DISCURSOS ACADÊMICOS – CARLOS GASPAR

Carlos Gaspar

Cadeira Nº 26

Senhoras e Senhores:

A O INICIAR esta minha fala, dou-me, primeiro, por agradecido aos estimados confrades pelo privilégio que me concedem, o da honra deste discurso. Desse modo, assomo a esta tribuna com a minha palavra simples, porém cheia de propósitos, para vos afirmar que buscarei exercer, com entusiasmo e de modo harmônico, neste biênio 2020-2021,

a Presidência desta Academia.

                Entretanto, antes de discorrer sobre essa minha imaginada trajetória que ora se inicia, desejo revelar um fato que há um quarto de século guardo comigo, pois deixei de fazê-lo quando do meu discurso de posse na Cadeira nº 26, patroneada por Antônio Lobo, deste sodalício. Na verdade, trata-se do meu ingresso nesta Casa, sonho que jamais havia sonhado e por isso mesmo impossível então de ser acalentado. Todavia, como se o destino há muito já me encaminhasse para esta Congregação, não posso negar que, inúmeras vezes, durante alguns anos, neste mesmo salão, dei por mim a escutar e a aplaudir, com admiração, o verbo eloquente dos homens de letras que cruzavam os umbrais desta Instituição.

                Senhoras e senhores, estimados confrades e confreiras, minha filha Maria do Socorro, aqui presente e que me escuta, desfaço-me agora, em definitivo, da confidência que assumi comigo mesmo. Achava-me a gozar da paisagem e do clima do velho Portugal, do Portugal dos meus eternos sonhos, da Lisboa de todas as eras, em março de 1994, quando recebo um chamado de Paula, minha saudosa e inesquecível mulher, dando-me notícia do falecimento do grande economista maranhense Ignacio de Mourão Rangel, e, sem que me deixasse inquiri-la sobre a razão daquele comunicado, no seu jeito decidido de agir, complementou: “Venha logo para São Luís. Você vai para a Academia. Já estou pedindo voto. Padre Mohana e outros estão ajudando.”

                Após escutar tais palavras, ditas com expressividade e com veemência até, refleti sobre o que eu e ela muito havíamos conversado em diversas oportunidades, a respeito do assunto Academia Maranhense de Letras. De fato, sempre me manifestara contrário à pretensão da minha saudosa Paula, que não perdia uma só oportunidade para argumentar, reafirmando, com insistência e ênfase, o seu ponto de vista, a sua decisão: “Quem conhece você sou eu; quem sabe de sua competência sou eu; quem pode avaliar sua capacidade sou eu; quem sabe de sua inteligência sou eu; quem conhece sua bagagem cultural sou eu.” Generosa sem  limites, alimentava as qualidades que somente ela via em mim.

                Dessa maneira, com os defeitos a consumirem minha alma e minha intelectualidade, e com as qualidades que me foram atribuídas, sob a unção da minha inesquecível Paula, mulher irrepreensível, e as bênçãos de Mário Martins Meireles, hoje aqui me encontro, nesta noite iluminada, na outrora sede da Biblioteca Pública do Maranhão, predestinada a ser o santuário da intelectualidade da nossa terra, em que o mestre Antônio Lobo, se não o principal, foi o melhor artífi ce a esculpir em bronze imorredouro, ao lado de outros onze artesãos das letras e da cultura, porque imortais, a imortalidade desta Instituição.

                Senhoras e senhores, algumas palavras sobre a Academia Maranhense de Letras, um resumo de sua história mais remota, e conhecereis melhor esta confraria que nasceu sob o cultivo das letras a 10 de agosto de 1908, data do 85º aniversário de nascimento de Gonçalves Dias, o poeta da Canção do Exílio. Fundaram-na, neste mesmo local, doze intelectuais, à frente Antônio Lobo, acompanhado de Alfredo de Assis, Astolfo Marques, Barbosa de Godóis, Corrêa de Araújo, Clodoaldo Freitas, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Godofredo Viana, Inácio Xavier de Carvalho, Ribeiro do Amaral e Vieira da Silva. Em razão de disposições estatutárias, foi o primeiro presidente da agremiação o professor e historiógrafo José Ribeiro do Amaral, avô do grande médico pediatra conhecido de quase todos os que aqui se acham presentes, Dr. Odorico Amaral de Matos.

                O não dispor de sede própria durante longos anos levou a Academia a funcionar, provisoriamente, na residência do Presidente Ribeiro do Amaral, até seu falecimento em 1927. Depois, teve abrigo nos baixos da Assembleia Legislativa do Estado, por achar-se, durante o Estado Novo, esse Poder suprimido. Com a redemocratização do país, a Academia perde sua sede provisória, buscando ser acolhida na residência do acadêmico Ribamar Pinheiro, que faleceu no exercício da Presidência.

                Sob a chefia de Clodoaldo Cardoso deu-se o processo de reestruturação e revigoramento da entidade, adquirindo ela forma definitiva, finalmente composta de quarenta poltronas, correspondentes ao mesmo número de membros titulares, com seus respectivos patronos. Finalmente, contou com a sensibilidade do governador Sebastião Archer da Silva, que lhe doou este prédio, onde ela se acha instalada desde 29 de dezembro de 1950, fato que a devolveu ao lugar de sua fundação. É dessa fase a decisiva contribuição prestada pela Academia para a consolidação do ensino superior no Maranhão, com a criação da Faculdade de Filosofia de São Luís, inclusive doando-lhe o acervo bibliográfico que herdara do Gabinete Português de Leitura e grande parte dos professores de que precisava e nada podia pagar, nos primeiros anos do seu funcionamento.

                Atualmente, a Academia desenvolve vários programas culturais e intensa atividade com vistas a propagar seus objetivos e a despertar e incentivar a mocidade para o estudo das nossas mais legítimas e nobres tradições.

                Senhoras e senhores, caríssimos confrades e confreiras, neste momento, embora sobremaneira emocionado, devo dizer-vos ser consciente da imensa preocupação a envolver-me, escolhido que fui para também escrever mais um capítulo da história da nossa Academia. Saberei portar-me com equilíbrio e sensatez no cargo que d’agora em diante passo a ocupar, tendo em vista a tradição do clima de bom senso e de boa convergência a existir entre todos os membros desta Casa

                Assumo a Presidência da Academia Maranhense de Letras sob o resguardo da ética e do trabalho, e não menos da harmonia do corpo de intelectuais que compõe este sodalício. Estou convencido de que as nossas relações interpessoais serão fundamentais para o êxito da gestão que ora se inicia, que pertence a todos nós, quarenta membros, sem o que jamais aceitaria ocupar o cargo a que fui conduzido.

                Assumo a Presidência desta Instituição também com a consciência de que estou sendo honrado pela escolha de meus pares, mas com a certeza maior ainda de que, neste momento solene, firmo um compromisso com todos eles, com a história desta instituição e com seu papel dentro da sociedade maranhense.

                Assumo a Presidência deste Cenáculo buscando corresponder à confiança em mim depositada e estar à altura dessa tarefa plurifacetada, para a qual espero contar com o apoio e a compreensão de todos os acadêmicos e, na impossibilidade de nominar cada um dos meus trinta e nove confrades e confreiras, o faço nos nomes dos que compõem a diretoria que ora inicia o seu mandato, da qual participam, como vice-presidente, Eliézer Moreira Filho; secretário-geral, Sebastião Moreira Duarte; primeiro-secretário, José Ewerton Neto; segundo-secretário, Laura Amélia Damous; primeiro-tesoureiro, Joaquim Haickel, e, como segundo-tesoureiro, José Neres Costa. A Comissão Fiscal é composta por José Carlos Sousa Silva, Alex Brasil e Natalino Salgado.

                Assumo a Presidência da Casa de Antônio Lobo com os olhos voltados para os nossos predecessores, para aqueles que nos deixaram exemplos de trabalho, de amor à nossa entidade e de desinteresse pessoal; e neste momento escolho, como representante mais legítimo, o nosso confrade Benedito Buzar, meu antecessor imediato, que ora me transfere a direção desta Instituição, e que, a despeito de imensas dificuldades, tanto pessoais quanto institucionais aqui vivenciadas, muito deu de si para que esta Academia pudesse ser o guia maior na defesa e no incentivo dos bens materiais e imateriais que engrandecem a nossa tradição cultural. Sucedo a um presidente dotado de infinitas virtudes: correto, dedicado e inteligente, praticamente com uma década de serviços prestados à nossa Instituição. Na direção do confrade Benedito Bogéa Buzar, que tanto insistiu até conseguir a minha concordância para sucedê-lo, vai a minha primeira manifestação, em nome desta Academia, que é a de agradecer-lhe o grande legado que deixou a todos nós e aos que vierem a seguir.

Assumo a Presidência desta Academia consciente de que há sempre muito que avançar, tanto no plano das ideias quanto no aspecto operacional da própria Instituição. O espírito realizador e o objetivo de um grupo de confrades e colaboradores é que têm assegurado o seu funcionamento. Mas os óbices são muito grandes e se faz necessário aumentar o contingente de colaboradores. Para superar as dificuldades existentes, não basta que sejamos simples portadores da virtude da esperança, mas que procuremos com afinco transformar esses anseios de agora em realidade imediata. E, a propósito do muito a ser realizado, devo dizer que a urgência será a companheira do dia a dia. Daí porque recolho do Padre Antônio Vieira um pequeno trecho do seu sermão pronunciado na Primeira Dominga do Advento, na Capela Real: “Sabei, cristãos, sabei, príncipes, sabei, ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes; mas muito mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizeram, se hão de condenar muitos, pelo que não fi zeram, todos.”1

                Assumo a Presidência deste sodalício convencido das nossas relações com a modernidade, fruto do que aprendemos durante toda a nossa existência, sem nunca pensarmos que a sabedoria vem somente com a velhice. Por essa razão, aplausos para Cícero Sandroni que, em seu discurso de posse na Presidência da Academia Brasileira de Letras, foi buscar em Carlo Levi, escritor italiano, o seguinte pensamento: “O futuro tem um coração antigo.”2

                Nada mais adequado que essa frase para uma reflexão acerca de nós mesmos. Continuaremos, sim, ligados aos que nos antecederam, institucionalmente ou não. Ao mesmo tempo estaremos deixando para os que vierem a nos suceder o nosso exemplo de homens e mulheres que cultuam os seus pendores literários e artísticos em geral, a fim de que eles possam se orgulhar do nosso passado, assim como nós nos orgulhamos de todos aqueles e aquelas que nos antecederam. É de Nélida Piñon esta observação: “Vivemos nesta Casa sob o regime da memória, uma memória que não se deixa abater pelas tentações do esquecimento.”3

                Assumo a Presidência desta Casa, mas, com certeza, não serei capaz de reinventar a roda. Pretendo, sim, fazer com que ela gire da mesma forma como gira o mundo. Reafirmo minha crença no sentido de que esta é uma confraria de comunhão de espíritos, mas também de muitos braços que podem ser colocados à disposição do bem comum.

                Confrades e confreiras, de fato represento, neste momento, o futuro da Casa de Antônio Lobo, e por isso trago comigo um coração verdadeiramente antigo, que palpita na preservação desta centenária Instituição, motivo pelo qual encerro esta minha fala do mesmo modo que o fi z ao terminar o meu discurso de posse na Cadeira Nº 26, a 1º de dezembro de 1994:

                […] desejo testemunhar o meu incontido orgulho de pertencer a este Cenáculo. […] Chego com minha prosa simples e despretensiosa, para ser enriquecida em vosso convívio. Mas chego, também, com as minhas duas mãos, a direita e a esquerda, […] para juntar às vossas, na obra permanente e imorredoura de preservação e difusão da cultura maranhense.

                Senhoras e senhores, confrades e confreiras, obrigado por terdes vindo. Obrigado pela paciência com que me escutastes.

NOTAS E REFERÊNCIAS

1 VIEIRA, Antônio. Sermão da Primeira Dominga do Advento. Disponível

em http://www.portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/leit_online/padre_Antônio5.pdf Acesso em 20 jan. 2020.

2 SANDRONI, Cícero. Discurso de Posse na presidência da ABL. Disponível em: <https://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.

htm%3Fsid%3D123/Discurso%20de%20Posse%20na%20Presid%-C3%AAncia%20da%20ABL>. Acesso em 20 jan. 2020.

3 PIÑON, Nélida. Memória da viagem. Disponível em: < https://www.academia.org.br/academicos/nelida-pinon/memoria-da-viagem>. Acesso em

20 jan. 2020.

4             GASPAR, Carlos. Posse na Academia. Edições AML: São Luís, 1994

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Carrinho de compras