DISCURSO PRONUNCIADO QUANDO DO RECEBIMENTO DA MEDALHA DE MÉRITO LEGISLATIVO MANOEL BECKMAN, EM 3 DE OUTUBRO DE 2019

DISCURSO PRONUNCIADO QUANDO DO RECEBIMENTO DA MEDALHA DE MÉRITO LEGISLATIVO MANOEL BECKMAN, EM 3 DE OUTUBRO DE 2019
Mont’Alverne Frota
Cadeira Nº 29

Se partires um dia rumo a Ítaca,
Faze votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
(Ítaca – ConstantinosKaváfis)

Chego ao átrio da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, reduto augusto das decisões soberanas de seu povo, já brasonado com as investiduras cívicas de Cidadão de São Luís e Cidadão Maranhense, para receber a Medalha de Mérito Legislativo Manuel Beckman, por proposta do deputado César Henrique dos Santos Pires, aprovada pelo Decreto Legislativo nº 452, de 18 de março de 2014. Do alto dos meus 78 anos, com a felicidade indizível de viver quase 50 anos no meio dos maranhenses, confesso que estou envaidecido com a comenda que me foi concedida, símbolo do perene ideal libertário dos maranhenses, inaugural em nossa Pátria.
Senhores Deputados:

Sois ludovicences porque esta cidade – lapetit ville aux palais de porcelaine – foi fundada, a 8 de setembro de 1612, por Daniel de La Touche, sob o reinado de Luís XIII – Ludovicus Rex Galliae. Sois, também, ilustres deputados, itacenses, de Ítaca, cidade de Odisseu, conhecido pelos romanos como Ulisses. Representa ele a fidelidade aos ideais do seu povo, da cidade e da família, vencendo inauditas dificuldades, ora perseguido, ora protegido por deuses. Os maranhenses são felizes pelos encantos do povo, pela beleza da terra acolhedora, pelas artes que cultivam, e pela família enobrecida por princípios éticos. Eles realizam em São Luís o sonho da cidadania política, tal como exercitada em Ítaca.

Senhores Deputados:

Nasci na primavera de 1941, em Sobral no Ceará. O livro foi sempre meu companheiro para as aulas que ministrei em duas universidades e para deleite do espírito. Meu retrato espiritual está contido no ex-libris que adotei: Numquam de oculis oculis recedat liber. Nunca longe dos teus olhos o livro. Estudei no Seminário São José, de Sobral, e me graduei pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Integrei-me no serviço jurídico do Porto do Mucuripe e, depois, no do Porto do Itaqui.
Nesse claro recordar, levantando a romagem do tempo, sabia meu destino que a Ítaca dos meus sonhos era São Luís do Maranhão. Meu destino estava na luz dos olhos verdes da minha mulher Maria Gerviz, que há quase 50 anos me guarda no coração e ilumina meus caminhos. Maria Marphisa, Maria Letícia, Maria Carolina e Maria Ticiana são as filhas do nosso amor e que nos tornaram avós de nove netos. E no arco desse tempo amorável fui incorporando a luz da cidade, a visão inefável do casario, dos beirais e mirantes, ladeiras e escadarias, lendas, folguedos e igrejas. É um devaneio desdobrar e reviver esse tempo. É um alumbramento que me traz paz elísia. E digo com o coração em festa: vivo um momento de bem-aventurança. Externo, deste púlpito cívico da Assembleia, minha maranhensidade adotiva como escolha adulta, como apelo do coração. São Luís é a minha Ítaca. Vim para ficar. Sou feliz e realizado no plano familiar e cultural. Guardem-me Deus e as águas talássicas desta Ilha fascinante.

Senhores Deputados,
Deputado César Pires:

Os que conhecem a vida de Vossa Excelência, filho de Codó, sabem que a sua atuação é diligente e firme na Assembleia Legislativa do Maranhão, em continuação à ação dinâmica que exerceu por dois mandatos de fecunda e ampla visão no reitorado, concretizando metas fundamentais do ideário da Universidade Estadual do Maranhão. Dou testemunho da visão expansionista do reitor César Pires ao tempo do meu exercício no Departamento de Direito, Economia e Contabilidade, do Curso de Administração e depois como diretor desse Curso e do Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar – CFO.
Mestre em Administração Universitária, o reitor César Pires criou e implantou o primeiro Mestrado da Uema. Outra iniciativa de alto valimento foi a implantação do Núcleo de Educação à Distância – Nead, hoje conhecido como Uemanet. Outro ângulo que desejo destacar na gestão do jovem reitor César Pires e que também alterou profundamente as perspectivas do professorado foi a rápida interiorização do Programa de Capacitação de Docentes – Procad. A visão administrativa de César Pires alargou-se para o exercício da Gerência da Região Tocantina, ampliando-se no exercício do cargo de secretário de Estado da Educação, área em que possuía largo tirocínio. É, ainda, detentor da patente de major reformado da Polícia Militar do Estado do Maranhão .
No Parlamento do Estado desde 2003, o político e educador tem ação brilhante. Ascendeu aos cargos de quarto vice-presidente, terceiro-secretário e primeiro-secretário, sucessivamente. Acresço, ainda, ao curriculum parlamentar do deputado César Pires a criação da Escola do Legislativo, de que foi o primeiro presidente. Amplia-se o tino cultural do deputado César Pires com a criação do Memorial Parlamentar de Proteção ao Patrimônio Histórico e Documental da Assembleia Legislativa do Maranhão. Incansável, o deputado César Pires criou a Fundação de Apoio à Comunicação. O deputado não esquece os tempos de seu exemplar reitorado. Já presidiu a Comissão de Educação desta Assembleia Legislativa. Foi o primeiro ouvidor desta Casa.
No plano da gestão universitária, como dinâmico reitor da Universidade Estadual do Maranhão, e como deputado de visão desenvolvimentista da Assembeéia Legislativa do Maranhão, César Pires dá exemplo para a mocidade de uma cidadania plena, o que o torna filho ilustre de Codó como educador e como legislador. Carpent tua poma nepotis, acentuou Virgílio, no livro Bucólicas (9,50). Teus netos colherão os frutos. Os codoenses guardarão no panteon cívico da urbs o nome exemplar do educador César Henrique dos Santos Pires.

Senhores Deputados,
Minhas Senhoras e meus Senhores:

Arrimado pela lição de frei Francisco de Mont´Alverne, contida no sermão “É Muito Tarde”, pregado na Capela Imperial em 19 de outubro de 1854, na presença de Pedro II, repito o que disse o venerando orador cego: “Religião divina, misteriosa e encantadora, tu que dirigiste meus passos na vereda escabrosa da eloquência…”. Completo eu agora: concede-me, Senhor, um fluido pentecostal para falar do grande herói da história do Maranhão. Manuel Beckman, presença avassaladora na reação da defesa da liberdade popular contra a tirania do Estanco, imposto pela Coroa, espoliando os filhos da terra do seu comércio, da sua riqueza. Beckman foi vereador em São Luís e agricultor abastado do engenho Vera Cruz, nas terras férteis do Mearim. No fragor da revolução, Manuel Beckman expulsou os jesuítas de São Luís, os quais foram recebidos pelo padre Antônio Vieira no Reino. Gomes Freire tentava a captura de Beckman, prometendo a extinção do Estanco, através de seus apaniguados.
Beckman teve vida afanosa no Maranhão, com vitórias e derrotas, mas sempre pensando na causa da liberdade do seu povo. Foi exilado no Gurupá. Exercitou sua liderança política como vereador na Casa da Câmara. Conheceu a prisão em São Luís. Amargurado, deixou a luta e voltou-se para o Mearim, para as atividades de seu engenho Vera Cruz.
O herói maranhense foi traído pela figura asquerosa de Lázaro de Melo, que demonstraria ser amigo refalsado, com a agravante de ser afilhado do líder revolucionário. A devassa levou Beckman, Jorge de São Paio e Francisco Deiró à forca. A 10 de novembro de 1685, na praia do Armazém, na atual Avenida BeiraMar, Beckman foi enforcado, mas antes da consumação do seu martírio, afirmou que morria contente pelo povo do Maranhão. A justiça do rei era cruel. Francisco Deiró, mesmo fugitivo, foi enforcado em efígie. É o momento de destacar para os estudiosos as fontes antigas de Berredo, Bettendorf e Morais, e de louvar as pesquisas dos ilustres confrades Mário Meireles e Milson Coutinho, integrantes da Academia Maranhense de Letras, cujos livros são fundamentais para o estudo da personalidade de Manuel Beckman.

Senhores Deputados,
Minhas Senhoras e meus Senhores:

Nesta tribuna das liberdades e reivindicações populares do Maranhão, neste dia esplendoroso para mim, desejo, na tranquilidade outonal de minha vida, deixar uma mensagem para a mocidade: guardai sempre em vossa vida, em vossas atividades, o ideário de Manuel Beckman. Quando fizerdes isso, tereis a elevada compreensão da cidadania política, e vossa descendência repetirá agradecida, em coro uníssono, os versos finais do poema Ítaca, de Constantinos Kavafis:
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. E, agora, sabes o que significam Ítacas.
No fontanário de caras recordações desta hora feliz, quero me dirigir aos meus netos Vitoria Helena, Astrid, Luiz Sérgio, Valentina, Caio César, Arthur, Maria Luisa, Maria Catarina, e Betina, para lhes dizer: amai a Deus, ao Maranhão e a São Luís, cidade-berço. Honrai a vossos pais. Estudai sempre e sede conscienciosos na profissão escolhida. É assim que vos vejo no futuro. Com a Eneida do Poeta Mantuano na mão, repito como augúrio do avô: Sic itur ad astra (9, 641). Assim se vai às estrelas.

Senhores Deputados,
Senhoras e Senhores:

Agradeço a concessão da Medalha do Mérito Legislativo Manuel Beckman, reconhecimento da minha maranhensidade. Agradeço a presença de integrantes da Academia Maranhense de Letras e da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares. Agradeço a presença de minha família e a dos que me estimam.

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