AS VOZES DA LÍNGUA – Entrevista de Conceição Lima

Alexandre Maia Lago

Adonay Ramos Moreira

HÁ FRASES incontestáveis em matéria de literatura, tanto pelo que representam do momento em que são ditas quanto pela força que carregam em si mesmas. Dentre as mais célebres, a de Marllamé é pontual. Seu veredito é incorrigível: a função da poesia consiste em dar um sentido mais alto às palavras da tribo. Em todas as línguas, sempre coube aos poetas aperfeiçoar o sentido de seu idioma, elevando-o a um nível tal de precisão que, através dele, pudessem cantar ao mundo as grandezas e tragédias de seu povo, de modo tal que seus versos se tornariam tão perenes quanto o bronze. Essa lição jamais foi esquecida, e pode ser encontrada entre os poetas das épocas mais distintas. Foi em nome de tal credo que Shelley afirmou, com toda a convicção que lhe era possível, que os poetas seriam os legisladores e os profetas de seu tempo, rouxinóis que cantam no escuro, cujo canto ilumina tudo ao seu redor. O exemplo de Shelley jamais foi esquecido e, mesmo em uma época em que imperam as imagens, os poetas seguem cumprindo a sua missão, ainda que continuem a marchar nas sombras.

Dentre esses poetas, Conceição Lima possui uma voz de destaque. Nascida em Santana, na ilha de São Tomé, São Tomé e Príncipe, a jornalista e escritora é membro fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-Tomenses, UNEAS. Fez os estudos primários e secundários em São Tomé, onde reside e trabalha como jornalista da TVS, Televisão São-Tomense. Foi, durante longos anos, jornalista e produtora dos Serviços em Língua Portuguesa da BBC, em Londres. Considerada uma poetisa do período pós-colonial, sua poesia, impregnada de um lirismo profundo, é uma meditação sobre a história de seu país, sobre as angústias e frustações de seu povo, cuja história sofrida ganha corpo e voz em seus versos. É o que se nota em poemas como Zálima Gabon, do livro A dolorosa raiz do Micondó (2006): “Falo destes mortos como da casa, o pôr do sol, o curso / d’água./ São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova / a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo / e uma longa, centenária, resignada fúria. / Por isso não os confundo com outros mortos. / Porque eles vêm e vão mas não partem / Eles vêm e vão mas não morrem.”

Às vezes profundamente confessional, seus versos, senhores de um esteticismo bem marcante, apresentam de igual forma uma inclinação universal, consciente que é a poetisa de que a poesia canta todas as vozes. Suas palavras, ainda que profundamnete identificadas com seu país, abrem a janela para o infinito, revelando uma África acima dos modismos e dos lugares-comuns. Como bem aponta Helder Macedo, no esclarecedor prefácio ao livro O país de Akendenguê (2011): “O ‘país’ de Conceição Lima é uma ilha. Mas afinal todos os continentes são ilhas, ou partes de ilhas, o mundo é feito de ilhas. A sua ilha é São Tomé, ponto de partida e de chegada numa viagem entre a memória e o desejo”. É o que se nota no poema Inadiável Empresa, do livro O país de Akendenguê: “Jazem à beira do caminho, os destroços. Fugitiva é a inocência / Talvez haja porém tempo / Para redimir a palavra. / Sentir é também saber neutro / Este sol / Nas contorcidas feições da manhã. / Aniquilarão todos os papiros? / Exilarão a última estátua? / Deceparão o sentido da mão? / Na derme da lava / Sob a inclemência da lavra / Vibra a praia / O projecto dos dias puros / Inadiável empresa.”

Poetisa profundamente ligada ao seu país, e por isso mesmo universal, a são-tomense Conceição Lima é um verdadeiro mar a ser descoberto, um mar no qual falam as vozes do desejo e da memória, da história e dos sonhos, formando assim uma poesia de dicção única, na qual artista e palavra se completam. Ou, como ela mesmo nos confessa: “Quando de mim emigrar / Tudo o que sou / E o que não tendo sido, fui.”

P – Há em seus versos uma confiança profunda na palavra e em seu poder, como provam os poemas Não Estou Farta de Palavras e Colinas, ambos do livro O país de Akendenguê. Em Colinas, por exemplo, você afirma: “Quando tomba um caminho / Os meninos do meu país desenham colinas sobre as ondas.” Qual a importância, então, da arte e especificamente da literatura para o atual contexto de seu país?

CONCEIÇÃO LIMA–Microestado insular, com 1.001 km2 e cerca de 200 mil habitantes, jovens, na sua esmagadora maioria, São Tomé e Príncipe é, para começar, um lugar onde a arte musical marca profundamente a vida, o quotidiano, as identidades coexistentes no seio da nação e a identidade nacional. Dos ritmos tradicionais de agrupamentos do socopé, da puíta, do bulawê, da ússua, do kiná, da dêxa, do vindes-meninos, da txabeta, disseminados pelas diferentes localidades, e disputando, entre si, a missão de guardiões das línguas crioulas (os provérbios, os ditos e as máximas ancestrais), até aos conjuntos de música ligeira e artistas a solo, mesclando, por vezes, ritmos tradicionais e influências externas, sobretudo de Angola, do Congo e das Caraíbas, a música está entranhada nos tecidos culturais e sociais do país.

Alguns estudiosos sustentam mesmo que a preservação e a sobrevivência, entre a juventude, da língua mais falada no arquipélago a seguir ao português, o crioulo forro, se deve ao poder da música, sempre associada à dança.

O Tchiloli ou a tragédia do Marquês de Mântua (ritualização africana da época carolíngia) e o Auto de Floripes, o primeiro na ilha de São Tomé e o segundo na ilha do Príncipe, são duas representações teatrais emblemáticas, que encantam estudiosos, visitantes e turistas, estando em estudo a candidatura de ambas a patrimônio imaterial da humanidade. As artes plásticas conheceram um progresso assinalável no pós-independência, com uma geração jovem na qual se destacam nomes como o saudoso Armindo Lopes, Eduardo Malé, René Tavares, Nezó, Zemé e Kwame Sousa, entre outros. O Centro Cultural Português, o Centro Cultural Brasil-São Tomé e Príncipe, e a Aliança Francesa, patrocinam exposições e alguns destes artistas têm sido embaixadores são-tomenses além-fronteiras. Propositadamente, deixei para o fim a literatura, cujo corpus nunca foi muito amplo. Todavia, o arquipélago gerou nomes referenciais como Caetano da Costa Alegre, Francisco José Tenreiro, Alda Espírito Santo, Maria Manuela Margarido e Tomás Medeiros. A importância de Costa Alegre e de Tenreiro extravasam as fronteiras arquipelágicas, para se destacar no conjunto das literaturas africanas de língua portuguesa, o primeiro, pelo pioneiro timbre negrista da sua voz, o que levou o Professor Manuel Ferreira a distingui-lo como o primeiro a tematizar a questão da cor da pele. Quanto a Francisco José Tenreiro, foi o precursor da Negritude na poesia africana de língua portuguesa, com o icônico Ilha de nome santo (1942). No pós-independência, destacam-se os nomes de Albertino Bragança, Aíto Bonfim, Olinda Beja, Frederico Gustavo dos Anjos e, mais recentemente, Orlando Piedade e Goretti Pina. Acontece que as políticas do Estado têm sido deficientes no que respeita à valorização do patrimônio cultural e seus fautores.

O estudo dos autores nacionais no sistema de ensino é rarefeito, quando existe; o Prêmio Nacional de Literatura Francisco José Tenreiro deixou de ser atribuído após duas edições, por falta de patrocínio; a falta do hábito de leitura é crônica, não existe um Plano Nacional de Leitura consistente; a lei do mecenato adormece no papel e não existe no país uma única livraria.

O Mês Nacional da Cultura é uma realização esforçada e bem-intencionada, mas sazonal por natureza  e prejudicada por grandes debilidades orçamentais num país onde o peso de outras prioridades é gritante. A seu modo e com os meios de que dispõe, o artista e empreendedor cultural João Carlos Silva tem vindo a afirmar o seu contributo com a Bienal de Artes e Cultura, dando visibilidade a representantes não só das artes e da cultura nacional, mas também a criadores estrangeiros de várias latitudes, o que possibilita um certo nível de intercâmbio.

Acho que se faz sentir a necessidade de uma mais firme aposta nas artes, na literatura, na cultura, como expressão da identidade nacional e uma porta de abertura e de projeção de São Tomé e Príncipe para o mundo. Essa aposta deve resultar de uma visão mais sistêmica da cultura, que inscreva o modo como se inter-relacionam os diferentes segmentos culturais do país, o modo como os são-tomenses se relacionam consigo próprios como um todo, e o modo como São Tomé e Príncipe se posiciona e se relaciona com o mundo.

P – A memória, ao que parece, é um forte elemento de sua poética, como você bem resume no verso “Vítima da memória, nenhum deus me acolhe à chegada”, presente no poema Esta Viagem, do livro O país de Akendenguê e também nos fortes versos do poema Canto Obscuro às Raízes, do livro A dolorosa raiz do Micondó. Por que, para a sua poesia, a memória é tão importante?

CONCEIÇÃO LIMA – Considero que a memória pode ser uma das mais poderosas fontes criativas se a evocação factual não subjugar e aprisionar a subjetividade emocional. Creio que a memória flui na minha poesia como uma imposição de vivências pessoais, vivências da infância, quotidianas, sociais, históricas, cujo impacto é tão forte que convoca um desejo, uma necessidade de partilha.  O que eu partilho não são, porque nunca poderiam ser, gravuras fixas dessas vivências, testemunhos petrificados, mas o fruto do modo como elas, através de lembranças, de imagens, de ideias, impregnam o espírito do poema, metamorfoseadas ou mediadas pela imaginação reflexiva que as conecta, ainda que subliminarmente, com o presente e com o futuro. Assim, para mim, a memória, sendo, por inerência, social, mesmo quando aparentemente encapsulada no individual, pode encontrar, no labor poético, um modo de extravasar o estrito ‘‘eu’’, resultando numa tradução, reelaboração e, até, transfiguração do objetivamente vivido, que apela à (re)invenção do sentido e dos sentidos. A memória é, em si, expressão do que somos como indivíduos, como membros de uma família, de uma comunidade, de uma nação, do humano universo. Pelo que esse laço de um certo resgate do passado não é sempre, necessariamente, na minha poesia, uma derivação do pessoalmente experimentado, testemunhado. Pode ser instigado por narrativas escutadas na infância, por experiências de outrem, por conhecimentos acumulados através de livros e outras fontes de acumulação de saberes, convocado pela verve memorial de outros criadores.

O poema Canto Obscuro às Raízes teve no livro Raízes, do norte-americano Alex Haley, o clic inspirador de um discurso poético de busca (impossível) das origens, do lugar de partida do “último avô continental’’, em que os espectros dolorosos na gênese escravagista se interconectam com memórias ligadas a vivências pessoais e familiares e, também, os ingentes desafios do presente para são-tomenses e outros africanos.

Sendo evocativo das desumanidades que diasporizaram os negros africanos não só para as Américas e o resto do mundo, mas também dentro da própria África, daí brotando um certo sentido de extensão e expansão transcontinental, esse discurso inscreve ainda meditações sobre as privações que continuam a periferizar, penosamente, grande parte de africanos e sobre a impiedade de um modelo econômico sobre o qual se alicerçaram a crioulidade e a multiculturalidade da sociedade são-tomense.

Alguém quis saber, certa vez, o porquê da forte presença da história e de ‘’fantasmas atormentados ou reivindicativos’’, na dimensão insular da minha poesia e não só. É inegável que a minha poesia se entrelaça, em vários momentos, com a evocação da memória histórica, de alguns dos seus protagonistas e também com os mitos e tragédias, filhos e filhas dessa história. Porém, não sinto que o imaginário, o metafórico, sejam tolhidos ou constrangidos pelo factual. Quanto aos fantasmas, responsabilizei a consciência do poema por intimar à devolução da dignidade usurpada pela crueldade, pela implacabilidade, pela marcha impassível da história. Como se o poema reivindicasse, para eles, a construção de uma morada póstuma, uma morada de palavras entrelaçadas, de onde possam emergir a visibilidade e a dignificação em vida sonegadas. Derrubados pela história, assassinados pela história, apagados pela história, a busca de uma certa iluminação das suas vidas injuriadas, a recusa do esquecimento e do silenciamento impostos quer-se realizável por força do verbo criativo alimentado por um sentido intemporal de justiça.

Em resumo, a memória é, para mim, uma bagagem herdada, acumulada, contemplada, construída, desconstruída, reconstruída, reelaborada, interpelada, apostrofada, acarinhada, exposta, projetada, guiada por um desejo de iluminação que cabe aos leitores e à crítica dizerem se é ou não logrado.

Gostaria que na minha poesia fossem identificadas as três modalidades de tempo, segundo Santo Agostinho: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.

P – No poema Espectro de Guerra, do livro A dolorosa raiz do Micondó, você escreve: “Sei que certos poemas juntam os versos como se os / deitassem numa vala comum. / Certos poemas sentem dó da metáfora, trancam a porta na cara da rima”. Assim, se considerarmos como correta a afirmação de T. S. Eliot, no ensaio A Música da Poesia, segundo a qual os poetas no fundo estão sempre defendendo o gênero que escrevem, qual seria então o seu gênero e seu ideal de poesia?

CONCEIÇÃO LIMA– Não defendo ou escrevo, programaticamente, um determinado gênero de poesia. Nesse âmbito, não tenho, pelo menos conscientemente, uma agenda pré-definida. O que pode acontecer é haver, pela trajectória que moldou e vai moldando o meu imaginário, pela minha identidade/identidades, as minhas vivências, com as suas marcas, heranças, aspirações, frustrações, desencantos, sonhos, procuras, desencontros, encontros e reencontros, pelo conjunto de fatores como a consciência social, a consciência política, pelos lugares que percorri e os lugares que não tendo percorrido, acabei por percorrer, pelos lugares de resistência, os lugares de distopias e de rijas utopias, pelas dores individuais e coletivas que vivi e testemunhei, pelos ideários dos que forjaram esperanças e expectativas e sonhos dos quais me considero herdeira e dos quais não quero desistir de acalentar, tudo isso, enfim, entregará um certo remo à minha poesia.

É fato que podem ser identificados certos temas recorrentes: a memória, a que já se referiu. O social, a flora e a fauna do meu país. A violência histórica, a violência colonial, nomeada pela rememoração da escravatura, do drama dos serviçais e dos contratados angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos nas roças do cacau e do café em São Tomé e Príncipe, o massacre de 1953. Talvez uma espécie de ofício arqueológico que impõe à palavra poética o imperativo de revelação de trechos soterrados, omitidos, apagados, obscurecidos, não só em São Tomé e Príncipe e em África. Também em Jenin, por exemplo. A África. Uma certa África. Visões de África.

A ilha que o verso quer debruçada sobre uma varanda azul onde expludam todos os mares. E, claro, a casa, a imagem da casa, o projeto da casa. A casa íntima, morada interior, hóspede das peregrinações e do imaginário. A casa-útero, a casa primeira; a casa patrimonial, familiar e as vozes de todos os seus habitantes amados, os meus pais, irmãs e irmãos, as avós, as velhas tias, os primos, os amigos; a casa-mátria-nação, a um tempo concreta e imaginada, a casa nossa habitante e da qual somos habitantes. A casa, sem limites e sem fronteiras, a casa que em nós, humanos, mora, como uma oferenda, uma dádiva, da qual somos herdeiros e legatários, no corpo e no espírito das coisas, no âmago da poética palavra. Mas falar da minha própria poesia é um exercício inibidor, que, por norma, prefiro deixar nas mãos da crítica.

P – Há poetas cuja obra é, em grande parte, um reflexo de seu mundo exterior. Assim é com a secura agreste e nordestina de João Cabral de Melo Neto, as paisagens marinhas de Derek Walcott em seu Omeros, e os sintéticos poemas de Emily Dickinson, que são quase pequenas confissões de uma prisioneira voluntária. Dessa forma, quanto de São Tomé e Príncipe moldou sua poética? 

CONCEIÇÃO LIMA – São Tomé e Príncipe é elemento fundacional da minha poética, fonte inegável de inspiração. Eu sou, antes de tudo, uma poetisa são-tomense. Africana. Mas não sinto que essas dimensões sejam redutoras da minha condição de sujeito do mundo, cujo percurso vivencial foi partilhado em tantos lugares e cujos caminhos literários foram tributários, visitantes assíduos, por vezes obsidiantes, de tantos poetas e poetisas, não apenas dos espaços de língua portuguesa, mas também de outras latitudes, de outras línguas. No poema Canto Obscuro às Raízes, o sujeito poético inicia uma peregrinação em cujo término se revela, afinal, nômada. Mas, para responder de forma mais concreta, reconhecerei que é tangível em vários poemas meus, a representação das paisagens do meu país. Os elementos da flora e da fauna marcam forte presença, estou a pensar, por exemplo, no longo poema São João da Vargem, com a enunciação de um conjunto de plantas e de árvores, a exposição de uma fauna quase diáfana, habitada sobretudo por pássaros e borboletas. De certo modo, também em Na Praia de São João e em Água-Grande –a típica atmosfera do pôr do sol na praia, à chegada do pescador e a mansa travessia do icônico rio pelo corpo da cidade de São Tomé, a capital. O poema Residência, postumamente dedicado ao meu pai, traça um quadro paisagístico, no qual os elementos da flora são imediatamente identificáveis com São Tomé e Príncipe.

E julgo que algo de semelhante ocorre no poema Vila Maria Número Seis, em certas passagens de Canto Obscuro às Raízes e em Gravana, revelando-se neste último as características da rarefação da natureza na estação seca e fria. Há o mar, os rios estreitos como fios. Contudo, as paisagens, a natureza, são apenas uma parte da presença de São Tomé e Príncipe na minha poesia que não abdica de buscar o humano. Por muito esplendorosas que sejam as paisagens, algo não está bem quando a sua exuberância e beleza estão divorciadas ou distanciadas do destino dos seus habitantes. A respiração do poema reclama a harmonia entre a natureza e as condições dos seres humanos.

P – Você é considerada uma poetisa do pós-colonial e podemos mesmo ver em seus versos a forte presença do passado de seu país, como nos poemas do livro A dolorosa raiz do Micondó. Em um de seus livros mais recentes, o Quando florirem salambás no tecto do Pico (2015), você escreve: “Uma a uma apagaremos as estrelas de / mentira / Removeremos dos caminhos o lixo e os / entraves / Abraçaremos as lavras, sacudiremos dos / livros a poeira. / Nenhum vestígio dos altares erguidos a / deuses absurdos. / Recomeçamos – artesãos da nossa redenção”. Diante disso, qual é o papel da poesia nesse processo de redenção?

CONCEIÇÃO LIMA –Este poema foi escrito em 2015, num contexto, diria, de trauma coletivo, de profunda distopia, em que estava em curso, em São Tomé e Príncipe, uma agenda de afunilamento e supressão da liberdade e das liberdades, um contexto em que a palavra dita ou escrita podia representar uma séria ameaça. O governo censurava e bania criações artísticas, especialmente músicas. Tendo emergido numa moldura social específica, a minha ambição é que a carne e o osso do poema transcendam o contexto que o gerou, apropriando-se de uma significação correspondente à busca da verdade das coisas, de um sentido de justiça que nivele a retidão das aspirações e das vontades, rejeitando as arbitrariedades que tolhem o verbo, a criatividade, o livre pensamento, a claridade do conhecimento, a liberdade dos artistas, dos criadores. Em São Tomé e Príncipe lê-se muito pouco. Porém, na medida em que a poesia toca a nossa residência íntima, as nossas emoções, ela tem o potencial para mudar algo em quem a lê ou ouve, apelando à transversalidade humana que nos funda e refunda, gerando identificações por via emocional que a mente está apta a assimilar. A poesia instiga e insufla a esperança, é um chamamento à meditação solitária e à congregação solidária, pode levar à absorção da realidade/realidades e suas múltiplas nuances de uma forma sensível, não impositiva.

O ser humano tem a capacidade de se redimir e a poesia é uma das mais antigas, duradouras, profundas e misteriosas criações humanas.

P – Comentando seu livro O útero da casa, Urbano Tavares Rodrigues escreve: “O útero da casa é um livro diferente. Obra de análise íntima, traz-nos por vezes a meia voz, através da saudade e da mitificação das coisas amadas, a cor e a alma da ilha mãe de São Tomé. [..] Conceição Lima escreve-se, em ideia e corpo, na carne viva da ilha.” Ante isso, até que ponto, para você, poesia é confissão?  

CONCEIÇÃO LIMA – As marcas identitárias, pessoais e históricas, as memórias poéticas da infância e não só, o ‘‘eu’’ que atravessa os meus poemas (um ‘‘eu’’ que certas vezes em mim não começa e acaba), podem incentivar a percepção ou até a conclusão de que poesia para mim é confissão. E haverá, certamente, confissão, subliminar ou não. A presença do autobiográfico na minha poesia tem sido várias vezes referida. Todavia, uma vez escrito o poema, uma vez publicado o livro, entrego-os aos leitores e ao seu ajuizamento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Carrinho de compras