Ainda uma vez mais, adeus, Nauro

\"Nauro

O Maranhão, e, particularmente, São Luís, perdeu o seu maior poeta, e eu perco a companhia do mestre que inspirou-me a existência inteira, inclusive para compor o que chamo, precariamente, de obra. Minha terra, onde tantas ingratidões e injustiças acontecem, ainda carrega a sorte, a sina, o destino benfazejo de ser soprada por vozes geniais que a traduzem para o mundo. São Luís não é apenas um local, um bairro, uma cidade, uma província. Nauro, com sua obra, tornou-a imortal, tornou-a uma aldeia global, um locus aberto para o mundo, para o cosmopolitismo, para a humanidade. São Luís, na obra de Nauro, é, indiscutivelmente, patrimônio lírico do mundo, assim como a lírica de Nauro tornou-se, com o tempo, patrimônio lírico da humanidade.

Tantas vezes, andando pelas ruas de São Luís, quando jovem, torcia para ter um desses encontros memoráveis que tinha com o maior vate de minha terra natal. Conheci sua obra quando, ainda jovem rapaz, embebido de outras leituras, uma amiga trouxe-me o livro de sonetos Órbitas da água, na antiga década de 80, na Escola Modelo, e pude testemunhar, pela primeira vez, a beleza furiosa, violenta, arrebatadora e absolutamente genial de seus versos. Porque não há outra palavra que defina, com precisão, o que Nauro foi e é: a expressão consumada do gênio poético. Isso o disse-me um amigo, também poeta à época, quando o leu. Isso o confirmei ao longo dos anos, diante de um monumento impressionante que é sua vasta produção lírica, que a cada ano assombrava-se com seu fôlego, sua fecundidade fenomenal, seu sopro de existencialismo e profundidade angustiantes, sua dimensão absolutamente imensurável e de inquestionável superioridade e sublime. Fui tocado para sempre com a fúria comovente de seus versos, cuja força fazia-me apenas lembrar os grandes poetas do mundo.

E era isso que deixava-me sempre feliz quando o via. Saber que estava caminhando na mesma época, no mesmo lugar de um gênio à feitura de poetas como Baudelaire, como Pessoa, como Rimbaud, como Augusto dos Anjos, como tantos outros. E em São Luís, minha terra natal. Não tardou para que eu o procurasse, em busca de sua sabedoria, de sua iluminação, querendo a fórmula daquele enigma, daquela esfinge de poesia. Queria tornar-me poeta, aprender com o mestre. Faz anos que, em 1987, aos 16 anos de idade, fui encontrá-lo na Secretaria de Cultura do Estado, quando Laura Amélia Damous a comandava, e o vi lá, cercado de outros poetas e escritores que também admirava, como José Chagas, Chagas Val, Alberico Carneiro, Wilson Martins, entre tantos. Tudo que perguntei foi objetivo, direto: queria saber como se fazia para se tornar um grande poeta, à feitura de uma pergunta que Franz Xavier Kapus fez a Rainer Maria Rilke. Só que eu não tinha versos ainda para apresentar. Nauro foi lacônico, mas magistral: \”Leia muito. Pesquise muito. Escreva muito.\” Essa frase foi suficiente para se apossar de minha existência inteira, e até hoje a repito como mantra à minha consciência.

Daí em diante, a admiração não cessou de crescer. Não o procurei mais por anos, pois sentia que devia recolher-me ao aprendizado, ao laboratório, à leitura, à pesquisa, à escrita. Descobri então o segredo da fórmula de Nauro: é preciso repeti-la e treiná-la para sempre. A leitura nunca cessa, a pesquisa nunca cessa, a escrita nunca cessa. É necessário sempre voltar ao começo, sempre reaprender, sempre ler, sempre pesquisar, sempre escrever. Muito. Muitíssimo. Para todo o sempre. Tal como Nauro fazia. E assim o fiz.

Com o tempo, com a minha formação, tornou-se natural que nos aproximássemos, que nos tornássemos amigos, que nos tornássemos próximos. Foi crescendo e pulsando em mim aquele afeto verdadeiro, não apenas de amigo, de leitor, de admirador, mas também da proximidade espiritual que nos unia a ambos. Tornei-me também o defensor de sua obra, um de seus divulgadores, um de seus críticos. E isso alargou a ponte entre nós, de modo que, ao correr dos anos, tornei-me íntimo do casal, e depois da família toda, e os trazia sempre em minhas mais caras e prezadas lembranças.

Ainda tenho na memória a lembrança fulgurante de muitos momentos. Lembro-me certa vez, quando lia uma obrinha em francês, na Praça da Saudade, para a minha monografia de graduação, quando Nauro apareceu abruptamente, tomou-me o livro das mãos, e começou a lê-lo em voz alta, declinando o francês que tinha aprendido em sua formação escolar. Conversamos sobre existencialismo, Sartre, Camus. Outra vez, já em outro nível de nossa amizade, com livro publicado sobre ele, passeamos pela São Luís da primeira década do século XXI em seu Fusca, que vi enferrujar e desfazer-se na casa da Rua dos Prazeres, para tornar-se, depois, um poema em seu livro Percurso de sombras (2013), certamente um de seus melhores. Mas são tantos os livros geniais de Nauro. Tantos poemas geniais, numa obra absurdamente genial. Um gênio. Um gênio.

O que posso eu dizer aos meus conterrâneos, aos meus irmãos de palavra e lírica? Aos meus irmãos de sangue, de afeto, de pertença? Eu só posso dizer que leiam e preservem a memória de nosso gigante. Nauro, sem sombra de dúvidas, construiu uma obra, com o seu ser e toda a sua existência, totalmente voltada para explorar a sua consciência, o seu ser, mas também voltada para o seu povo, para a sua terra, para o Maranhão, para São Luís. Da mesma forma que Fernando Pessoa alçou Portugal novamente ao cenário mundial com sua obra, Nauro projetará São Luís para o mundo com sua poesia. O que peço ao meu povo, aos meus pares, ao Maranhão, a São Luís, é uma coisa somente: ouçamos a voz de Nauro. Através dela, nós seremos grandes. Imensuravelmente grandes.

*Ricardo Leão, poeta e ensaísta

fonte: OEstadoMA.com

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