Da arte de viver

Autor de diversos romances-reportagens e histórias juvenis, o escritor maranhense narra a sua vida como se fosse inspiração para o roteiro de um filme
\"José

Tudo o que tem acontecido comigo enquadra-se numa forma de arte. Eu, que nunca escolhi nada para minha convivência, tive e tenho o apoio de duas pessoas queridas – Ednalva Tavares e, mais recentemente, Sérgio José Vaz.

Com base nesses apoiadores do primeiro time, às vezes eu tenho até a tendência de extrapolar nas minhas modestas exigências: manter as unhas e os cabelos cortados e cultivar uma boa leitura.

O livro de preferência que meu pai fazia questão que eu lesse era o Velho Testamento, e de tanto fixar-me nessa lembrança tenho praticado certo desleixo. Não tenho sequer um exemplar que possa utilizar a todo momento.

De qualquer forma, quando ouço falar em Novo Testamento, lembro dos domingos na Camboa do Mato, quando minha mãe Mundiquinha e minha avó Dorotéia me preparavam, com camisa de seda, para as cerimônias dominicais.

O pastor Benedito Aguiar adorava minha maneira de trajar, ou seja, de ser trajado – palha de seda marrom, que causava inveja no alfaiate Zé Pretinho, porque nunca eu fazia nada com ele. Tudo era com dona Raimunda, minha mãe.

Não tinha a menor noção de onde as coisas vinham. No meu entendimento, só podia chegar às minhas mãos por dona Raimunda, natural de Pinheiro, e seu Aproniano Louzeiro, dos Guimarães, filho e neto de pescadores.

Trabalho

Curiosamente, para desespero da família, seu Aproniano virou pedreiro. Coisa que os protestantes destetavam: meter a mão no barro. Por isso, dificilmente ele ficava desempregado. Era um pedreiro de mão cheia, daqueles que sabiam fazer arabescos na cimalha dos prédios.

Fez obras que ele prezava nas residências de Hernani Maia Pereira e dona Leni, que por sinal detestava meu pai. Ela não gostava dele por viver com as mãos atoladas no barro!

Mas seu Aproniano não dava a menor importância aos amuos de dona Leni.

Ele estava sempre cuidando dos seus afazeres com uma colher de massa e um nível de medição de parede.

Era o único operário-pedreiro dono de um aparelho de “nível”. Suas ferramentas igualavam-se às dos colegas, destacando-se a “peça de ouro” que era o seu nível que ele tratava com carinho especial. Seu Aproniano, por sua vez, filho de pescadores, decepcionava os pais, meus avós, por ter enveredado na arte dos pedreiros.

Nesse ambiente, entre uma nivelada e uma colherada de barro, eu me criei no Colégio São Luís, do professor Luís Rego, a única pessoa que me dava algum crédito.

Segundo ele, eu sairia do Colégio São Luís preparado para “grandes afazeres”.

Infelizmente, segundo o ponto de vista de Luís Rego, deu tudo errado: saí do Colégio São Luís para o Liceu e daí para o mundo…

Meu sonho, que aliás não se realizou, era chegar ao Liceu, onde os garotos usavam calças compridas. Mamãe me apoiava. Meu pai achava que eu merecia umas palmadas.

Dona Benedita Aguiar, a inspetora, parecia gostar de mim. A ela eu contava, sem constrangimento, as “acontecências” na Camboa do Mato e adjacências.

Minha vida divide-se em etapas movimentadas. Qual não foi meu espanto quando um belo dia meu pai Aproniano me mostrou as passagens de avião, do Loyde Aéreo, para o Rio de Janeiro. O que eu ia fazer no Rio, ninguém sabia.

Só havia um elemento a meu favor: eu era um bom datilógrafo e não rejeitava trabalho. Aliás, adorava escrever.

E até hoje escrever numa boa máquina, para mim, é diversão. l

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