas”. Pergunteilhe, indicando o rio Anil, se também levava o rio consigo, ao que ele falou que sim, mas que não era esse, era o Parnaíba. Então lembrou, com tristeza, que as águas “dão com uma mão, com outra tiram”, porque “o rio é fundo, mas vário”. Então eu soube que ele falava, na verdade, de uma faca, não a mesma que matara Maria, mas aquela que o destino cravara no seu peito amoroso de pai, arrastando na corrente, para a boca da noite, precocemente, dois de seus filhos.

                Nesse ponto, ele me revelou que foi essa dor imensurável que o fez mergulhar decididamente nas águas da poesia e abandonar o posto de poeta bissexto, após anos de dedicação ao jornalismo. Entre lágrimas mal contidas, murmurou que recorria ao filho morto para não se separar “deste chão de sargaços mas de flores”. Querendo desviar o seu pensamento, perguntei-lhe como via a poesia. E ele me respondeu, olhos brilhando: “Não me proponho – nunca! – à faina ingrata / da tortura da forma, essa que outrora / jogava o poeta insone noite afora, / artesão de ouro trabalhando a prata.” Por fim, fitou-me e declarou gentil: “Trago-te o verso, após, como um tributo / ofertado na mão, luz matinal / de abelha e mel a escorregar do dorso.” E meu filme terminou, para meu desconsolo. Foi assim que conheci o quarto ocupante da Cadeira 15 da Academia Brasileira de Letras e o segundo da Cadeira 12 da Academia Maranhense de Letras, que tenho hoje a honra de ocupar, aquele a quem João Guimarães Rosa chamou de “um dos seis melhores, maiores poetas nossos”, por lhe trazer mais necessariamente a poesia, “como marulho do riacho”.

                Sim, falta um na Praça dos Poetas. E seu nome é Odylo Costa, filho.

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