AS FACES DO TEMPO: HISTÓRIA E POESIA

Entrevista de Alberto da Costa e Silva

Alexandre Maia Lago

Adonay Ramos Moreira

A OBRA DE ALBERTO DA COSTA E SILVA desmistifica a antiga imagem uniformizada pela mídia, a qual transmite equivocada noção do mundo africano, sobretudo o mundo abaixo do Saara. Sim, é um mundo. E, nele, pode-se encontrar o flagelo da fome, devastação de florestas, caça ilegal, guerras sem fim. Mas também estabilidade, paz e preservação ambiental. Tudo a depender do lugar a respeito do qual se está a falar. A diversidade étnica, e principalmente linguística, é igualmente imensa. Um jalofo senegalês distingue-se de um amara etíope ou este de um xona de Zimbábue. O continente é tudo isso ao mesmo tempo, e as paisagens deslumbrantes e mistérios sem fim estão em todo lugar. Essas são gotas da lição trazida pelo olhar percuciente desse mestre, cuja erudição, comunicada de maneira simples, transformou sua monumental obra em documento imprescindível para os estudiosos da África.

Qualquer estudo sério sobre o assunto demanda mergulhar no legado desse historiador, diplomata e poeta paulista de alma piauiense. Alberto da Costa e Silva é da estirpe dos grandes estudiosos que reclamam o conhecimento pelas gerações vindouras. Tipo cada vez mais raro no país, e praticamente extinto nas universidades. Seu estilo, de uma clareza quase transparente, combina a erudição do intelectual, o olhar atento e crítico do historiador e a sensibilidade e elegância do poeta.

Seus estudos sobre a história da África, sobretudo os livros A enxada e a lança: a África antes dos portugueses e A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700, são um dos trabalhos mais lúcidos sobre esse tão vasto continente, que ainda permanece envolto em mistério, lendas e incompreensões, cuja riqueza salta aos olhos de quem, mesmo por um instante mínimo, o contemple. Raras são as vezes em que um historiador mergulhou tão fundo na vida, na alma e na história de um povo, trazendo à luz imagens que, abandonadas pelo tempo, aos poucos reconstituem aos seus leitores um mundo no qual podemos encontrar as nossas mais profundas raízes. Em um país como o Brasil, cujo esquecimento representa quase uma regra nacional, sua obra consiste mesmo em um divisor de águas, delimitando uma fronteira palpável entre o que tínhamos antes e depois de seu ambicioso estudo, elemento fundamental para que possamos entender os caminhos por vezes tortuosos de nossa tão controversa história.

Estudioso atento, seu olhar não se deixa seduzir pelos modismos ou pelos discursos políticos de qualquer época. Interessa-lhe, antes, a fidelidade ao tema tratado, à história de um povo que, sendo berço de uma das culturas mais ricas do globo, permanece ainda com populações inteiras mergulhadas na miséria e no esquecimento, ante os olhares indiferentes de um mundo que cada vez mais se vê esvaziado de sua própria humanidade. Como na famosa frase de Goethe, segundo a qual a cortesia do gênio é a clareza, Alberto da Costa e Silva prima pela nitidez, e seu olhar de poeta empresta ao historiador o amor aos detalhes, às nuances, recompondo, através das mais diversas fontes e documentos, a vida de toda uma civilização, ante a qual percebemos, sem muito espanto, que é também a nossa.

Como poeta, sua sensibilidade também percorre a memória, sendo o tempo sua matéria-prima. Assim como o Eliot de Quatro quartetos, sua poética funde o tempo em todas as suas formas, como se fossem todas elas rios que convergem para o mesmo mar, um mar que se encontra no corpo e na alma desse poeta que, na infância de seus noventa anos, segue erigindo uma das obras mais importantes da língua portuguesa. Membro da Academia Brasileira de Letras e ganhador de vários prêmios, dentre eles o Camões de 2014, Alberto da Costa e Silva é hoje um dos clássicos de nossa literatura, para o qual história e poesia são dois lados da mesma face, uma face que encontra na língua portuguesa seu mais leve e eterno espírito. Ou, em suas palavras: “o eterno é agora e em si mesmo morre,/ nunca houve rumo e todo sempre é incerto./ – Não creio, e rezo”

ENTREVISTADORES – A chamada Conferência de Berlim (1884-1885) marcou uma nova etapa no processo de colonização africana e, embora seus efeitos não tenham se prolongado demasiadamente, significou profundas mudanças culturais, linguísticas e geográficas em toda a África, a qual, apesar da descolonização, ainda guardou e guarda muitas influências desse evento literalmente traumático. Dessa forma, o senhor crê ser possível uma reconstrução rumo à unidade africana perdida em meio a toda essa herança? Haveria um futuro permitido ao grande continente que não seja sua plena e completa europeização ou marginalização?

ALBERTO:Quinze anos depois das Conferências de Berlim e Bruxelas, nas quais os países da Europa com vocação imperial repartiram entre si o continente africano, este continuava, quase na metade de seus espaços, sem sofrer a presença europeia. Mas esta, na passagem do século XIX para o XX, ia-se impondo às carreiras com o rifle de ferrolho e o de repetição, a metralhadora e o canhão sobre rodas. Além da Etiópia – da Etiópia do negus Menelik, que humilhou na batalha de Adua, em 1896, os 17 mil soldados das tropas italianas do general Oreste Baratieri –, e do reino de Uadai, que só se submeteria aos franceses em 1912, e do califado de Socoto, vencido pelos britânicos em 1903, e do império de Bornu, conquistado um ano depois, e do reino de Bamum, que se tornou um protetorado alemão em 1902, e do reino xona do Monomotapa, outros grandes reinos e miniestados comandavam os amplos espaços africanos

O domínio europeu durou pouco. Em muitos casos, cinquenta ou sessenta anos. Seis décadas, por exemplo, separam a conquista pelos britânicos, em 1900, do reino dos axantes, que compreendia quase toda a Costa do Ouro, da independência daquele país, em 1957, com o nome de República de Gana. Foi um domínio que durou pouco, mas não só mudou as fronteiras e as formas de governo da África, mas a sacudiu com novos meios de transportes – o barco a vapor, a ferrovia, o caminhão, a bicicleta, o aeroplano –, e a energia elétrica, o tratamento das doenças, a difusão da escrita e da leitura e uma enorme gama de aparelhos e instrumentos de uso diário, do parafuso à máquina de costura portátil e ao rádio de pilha.

ENTREVISTADORES – O interesse pelo estudo dos assuntos africanos é, no Brasil, algo relativamente recente, tendo inclusive escapado ao nacionalismo da geração modernista de 1922, cuja busca pelo sentido de brasilidade, por vezes, concentrou-se em uma camada mais superficial e imediatista daquilo que realmente seria a história da gente brasileira. Sua obra, nesse sentido, é um marco incontestável em nossa historiografia, tornando-se um verdadeiro divisor de água no conhecimento profundo e na interpretação de nossas mais fundas raízes africanas. Dessa forma, qual a importância, a seu ver, que às novas gerações brasileiras teria o conhecimento da rica história do continente africano e das profundas influências dele em nossa cultura?

ALBERTO: Os de 22 e das três gerações que se seguiram não ignoraram o negro na sua revisitação do Brasil. Não preciso lembrar mais que uns poucos nomes – Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Jorge de Lima, Artur Ramos, Jorge Amado, Portinari, Heitor dos Prazeres, Luiz da Câmara Cascudo, Edson Carneiro – para mostrar a importância do negro em suas obras e no Brasil que explicavam. Mas suas personagens eram brasileiras, ou esquecidas de suas origens, no dia seguinte ao desembarque do navio negreiro. Estudava-se, com seriedade e paixão, o negro e suas contribuições para a cultura brasileira, mas era pouco o esforço e o tempo dedicado a conhecer, na África, os diferentes (e numerosos) povos que vieram à força para o Brasil.

No correr das últimas décadas, a situação mudou. São muitos, sobretudo entre os historiadores jovens, os que se debruçam sobre a história africana e sobre os modos de vida e os valores dos povos da África, e, ao fazê-lo, expandem, aprofundam e enriquecem o passado brasileiro. Alterou-se nossa percepção da África: hoje a vemos como coformadora do Brasil.

ENTREVISTADORES – Embora a escravidão negra tenha sido possivelmente praticada, como o senhor aponta em A manilha e o libambo, no Saara Central desde pelo menos a metade do primeiro milênio antes de Cristo, o fenômeno de uma escravidão tipicamente racial é mais recente, a ponto de o senhor afirmar, na mesma obra, que: “No fim dos Seiscentos, nos territórios coloniais das Américas e em suas metrópoles europeias, ‘escravo’ e ‘negro’ tinham passado a ser sinônimos. No Pará, os defensores da escravização dos ameríndios chegaram a argumentar que estes eram negros, razão suficiente também para que fossem escravos. E não seria à toa que aos índios os colonos portugueses chamavam ‘negros da terra’”. Dessa forma, seria correto afirmar que a escravidão negra nas Américas foi um mal necessário? Haveria alguma outra alternativa que pudesse substituir esse tipo de mão de obra?

ALBERTO: Todas ou quase todas as sociedades conheceram a escravidão. Na Europa, na Ásia, na América e na África. Embora igualmente cruel no Egito faraônico, na Roma dos Césares, na Itália do Renascimento ou entre os acãs, era o regime mais eficiente para, com o emprego constante da violência, recrutar, conservar e explorar trabalho. Na América, às incertezas do colono branco, que podia deixar na mão quem o trouxera, ocupar espaços demograficamente vazios e tornar-se senhor de si mesmo, opunha-se o africano, difícil de evadir-se de sua condição, porque diferente.

ENTREVISTADORES – As diversas formas de escravidão praticadas na África anterior a 1500 dão-nos outra dimensão desse processo, bem como a riqueza e diversidade desses povos, cujo estudo profundo e analítico, tanto em A enxada e a lança quanto em A manilha e o libambo, deixa antever um continente com uma história vigorosa e complexa, organizado política, cultural e economicamente, cujos costumes e tradições ainda hoje persistem. Dessa maneira, quais dessas estruturas, ainda que sob o jugo da escravidão, resistiram e se fizeram presentes nas Américas? E quais suas principais implicações entre nós?

ALBERTO: Nunca houve uma única África. A África foi sempre muitas Áfricas. Múltipla. E, por isso, surpreendente e rica. Um jalofo não se confunde com um xona. Nem um xona com um bijagó. Nem um bijagó com um ibo. Nem um ibo com um massai. Mas nas grandes cidades comem todos pão de trigo e falam no telefone celular. As conversões culturais, onde quer que se produzam, sejam forçadas, consentidas ou auto-impostas, são quase sempre sem retorno. Não são, porém, completas. E implicam trocas. A pianista japonesa que jamais saiu de suas ilhas toca belamente e com emoção Mozart, num instrumento que seus avós desconheciam, mas continua a vestir quimono em casa, a comer com os pauzinhos e a admirar as gravuras japonesas que alteraram o sentido de espaço na pintura europeia. Com mais força ainda, as esculturas de vários povos africanos deixaram pasmos os europeus e comandaram a grande arte que se produziu na Europa e nas Américas no século XX

ENTREVISTADORES – Em muitos países africanos de língua portuguesa, tais como Angola, Moçambique e Cabo Verde, surgiu, após suas respectivas independências, uma grande e rica literatura que, apesar de escrita na língua dos colonizadores, pretende entender e, em alguns casos, reinterpretar a trágica história desses países e, em último caso, de seu continente. Como o senhor vê essa literatura? Teria ela de fato a força de trazer à luz essa parte negra desse continente segundo seu povo? Podemos dizer que a África profunda fala através desses autores?

ALBERTO: Não estará longe da verdade quem disser que a literatura dos países africanos de língua portuguesa se assenta no testemunho, quando não no desabafo. E isso vale – creio – tanto para os autores que sofriam a censura e o controle dos poderes coloniais, quanto para os que lutaram nas guerras da independência e para os que escrevem hoje, com um forte apego à terra e a viver as paixões de seu tempo. Como leitor, espero que o angolano Pepetela e o moçambicano Mia Couto continuem a fabulação emocionada do cabo-verdiano Baltasar Lopes, de quem jamais deixarei de reler Chiquinho.

ENTREVISTADORES – A presença de seu pai, o poeta simbolista Da Costa e Silva, é uma constante em sua vida. Essa presença fica evidente em muitos momentos, como é exemplo o belo trecho de seu livro Espelho do príncipe – ficções da memória, no qual o pai ensina o filho a ver o mundo: “Foi o pai quem ensinou o menino a olhar os insetos. Quem lhe pediu atenção para a alegria dos grilos. E deu nome à joaninha, à lavandeira, ao louva-a-deus, ao besouro, à vespa e ao comprido e estranho bicho-de-pau, que mais parecia um graveto”. Diante disso, qual é a influência de seu pai em sua poesia? E como, a seu ver, a poesia dialoga com o seu vigoroso trabalho historiográfico?

ALBERTO: Muitas vezes, ao escrever um par de versos, como que ouço o ditado manso de meu pai. Nunca o imitei, nem o saberia fazer, mas dele guardei a fidelidade ao nome das cousas e à alegria e à dor que há nas palavras. Já que estamos a falar de África, lembro em meu favor o griot, o dieli, o bardo africano em quem se somam o poeta e o historiador.

Alberto da Costa e Silva

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