AS REFORMAS DO LARGO DO CARMO

Benedito Buzar
Cadeira Nº 13

ESTE mês, após a inauguração das obras de requalificação da Rua Grande, indiscutivelmente as melhores e mais completas do ponto de vista urbanístico, realizadas em São Luís pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, serão iniciadas as obras de revitalização de importantes espaços do Centro Histórico, destacando-se a Praça João Lisboa, o Largo do Carmo e o seu entorno.
Pelo que disse a então presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Kátia Bogéa, em palestra proferida na Academia Maranhense de Letras, o Centro Histórico é um dos mais importantes exemplares arquitetônicos e históricos do Brasil, mas há anos abandonado pelas administrações municipais.
Pelo montante dos investimentos, estimados em 11 milhões de reais, advindos da parceria com a Vale, e pela magnitude das obras, inquestionavelmente, as intervenções urbanísticas a serem executadas naqueles espaços serão amplas, abrangentes e tecnicamente adequadas.
Numa vista de olhos no livro do professor Domingos Vieira Filho, recentemente reeditado pela Academia Maranhense de Letras, intitulado Breve história das ruas e praças de São Luís,1 o verbete Praça João Lisboa é muito claro quanto à importância histórica desse espaço público, que remonta a 1643, quando se torna o palco memorável da batalha em que as tropas do bravo Antônio Teixeira de Melo derrotaram os holandeses invasores.
Ali também existiu um pelourinho de mármore, que servia de instrumento de suplício dos negros escravos, mas foi destruído em 1888 pelo povo após a abolição da escravatura, bem como, em 1838, no governo de Vicente Tomás Pires de Figueiredo, instalou-se, no Convento do Carmo, o Liceu Maranhense, dirigido por Sotero dos Reis.
Quanto à mudança do nome de Largo do Carmo para Praça João Lisboa, Vieira Filho informa que veio no bojo da Resolução nº 14, de 28 de julho de 1901, em homenagem à memória do nosso maior jornalista, que ali morou durante muitos anos.
No governo de Luís Domingues, por efeito da Lei Estadual nº 582, de 24 de abril de 1911, foi autorizada a contratação do escultor francês Jean Magrou para fazer a estátua de João Lisboa, guardada nos porões do Palácio dos Leões até 1918, de onde saiu por iniciativa do governador Antônio Brício de Araújo, que a inaugurou solenemente.
Sabe-se, também, que o pedestal primitivo, desenhado pelo engenheiro Haroldo Figueiredo, foi mudado por outro no governo Magalhães de Almeida, mas, na administração do interventor Paulo Ramos, sofre nova modificação, com o deslocamento do pedestal da estátua para “a primeira seção da praça, voltada para a Rua Nina Rodrigues.”2
Naquela época, a execução de obras públicas, em São Luís, não era tarefa fácil, por dois motivos: 1) divergências políticas entre os governantes em torno dos problemas da cidade; 2) carência ou dificuldade na aquisição de material de construção.
Quem atesta esses problemas são os interventores Antônio Martins de Almeida (1933 a 1935), que nomeou prefeito de São Luís o engenheiro Antônio Alexandre Bayma, e Paulo Ramos (1936 a 1945), que fez do médico Pedro Neiva de Santana o gestor da capital maranhense.
Martins de Almeida, na edição do Diário Oficial de 1º de março de 1935, abordava a questão urbanística de São Luís de maneira desastrosa:

Queremos fazer um apelo aos capitalistas e proprietários de São Luís, no sentido de que empreguem os seus capitais em edificações ou reconstruções, modificando esse deplorável aspecto de cidade colonial, retardada, retrógrada, com que tanta gente apoda a nossa bela capital.
Em seguida, dizia:

Precisamos varrer do alto dos telhados essa vegetação luxuriante que se ostenta em toda parte, nas ruas mais centrais da urbe. Devemos extinguir esse tipo de casarão secular, biqueiras à frente, sacadas do tempo de Dom João, em que se aprazem de habitar, entre ratos, morcegos e baratas, muitas das nossas famílias abastadas.

Não por acaso, o prefeito Antônio Bayma, nomeado por Martins de Almeida, sob o argumento de facilitar o tráfego, ordenou o corte de algumas árvores da Praça João Lisboa, sob o pretexto de que elas, por serem frondosas, também atentavam contra a segurança do Estado.
Se o mineiro Martins de Almeida pregava ações radicais no sentido de desfigurar a cidade colonial, para que a administração municipal se visse livre dos problemas urbanísticos, o maranhense Paulo Ramos governava em sentido contrário ao que preconizava o seu antecessor, fato comprovado no Diário Oficial de 19 de agosto de 1938, em que divulgava as dificuldades para execução de obras públicas em São Luís:

A construção é caríssima, é quase inexequível, pois em nosso meio mantemos em grau mínimo a indústria de material necessário. O tijolo, a cal, a telha, a areia grossa, etc., atingem preços excepcionais, havendo verdadeiros lances de leilão. A falta de material sacrifica o orçamento de qualquer construção, mesmo o mais bem organizado.

Com todas essas difi culdades, o interventor Paulo Ramos não era pessimista e nem se deixava abater pelos problemas que o Maranhão enfrentava na área da construção. Para superá-las, respaldava-se na boa arrecadação da máquina fazendária e no aporte de recursos federais, que, drenados para a gestão do prefeito Pedro Neiva de Santana, permitiam a realização de obras para mudar a fi sionomia da capital maranhense, sem necessidade fazer alterações bruscas na paisagem colonial da urbe ludovicense, como era desejo de Martins de Almeida.
Como prova de que Paulo Ramos e Pedro Neiva estavam perfeitamente sintonizados quanto à maneira de proporcionar a São Luís uma nova roupagem urbanística, basta lembrar o ano de 1938, quando a população que habitava a capital do Estado via com bons olhos os melhoramentos nela introduzidos, com destaque para as reformas das praças Antônio Lobo, Gonçalves Dias e João Lisboa, os calçamentos das ruas Dom Francisco, Jansen Müller, Leôncio Rodrigues, Sete de Setembro, Mário Carpenter, Avenida 5 de Julho, e para a restauração do Palácio dos Leões, do Instituto Osvaldo Cruz, do Hospital Geral, e as construções das avenidas ligando a Praça João Lisboa ao Mercado Novo e à Avenida 5 de Julho.

NOTAS E REFERÊNCIAS

1 VIEIRA FILHO, Domingos. Breve história das ruas e praças de São Luís. Maranhão, 1962.
2 Ibidem, p. 70

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