CONTOS – JOSÉ DE JESUS

Ceres Costa Fernandes

Cadeira nº 39

Os cabelos negros e longos de Maria Natividade esparramam-se pelo chão de terra batida limpo e varrido da cozinha-alpendre misturados ao sangue, que começa a embeber-se no solo poroso. O rosto da menina-moça, 16 anos não mais, de acobreado está lívido e as delicadas feições parece que mais se afilam e se aperfeiçoam com a fuga da vida. A seu lado, umas espigas de milho, peneira e ralador abandonados. A causa mortis foi fratura craniana e o objeto que a causou, uma mão de pilão, encostada no fogão de barro, exibe o sangue coalhado.

Maria Natividade era uma adolescente, corpo de sílfide começando a arredondar-se, adquirindo as formas de mulher feita; nem a própria Natividade se tinha dado conta das mudanças em seu corpo. O delegado e o cabo ordenança estiveram no lugar a tirar fotos e fazer perguntas a dona Isabel e a seu Luís do Espírito Santo, vizinhos dos sítios mais próximos, que nada puderam acrescentar à investigação do crime, o casal era muito reservado, unidinho, parecia se bastar, não mantinha amizades. Os dois participavam apenas das festas religiosas. Disso gostavam, não faltavam a nenhuma procissão, novena ou festa de largo. De resto, pareciam muito tranquilos, não tinham histórico de violência ou desavenças, e o marido, José de Jesus, jardineiro de profissão, era o que se pode chamar “uma moça”, de tão gentil e educado.

Não houve precisão de procurá-lo, nem de esperar muito, José de Jesus foi espontaneamente apresentar-se ao delegado como matador e o único culpado da morte da mulher, Maria Natividade.

Na rua, o povinho, amigos e fregueses de José comentam à boca pequena:

– Logo o Zé, gente, tão religioso, não saía da igreja.

– Não se conhecia um casal tão unido como aqueles dois. E

ela? Uma santa!

– Nunca vi um homem tão bom e tão educado, não acredito,

uma morte violenta dessas!

– Mas ele confessou. De hora em hora, o tinhoso atenta.

– O que terá acontecido?

Com um ar entre beatífico e ausente, as lágrimas em fio, José de Jesus enfrenta o delegado, de quem, aliás, cuidava do jardim, e, além do mais, sua esposa, D. Antonieta, era madrinha de batismo de Natividade. Gozava, pois, de intimidade na casa, e da amizade da garotinha Lily, filha do casal, que costumava mostrar-lhe a belezura dos livros de historinhas, que o Delegado lhe trazia da capital. Os olhos arregalados e a boca descaída de José de Jesus eram as demonstrações do pasmo maravilhado por aquelas figuras que ficavam de pé logo que se abria o livro ou das outras que se moviam com um pequeno puxão de tiras de papel bem disfarçadas. Lily esperava, divertida e maliciosa, as costumeiras palavras de espanto do Zé: “De vera, dona! De vera!”

No ofício da jardinagem, o dedo verde. Ninguém o superava, a praça da matriz era cuidada por ele, as melhores famílias o queriam para ter as suas belas rosas e folhagens exuberantes. Corria a lenda que, se José de Jesus plantasse um cabo de vassoura no chão e o adubasse bem poderia fazer dele brotar um ramo de lírios. Galego, rosado, barbinha de ponta mel com terra, fazia um par bonito com Maria Natividade, morena, quase negra, de longos e ondulados cabelos pretos. Nas horas vagas, José amanhava um tantinho a terra de seu pequeno sítio, Maria Natividade ajudava, regava, colhia. No momento da morte, ela estava sentada na esteira de palha de babaçu, de costas para a entrada da casa, ao que parece, ralava milho para o manuê do café da tarde, vigiando a criação, a ciscar os restos de comida no terreiro.

– Então, José, seu desgraçado, como você me apronta uma loucura destas: matar a Natividade, uma menina ainda, um modelo de esposa e de bondade? Agora vai pra São Luís, celerado duma figa, ser julgado e depois vai puxar uma longa cadeia, em Pedrinhas, réu confesso, sem motivação, não pensou nisso, seu filho da puta? Acabou com a vida dela e a sua. E ainda põe a delegacia em risco, me causando dor de cabeça. Temos que guardá-lo bem, se o povo daqui o pega, vai linchar você! E com toda razão!

– Seu doutor delegado, me deixe explicar tudo, o senhor vai entender. Vou lhe contar tudinho desde o início. Nunca me apaixonei por ninguém, nem tinha a intenção de ser um homem casado, até ver Natividade. Foi na procissão da Imaculada Conceição, uma visão! Sou prometido à Santa por minha mãe, e estava na ala dos homens devotos e afilhados que carregam os tocheiros e vi passar a visão mais maravilhosa desse mundo, uma menina assim morena, pele de seda, cabelos negros de mãe d’água derramados nos ombros, vestida de Nossa Senhora Menina. Ela me viu e sorriu. Sorriu pra mim!

Logo, chegou no meu entendimento que ela era alguma coisa assim do Céu, não da Terra. Desmanchada a procissão, veio falar comigo, toda se rindo, como se eu fosse seu conhecido desde há muito. Eu fiquei mudo e se tentava dar uma palavra, gaguejava. Continuei mudo, ela falava pelos dois, e suas palavras eram como as de um anjo. A partir daí, não vi mais nada na minha vida, nunca mais! Só Maria Natividade na minha vista, na minha frente, na minha vida.

Nessa noite, cheguei em casa feliz, mas com o juízo a me arder. Logo me ajoelhei no oratório e falei tudinho para a minha madrinha, Nossa Senhora da Conceição, da minha paixão, do meu desvanecimento, do rumo novo da minha vida, procurando orientação. Ela disse, chegou o dia da tua revelação, a tua missão aqui na Terra é proteger e guardar a inocência de Maria Natividade. No dia do seu batismo de carregação ela foi consagrada a mim, a Imaculada, e sua pureza não pode ser manchada, de modo a não perder o céu. Estas foram as suas ordens, e eu jurei cumprir. Não, seu doutor delegado, não estou de deboche, não cuido disso, sou homem de respeito, me escute, por favor.

A gente começou uma amizade, onde estava um, estava outro. Um grude tão bom! A gente não se largava, e eu tomando conta. Não deixava ninguém chegar perto. Durou tanto a parceria que a cidade pensou que a gente estava de namoro. Mas, não. Eu era só o guardião. Maria, cada dia mais bonita, e a rapaziada andava rondando ela que nem gavião ronda ninho de filhote de passarinho. Eu já tinha muito serviço de jardim, estava ficando difícil cumprir o mandado de minha protetora, Senhora da Conceição. Então, eu fiz o que eu tinha de fazer e pedi pra ela casar comigo. Ela aceitou, numa alegria que só vendo. Lá na terrinha do meu sítio afastado, debaixo das minhas vistas, era mais fácil proteger Natividade. Contei tudo, a minha conversa com a Santinha, a promessa e a jura. Disse que a gente se casava, mas não podia se tocar pra ela continuar pura. Minha Nati entendeu, concordou e fez também a sua promessa para a Santa. E a gente ia vivendo a nossa vidinha, arrumando a casinha de taipa coberta de telhas, (um luxo, doutor, que pude fazer com o salário da prefeitura, de palha só a cozinha e o alpendre), criando as galinhas, plantando umas coisinhas de comer, indo às festas da igreja, na procissão, nas novenas. E sempre que podia eu dava um vestidinho novo pra ela. Uma felicidade só.

Um dia, eu cheguei em casa e ela me falou;

– Sabe quem passou por aqui? Seu Miguel, o santeiro, aquele que também faz asas de anjo para as roupas das procissões. Queria saber se eu tinha alguma asa guardada e queria ceder pra ele, de modelo. Fui anjo, tantas vezes, antes daquele dia que saí de Imaculada Conceição Menina! Eu não tinha mais, dei tudo para as minhas primas mais novas. Tem idade pra ser anjo, não? Ela disse, se rindo muito.

Seu Miguel perguntou,

– Maria, vocês já têm filho?

Eu neguei e ele respondeu,

– Não se avexe. Vão ter um, com a Graça de Deus!

E aí, ele foi-se embora.

Eu disse, Maria, seu Miguel, homem sério, amigo, da ala dos devotos da Imaculada, tá bom dele vir aqui. Veio com um propósito correto. Eu não gosto é daquele sujeito, o Espírito Santo que fica, volta e meia, rondando nossa casa. Já encontrei o cabra umas duas vezes por perto.

– O seu Luís? Veio pedir uma foice emprestada pra limpar a juquira do roçado, a dele quebrou. Já até devolveu.

E aí, seu delegado, me preocupei com essas visitas, é que Seu Espírito Santo tinha fama de arrastador de asa pra mulher alheia. Passou. Tempos depois, olhando a Maria, achei ela mais bonita do que já era, tomando corpo, ficando ancuda, os peitos empinados, me perdoe o linguajar, quero contar tudo, assim também de como se encostava em mim, me farejando o corpo, com um brilho maior no olhar. Eu estava ficando desatinado, pra poder dormir, tomava banho frio e rezava. Dias depois, de madrugada, acordei e Natividade estava acordada, sentada na rede dela, a gente não dormia em cama pra evitar as tentações, mandei fazer, em São Bento, duas redes das grandes, a dela, olho de pombo e linha de seda, pro seu confortinho. Perguntei, o que foi Nati?

– A dona Isabel, a vizinha, lá d’Outra Banda, parenta da minha mãe, está prenhe, eu soube. O Espírito Santo me disse. Gostaria de lhe fazer uma visitinha, levar um frango pra ela ir engordando pro resguardo… Seu Miguel disse que a gente ia ter um filho, mas como é que a gente faz pra ter um filho? Um nenenzinho gordinho, uma companhia pra quando você estiver no trabalho. Pra eu ver ele brincar com as ninhadas de pintinhos. Eu queria muito…

As angústias que eu tinha me apertaram mais, e fui me aconselhar com a minha madrinha Imaculada. Eu rezei muito, chorei muito, mas compreendi, não era mais capaz de cumprir com a minha missão aqui na Terra. A vida ia cortar as asas dela subir pro céu. E eu não tinha como proteger a pureza da minha Maria Natividade!

Aí, o resto o senhor já sabe. Calculei tudo pra ser um golpe só e ela não sofrer. Lhe digo que ela nem teve tempo disso.

Matei, tirei a vida de uma santinha, e tenho que purgar os anos que me derem, não me importo, pago desobrigado, porque consegui sua salvação antes dela pecar. Minha vida não tem mais precisão, não vale mais nada, a missão está cumprida. Não me matei, o senhor sabe, cristão que se mata não vai pro céu e ela tá lá me esperando, junto com a minha madrinha. Só espero não viver muito, pra chegar logo esse dia. Pode me levar.

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