O PODER MEMORIALÍSTICO DA LITERATURA – SÔNIA ALMEIDA

Cadeira Nº 20

  1. EXPLICAÇÃO INICIAL

CAIU na minha predileção um livro que me ofereceu apossibilidade de reconstituir o trajeto de impressões que se sucedem quando a literatura provoca o leitor. Chama-se A leitura, de Vincent Jouve. 1

A mim me pareceu uma tentativa de explicação do inexplicável para as experiências que acontecem na vida das pessoas e que, com o passar do tempo, permanecem sob uma espécie de nuvem de lembranças silenciadas, talvez memória de festas e de tragédias; de sussurros e de gritos; de vidas e de enterros; de encontros e separações, quando a literatura vasculha os efeitos do acordar o que, no leitor, havia dormido.

Discuto, neste artigo, o poder da literatura nos espaços insondáveis de quem lê e o faço a partir de dois elementos fundamentais: o primeiro é o referido livro de Jouve, que reflete sobre o que acontece ao ler literatura e provoca, de forma irresistível, a tentação de mencionar outras leituras, como exemplos do conceito de “regrediência”; o segundo, uma mala de livros que uma brasileira carrega pela Europa, porque sente que está cheia de herança.

Procedo a uma quase resenha, pelo seguinte: o que digo sobre o livro sofre interferências de outros textos e fatos que invadem o entendimento de suas explicações. Chamo de devaneio a expressão do que reverbera na condição do leitor que deseja saber o porquê de tantos perceberem que há herança naquela mala e que a herança daquela mala é o Brasil para os brasileirinhos imigrantes. E trato dessa possibilidade concreta, considerando o poder impactante da literatura invasora do inconsciente do leitor que não permite nenhum tipo de controle e apenas dá sinais de sua manifestação.

O que se discute, neste artigo, busca elementos que criem a possibilidade de responder por que a leitura da obra literária causa impacto na memória do leitor e reverbera no inconsciente, abrindo caixas e caixas de curas e de feridas, de lembrança e de memória. História. Herança.

  • QUASE RESENHA

Um livro acorda outros livros. Uma lembrança puxa outras lembranças. Cada livro acontece como uma tela de experiências onde se projetam as já vividas, ensinadas, aprendidas, esquecidas, aparentemente apagadas. É tela onde se miram desejos frustrados ou se admiram sonhos que não morreram.

A leitura surpreende quando mostra que, ao ler, é possível rever leituras. Por exemplo: lembro um texto que li, em cuja narrativa a personagem diz ser preciso ler com alma. 2 Agora passo a dizer, também, que literatura é o meio de ler a alma.

Ler com alma poderia ser decifrado por ler com a imaginação. Mas ler a alma quem sabe esteja do lado daquilo que foi perdido e se manifesta na recepção inconsciente. A palavra em si provoca coisas, histórias, objetos, pessoas, sentidos. Pela leitura, elas estarão lá, inscritas nas páginas, tocadas, mesmo que intocáveis. Sentidas nas linhas. Vividas e revividas. Capturadas do obscurecido. Essa recepção vista sob a visão psicanalítica acredita que a reação de um inconsciente de uma pessoa ao inconsciente de outra pessoa pode virar consciente.3 Isso porque detalha as quatro dimensões em que o leitor do texto literário completa o que lê: “a verossimilhança, a sequência das ações, a lógica simbólica e a significação geral da obra.” 4

Os detalhes da narrativa são produzidos pela imaginação do leitor, de acordo com o que lhe for verossímil. A sequência de ações é recuperada pela cooperação do leitor que também age sobre a lógica simbólica para decifrar os estranhamentos e recuperar a significação geral da obra.

Isso me fez lembrar a Velha Totonha, uma contadora de histórias que sabia ler de um jeito de correnteza. O reino de suas histórias era igual a um engenho fabuloso. Ela me traz até hoje, nesse exercício de sempre ler uma invenção romanesca, a pura impressão de estar recontando algo retirado do meu romance fantasmático familiar

Por exemplo: certa vez, diante de um auditório de jovens, falei da Velha Totonha. Ela contava a história de um homem cuja filha tinha sido enterrada viva pela madrasta. E eu me peguei cantando e chorando: “Capineiro do meu pai não me corte meus cabelos, minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrou, pelos figos da figueira que o passarinho bicou.”5

Até hoje me pergunto o que aqueles alunos pensaram. Talvez que eu estivesse com pena da menina. Ou com raiva da madrasta. Não. Eu ouvia – naquela história – a voz da minha avó Zizi que cantava aquela música com um tom fraco de quem está sofrendo. Ouvia ali a minha infância. A casa dela. O cheiro do lençol e o mais que não se escreve. Aquele livro, como outros que li, me serviram de tela de projeção de mim mesma: lá dentro, onde eu só consigo ouvir se for provocada, sob a nuvem que não é mais só lembrança, nem saudade, nem memória, só minha história, em que tudo vive. Mesmo o que já morreu. O impacto da literatura está no fato de os livros trazerem sinais inconscientes que puxam heranças adormecidas em outras plagas.

Para Vincent Jouve, quando o leitor recepciona um texto, ele sustenta esse evento em dois eixos: o da certeza, quanto ao que o texto diz claramente e o da incerteza, constituído de “passagens obscuras ou ambíguas” que exigem a participação mais efetiva do leitor para o deciframento.6 Os elementos que orientam a leitura são aqueles que explicam por que e como se deve ler. É o peritexto, 7 lugar dos prefácios, apresentações, introduções, explicações iniciais que conduzirão a um quadro de leitura e o incipit: a linguagem, a poética e o estilo. As relações de semelhança, de oposição ou de concatenação são pontos de apoio para isso.8

Sinto que, nesse rastrear, o texto literário proporciona ao leitor musicalidade e provoca-lhe a alternância entre entender e não entender; ler e ouvir; ouvir e sentir; tocar e dançar. O leitor começa a ter acesso, por meio do que foi possível escrever, àquilo que não é possível dizer. O texto provoca uma espécie de sonolência que coloca o leitor no limiar entre o que o texto diz e ele mesmo completa, dizendo de si.

A obra parece ser um encontro de desejos do autor e do leitor ou um diálogo do indesejável para ambos. O texto desperta em nós o que em nós já dormia. Os fantasmas do autor acordam os fantasmas do leitor. Os desejos recalcados são idênticos para todos, independente do objeto de rejeição.

Esse livro que rememoro diz que “a atração do leitor pela ficção é mediante o reconhecimento de grandes estruturas fantasmáticas.”9 Significa que todo leitor encontra, na contação, sua história familiar. A vida psíquica tem suas semelhanças e oposições e há algo invariável entre as pessoas que provoca a Identificação. O contrário também sinaliza para o desejo do que poderia ter sido.

Uma estrutura organizada faz explodir o desejo de quem possui a desorganização de outra estrutura. Uma leitura se completa na partilha subjetiva do leitor, na implicação do sujeito que atravessa as fendas e preenche os vazios com referências próprias, conscientes e inconscientes. E o leitor vai entre o jogo de representação e o jogo de regras. Ao mesmo tempo que há uma identificação com o personagem, o leitor precisa obedecer aos contratos de leitura.

Ao ler, voltamos ao passado por “esquecer por um tempo a realidade que nos cerca para nos ligarmos novamente à vida da infância na qual histórias e lendas eram tão presentes.” O estado da leitura se assemelha ao do sono, e foi nomeado por Jouve de “regrediência.”10 O que o texto diz provoca excitações inconscientes. Quem está acordado recebe impulsos de fora para dentro; quem está sonhando – ou lendo – manifesta impulsos de dentro para fora.

Naquele livro, li que “só a via regrediente (da interioridade psíquica para a representação) permite a emergência da alucinação,” do devaneio.11

  • SOBRE A MALA DE LIVROS

Havia uma conferência a proferir no primeiro encontro internacional da Mala, em Munique. Sabia que teria a difícil missão de explicar o inexplicável, para recuperar o sentido de um projeto em prol de brasileirinhos imigrantes, compartilhado e identificado com as particularidades de cada lugar, tratado com a seriedade de um trabalho fundamental em prol da integridade física, psíquica, social, afetiva daqueles que deixam sua pátria, mas precisam continuar se alimentando dela, por uma questão de saúde existencial.

É uma mala de livros de literatura, bagagem chamada herança. Haveria ali alguma relação entre livro, literatura, bagagem e herança. De todos e de cada um. Uma abstração que também nos permite entender que pode haver sim o encontro provocativo de heranças completamente iguais e totalmente diferentes. Nada é igual para duas pessoas. A mesma terra são duas para dois conterrâneos. Todos tiveram uma panela no fogão, fumegando seu tempero. Mas o sabor da comida é diferente, faz parte do lado do que não dá mais para escrever, porque é um vazio do texto que quem vai preencher é o leitor com o gosto trazido lá do inconsciente tocado pelo sabor do outro.

Ao produzir sentido para essa relação, foi possível perceber que o que provoca o laço entre todos os que estão envolvidos com a mala é a literatura. A leitura ressuscita a criança que carregamos conosco por onde formos. Ela nos proporciona um reencontro com o “universo sem fi m” de nossa história. Cada um com seu arquivo acorda o arquivo do outro. Por isso, a literatura vai possibilitar alimentar a criança dormindo na criança e acordar a criança adormecida no adulto. Essas imagens tocadas são íntimas. Fazem parte de uma pinacoteca abstrata e interior, impressionista.

No encontro internacional da Mala de Herança, em 2019, na cidade de Munique, o livro A leitura foi uma fonte de inspiração para pensar o valor daquela mala de livros, na conferência que fui desafiada a proferir.

Jouve faz reflexões importantes que ajudaram a produzir sentido ao fato de os livros da mala serem de literatura: ali dentro, o “a-mais” era a dimensão da incerteza; da opacidade; do incipit, pelas semelhanças, oposições, concatenações. A mala deveria conter a indeterminação; as fendas por onde o obscurecido, na imaginação, pudesse ser iluminado com fi os de luz da herança dos brasileirinhos. Havia também ali uma sinalização importante: o que desencadeava o impacto da mala não estava propriamente na Língua Portuguesa. Também. Os sinais de herança colocam o leitor no estado de sonolência, onde os espaços se misturam sem que se apaguem totalmente. A herança parece não estar em um lugar de claridade, de explicação. É como se a literatura colocasse o leitor à meia luz, para que o reflexo de si faça sua projeção numa espécie de sonho.

Já foram denominadas de lembranças-tela “um cenário ou uma personagem (que) permitem que ressuscitem imagens enterradas, das quais nem sempre é possível dizer de onde vêm.”12 Pensar assim é entender que uma mala cheia de livros é concebida a partir de uma dimensão ontológica, repleta da alma de todos os leitores que se aventuram ao ler literatura e acabam vivendo seus impactos.

Há uma brasileira13 na Alemanha que tem compartilhado, com muitas outras pessoas do mundo inteiro, a possibilidade de carregar o Brasil para os brasileirinhos imigrantes, dentro de uma mala de livros de literatura. Ela intitulou esse projeto de Mala de Herança. Foi o meio que ela encontrou para alimentar as raízes de seus filhos e de muitas outras crianças, lendo com elas e orientando os pais para que alimentem os filhos com o que ela chama de sinais de herança: literatura brasileira, histórias brasileiras, paisagens brasileiras, sabores brasileiros, música brasileira, festas brasileiras cheias de pão de queijo e brigadeiro.

E mais: coisas aparentemente sem serventia que compõem os cenários das histórias são particularizadas em cada leitor: uma chave, um garfo enferrujado, uma faca cega, um relógio parado, um lustre, uma cadeira, qualquer coisa pode servir de gatilho nesse limiar, nessa atmosfera de sonolência para a qual a literatura tem o poder de transportar o leitor

A história de cada leitor é herança, nosso patrimônio imaterial. A consciência do autor é latente. A do leitor é operante. Uma se confunde com a outra até que o inconsciente provoque suas explosões. A herança é lava da leitura em erupção.

Nessa perspectiva, o ato de ler é impactante. E o impacto é determinado pelo efeito da obra sobre o leitor, no ato de recepção. Em se tratando do texto literário, tem-se a obra artística pela qual o leitor viverá a dimensão estética. A primeira dimensão é a objetiva e a segunda é a subjetiva. Em ambas, o leitor transita. Por isso, vai tirar sentido e signifi cação, diz ainda o que rememoro.

O sentido é consequência do “deciframento operado durante a leitura, enquanto a signifi cação é o que vai mudar, graças a esse sentido, na existência do sujeito.” E ainda: o “outro” do texto nos devolve o que passou sob a forma de reencontro com quem pensamos ser, por meio do outro.14

  • CONSIDERAÇÕES SEM FIM

Nós somos vulcões adormecidos que entramos em erupção por meio da leitura que nos faz derreter lavas de herança. Herança não é livro. Herança não é apenas história. Herança não é coleção de episódios vividos. Herança é leitura: seu processo, sua consequência. Não é o que está acordado. É o que acorda. Não é biografia, memória, lembrança. É o que não dá mais para escrever diante de tudo isso. É o a-mais que o impacto da literatura acorda, para manter vivo o que pode parecer morto.

Significa que a literatura pode abrir a alma do leitor em voo para a memória, na progressão de um jogo fonológico que prepara, com sonoridade herdada, a “regrediência” para quem lê. Por exemplo:

O tempo

a ponte,

o pote

na mesa da minha infância.

Pro meu vô,

eu vou.

Eu voo.” 15

Na condição de vulcões, o impacto da literatura tira o leitor da inatividade existencial e leva-o para um canto secreto da memória que pode ser uma casa, uma escola, uma rua, um país, uma cidade. Traz o secreto de um sabor, de um cheiro que particulariza o ar de uma praça. Quase assim: o doce de rua é

Uma arte do cotidiano da cidade nua

sem fogão industrial

(que) chega devagar ao ponto

mexido, mexido até ir ficando pronto.

O seu sentido é a esquina

o beco

a praça,

os cantos da cidade nua, sem fogão industrial.

Doce feito no vento do abano

ganha gosto

de outrora,

mesmo que servido agora.16

Somos vulcões que entramos em atividade existencial quando lemos literatura. E é uma experiência impactante. O local do texto que nos impacta não é determinado e geralmente nunca se repete. É uma erupção sobre a qual o leitor não tem controle, nem o autor. Muitas vezes não acontece logo ali com o texto nas mãos. Às vezes, é depois. Às vezes, não é a cena, nem a palavra. Pode ser o barulho de um lápis quebrando. Tlá. Pode ser o barulho de uma cadeira de balanço. O abrir de gaveta. Passos sobre um assoalho. Uma faca batendo numa tábua para quebrar a semente do quiabo com a vinagreira. O som abafado do pilão socando arroz. O som de um relógio cuco tocando as horas. O barulho da chuva. O tempo chuvoso sem barulho. Apenas uma cor. Uma imagem de nuvens pesadas prestes a desabar. A neblina. Uma casinha ao longe coberta de fumaça.

Mesmo para um único leitor, esses sinais não se esgotam. Espraiam-se na direção do infi nito, onde as lavas explodem. O grande paradoxo está no fato de essas explosões vulcânicas acontecerem no mais profundo silêncio. “Essa música inexistente e ritmada faz as coisas reviverem cheias de pressa como uma chaleira a ferver.” 17 Volto a escutar a mala de livros de literatura ser aberta. Tlá. Falar sobre isso não tem fim.

NOTAS E REFERÊNCIAS

01           JOUVE, Vincent. A leitura. Tradução de Brigitte Hervot. São Paulo: Editora

UNESP, 2002.

02           SCHMIDT, Augusto Frederico. O galo branco: Páginas de Memórias. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957, p.70-72.

03 FREUD, Sigmund. O inconsciente. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

04           JOUVE, op. cit., p. 62.

05           REGO, José Lins. Menino de engenho, 38. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,

1986, p. 81.

06           JOUVE, op. cit, p. 66.

07           Ibidem, p. 67.

08           Ibidem, p. 71.

0 9         Ibidem, p. 96.

10           Ibidem, p. 115.

11           Ibidem, p. 114.

12           Ibidem, p. 118.

13           A brasileira que carrega a mala de livros de literatura é Andréa Menescal Heath.

Tem formação em Relações Internacionais (Brasília/Brasil) e Sociologia (Bielefeld/Alemanha). Fez alguns cursos sobre multilinguismo na Universidade de Utrecht (Países Baixos) e, atualmente, ocupa-se com uma formação em Pedagogia da

Leitura e da Literatura da Organização Nacional de Apoio à Leitura na Alemanha.

 Desde 2006, dedica-se à pesquisa e prática do multilinguismo e do ensino do

português como língua de herança. Criadora da Mala de Herança, em Munique/

Alemanha, um projeto, em nível local, regional e europeu, de incentivo à leitura

no fortalecimento da língua de herança, da cultura e identidade. Ex-diretora da

Estrelinha Kinderhause V., escolinha teuto-brasileira em Munique, e fundadora e

coordenadora do Elo Europeu de Educadores de Português como Língua de Herança. Organiza diversos eventos com autores, ilustradores e músicos do Brasil e

de Portugal. Andrea Menescal foi Presidente da Casa do Brasil de 2015 a 2019.

14           JOUVE, Vincent. A leitura. Tradução de Brigitte Hervot. São Paulo: Editora

UNESP, 2002, p. 128.

15           ALMEIDA, Sônia. A língua e a árvore: uma herança com chão e tempo. São Luís:

EDUFMA, 2917. p.56.

16           Ibidem, p.74.

17           LISPECTOR, Clarice. A paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 11.

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