POESIA

AVE, AVE, AVE, AVENIDA
(Poema inédito)

José Chagas (29.10.1924-13.5.2014), que foi, por 39 anos, titular da Cadeira Nº 28 da Academia Maranhense de Letras, disse em um dos seus sonetos: “Eu sou um violeiro sem viola”, significando a facilidade de rimar, que era a marca de sua poesia. No entanto, na obra que deixou por publicar – mais de meia-dúzia de títulos – ele encontrava, por igual, meio fácil de expressar-se com o verso livre, como neste poema inédito:
A esta hora do dia
a avenida dói
como velho cansaço humano
ainda com muito peso de tempo
a carregar.

As pessoas em fila criam
o único sistema certo de vizinhança
que a cidade oferece.

As calçadas negociam as horas
feitas de espera e paciência
enquanto o asfalto sobe pelas pernas do povo
como um fogo fechado
a ferver a vida
que é apenas uma crença diária
caída do sol
e a expor-se entre vitrinas e azulejos.

Pratos e talheres brilham ao sol da tarde
expostos a venda

para a esperada e difícil refeição
dos que ali passam conduzindo só o sonho
do pão de cada dia.

Copos e xícaras faíscam seus cristais de chão
e os penicos espalhados
nas bancas dos camelôs
levantam um monumento irônico
ao tempo de abstinência forçada
da cidade faminta.

A esta hora da tarde
a avenida consome a paciência
do mundo
consome a massa humana
da vida
e já a noite começa a recolher as esperanças
que sobram
para que seja feita a vontade de amanhã
e de novo as falas e buzinas
criem a linguagem de um outro dia

e o asfalto cante no atrito
a alegria da morte feita espetáculo público

e as filas cresçam em tamanho e espera
(que é para isso que se quer progresso)
e os camelôs gritem o inútil preço da vida
sobre os montões de mercadoria sobrando
em que os pedestres tropeçam
pois não dispõem mais sequer do recurso antigo
de se poder caminhar pelas calçadas.

Os camelôs não vendem espaço
pelo contrário cobram
e ocupamos o vago de nós mesmos
na usurpação do ser sem o estar.

Somos pobres até no por-onde-ter-de-ir
que já todos os chãos estão tomados
e caminhar é agora tão claro
que um simples passo a mais
pode nos custar a vida.
Nada é hoje mais particular
que uma via pública
em que você não tem onde estar vivo
nem mais cabe aos pés
o direito de ir e vir.

O alcance da avenida
é de propriedade alheia
latifúndio já concedido
a um plantio de borracha
selva de seringal contrário
onde o giro elástico da morte
pesa veloz sobre o asfalto
espremendo o sangue e o suor dos dias
na tarefa de erguer o progresso
sobre alicerce de sarjetas.

Estou na avenida à espera de um ônibus
que não sabe de mim nem do meu destino
e minha espera se une à espera de outros
num involuntário ato de solidária
paciência pública

força coletiva acumulada
no cansaço que se ganhou do dia.

Eis a ação comunitária que a cidade ensina
no diário exercício de sua lição urbana
que é usar tempo para se perder tempo
gastando a vida em não se viver
num desperdício de patrimônio humano
pois se paga mais pela espera
que pela passagem de ônibus
embora só se reclame
contra as tarifas de transportes.

Grávida a fila cresce na mulher parada
o ventre do mundo pesando nela

onde um passageiro futuro
gera a espera de si mesmo
aguardando no escuro
o ônibus da vida
que o levará até o fim da linha
pelo alto preço de ter vivido.

Que pensará da avenida
esse ser de silêncio já embutido na agonia urbana?

Catedral de erros
a avenida sustenta o ritual dos dias
e os devotos da espera
comungando a mesma fadiga
creem no milagre de chegar vivos em casa
creem no poder do acaso

na santa injunção da sorte
na força do que tem de ser
na suposta habitação do motorista
na casual boa vontade do cobrador
e na ação de graça
que afaste a mão do gatuno
outro cobrador de passagens
habilidoso na sua tarefa
não vinculada a qualquer tarifa.

Ave, ave, avenida
aqueles que vão morrer te saúdam
e os teus desastres a esta hora da tarde
mantêm a grandeza automobilística
da cidade que mais oferece acidente de trânsito
no país.

Aqueles que te conseguem atravessar
fazem a travessia do medo
passam por dentro da própria morte
numa ressurreição da carne
que as leis do trânsito não perdoam
pois só no cumprimento de seus desastres
é que uma avenida mais se urbaniza
e mais alto se projeta
no rádio
no jornal
na televisão.

Além de tudo
uma avenida virgem de sangue
não tem jamais o privilégio

de ser também um caminho largo
aberto para o céu.

A esta hora da noite
estou na avenida
à espera de mim mesmo
dentro do que sonho voltar para casa.

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