DISCURSO DE RECEPÇÃO – AO ACADÊMICO ELSIOR COUTINHO

DISCURSO DE RECEPÇÃO
AO ACADÊMICO ELSIOR COUTINHO

Lino Raposo Moreira
Cadeira Nº 39

Senhoras e Senhores:

Águas e ventos da vida e da morte, com que Elsior Coutinho estreia literariamente, é título que vem para ocupar lugar expressivo em nossa prosa de ficção. E isto porque o autor já se revela, neste seu primeiro livro, senhor de um estilo ágil, elegante e personalíssimo, do qual se vale para traçar o aliciante painel dessa Macondo maranhense onde o mandonismo e as arbitrariedades representam a solidão, a desesperança e o abandono de tantos órfãos e deserdados da justiça.
Sem dúvida, a figura nefanda e por todos os títulos execrável de Artêmio Carvalhosa, marquês não se sabe de que nem por que, é o centro e o motor das injustiças e corrupções que ali são praticadas por sua inspiração e em seu proveito. O próprio título de falsa e ridícula nobiliarquia dessa corte de réprobos e sicários que o coronelismo gerou e manteve, é, com certeza, o principal símbolo das inumeráveis usurpações em que assentou, cresceu e deitou seus asfixiantes tentáculos o marquesado, ou melhor – a rapinagem – de Carvalhosa. Tudo com a omissão e a conivência dos poderes constituídos, por seus agentes oficiais ou oficiosos: o juiz Tinoco, o delegado de polícia, o coletor, o “doutor agrimensor”, o provisionado Clarimundo Lapixo…
Mas a sanha de Carvalhosa não se opera sem protestos. Entre eles, o fuzilante brilho amarelado dos olhos de Olho de Gato, censor implacável, espécie de anjo vingador que ali precisa ser e estar
Não é, porém, só de tristezas e usurpações que a vida ali se faz. Nesse pequeno mundo há todos os altos e baixos de que se condimenta e enriquece a trama do cotidiano – jamais estático e monótono, porque em renovação permanente pela infindável sucessão de atos e fatos que nos absolvem da condenação de continuar hoje o que fomos ontem ou seremos amanhã
As chegadas da “Araponga”, as lides com o gado e quefazeres outros de permanente contato com a natureza dão a este livro o lirismo que o faz terno, empolgante e inesquecível.
O rio Parnaíba, que já ofereceu à literatura brasileira os romances de Assis Brasil e A faca e o rio, de Odylo Costa, filho, inspira a Elsior Coutinho este Águas e ventos da vida e da morte. Livro em que a memória do autor se desata nas relembranças de um mundo que merece e exige a permanência do registro em livro. De suas manifestações populares de alegria, crença e pesar; de seus costumes; de suas expressões regionais tão enriquecedoras de nossa língua. Grande parte dessa tarefa está cumprida neste livro cujo aparecimento é um fato importante na literatura maranhense.1

As palavras acima, do prefácio do romance Águas e ventos da vida e da morte, 2 de Elsior Coutinho, são de Jomar Moraes. Quem o conheceu de perto e conheceu seu professorado sobre a literatura do Maranhão poderá bem avaliar a importância desse texto. Rigoroso em suas avaliações dos novos talentos, ao surgimento dos quais estava sempre atento, e sempre disposto a orientá-los, quando neles sentia aquela luz do verdadeiro escritor, Jomar não era de elogios fáceis nem de dizer apenas para agradar, ou desagradar, os jovens em busca de orientação segura no campo do cultivo literário. Dizia gostar, se lhe parecia de valor a obra, e igualmente apontava os defeitos. Quem o procurava estava consciente da sinceridade de sua opinião sobre os trabalhos submetidos a sua apreciação. Ninguém saía iludido de uma conversa com ele.
Quando lemos outros gêneros literários diferentes do romance, nos quais Elsior tem atuado e enriquecido nossa literatura, confirmamos as observações de Jomar sobre seu estilo ágil e elegante. Tomem qualquer um dos contos O Golpe (1970), A Mulher do Piolho (1991) e Beril Avexadim (1991), publicados na imprensa de São Luís, ou as crônicas do volume O polígamo e outras histórias (2018). Neles, são as mesmas as características da linguagem do romancista, reunidas na medida certa em um texto bastante original, em que podemos encontrar o uso equilibrado de termos do falar popular e regional de sua terra natal, amalgamado à expressão formal da língua, reflexo de suas leituras dos melhores romancistas, contistas e cronistas brasileiros. Reparem que ele evita a tão comum e sempre frustrada tentativa de reprodução literal e integral das falas de personagens analfabetos e pertencentes ao mundo rural, este tão bem conhecido por ele. Usa-as com moderação, apenas para caracterizar o perfil social do personagem. Em quase 100% das tentativas de reproduzir a fala popular na literatura voltada ao mundo rural, o resultado tem sido tão somente uma caricatura constrangedora da expressão oral do povo em sua luta diária pela sobrevivência. É o realismo ingênuo, que se propõe assim tarefa de realização impossível, pois a representação nunca abarcará em sua totalidade o que é representado, nunca será o próprio mundo, mas apenas o aspecto estilizado, de uma maneira ou de outra, da realidade que o escritor seleciona. Se fosse possível representá-la integralmente, os artistas da palavra seriam deuses, ao criar cópia perfeita idêntica de algo que nem mesmo os filósofos nem ninguém tem certeza do que seja.
Observo que os nomes dos personagens têm um sabor do ambiente do interior em que o romance é ambientado e também revelam o humor e ironia do autor: Artêmio Carvalhosa, Tinoco Favorino, Sansão, Clarimundo Lapixo, Marquésio (fi – lho do marquês de fancaria, que era Artêmio), Olho de Gato.
O romance não gira em torno da psicologia dos personagens. Retrata prioritariamente a situação socioeconômica típica de uma sociedade de rígida estratificação social, com seus tipos característicos. Destes, os conflitos se dão no plano das relações de poder, das ações, da vida exterior, do dia a dia, são tragédias em verdade, não são dramas interiores.
Vejam agora, senhoras e senhores, esta outra pequena história sobre o caminhar e provocar entusiasmos de nosso empossando no mundo da literatura maranhense. Eu a ouvi de Jomar Moraes e novamente, alguns anos depois, do próprio Elsior.
Josué Montello, tendo recebido de Elsior em 1982 o Águas e ventos, enviou-lhe carta (ainda se enviavam cartas na época, hoje acontecimento raro) em que o autor de Cais da Sagração faz enfáticos e entusiasmados elogios ao romance. A admiração de Josué era, parece-me, de fato sincera, pois o aconselhou a persistir na tarefa, para a qual mostrava talento irrefutável. Calaria, penso eu, ou daria a Elsior sua opinião franca e negativa, caso não visse qualidades no livro. Josué observou, ainda, que com o inevitável desaparecimento físico dos romancistas da geração anterior à de Elsior, os novos que iam surgindo deveriam receber incentivos para produzir boas obras.
Josué fez ainda mais. Telefonou para Jomar e pediu que ele insistisse com o autor sobre a importância de não parar de escrever, pois seu bom futuro como escritor, pelo que Josué tinha lido, estava garantido, se Elsior persistisse no ofício. Foi aí que Jomar, depois de se informar com o jovem escritor acerca da publicação do segundo romance e de saber que já estava iniciado, passou a cobrar-lhe a publicação sempre que se encontravam. As pressões da vida cotidiana e a necessidade de dar continuidade a sua vida de casado havia poucos anos com a professora Nair Portela e de prover a família, o impediram, no entanto, de dar seguimento metódico a sua carreira de escritor. Não me surpreenderei, no entanto, se a segunda edição de seu romance de estreia aparecer em breve e o segundo, que sei já estar iniciado, vir logo depois. Coloco-me à disposição do autor para fazer a editoração do livro, atividade que tenho desempenhado ao longos das últimas duas décadas e que realizo com imenso prazer.
Esse é, em rápidos traços, o esboço do escritor. A respeito dele, recentemente um amigo me perguntou se Elsior tinha muitos livros publicados. Eu disse que não, não tinha. Aí falei sobre o belo exemplo do escritor mexicano Juan Rulfo. Ele escreveu dois livros; um, é o pequeno, em tamanho, Pedro Páramo (1955), romance que, nos volumes impressos de todas as suas edições, em muitas línguas, contém tão-só de 100 a 150 páginas, e o segundo, um livro de contos, Chão em chamas (1953). Alguns estudiosos de sua obra dizem, no entanto, que escreveu apenas um livro, o Pedro Páramo, que, de tão original e surpreendente, quase nos faz esquecer o de contos e nos leva a concordar com esses analistas. Lembremos ainda que o romance teve influência sobre toda a literatura latino-americana, em particular sobre os grandes escritores do chamado realismo fantástico.
– Quer dizer, então, que estás igualando Elsior a Rulfo, disse meu amigo. – Eu não quero igualar os dois, respondi, não é essa minha intenção, mas apenas lembrar que, em um escritor, mais importante do que a quantidade de sua produção, é sua qualidade e força. Ao falar sobre a de Elsior, falo, sim, de qualidade e força.
Falei até aqui da obra. E o homem que a produziu? Antes de responder, porém, quero aproveitar a oportunidade de ter uma plateia tão seleta para falar dum acadêmi-co que vem ajudando por décadas a Academia, sempre que possível e a ocasião se apresente e, por isso, merece a referência que farei a ele. Contudo, não quero correr o risco de falar além do razoável, a ponto de aborrecer os convidados aqui presentes, com uma fala mais longa do que a do empossando. Ao fazer este pequeno acréscimo, quero apenas fazer justiça ao acadêmico e também à Academia. Explico.
Mílson Coutinho, que foi presidente desta Casa, assim como o foi do Tribunal de Justiça do Estado, é historiador com obra volumosa e louvada no Maranhão e fora do Estado, sobretudo pelo seu extraordinário e incansável empenho em respaldá-la com pesquisa permanente nas boas fontes históricas.
Ele é irmão de Elsior, como é de conhecimento geral. Tal coincidência é feliz coincidência, porquanto Mílson é um dos maiores beneméritos da Academia. Vezes sem conta presenciei, na residência de Jomar Moraes, este falar sobre a situação de dificuldade financeira em que a Academia se encontrava. Era o sufi ciente para Mílson meter a mão no bolso lateral da calça, sacar um bolo de dinheiro, que ele tinha por hábito carregar sempre consigo, e doar generosas quantias para a Academia, tendo consciência de que Jomar já havia esgotado sua própria cota de doação fi nanceira à Casa e feito inumeráveis esforços com o fim de afastar a dificuldade
Conto essa história para louvar a Academia também. Quando da candidatura de Elsior à cadeira que ele passa a ocupar hoje, ela soube reconhecer não só os muitos méritos dele, quanto, de certa forma, reconhecer os de Mílson, por sua generosidade com a Academia, sem nunca ter pedido alguma coisa em troca. Numa atitude bem característica de sua personalidade, Mílson não pediu sequer votos para Elsior. Ele dizia que Elsior se elegeria por seus próprios méritos, por suas qualidades únicas. E assim foi.
Sigamos.
Ditador Joelviro Coutinho, escrivão de Justiça, e Elza de Sousa e Silva Coutinho, professora primária, formaram um casal que teve oito filhos, um deles Elsior de Sousa e Silva Coutinho, nascido a 19 de dezembro de 1946 (um jovem, portanto), na cidade de Coelho Neto, no Maranhão. Fez o curso primário lá mesmo, a metade do antigo ginasial em Chapadinha, no Ginásio Professor Mata Roma, então mantido pela Campanha Nacional dos Educandários Gratuitos, e a outra metade em São Luís, no Colégio de São Luiz, do professor Luiz Rego, que foi presidente desta Casa, e cursou Técnica em Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Centro Caixeiral.
Elsior, como acabamos e ver, estudou numa escola do presidente da Academia, Luiz Rego; eu, por outro lado e em outro localidade de São Luís, no bairro do Monte Castelo, brincava, pequeno ainda, na casa de Clodoaldo Cardoso, que igualmente foi presidente da Academia, com seus netos Ivan e Marcelo Teles. Nessa época a cidade estava se expandindo ao longo do eixo do antigo Caminho Grande, em direção ao Anil e Estiva, abrigando novos moradores da classe média comercial da cidade. O eixo mais tarde mudou em direção a áreas na margem esquerda do rio Bacanga, com a construção da Barragem do Bacanga, e áreas na margem direita do rio Anil, com a construção da Ponte do São Francisco.
Hoje, aquele rapaz de olhos bem abertos para um novo mundo que se apresentava naquele momento a ele, vindo de uma distante cidade do interior do Maranhão, é recebido por mim, um ex-presidente, que brincava, quando criança, na casa de outro ex-presidente, que teve especial importância na obtenção deste prédio para a Academia, como secretário do governador Sebastião Archer da Silva. Elsior tornou-se cidadão honorário de São Luís, cidade que é tão sua – e ele dela –, quanto, por exemplo, do acadêmico Phelipe Andrès, nascido em Juiz de Fora, e minha, que aqui nasci.
Mas antes, quando chegou a Chapadinha para iniciar o ginásio, deu de cara com Luzinho (suponho que batizado como Luiz), da quarta série, presidente do grêmio estudantil. Como bom líder estudantil da época, Luzinho fazia veementes discursos a que não faltava o acalorado apoio às Reformas de Base, entre estas a agrária, palavra de ordem da época do governo João Goulart, o Jango. O revolucionário virtual se declarava comunista e Elsior, empolgado com seus discursos veementes, decidiu ser comunista também, liderar pessoas, empolgar multidões. Achava bonito se declarar como tal e, da mesma forma, como socialista, embora a diferença entre os dois termos não fosse clara para ele nem para ninguém. A carreira política, alicerçada naquelas duas palavras, que o faria conduzir os pobres e deserdados pela estrada da liberdade e da prosperidade, foi interrompida bruscamente. É que dona Elza chegara a Chapadinha, aflita e chorosa, com a notícia da prisão, pelos militares, de Mílson. Depois, soube-se que ele fora apenas convidado ao Comando do 24º Batalhão de Caçadores, do Exército, a fi m de prestar depoimento sobre um artigo que publicara num jornal de São Luís em defesa de Jango. Então, era só isso? A empolgação de Elsior, volúvel como ela só, retornou com força e ele acabou sendo escolhido como candidato à sucessão de Luzinho no Grêmio Estudantil. Novamente esquerdista e na campanha apresentado como “Elsior: jovem, inteligente e promissor,” venceu com 80% dos votos. Numa noite, porém, em que o novo presidente do grêmio chegou ao Ginásio, teve notícia de que o próprio Luzinho já havia sido ou estaria a ponto de ser levado para a capital por patrulha do Exército, juntamente com o presidente de um sindicato rural, apelidado “Lasquinha”. Acabou aí a carreira de libertador dos povos, do Bolívar de Coelho Neto
Porém, não só de política, ainda que estudantil, vivia Elsior. Em sua cidade, havia trabalhado no Cartório do 2º Ofício, de José Barreto de Araújo, compadre de seu pai, com renumeração mensal de meio salário mínimo, com uma curiosidade: ele só receberia o pagamento quando tivesse de sair para estudar fora, manobra arquitetada por seu próprio pai, segundo ele desconfiava. Foi no cartório que aprendeu datilografia, melhorou muito a letra, pelo hábito de imitar a do tabelião, e aumentou o vocabulário, dada a convivência com juiz, promotor e advogados.
dada a convivência com juiz, promotor e advogados. Em 1964 foi para Chapadinha, onde trabalhou no escritório de Contabilidade do Raimundo Marques, advogado conceituado e ex-presidente da secção regional da Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão, até hoje seu grande amigo. Com essa experiência de talvez seis, sete meses, adquiriu boas noções dessa área profissional. Ao ingressar no curso de Contabilidade do Centro Caixeiral, teve bom desempenho, em parte como resultado do conhecimento obtido no escritório de Marques
Em maio de 1967, aos 20 anos de idade, ingressou como secretário na Rádio Timbira do Maranhão, emissora de rádio do governo do Estado, tornando-se apenas dois anos depois diretor administrativo e, poucos meses mais tarde, diretor comercial, função da qual teve de ser desligado, a fim de acumular a função de diretor administrativo com a de rádio-jornalismo. Por ocasião da mudança de governo, de José Sarney para Pedro Neiva, foi requisitado para a Secretaria da Fazenda, onde serviu na Assessoria Técnica, dirigida por Dejard Martins,de onde foi deslocado para a recém-instalada 2ª Recebedoria da Capital, localizada no João Paulo. Nessa época, eu trabalhava também na Secretaria de Fazenda do Estado, no assessoramento direto do secretário Jayme Neiva de Santana, que havia sido meu colega na antiga Faculdade de Economia do Maranhão. Provavelmente, nunca cheguei a encontrar-me com Elsior por lá. Digo ser provável porque ele ficou lá por apenas dois meses e eu, por todo o governo Pedro Neiva de Santana.
Com a criação da Fundação Cultural do Maranhão, sob a presidência do advogado José Ribamar Bello Martins, Elsior foi Secretário dos Colegiados da Fundação, que eram o Conselho Estadual de Cultura e o Conselho de Administração. Compunham esses colegiados, além do presidente José Martins: Antenor Bogéa, Domingos Vieira Filho, Erasmo Dias, Fernando Viana (pai de nosso confrade Waldemiro Viana, um dos poucos ficcionistas maranhenses, junto com José Ewerton, também membro desta Casa), Jomar Moraes, Josué Montello, Mário Meireles, Ruben Almeida e Salomão Fiquene. À exceção de José Martins, esses conselheiros eram todos membros da Academia Maranhense de Letras.
No governo Nunes Freire, a Fundação passou a ser presidida por Domingos Vieira Filho. Elsior foi nomeado seu chefe de gabinete. Nesse cargo, e já no governo João Castelo, ele permaneceu até os primeiros meses da gestão de Bernardo Coelho de Almeida, passando a seguir à direção do Departamento de Administração, cargo do qual se desligou, primeiro, para assessorar o Projeto Praia Grande, no qual trabalhavam Ivan Sarney e Phelipe Andrès. Naquele Grupo de Trabalho estavam, portanto, três futuros sócios efetivos da Academia Maranhense de Letras: Ivan, Phelipe e o próprio Elsior
Em junho de 1980, Elsior foi para a Companhia de Habitação Popular do Estado – Cohab, como chefe de gabinete da Presidência, ocupada pelo engenheiro Antônio Cordeiro Filho. Ali permaneceu até a metade da gestão seguinte, de Edgar Maranhão de Azevedo, no governo Luiz Rocha. Em 1985, pediu demissão, para cumprir tarefa específica e temporária na Assembleia Legislativa, e em seguida passou alguns meses trabalhando em empresas privadas, entre as quais a Associação dos
Criadores do Estado, voltando em 1986 ao governo do Estado para servir na Casa Civil, que tinha José de Sousa Teixeira, com quem trabalhei no antigo Banco de Desenvolvimento do Maranhão, como titular.
Em l987, o empossando foi nomeado assistente técnico parlamentar na Assembleia Legislativa, tendo atuado na ocasião como assessor da Comissão de Sistematização da Constituinte de l989.
Em 1992, no governo Edison Lobão, foi nomeado subchefe da Casa Civil, permanecendo no cargo no mandato-tampão do governador Ribamar Fiquene e no primeiro mandato de Roseana Sarney. Saiu em outubro de 1998, para chefiar o gabinete da presidência do Tribunal de Justiça, gestão Antônio Bayma Araújo. Na seguinte, de Jorge Rachid, passou a secretário-geral do Tribunal Pleno, cargo em que permaneceu na gestão de Etelvina Gonçalves. Voltou à chefia de gabinete na gestão de Mílson Coutinho e, em fevereiro de 2006, retornou à Casa Civil do Governo do Estado, a convite do governador José Reinaldo, para exercer o cargo de assessor especial de Relações Institucionais. No governo Jackson Lago, foi mantido no cargo, que teve a denominação alterada para secretário-adjunto de Relações Institucionais. Voltando ao governo, Roseana Sarney manteve- -o no cargo e, em razão da reforma administrativa operada no governo, foi nomeado secretário-adjunto de Expediente, Documentação e Atos Ofi ciais.
Em fevereiro de 2015, a convite da desembargadora Cleonice Freire, voltou a chefiar o gabinete da presidência do Tribunal, após o que foi para casa curtir merecido ócio.
Elsior é casado com a enfermeira e professora universitária Nair Portela Silva desde 14 de julho de 1973. Na Igreja dos Remédios, tinha havido um casamento na manhã daquele sábado, dia de seu próprio casamento. A decoração ainda estava toda lá. Nem a passadeira haviam recolhido. Resultado: convidados bem impressionados e noivos, um olhando para o outro, com vontade de rir. As vacas então não estavam gordas; o episódio é que as engordou um pouco.
Desse feliz casamento nasceram os filhos Breno Jorge e Bruno Jorge. O primeiro é juiz de Direito no Estado de Roraima e o segundo, servidor de carreira da Justiça Estadual. Breno casou com Christianne. Eles deram a Elsior e à professora Nair, hoje reitora da Universidade Federal do Maranhão, as netas Larissa e Isabela. Bruno, sete anos mais novo, é casado com Luciene. Eles ainda não têm filhos.
Hoje em dia, desfrutando de sua aposentadoria, depois de 45 anos quase ininterruptos de trabalho, além de fazer alguma tarefa doméstica, Elsior revisa vez por outra algum conto interrompido e, se vier o “estalo”, que, se não é o de Vieira, é sempre muito produtivo, acrescenta vinte, trinta linhas ao seu romance Urucutuba, iniciado há alguns anos e em relação ao qual assumiu consigo mesmo o compromisso de publicá-lo em 2020. Estaremos, nós os amigos, prontos a pressioná-lo a terminar o romance, para o benefício de nossa cultura.
Já termino, senhores e senhoras.
Quando me perguntam quais os requisitos para alguém tornar-se membro da Academia Maranhense de Letras, eu respondo que há os formais e os informais. Formal é a exigência de o candidato “exercer notória atividade literária ou de relevante valor cultural,” como estabelecido no artigo 4º, inciso I, do Estatuto Academia. O Regimento Interno, no seu artigo 50, inciso I, letra “c”, estabelece para a formalização de candidatura a apresentação de “exemplares de livros e de outros quaisquer trabalhos de que o candidato seja autor, coautor, colaborador, organizador, tradutor ou editor”. Elsior, evidentemente, atendeu a essas exigências.
Mas são os requisitos informais, em conjunto ou não, que, na maioria das vezes, defi nem a eleição de um candidato: amizade com membros da Academia, gosto pela convivência acadêmica, espírito de colaboração, aversão ao conflito interpessoal e algumas outras qualidades capazes de promover um ambiente de harmonia nas relações entre os acadêmicos. Essas qualidades, além de outras, foram levadas em consideração pelos acadêmicos quando elegeram Elsior Coutinho para esta Casa. Seu interesse em participar da vida da AML e com ela em tudo colaborar se confirmou, quando ele usou o direito de o acadêmico eleito participar das reuniões da Academia, antes mesmo da posse, com direito a voz, mas não a voto. Seu jeito cordial e amistoso, sua maneira conciliadora e cortês, seu prazer na convivência, além e primeiramente, é claro, de seus predicados intelectuais, muito contribuíram para o termos hoje aqui conosco.
Por fim, senhoras e senhores, não sei se os presentes a esta solenidade notaram as aproximações que o destino, ou qualquer outro nome que se dê ao que pensamos ser também coincidência, promoveu, ao longo de sua vida profissional, como foram os encontros de Elsior, em todas as instituições em que trabalhou, com vários membros desta Casa, dos quais ele se tornou amigo: Jomar, Josué Montello, Luiz Rego, Antenor Bogéa, Domingos Vieira Filho, Erasmo Dias, Fernando Viana, Mário Meireles, Ruben Almeida, Salomão Fiquene; Bernardo Coelho de Almeida, Ivan Sarney e Phelipe Andrès.
Topar com tantos acadêmicos ao longo de décadas, penso eu, só podia ser uma trama do bem a favor de Elsior. Havia um ar de conspiração nas falsas coincidências, porque, de fato, era uma transação, admitamos, do destino. Ivan e Phelipe, que participaram também desses encontros e se encontram entre nós e assim continuarão por muitos anos, poderão confirmar o que apenas suponho: havia em tudo um objetivo único, trazê-lo para esta Casa. A Academia o estava rondando sutilmente, invertendo, assim, a comum tradição acadêmica de os candidatos rondarem a Academia em sucessiva aproximações.
Agora, Elsior está aqui para tomar posse da Cadeira que, sendo da Academia, a partir de hoje estará sob sua guarda. É por isso que declaro: eis seu assento, senhor Elsior Coutinho. Seu antecessor, o grande poeta Manuel Lopes, estará feliz de vê- -lo aqui
Muito obrigado.

NOTAS E REFERÊNCIAS

1 MORAES, Jomar. Prefácio. In COUTINHO, Elsior. Águas e ventos da vida e
morte. São Luís: Secretaria da Cultura/SIOGE, 1981.
2 COUTINHO, Elsior. Águas e ventos da vida e morte. São Luís: Secretaria da Cultura/SIOGE, 1981.

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