A ESTANTE E A ESTÁTUA

Joaquim Haickel
Cadeira nº 37

NA ACADEMIA Maranhense de Letras, quem entra por seu Salão Nobre, é levado, sem esforço, a deter a vista sobre a estátua em bronze de Gonçalves Dias, que ali está, há pouco tempo, posta à esquerda do auditório, o poeta sentado, livro aberto, sobre o pedestal estilizado da palmeira que a sua poesia imortalizou.
E decerto estará o visitante curioso por saber qual a origem da preciosa obra de arte. Como chegou a ser colocada ali?
É uma história complexa, pelas muitas peripécias de que se faz. Para ser contada, minha imaginação de cineasta demanda o retorno de uma estante de livros ao lugar onde foi posta, no começo do século XX, e que era a Biblioteca Pública do Estado do Maranhão.1 Igualmente reclama o retorno, em presença viva, de um senhor chamado Francisco Guimarães, maranhense dos mais ilustres, ainda que alistado, em nossos dias, no grupo daqueles a quem “o Maranhão esqueceu”, segundo expressão de Jerônimo de Viveiros, que o traz à memória em artigo de seus Quadros da vida maranhense. 2

Guimarães, a estante e a estátua: nesta ordem se explicam.

FRANCISCO GUIMARÃES E A ESTANTE

Pouca notícia chegou até os nossos dias desse maranhense, que, entretanto, podia ser visto em Paris, a meados dos anos 50 do século passado, “na avançada idade de oitenta anos,” sem ter alterado “a sua bela inteligência e o afeto ao berço natal,” informa ainda Viveiros, que acrescenta: “No verdor dos anos” saiu do Maranhão, militou na imprensa do Rio de Janeiro, e terminou a sua vida pública como agente comercial na República Argentina e na França.”3
Quando servia ao Brasil em Buenos Aires, Francisco Guimarães não contava ainda trinta anos de idade, e já prestava serviços relevantes à pátria, como a redução em 40% da taxa de importação do café brasileiro pela Argentina favorecida pelas relações de amizade entre o presidente brasileiro, Campos Sales, e o argentino, Júlio Roca.4
No Maranhão, o nome de Francisco Guimarães associa-se, de forma consagradora, à estante de livros cuja presença reclamei, e que estava posta a poucos metros de onde agora se vê a escultura de Gonçalves Dias, no prédio da Academia.
Jerônimo de Viveiros, em 1956, descrevia a estante e dava pormenores de sua oferta aos maranhenses:

Na capital portenha, [Guimarães] prevaleceu-se de sua amizade com o presidente de então, o general Júlio Roca, para que este oferecesse à Biblioteca Pública do Maranhão a belíssima estante que ainda hoje lá se admira.
[…]

Em verdade, a estante é uma obra de subido valor artístico. Projetada pelo artista italiano César Romagnola, e feita no Arsenal da Guerra do país ofertante, ao tempo em que era seu diretor o coronel Justo Domínguez, o móvel é todo talhado em madeiras argentinas – nogueira e vita tendo quatro metros de largura por três de altura. Encima-o os bustos de Mitre, Sarmiento e Avellaneda, ficando um pouco abaixo, no centro, o do doador. Na parte inferior, em alto relevo, veem-se as duas praças, Gonçalves Dias e 15 de Maio, respectivamente de São Luís e Buenos Aires, ladeando uma placa de metal branco com estes dizeres: “A la culta e intelectual ciudad de São Luiz do Maranhão, el Presidente de la República Argentina, Ten.-General Julio A. Roca en prenda de amistad ofrece este recuerdo. 1902.”

[…]
Guardava a monumental estante uma coleção de livros de autores argentinos, ricamente encadernados e selecionados por García Morón e Oswaldo Magnasc.

[…]
O valioso presente foi entregue pelo governo da República Argentina ao ministro brasileiro Dr. Ciro Azevedo. Da sua remessa ao Maranhão encarregou-se Francisco Guimarães.5

Os parágrafos entusiásticos de Viveiros ainda não retratam o que representou, em grandiosidade, a doação da estátua aos maranhenses. Outras ações e relações estabelecidas entre Brasil e Argentina terão tido maior importância histórica, sem haverem chegado à imprensa com tanta ressonância. Jornais de Buenos Aires davam pormenores sobre o móvel, desde o início de sua confecção até ao ato de entrega. Jornais da capital brasileira e de São Luís rebatiam as notícias, em jubilosa expectativa.
Informava o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, e o maranhense Pacotilha reproduzia trinta dias depois:

Buenos Aires, 31 de dezembro [1900] – O ministro da Guerra, Pablo Ricchieri, querendo associar-se à dádiva do general Roca, por forma a torná-la mais valiosa ainda, mandou que nas oficinas do Arsenal de Guerra se construísse com finíssimas madeiras nacionais um belíssimo móvel, onde irão encerrados os livros de que o general Júlio Roca mandou fazer oferta à Biblioteca do Maranhão.
O móvel artístico, cujo desenho é delicado e elegante, será encimado pelos bustos de Sarmiento, Bartolomeu Mitre e Avellaneda, nomes que indicou o general Roca, reputando esses os argentinos que melhor representam a intelectualidade do país. Os baixos relevos serão os escudos do Brasil e da República Argentina e reproduções das estátuas de Gonçalves Dias e de Sarmiento.

[…]
O general Roca mandou encadernar primorosa e uniformemente os livros de sua oferta […].
O régio presente em março fi cará pronto e seguirá para o seu destino.6

E antes que terminasse o ano de 1901, O Paiz informava do Rio de Janeiro:

Buenos Aires, 31 de dezembro – A Biblioteca Nacional [da Argentina], a pedido do Sr. Francisco Guimarães, oferece à do Maranhão importantes volumes das suas duplicatas.
Para transportar estas obras e as que o general Roca também oferece à referida biblioteca, está sendo fabricado um móvel que ao mesmo tempo servirá de estante por uma disposição especial.
Este móvel está sendo fabricado nas oficinas do Arsenal de Guerra e impressionará como obra artística que é, coroada pelos bustos de Sarmiento, Mitre e Avellaneda.7

O trabalho de carpintaria do móvel é reportado seguidamente…:

Buenos Aires, 24 – Acha-se pronto o artístico móvel que o general Júlio Roca, presidente da República Argentina, vai oferecer à Biblioteca Pública de São Luís do Maranhão.8
A Biblioteca Pública recebeu o número 6 da edição popular da revista argentina Ilustración Sudamericana, que traz a gravura do móvel artístico que foi oferecido à mesma Biblioteca pelo general Pablo Ricchieri, ministro da Guerra da República

A famosa estante doada, em 1902, pelo presidente argentino Júlio Roca
à Biblioteca Pública de São Luís, instalada à Rua da Paz, no prédio hoje
pertencente à Academia Maranhense de Letras. O imóvel está recolhido ao
Museu Histórico e Artístico do Maranhão, à Rua do Sol.
Em sentido horário: os presidentes Júlio Roca, da Argentina,
ampos Sales, do Brasil, e o Barão do Rio Branco, ministro brasileiro;
Júlio Roca em foto oficial de presidente; o escultor Alfredo Joris; o embaixador
brasileiro Ciro de Azevedo, e o maranhense Francisco Guimarães.

Em sentido horário: os presidentes Júlio Roca, da Argentina, ampos Sales, do Brasil, e o Barão do Rio Branco, ministro brasileiro; Júlio Roca em foto oficial de presidente; o escultor Alfredo Joris; o embaixador brasileiro Ciro de Azevedo, e o maranhense Francisco Guimarães.
Argentina, para nele ser acondicionada a rica coleção de livros que lhe foi doada pelo general Roca, presidente da mesma República.
Por essa gravura pode-se avaliar a beleza desse valioso presente, que já deve estar em viagem para esta capital.9

… até à cerimonia de doação da obra:

Teve lugar no dia 14 de agosto último, no Arsenal de Guerra
de Buenos Aires, a entrega solene do móvel artístico, presente
do general Júlio Roca, presidente da República Argentina.
Às dez horas da manhã, chegavam àquele estabelecimento
o ministro do Brasil, Dr. Ciro de Azevedo, e o Sr. Francisco
Guimarães, sendo recebidos pelo ministro da Guerra, Coronel
P. Ricchieri, e os senhores Coronel Domínguez, diretor do Arsenal, General Reynolds, diretor da Saúde Militar, Dr. Marcial
V. Quiroga, Coronel Toscano, comandantes Martínez, Mombello, Shoeder, majores Rodrigues Dias, Vicart, Martínez y
Navarro, e outro.
Depois duma minuciosa visita pelos estaleiros, passaram-
-se ao grande pátio central, onde o Ministro Ricchieri fez os
convidados assistirem as experiências das novas metralhadoras
Maxim, tendo o ministro do Brasil feito vários disparos com
regular pontaria. Momentos depois, assistiram ao desfilar dos
aprendizes, que foram muito apreciados pelo seu bom marcial.
Dirigindo-se ao salão da direção, os visitantes, o encontraram adornado com bandeiras brasileiras e argentinas.
Aí o ministro da Guerra fez entrega da valiosa biblioteca,
pronunciando as seguintes palavras:
Senhor Ministro: Vou dirigir-vos poucas palavras para sintetizar este ato, eco afetuoso daquelas inolvidáveis festas, que,
iniciadas na vossa formosa cidade do Rio de Janeiro, terminaram em nossa capital argentina, pondo de manifesto a solidez
dos estreitos laços que há tanto tempo unem as nações brasileira e argentina.10
Este móvel, devido a uma feliz iniciativa deste jovem e distinto brasileiro, Sr. Francisco Guimarães, tão inteligente quão
cavalheiresco, que tem sabido cativar as simpatias de todos os
argentinos, servirá para guardar o produto da intelectualidade
argentina, consagrando assim essa vinculação que tem tido já
manifestações tão evidentes.

Este móvel leva esculpida, na alegoria que representa a Praça Gonçalves Dias, em São Luís do Maranhão, a efígie imortal
desse poeta, sem dúvida um dos homens mais culminantes do
pensamento brasileiro, e junto dele os bustos representando alguns dos nossos grandes intelectuais, simbolizando com acerto
a estreita união de ideais entre os dois povos.
Senhor Ministro: ao fazer-vos a entrega desta prenda de
amizade, em nome do presidente que atualmente dirige os destinos do povo argentino, o Senhor General Júlio Roca, e ao rogar-vos a encaminheis ao seu destino, cumpro um grato dever,
seguro como estou, dos sentimentos de amizade e de afeto do
Presidente da República para com a vossa pátria.
Depois de executados os hinos brasileiros e argentinos, o
Dr. Ciro de Azevedo respondeu:
Senhor Ministro: Agradeço sinceramente o precioso presente que, em nome do Excelentíssimo Senhor Presidente da
República, Vossa Excelência se digna entregar-me.
Como disse Vossa Excelência, ele representa certamente o
melhor remate das festas de confraternidade tão esplendorosas
quão significativas. De fato, destinado a conter produções dos
grandes escritores argentinos, produto da indústria nacional e
oferecido no Arsenal de Guerra, o precioso objeto tem três elementos de elevada expressão: o intelectual, com a colaboração
do trabalho manual, e valorizado por essa alma militar, que
torna mais notável a manifestação de carinho para com a minha
pátria. Graças, Senhor Ministro, e podeis crer que no meu país
será devidamente apreciada esta festa tão simpática, como é
estimada a intimidade de nossas duas nações; amizade que é de
desejar se torne cada vez mais cordial, uma vez que representa
um benefício efetivo para elas próprias e para a grandeza autônoma de nosso continente.11

Notícia da solenidade alcança o Norte do Brasil:

Telegramas de Buenos Aires para A Província do Pará diz que o general Júlio Roca, presidente da República Argentina, fez entrega naquela capital, das estantes que oferece à biblioteca do Estado do Maranhão.
Esteve, diz ainda o telegrama, imponentíssima a cerimônia.12
E também a minúcia do embarque da peça de arte:

No paquete Santos, da Lloyd Brasileiro, saído de Buenos Aires a 5 do corrente, embarcou o rico móvel doado à Biblioteca do Maranhão pelo presidente Júlio Roca.

E A ESTÁTUA?

A estátua, que se encontra onde hoje a encontramos – no mesmo lugar, e a pouca distância, de onde esteve a estante, fato que, por si só, lhe confere valor e significado muito grandes – é decorrência da estante, como ficará demonstrado nestas páginas.
Mas é preciso confessar, neste ponto, que entusiasmos – de ambas as partes envolvidas na negociação da escultura de bronze – foram causa de criar-se uma história que não corresponde bem à realidade dos fatos. E com variações em torno do mesmo tema:
1 – O governo do Maranhão teria mandado fundir a estátua, em Paris, para com ela retribuir a gentileza do presidente Júlio Roca, que – mentes mais exaltadas não hesitariam em adornar tal versão – teria grande estima pelo povo maranhense, a ponto de quase ter vindo a São Luís entregar o presente.
Fantasia das maiores: Roca esteve duas vezes no Brasil: a primeira, em visita ofi cial, em 1902, na presidência de Campos Sales, com quem fez uma amizade que lembraria a de José Sarney e Raúl Alfonsín, quase na virada do século; a segunda, em1907, no governo de Afonso Pena, em visita não oficial, mas em que teve recepção ofi cial: já ex-presidente, o general argentino retornava da Europa. O navio em que fazia viagem fez escalasem Salvador, Santos, de onde Roca desceu, e seguiu para São Paulo para rever Campos Sales, em cuja companhia foi ao Rio de Janeiro, visitar o presidente brasileiro. Como se vê, o lugar mais próximo do Maranhão onde esteve o doador da estante foi a Bahia.
2 – o governo do Maranhão já havia mandado fundir a estátua na França, para ornamentar algum logradouro na capital maranhense, desviando-a de finalidade, para retribuir a oferta do presidente Júlio Roca à Biblioteca do Estado
Esta variação encontraria hipotética sustentação num fato singular da história de São Luís, no começo do século XX: naquele tempo, na esteira de cidades como Belém, antes (e cujo prefeito era o maranhense Antônio Lemos), e Rio de Janeiro, depois, com Pereira Passos, a capital do Maranhão passava por intenso melhoramento paisagístico. À frente da empreitada, estava o arquiteto e urbanista franco-argentino Charles Thays14 que projetou em São Luís as praças João Lisboa, Benedito Leite, Gonçalves Dias, além dos jardins do Palácio dos Leões, e das avenidas Beira-Mar e Maranhense, esta, hoje, a Praça Pedro II;
Também essa hipótese não parece encontrar validade. Adiante-se, a propósito, que o valioso presente argentino terá sofrido, desvirtuamentos de ordem política, no Maranhão, já quando de sua colocação na Biblioteca Pública. Leia-se esta nota muito reveladora, em edição do jornal maranhense mais lido naquele tempo:

O MÓVEL ARGENTINO

Consta que o senador Kudara [Benedito Leite, identificado por esse epíteto no mesmo jornal] […] desistiu da festa que lhe ia ser oferecida na Biblioteca Pública do Estado, por ocasião de ser inaugurado o móvel com que brindou esse estabelecimento o presidente da República Argentina.
S.Ex.a ordenou, a darmos ouvidos nos boatos propalados, que não se realizasse a festa combinada, permitindo apenas que à visita pública fosse franqueado, no domingo último, o referido móvel argentino.
[…]

Dos boatos que correm, apenas conseguimos tirar um motivo, o único que impeliu o senador Kudara a desistir da estrondosa festa que lhe ia ser oferecida na Biblioteca Pública: a inveja, porque S.Ex.a foi brutalmente ferido no seu egoísmo.
Esqueceram-no na República Platina.
Francisco Guimarães, aos olhos de S.Ex.a., nenhum valor tem, pois cometeu falta imperdoável: não trabalhou para que o busto de S.Ex.a viesse também encimando o móvel argentino, ou, em último caso, uma inscriçãozinha, gravada em bronze, estivesse ali a recordar o alto poder de S. Ex.a.15

Ocorrências como essa parecem não deixar dúvida quanto à ausência de qualquer participação do governo do Maranhão na oferta retributiva da estátua ao presidente argentino. Por esta forma, se entende melhor a placa que se lê ao pé do monumento de bronze: “Ao general Julio A. Roca, a Biblioteca Pública do Maranhão. 1904.” Não é transparente ser a inscrição de autoria de alguém que estivesse no Maranhão, se comparada com as calorosas palavras que vieram ao pé da estante.
Nada de estátua esculpida em Paris. Nem notícia de que o Maranhão se mexeu para tanto, nem mesmo que convocou algum escultor autóctone a quem comissionasse a obra.
E basta olhar com cuidado a inscrição no verso da estátua, onde o nome Joris foi apressada e erroneamente lido como Paris. Wishful thinking, quando muito fosse. O letreiro da estátua é Fundición de A. Joris, que foi possível ler com clareza, depois que a estátua passou por uma limpeza geral. O autor da obra é Alejo Joris (1865-1951), escultor suíço radicado na Argentina desde 1890, e que deixou obras notáveis em espaços públicas de Buenos Aires. A estátua não fez nenhuma longa viagem, nem a maior, Paris-Buenos Aires-São Luís, nem a menor, São Luís- -Buenos Aires-São Luís. O que em nada diminui o seu valor.
Explicado o que se fazia necessário, voltemos alguns parágrafos atrás, onde está o nome de Ciro Azevedo. Quando o autor destas linhas leu o texto de Jerônimo de Viveiros, citado, verificou, com emoção, emendarem-se os fios de um longo novelo da história.
Façamos aqui um flashback, uma vez que entraremos a falar de cinema: eu andava à procura de filmes antigos sobre o Maranhão, e de material sobre artistas plásticos maranhenses, assunto de que pretendia realizar uma série de filmes para canais de televisão do Sul do país.16
Em meio às pesquisas realizadas com aquele objetivo, acabei por deparar, na Internet, um site de leilão onde havia itens que diziam respeito ao Maranhão. Lá estavam apregoando uma estátua de Gonçalves Dias, em bronze.
Descobri quem era o licitante da peça. Tentei contatá-lo. Sem sucesso, de início. Até que pude falar-lhe, e saber que se chamava Henrique Azevedo. Perguntei-lhe, para sondar-lhe um pouco sua disposição de ânimo, se tinha algum parentesco com os irmãos Artur e Aluísio Azevedo, de nossa intimidade maranhense. E entrei, com alguma ansiedade, a indagar da peça posta em leilão. Reticente e desconfiado a princípio, o outro Azevedo foi se revelando a modo de prestação: a estátua pertencera a seu avô. Este a dera de presente ao filho, também falecido. O filho, por sua vez, deixara-a para ele, Henrique. Então, já velho e adoentado, o meu interlocutor resolvera desfazer-se da herança que lhe caíra às mãos, a qual não interessava a seus filhos. Eles queriam saber era de imóveis…
Ora, o senhor Henrique Azevedo era neto de Ciro Azevedo, que agora ingressa com inteira razão em nossa narrativa.
Ciro Azevedo havia sido diplomata na Argentina. Em Buenos Aires, já aposentado, participara de um leilão do espólio do ex-presidente Júlio Roca, falecido em 1914, e de quem fora amigo.
Estava ali a razão de estar sendo leiloada a escultura de Gonçalves Dias. Perguntei a Henrique Azevedo se sabia como foi que a estátua de um poeta maranhense foi parar entre pertences de um presidente argentino. Ele me explicou: o avô dele contava a história da estátua para exemplificar como o mundo dá voltas e como muda a vida das pessoas, às vezes inesperadamente, pois a peça de bronze havia sido manda confeccionar em Paris, para ser mandada ao Maranhão, de onde partiria como gratidão do povo maranhense ao presidente Júlio Roca, etc.
A conversa prosseguia, enquanto eu buscava em mim um modo de chegar ao preço da peça em leilão: cem mil reais. No caso, o neto do diplomata baixaria para 75 mil reais o valor inicialmente pedido: Ciro Azevedo fi caria feliz que a estátua retornasse exatamente ao lugar de onde partira, pouco mais de um século antes.17 Assim imaginava o vendedor. Assim compreendeu o interessado adquirente.
Mas… onde encontrar dinheiro para comprar a preciosidade?
Foi quando recorri ao grande amigo Allan Kardec Duailibe Barros Filho, então um dos diretores da Agência Nacional do Petróleo. Pedi-lhe me indicasse uma das grandes empresas do setor, que arrematasse a obra de arte para doá-la à Academia Maranhense de Letras. Allan me apresentou ao presidente da Raízen, Luís Henrique Guimarães, (por coincidência, o mesmo sobrenome do mecenas maranhense Francisco Guimarães), de quem fiquei amigo, e por meio de quem cheguei ao vice-presidente, Cláudio Oliveira, responsável por assuntos institucionais. Cláudio, que também se tornou meu amigo, providenciou a verba com que adquirimos a estátua, e compareceu, à uma solenidade que serviu de introdução do monumento a Gonçalves Dias no recinto nobre da Casa de que o poeta é patrono.
Ao fi m deste relato, devo declarar que me orgulho de ser o responsável pela incorporação da obra de arte mais bela, mais cara e mais preciosa entre as que compõem o acervo da Academia, à Casa em que também muito me honra ser o titular da Cadeira Nº 37. Mais que isso, sinto-me honrado de ter, dessa forma, me inserido no último capítulo de um acontecimento, que liga fi guras tão importantes da nossa História.

P. S. Convém declarar que eu não teria escrito essas mal traçadas linhas, se o confrade Sebastião Moreira Duarte não me tivesse incentivado a contar a história, e sem que ele mesmo tivesse feito pesquisa em jornais antigos do Maranhão e outras praças.

NOTAS E REFERÊNCIAS

1 A estante aqui mencionada está hoje recolhida ao Museu Histórico e Artístico do Maranhão. Dos livros que então continha, ignora-se o paradeiro.
2 Da série citada de Jerônimo de Viveiros, ver os títulos Maranhenses que o Maranhão Esqueceu e O Sonho de Francisco Guimarães, in Figuras maranhenses. São Luís, Edições AML, v. 5 da Biblioteca Escolar Maranhense (p. 177-83 e 197-203, respectivamente).
3 Ibidem, p. 197. 3 Referência feita à visita do presidente argentino ao Brasil, poucos dias antes.
4 PACOTILHA, 23.abr.1902
5 VIVEIROS, op. cit., p. 198-99.
6 PACOTILHA, 21.jan.1901.
7 PACOTILHA, 21.jan.1901.
8 PACOTILHA, 28.fev.1902.
9 PACOTILHA,16.jun.1902.
10 Referência feita à visita do presidente argentino ao Brasil, poucos dias antes.
11 PACOTILHA, 2.ago.1902.
12 PACOTILHA, 18.ago.1902.13 PACOTILHA, 13.out.1902.
14 Pela informação, agradeço à professora Barbara Irene Wasinski Prado, autora da monografi a Charles Thays na Formação Urbana de São Luís: a Ilheidade de São Luís a Partir da Praça Pedro II, apresentada em 2007 à Universidade Estadual do Maranhão.
15 PACOTILHA, 27.jan.1903.
16 Meu amigo e companheiro de Assembleia Legislativa, Mauro Bezerra, me havia doado o acervo de fi lmes que Lindberg Leite realizou para a TV Difusora do Maranhão, nas décadas de 1960 e 1970, o que me motivou a realizar a série Pelos olhos de LL. Jáa realização de Luzes, cores e formas, sobre alguns dos mais importantes artistas plásticos de nossa terra, foi motivada pelo trabalho feito por Eliézer Moreira, sobre Celso Antônio de Menezes, o nosso maior escultor, a respeito do qual iríamos realizar, também, o belíssimo longa-metragem documental Celso Antônio, Brasileiro.
17 Ciro Franklin de Azevedo (1858-1927) era sergipano e foi presidente de seu Estado Natal, entre 1926 e 1927. Escritor, além de diplomata, foi escolhido como patrono da Cadeira Nº 23 da Academia Sergipana de Letras.

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