A palavra no contexto da memória

\"Joaquim

“Armário de palavras” é a coletânea de crônicas em que o escritor Joaquim Itapary se esmera na demonstração espetacular do quanto esse gênero literário alargou os horizontes de seu modus faciendi, para abraçar o conjunto das disciplinas constitutivas das ciências humanas.

Na hora da globalização, que precisa ser bem mais exigente no resguardo da diversidade cultural, o futuro da literatura está na consequente “hibridização dos gêneros”. García Márquez e Vargas Llosa cantavam a pedra há algum tempo. Achega que o eclético Itapary, com seu senso de antecipação, já havia incorporado ao seu fazer literário.

Em “Armário de palavras”, a arte versátil e itinerante, urbi et orbi, do autor maranhense, de compor uma narrativa com informações e saberes provindos da economia, da política, história, sociologia, psicologia, jornalismo e literatura – tudo salpicado com o molho do humor e da ironia – exprime-se em crônicas primorosas, como “Vamos chamar o vento”.

Nela, no ponto de partida, a Baixada, o leitor se embevece com a verve poética do autor na descrição dos “ventos benditos que refrescam manguezais, espargem os cristais das dunas (…), eriçam a rude cabeleira das palmeiras (…). Quando amainam, basta chamá-los com um assovio, como fazem os pescadores da canção de Caymmi, os nossos barqueiros e empinadores de papagaios e jamantas”.

E num passe de mágica, o cenário muda de geografia e os ventos, de função. Já agora operando como economista e planejador do desenvolvimento, o narrador dispensa as fantasias altruístas sobre o vento de Caymmi para encará-lo como fonte utilitária da energia eólica. Detém-se, então, na verificação do atraso do Brasil no uso dessa categoria de energia limpa, renovável e barata. Deplora o fato de nosso Maranhão continuar à míngua de parques eólicos. Por aí, outra vez o poeta irrompe no décor para lembrar o cata-vento de sua casa, em São Bento. Já nos anos 40, ele assegurava a energia para bombear água do poço, carregar as baterias e pôr em marcha o motorzinho da luz. Do cata-vento de sua infância, o economista convertido à causa ecológica alça voo a longa distância para nos descrever a fortuna alcançada pela “eólica” não poluente no norte e no sul da Europa. Na volta, o antigo quadro superior da Sudene e da Cepal reinveste-se na sua identidade de artista para o canto e conto melancólicos sobre um Maranhão indiferente à riqueza do vento, talvez porque “perdemos o jeito de chamá-lo pelo assobio”, como antigamente.

No espetáculo literário do “Armário”, observa-se essa faceta fascinante: em Itapary, a sede insaciável de cosmopolitismos, de rupturas de fronteiras, bem no espírito da globalização, é vivamente contrastada pelo ímpeto de ir com frequência recarregar as baterias no torrão natal. Ali, na cenografia sensual dos campos com seus aromas e suas aves coloridas; na sintaxe dos contos e “causos” da Baixada; na curtição de sua gente boa praça, de suas nigrinhas adoráveis, que se fingem de ingênuas e inocentes com aquela inteligência intuitiva diabólica desenvolvida pela necessidade e capaz de entortar em “canetadas” pirotécnicas insignes PhDs da Psicologia; no sabor de suas jaçanãs, patos, bagrinhos, jejus, acarás e andiás; do queijo inimitável no afago ao paladar, sem falar da franqueza embriagante da tiquira de Santa Quitéria; na lenda safada sobre um “personagem” misterioso, tão presente no imaginário sexual da Baixada quanto o camelo no Corão, mas cujo nome não é citado um só vez por Itapary, como o do camelo igualmente no livro sagrado do Islã. Pois, aqui e agora, tiro do anonimato e introduzo nessa crônica o famoso personagem – o Poção de São Bento! Em suma, a Baixada é por excelência, et pour cause, a principal matriz geradora das tantas obras-primas contidas no “Armário”.

Em muitas das 163 crônicas reunidas na coletânea, Itapary nos interpela e nos galvaniza quando trata da política e da administração, num estilo mais próximo daquele do jornalismo, sobretudo do jornalismo-combate. Isso, para se indignar, por exemplo, contra a incúria dos nossos governantes ante o lento suicídio do Centro Histórico, Patrimônio da Humanidade, pelo veneno do abandono. Na denúncia enfurecida, ele desanca também os que engolem a indignação por covardia, por medo infundado de manifestá-la publicamente. Vemo-lo, com a mesma revolta, condenar o PT pelo desastre a que conduziu o Brasil, programas sociais incontornáveis à parte. E na abordagem de uma gama variada de temas, entre os quais a defesa da democracia e da cidadania, o cronista põe à disposição dos cientistas sociais, dos historiadores, soberbo acervo de experiências, reflexões e conhecimentos pluridisciplinares, compreendendo usos e costumes, bens culturais e aspectos curiosos da vida privada maranhense e brasileira. Nada escapa à narrativa do cronista perspicaz ora grave, ora cáustica ou bem-humorada. Não falta nem mesmo a profecia sobre o fim terrível de São Luís, ainda mais impactante pela reputação dos que abonam o vaticínio.

Mas espere, caro leitor: o “Armário” é, antes de tudo, uma ode à Vida. Nele, a beleza crepuscular, martirizada de São Luís é celebrada com declarações de amor altivas e apaixonadas desse escritor à part entière. Você corre o “risco” de se divertir à beça e se deixar seduzir pelos recursos ficcionais, pelas projeções oníricas inusitadas, pelas construções da inteligência e da imaginação poética e romanesca, pelas mágicas estilísticas, os achados idiomáticos e semânticos que Itapary reúne e articula para compor peças literárias perfeitas. Perfeitas.

Arlete Nogueira da Cruz Machado, com muita acuidade, sublinha na orelha do livro sua admiração “pela vivência e o conhecimento da linguagem, da paisagem e dos artefatos genuinamente maranhenses” e a forma de seu aproveitamento por Itapary no que ele relata.

De fato, é espantosa sua memória no ato de designar os objetos rurais e urbanos por seus nomes verdadeiros, maranhenses da gema. O que constitui mais uma razão para a escolha pertinente do título deste livro, que, com certeza, receberia aplausos calorosos de Sousândrade, João Lisboa e Humberto de Campos.

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