DISCURSO DE RECEPÇÃO À ACADÊMICA ANA – LUIZA ALMEIDA FERRO

DISCURSO DE RECEPÇÃO À ACADÊMICA ANA LUIZA ALMEIDA FERRO
Ceres Costa Fernandes Cadeira Nº 39

HORIZONTE

(Fernando Pessoa – Mar Português)
Ó Mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos
Desvendadas noites e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidéreo
Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, ao desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos de esperança e de vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.1

Senhor Presidente,
Caros Confrades,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

MENINA Ana Luiza, dona da minha admiração e do meu bem-querer, porque sois apaixonada por mares e conquistas e pelos instantes matinais da fundação da nossa São Luís, achei estes versos parecidos convosco.
Não escondo que estou, sobremodo, agradada em ser distinguida, por vossa escolha, para receber-vos nesta noite constelada de tantos amigos e talentos.
A Academia Maranhense de Letras vos recebe, hoje, em
seu quadro, com grande orgulho e renovado júbilo, porque chegais a um lugar que vos pertence e vos aguardava, haja vista
vossa consagradora votação, mercê do mérito de quem labora
em incansável faina construtiva, objetivando a excelência, apurando-se no uso de suas ferramentas de trabalho, na criação de
ideias, execução de pesquisas e na produção de escritos, em contínua busca da realização de um trabalho literário valoroso.
Emerge, no nosso universo acadêmico, mais uma vez, a
presença do elemento feminino. Apraz-me ter sido escolhida
para receber uma mulher na Casa de Antônio Lobo, que se somará às outras três valorosas representantes do gênero feminino,
a nona em ordem de entrada, em um quórum de quarenta membros, ao longo de 109 anos. E não vai nisso nenhuma recriminação a uma possível misoginia dos confrades, tão somente a
alegria de ver a representação feminina na literatura maranhense, tão alta em excelência e número, ganhar mais e mais espaço neste convívio acadêmico.

Minhas senhoras, meus senhores,

A confreira que recebemos, hoje, é promotora de Justiça, professora da Universidade Ceuma (Centro de Ensino Universitário do Maranhão) e professora do Ministério Público do Maranhão, graduada em Letras e Direito (Universidade Federal do Maranhão), mestre e doutora em Ciências Penais pela Universidade Federal de Minas Gerais, membro da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da qual já foi presidente, membro fundador da Academia Ludovicense de Letras, membro da Academia Caxiense de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Escritora, ensaísta, conferencista, historiadora e poeta, Ana Luiza ainda acrescenta à sua cultura poliédrica o gosto pelo estudo das línguas: lê, fala e escreve em inglês e francês; lê e fala em italiano e espanhol e cursou alemão. Tem 14 livros publicados, entre livros de matéria jurídica, história e poesia.
Como se ainda tempo lhe sobrasse, não descuida da prática de esportes. Participa de corridas amadoras, mas já foi campeã universitária e maranhense de tênis de mesa, cultivando o mens sana in corporesano. Questionada pelo escritor e confrade José Neres Costa, em entrevista de fevereiro de 2016, concedida ao ilha virtual.com, informativo sobre Literatura Maranhense, editado por ele, de como enveredar por três caminhos, poesia, direito e historiografia, que nem sempre são confluentes e que exigem vocações e esforços diferenciados, tendo logrado sucesso nos três, e qual seria dessas áreas a que se sentiria mais realizada, ela respondeu:

É difícil dizer, porque esses três caminhos me realizam de diferentes maneiras. Com o Direito e a Historiografia, privilegio o meu olhar científico; com a Poesia, o meu olhar estético. Para mim, são vasos comunicantes, não campos estanques. A Justiça é um denominador comum. Uso poesia (ainda que de forma contida, “domada”) nos meus livros de Direito e História. E a História, o Direito em geral e o Direito Penal em particular são fontes ricas e inesgotáveis de material para os meus poemas. Os meus livros jurídicos, que são os mais numerosos (sete ao todo), representam as profissões que abracei: Promotora de Justiça e professora universitária. Os meus livros de poesia (quatro) refletem a minha paixão atávica pela literatura e pela poesia. São a janela principal de minha subjetividade para o mundo. […] Finalmente, a Historiografia significa para mim o novo, o desafio mais patente, o território nunca dantes desbravado, porque não tenho formação em História, sou graduada em Letras e Direito, embora apaixonada, desde criança, pela História em si e pela sua relação com a literatura […] assim sinto-me mais realizada como profissional no Direito, mais realizada como pesquisadora na Historiografia e mais realizada como cidadã do mundo na poesia. 2

Estimada Ana Luiza, vós o dissestes: a vossa obra é trina. Monta-se no tripé Direito, Historiografia e Poesia. Com a prevalência das produções jurídicas, e nem poderia ser diferente: dentre as quatorze obras editadas, a metade é de conteúdo jurídico, a outra metade distribui-se entre a Historiografia e a Poesia.
A prevalência do Direito em vossa bibliografia e a vossa entrada como membro desta casa de literatura são igualmente bem-vindas e não nos causam alguma estranheza; a Academia Maranhense de Letras, criada nos moldes da Academia Francesa e da Academia Brasileira de Letras, segue uma tradição que delas nos vem: nossos quadros nunca foram totalmente preenchidos por escritores dedicados exclusivamente a produzir literatura, no sentido restrito de literatura/arte.
Esta agremiação, como as demais citadas, é composta, sim, de genuínos escritores, com formação essencial literária ou não: teóricos da literatura, poetas, linguistas, críticos, ficcionistas, juristas, músicos, gramáticos, médicos, engenheiros, historiadores, jornalistas, economistas, publicitários e muito mais. A formação original de cada um favorece a diversidade estilística das obras e só enriquece a nossa produção acadêmica.
Permanecendo nas ondas de inspiração náutica, que embalam esta oração, direi que naus oriundas de mares diversos, com os mais variados calados, encontram seu acolhimento no porto deste sodalício. Sobre a essência destes mares-berços, informam-nos as palavras de Claude d’Abbeville, na História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão:

Porque, entretanto, se denominam mares e não mar? Estará esse elemento dividido ou será diferente em suas partes? É que há terras, cabos e promontórios que se estendem mar a dentro; por outro lado também o mar se espraia em largas e espaçosas enseadas terra a dentro, dividindo-a em muitas partes a que chamamos ilhas. Por isso deram-se-lhe vários nomes, distinguindo-se assim diversos mares, muitos dos quais, de resto, têm propriedades e virtudes diversas e, pelo menos na aparência, sabores e cores diferentes. Mas essa diversidade provém tão somente do tempo, dos lugares a que se recolhem as águas milagrosamente; a natureza do mar permanece única, bem como a dos rios e das fontes, água que todas receberam por obra do Espírito Santo, que sobre elas andou, a faculdade de fecundar, de fazer germinar e de nutrir, como se diz nos Gênesis – Spiritus Domini ferebatur super aquas. O Espírito de Deus soprava sobre a superfície das águas.3

Parafraseando d’Abbeville, narrador de viagens, poeta neste texto, nós, escritores, também recebemos o dom da fecundidade de engendrar e nutrir. Nossas águas são plurais e nelas cabem gêneros tais como a epistolografia, a oratória, a prosa jornalística, a historiografia, os ensaios literários ou não, ao lado dos gêneros literários considerados puros. O tratamento dado à palavra, não importa o assunto, pode transmudar o texto de denotativo em conotativo, de simples informativo em arte da palavra. Eis a fascinante questão: identificar o texto literário. Os seus limites. Direi que o texto que exprime o belo/arte, aquele que provoca a emoção estética, seria o diferencial.
Heródoto e Sócrates, historiador e filósofo, só para exemplificar com estes dois grandes nomes, constam de todos os manuais de História da Literatura, alguém jamais pôs dúvidas nesta inserção, porque ambos escreveram peças de extrema beleza literária inscritas, também, na Historiografia e na Filosofia.

Senhoras e senhores,

Ana Luiza Almeida Ferro nasceu em São Luís, cresceu em meio ao afeto de uma família educógena, que se desdobrou em oferecer à menina um ambiente familiar propício ao desenvolvimento dos talentos revelados desde a mais tenra infância. Leitora voraz, ela encontrou na biblioteca do pai Wilson Ferro, professor de História da Universidade Federal do Maranhão, os livros chamados de capa e espada, que foram a sua primeira paixão e, a seguir, os clássicos da literatura francesa e inglesa, que lhe inspiraram também o aprendizado destas línguas, levando-a a obter os certificados mais altos concedidos no Brasil a esses estudos. Dedicou-se também, já na idade adulta, ao estudo de alemão, italiano e espanhol.
Estudou o antigo primário e parte do secundário no Colégio Santa Teresa. Prenunciando a intelectual futura, destacou-se em todas as matérias e abiscoitou inúmeros prêmios; foi no colégio das Irmãs Doroteias que se iniciou no tênis de mesa; depois vice-campeã do colégio, o que a levaria mais tarde à conquista do título estadual e de campeã universitária, na Universidade
Federal do Maranhão e na Universidade do Oregon, em Eugene, estado do Oregon, Estados Unidos.
Terminou seus estudos secundários no Colégio Itamarati, Instituto Guanabara, no Rio de Janeiro, em 1983, durante a breve estada da família naquela cidade.
Volta a São Luís e o amor aos livros e à literatura a encaminha para o vestibular do Curso de Letras da Universidade Federal do Maranhão. Licenciada em 1988, ainda nesse ano, seguindo o chamado de outra vocação, ingressa no Curso de Direito da mesma instituição de ensino superior.
Diz a própria Ana Luiza que, ainda no Colégio Santa Teresa, se lhe revelou a vocação para o Ministério Público, quando foi escolhida para ser a voz da acusação, em tribunal de júri escolar, no qual foi julgada – e condenada por adultério, registre-se – a personagem Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Machado de Assis. Seguindo ainda o chamado da literatura, fez o curso La Enseñanza de La Traducción, promovido pela San Diego State University, da Califórnia, EUA. Já os estudos de pré-mestrado, na área de Inglês, com foco em Literatura, sobretudo a inglesa, na condição de bolsista do Rotary, fê-los na Universidade do Oregon. Lá a paixão por Shakespeare levou-a também a especializar-se em English Drama (1991), ocasião em que trancou a matrícula na UFMA, no Curso de Direito, no qual viria a graduar-se em 1993.
Constata-se que, mesmo cursando Direito, não abandonou os estudos literários, os mesmos que direcionaram sua vocação para o Ministério Público. Chamo a atenção para a imbricação dos fi os que tecem o texto/contexto das duas áreas de conhecimento, Letras e Direito na vida de Ana Luiza.
Não é sem razão que a Faculdade de Direito do Recife, uma das mais antigas do Brasil, criada em 1827, foi o viveiro de grandes nomes da história da literatura brasileira, e produziu ex-alunos da estatura de Graça Aranha, Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, José Lins do Rego, Sílvio Romero e muitos mais.
Ana Luiza cursou mestrado e doutorado em Ciências Penais, em Belo Horizonte, na tradicional Universidade Federal de Minas Gerais.
Em 1994, foi aprovada no concurso público para ingresso na Carreira Inicial do Ministério Público do Maranhão.
Foi aprovada, também, no concurso para professora auxiliar, na área de Língua e Literatura Inglesa, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Maranhão, mas não chegou a exercer o magistério.
Atualmente, é promotora de Justiça, titular da 14ª Promotoria de Justiça Criminal da Comarca de São Luís, de entrância final, para onde foi promovida em 2009, além de professora de Direito da Universidade CEUMA e professora da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão.
No plano internacional, é membro do Latin American Quality Institute, organização sediada no Panamá, a qual lhe concedeu o troféu Latin American Quality Institute 2016, o título de Master in Total Quality Administration e a certificação de Global Quality, no México, por sua atuação como escritora, bem como da Accademia Internazionale Il Convivio, da Itália.

Professora Ana Luiza,

Declarastes que os vossos livros jurídicos são os mais numerosos (sete ao todo) e representam as profissões que abraçastes: professora universitária e promotora de Justiça. Foram eles que projetaram vosso nome dentro e fora do Brasil. Em especial, a obra Crime organizado e organizações criminosas mundiais, 4 estudo sistemático das organizações criminosas, estrangeiras e brasileiras, das teorias e concepções criminológicas mais pertinentes à compreensão do fenômeno, como a teoria da associação diferencial e a noção de crime do colarinho branco, do mito da Máfia, do terrorismo em confronto com o crime organizado, etc… Este livro vos levou a palestras e entrevistas, até mesmo na TV, em circuito nacional, no renomado Programa Jô Soares.
Desta publicação derivaram, ainda, dois artigos: “Reflexões sobre o crime organizado e as organizações criminosas” e “Os modelos estruturais do crime organizado e das organizações criminosas”, incluídos no livro Direito Penal empresarial, crime organizado, extradição e terrorismo, vol. 6, da coleção Doutrinas Essenciais, 2011, uma republicação, em edição especial, dos melhores artigos doutrinários já publicados pela prestigia da Editora Revista dos Tribunais, ao longo de 100 anos.
Publicações na área jurídica: O tribunal de Nuremberg: dos precedentes à confirmação de seus princípios (2002), Escusas absolutórias no Direito Penal (2003), no Direito penal brasileiro e comparado; Robert Merton e o funcionalismo (2004); O crime de falso testemunho ou falsa perícia: atualizado conforme a Lei nº 10, de 28 de agosto de 2001 (2004), no Direito penal brasileiro e comparado; Interpretação constitucional: a teoria procedimentalista de John Hart Ely (2008).Criminalidade organizada: comentários à Lei 12.850, de 2 de agosto de 2013. Em coautoria com Flávio Cardoso Pereira e Gustavo Reis Gazzola

Senhoras e senhores,
A autora possui, ainda, inúmeras conferências pronunciadas dentro e fora do Brasil, artigos e peças processuais publica dos em revistas especializadas, tais como a Revista dos Tribunais, a De Jure, a Revista do IHGM e a da AMPEM.
Omitimos, aqui, a identificação das peças, para não cansar tão augusta plateia, devido à extensão de seu currículo.
O valor de sua produção jurídica é reconhecido e não foi avaliado por mim, por se tratar de assunto que foge ao meu conhecimento. Para avaliá-lo, louvei-me nas competentes críticas exaradas e nos constantes convites para que a autora ministre conferências e palestras, no Brasil e no estrangeiro, e no fato de seus artigos serem selecionados para publicação em periódicos de reconhecida importância nacional e internacional.

Senhoras e senhores,

O lançamento, em 2008, do primeiro livro solo de poemas de Ana Luiza, denominado Quando: poesias, surpreendeu alguns que a criam afeita unicamente ao mundo lógico e árido dos escritos jurídicos, dos quais, à época, já consolidada como autora da área, havia publicado cinco festejadas obras.
Desconheciam que a veia poético-literária de Ana Luiza veio a público bem antes, em 1982, com um prêmio – predecessor dos muitos que viria a receber por sua produção literária –, o 1º lugar no Concurso Epistolar Internacional para jovens, promovido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, Regional do Maranhão.
A sensibilidade, alimentada na infância, na companhia constante dos livros de aventura e poesia que a menina devorava, identifica os autores de sua admiração e seus primeiros mentores literários: Shakespeare, Jane Austen, Alexandre Dumas, Júlio Verne, Machado de Assis, José de Alencar e Gonçalves Dias. A obra Orgulho e preconceito, de Jane Austen, analisada no original, inclusive, foi tema de sua monografia de conclusão do Curso de Letras.
Em Ana Luiza, o sentimento de pertencimento ao mundo literário precede o seu ingresso no mundo das leis. O primeiro curso de eleição da autora foi o curso de Letras. Deste curso, dou o testemunho de professora, lugar de onde pude acompanhar a trajetória da aluna brilhante. Motivada pelas letras, chegou a cursar disciplinas no nível de pós-graduação, com foco em literatura, principalmente a inglesa: o curso La Ensenhañza de La Traducción, da Universidade de San Diego State, Califórnia, realizado no âmbito da UFMA, e as disciplinas English Drama e Advanced Shakespeare na Universidade do Oregon, em Eugene, Estado do Oregon, Estados Unidos, em 1991, são alguns deles. O lançamento de seus livros de poesia coroa a numerosa publicação de artigos em revistas e a participação em concursos na área, obtendo prêmios e publicação das obras.
No livro Quando: poesias (2008), Ana Luiza não se prende a um único modelo de forma ou escola: ela nos apresenta sonetos, poemas rimados, versos brancos, experimentos com a linguagem–em alguns poemas beirando o concretismo, noutros flertando com as aliterações de inspiração simbolista -, buscando, ainda, a sua identidade poética, mas sempre com o domínio apropriado da linguagem.
Se o lado jurista se faz presente na sede de saber manifesta, no manejo das hipóteses e no cuidado com o sentido lógico das coisas, não podemos dizer que o pensamento se sobrepõe ao sentimento. Aqui busco a palavra de Fernando Pessoa, quando diz, “o que em mim sente, está pensando.”5 A capacidade criadora, somando-se à interiorização da angústia existencial, cria sentimentos profundos expressos em palavras fortes, como acontece no poema Quero. O sentimento do mundo e a interação com o Outro estão presentes em vários poemas: citamos Pixote, de viva inquietação social.
Este livro lhe proporcionou a primeira premiação internacional na área da poesia, o segundo lugar do prêmio “Poesia Prosa ed Art fi gurative, categoria “Libro edito in portoghese,” promovido pela Accademia Internazionale Il Convivio, da Itália, em 2014. Escolhido por uma banca mista de escritores italianos e portugueses.
Em O náufrago e a linha do horizonte: poesias (2012), a autora mantém a linguagem culta e intensifica a angústia existencial do seu primeiro livro solo. O tema marítimo, que subjaz, emerge do seu inconsciente nos versos que marcam a poeta, pari passu, com a jurista e a intelectual.
O mar, que engolfa todos os poemas, poderia constituir- -se no fio de Ariadne ou na rosa dos ventos que aponta o caminho da libertação a ser achado. Tentativa inútil, esse mar não é o lugar da aprendizagem, de engendrar e nutrir, mas o repositório da angústia, onde os sonhos submergem, ou se congelam. Do seu labirinto não há saídas.

O soneto O náufrago é expressivo dessa negação
À espera do chamado, encharco o meu pensamento
do que emerge de dentro, do que submerge de fora
dos ventos que colho, das entranhas que alimento
borbulham ideias no caos oceano do eu em mora.6:

No último terceto do mesmo soneto […] “a chuva cai e os sonhos enrijecem no sangue,” mas, ainda assim, a poeta tenta subir aos píncaros olímpicos do transcender: “a carruagem de Apolo procura os domínios de Pã,” para, em seguida, renunciar ao sonho, frente à crua realidade: “e eu me debato embalde, e mergulho no mangue.” 7
Em fragmento de outro poema, a identificação negativa chega ao ápice e a poeta não divisa mais a linha do horizonte, abre-se o abismo para sepultar o sonho:

Sou o beco escuro em noite sem luar
Sou o revólver empunhado pronto a disparar
Sou a voz sufocada que não consegue falar
Sou o barco condenado que afunda em alto-mar. 8

Neste espaço, entre o naufrágio e a linha do horizonte, que se faz mais longínquo e inviável, a poeta braceja, luta e soçobra em alto-mar, ou, por vezes, em falso horizonte de lama. O mar, metaforicamente, se configura como o espaço de sua luta. A luta com as palavras, que no dizer de Carlos Drummond de Andrade “é a luta mais vã.”9
Como agudamente observam, na apresentação deste livro, as confreiras e poetas Laura Amélia e Sônia Almeida: “[…] o náufrago está para o horizonte assim como o poeta para a poesia. O que acontece no percurso justifica a ilusão.”10

Escritora Ana Luiza,

Chegais como estudiosa e pesquisadora de História, em momento muito oportuno. O recebimento em nossa Academia de mais um representante da pesquisa historiográfica nos é muito bem-vindo. Perdemos, ao longo dos últimos anos, alguns dos nossos mais valorosos trabalhadores da messe da historiografia maranhense. Eméritos e saudosos pesquisadores, que interpretaram, reconstituíram e editaram numerosas obras da História do nosso estado: Mário Meireles, Carlos de Lima e, por último, o polígrafo Jomar Moraes, humanista, historiador e editor, por excelência, que partiu há menos de um ano. Todos deixaram lacunas difíceis de serem preenchidas.
Dissestes que a Historiografia seria para vós o desafio mais patente, representando o novo, o inexplorado, “o território nunca desbravado,” porque não tendes a formação específica e formal de um curso universitário para referendá-la.

Senhoras e senhores,

Discordo de tal açodada afirmação. Entendo que, dos caminhos da escritora Ana Luiza, a Historiografia foi o último a ser trilhado. Mas, como dizem os ingleses, last but not the least, o último, mas não o menos importante. O gene da Historiografia está contido no seu DNA. Do lado materno, a ancestralidade vem de, ninguém menos que, o escritor romântico e épico, de Minas de prata, O guarani, Iracema, o grande José de Alencar, por meio da bisavó da nossa confreira, Luísa Rodrigues de Alencar Almeida, nascida no Ceará, professora normalista, jornalista, pianista, violonista, poeta e poliglota, de quem ela herdou o segundo prenome, descendente do grande escritor e mulher avant la lettre, dentre as suas contemporâneas; do lado paterno, seu avô, João Meireles Ferro, era familiar do grande historiador maranhense, membro desta Casa, Mário Meireles, autor de dezenas de livros históricos, dentre eles os clássicos História do Maranhão, França Equinocial e O Brasil e a partição do mar- -oceano, e mais dezenas de publicações.
No lar da menina Ana Luiza, outra referência fundamental na sua formação, o pai, Wilson Ferro, professor de História da Universidade Federal do Maranhão. Lá, respirava-se História. A biblioteca, repleta não só de compêndios da matéria, como de livros de aventura, os chamados capa e espada, era o mundo onde a menina mergulhava nas águas da imaginação. Montava grandes batalhas com a sua coleção de soldadinhos de chumbo e vivia com eles guerras e conquistas de novos mundos.
Em 2011, licenciada em Letras e bacharela em Direito, cursos de sua livre e soberana escolha, já promotora de Justiça concursada, envolve-se com pesquisas e trabalhos sobre a França Equinocial, direcionada por seu espírito investigativo e motivada pela polêmica da fundação de sua bela São Luís e pelos escritos de Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux.
Tendo ingressado no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão em 2011, participa com outros autores da obra França Equinocial: uma história de 400 anos (2012). Os estudos historiográficos, brasa dormida no seu íntimo e na sua inquietude intelectual, reacendem-se, atingem seu ápice, e ela produz o premiadíssimo livro 1612: os papagaios amarelos na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís (2014).
Este alentado compêndio, 776 páginas, prefaciado pelos eméritos historiadores Lucien Provençal e Vasco Mariz, e pelo pesquisador Antônio Noberto, além de carinhosamente apresentado por seu pai, Wilson Ferro, tem como tema central a fundação da França Equinocial no Maranhão, em 1612, focalizando desde os seus antecedentes até os primeiros anos que se seguiram à expulsão dos franceses do norte do Brasil. Nesta obra, o mar reverte seu sinal para positivo, a linha do horizonte alarga-se e alegra-se, povoada de humana gente, animais, fl ores e frutos. É uma viagem exploratória e crítica que acompanha a Era dos Descobrimentos e a partição do Mar-Oceano, as primeiras tentativas portuguesas de povoamento e colonização do Brasil e do Maranhão, as investidas gaulesas pelo Novo Mundo, as guerras de religião que ensanguentaram a França na segunda metade do século XVI e cujos efeitos ainda assombrariam esse país e seus empreendimentos no século seguinte, a chegada de cerca de 500 franceses (os “papagaios amarelos”, como eram chamados pelos índios) à Ilha do Maranhão, o reconhecimento da terra, a fundação da cidade de São Luís, a decretação das leis institucionais da colônia, a convivência dos padres capuchinhos Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux com os tupinambás da Ilha e das circunvizinhanças, a Batalha de Guaxenduba, a subsequente trégua firmada entre os gauleses e os lusos, a rendição do Forte São Luís, o destino das principais figuras da disputa franco-ibérica pelo Maranhão.
Nesse estudo, é reafirmada pela autora, em primeiro plano, a atribuição da honra da fundação de São Luís aos gauleses.
Sobre esta obra diz Lucien Provençal, historiador, Membro da Academia Estadual de Var e da Sociedade Francesa de História Marítima, autor de várias obras, entre as quais La Ravardière e a França Equinocial:

L’auteur a consulté avec une três louable persévérance tout ce que les historiens de toutes nacionalités ont écrit sur le sujet; ele expose et analyse avec talent tous les arguments développés; rien ne lui échappe; les citations nombreuses renforcent une étude sans faille. Je partage totalement les conclusions de l’ouvrage.11

Tradução do próprio autor:

A autora consultou com uma perseverança muito louvável tudo o que os historiadores de diferentes nacionalidades escreveram sobre esse tema; ela expõe e analisa todos os argumentos desenvolvidos com grande talento, maestria e exaustividade; as numerosas citações reforçam um estudo sem falhas. Compartilho plenamente das conclusões da obra.

Tal juízo é complementado por Vasco Mariz, ex-embaixador, sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e autor de Os franceses no Maranhão:

O presente livro da senhora Ana Luiza Ferro é um estudo sério, bem documentado e pormenorizado desse episódio histórico, escrito com elegância e fluência de estilo. Naturalmente, nem sempre estive de acordo com todos os seus pontos de vista, mas, na interpretação de fatos tão remotos de nossa história, é mais do que normal que existam pequenas divergências entre os autores que se ocuparam de assunto tão fascinante. Recomendo aos interessados e sobretudo aos pesquisadores a leitura e o estudo desta obra, que veio enriquecer a bibliografia da França Equinocial.12

Este novo domínio intelectual proporcionou-lhe duas importantes premiações nacionais, com o livro 1612: os papagaios amarelos na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís: a menção honrosa do Prêmio Pedro Calmon, 2014, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e o Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil, 2015, categoria Ensaio. A obra tem duas edições simultâneas: a brasileira e a europeia, em Portugal, ambas de 2014
Podemos encaixar aqui, na categoria ensaio biobibliográfico, o livro Mário Meireles: historiador e poeta (2015).

Acadêmica Ana Luiza,

Esta noite é uma noite única para vós. Não se repetirá. Única, porque só tereis uma entrada aqui, nesta Casa, e esta é para sempre, guardai-a, pois, com muito carinho.
A cerimônia da sucessão, rediviva a cada nova posse, encerra o significado do espírito de imortalidade, inspirador desta academia, cultuado e renovado, a cada novo confrade que chega, guardando e reavivando a memória dos que se foram.
Realizando esta liturgia, recriamos o desiderato da imortalidade acadêmica, que não é a do indivíduo, e, sim, a da sua criação literária e a da própria Academia Maranhense de Letras, a caminho de seus 109 anos.

Confreira Ana Luiza,

A Academia Maranhense de Letras é composta por membros que aqui se encontram para cumprir um compromisso de constante e aplicado serviço à cultura do nosso estado. Não pretendemos a láurea de agremiação de eruditos instalados em uma redoma de incomunicabilidade; não aceitamos o ferrete de elitistas, nem de vestais de uma cultura passadista. Queremos, sim, ser, ao mesmo tempo, guardiões e promotores da cultura, aqui entendida como união de inteligência, razão e sensibilidade, fantasia e memória, valores eruditos e populares, vanguardismo e preservação. Cumprir este compromisso: eis a vossa missão. Sede bem-vinda, entrai, a Casa é vossa.

(Republicado, por incorreções na edição anterior desta Revista).

NOTAS E REFERÊNCIAS

1 PESSOA, Fernando. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 78
(Mar Português).
2 ILHAVIRTUAL.COM. Informativo sobre literatura maranhense. n 27, fev. 2016,
p. 04. Disponível em: https://fi les.comunidades.net/joseneres/ilha_virtual_27.pdf.
Acesso em: 14 abr.2017.
3 D’ ABBEVILLE, Claude. História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do
Maranhão. São Paulo: Edusp, 1976, p. 41.
4 FERRO, Ana Luiza. Crime organizado e organizações criminosas mundiais.
Curitiba: Juruá Editora, 2009.
5 PESSOA, Fernando. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p.108
(Cancioneiro).
6 FERRO, Ana Luiza; ALMEIDA, Sônia. O náufrago e a linha do horizonte. São
Paulo: Scortecci, 2012, p. 72.
7 Ibidem.
8 Ibidem, p.59
9 DRUMMOND, Carlos. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
2008, p. 243.
10 DAMOUS, Laura Amélia; ALMEIDA, Sônia. Apresentação de O náufrago e a
linha do horizonte. São Paulo: Scortecci, 2012.
11 PROVENÇAL, Lucien. Prefácio. In: FERRO, Maria Luiza. 1612: Os papagaios
amarelos na Ilha do Maranhão e a Fundação de São Luís. Curitiba: Juruá, 2014.
12 MARIZ, Vasco. (Prefácio). Ibidem

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