Chagas, nosso poeta

Ao cair da tarde de hoje 13 (mais precisamente às 17 horas), parentes, amigos e confrades, enfim – admiradores em geral do poeta e cronista José Chagas reunir-se-ão na Igreja do Desterro, para, em comunhão cristã, participarem da santa missa evocativa da memória do nosso poeta, segundo invariavelmente a ele se referia Joãozinho, motorista, fiel amigo e uma espécie de faz-tudo na casa fraterna e festiva que sempre assim foi, desde os tempos em que ela se localizava noutro endereço. Nela, a cidade, representada por expressiva parcela de seus habitantes mais sensíveis às coisas do belo, festejou efusivamente os 80 anos bem vividos de quem a cantou mais e melhor, dedicando, em prosa e verso, a expressão maior de seu talento raro e poliédrico.

Chagas, a par de maranhense convicto e ludovicense apaixonado, não o foi em razão do nascimento, mas por livre e consciente escolha. Portanto, mais senhor de seu destino que nós outros, que logo ao nascer fomos investidos de uma naturalidade traçada pela mão do destino. José Chagas igualmente teve a sua naturalidade, mas sem abjurá-la. Por contingências a princípio alheias à sua vontade, acompanhou pais e irmãos na diáspora que os tangeu da paisagem comburida e dos chãos ásperos e sáfaros para as plagas viridentes do Vale do Mearim, no Maranhão.

Chagas, autoproclamado pastor dos telhados de São Luís, além de cantá-los qual ninguém jamais o fez, cantou os azulejos, os sobradões, os chãos, os bares e os subterrâneos sociais cuja pobreza extrema nos entristece e nos envergonha sobre maneira.

Da vida em Pedreiras, estágio preparatório para o desembarque definitivo na Ilha, são registros líricos os livros “O discurso da ponte” (São Luís: Secretaria da Educação e Cultura, 1959) e “Cem anos de infância ou o poeta e o rio” (São Luís: Secma/Sioge, 1985). Este último, livro de poemas dedicado ao poeta pedreirense Correia de Araújo, por ocasião de seu centenário de nascimento.

Por volta de 1946 Chagas finalmente aportou na Ilha e nela fincou raízes profundas, como seu cronista maior e seu poeta idem, terminando por ser o autor da obra que mais enternecida e apaixonadamente elegeu nossa cidade como seu motivo maior e mais constante.

Atingiu o ápice desse candente testemunho de amor com o poema-rio “Os canhões do silêncio”, livro que tive a alegria e a honra de editar em 1979, quando dirigia o extinto Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado – SIOGE. Também o reeditei em 1980, pelo mesmo SIOGE, no compacto volume de 598 páginas, intitulado “Poesia reunida”, que enfeixa dez livros do poeta, publicação com a qual fiz uma agradável surpresa ao poeta.

Quando, às vésperas de uma viagem que me manteria por quase um ano no Rio de Janeiro, visitei Chagas levando-lhe a surpresa do “Poesia reunida”, ele escreveu o seguinte no meu exemplar, que guardo cuidadosamente: “Ao meu amigo Jomar Moraes, com a gratidão maior de quem recebeu demais e por mais que faça só pode agradecer de menos. O meu abraço e todas as minhas emoções também reunidas. / José Chagas / São Luís, 26.02.1980.

Chagas, autoproclamado pastor dos telhados de São Luís, além de cantá-los qual ninguém jamais o fez, cantou os azulejos, os sobradões, os chãos, os bares e os subterrâneos sociais cuja pobreza extrema nos entristece e nos envergonha sobre maneira.

Na denúncia-lamentação de “Maré/memória”, Chagas diz a certa altura:

“Daí o homem do mangue

ser da idade anterior

à idade que traz no sangue

curtido em sezão e dor.

“Como um fóssil desprezado

que não se guarda em museu,

ele se vê num passado

que São Luís não viveu.

“A imagem da palafita

não veio de Portugal

nem é lembrança bonita

da França Equinocial.

“Ela vem de muito antes

de quanto a história nos diz.

Por isso seus habitantes

não são bem de São Luís.

[…]

“E ali improvisa a casa,

a cama e até a família,

criando na tábua rasa

uma ilusão de mobília.”

A transcrição foi longa, porque se impôs por si mesma, e mais longe iria, se não tivesse eu a decisão de interrompê-la.

Chagas, meu querido e inesquecível amigo-irmão, conquistou São Luís e foi pela cidade para sempre conquistado. Por isso vive na memória de tantos amigos e admiradores.

Dizia-me sempre ele que gostaria de haver nascido em maio mês de sua especial predileção, e que cantou o soneto 25 do “Colégio do vento”, livro evocativo da sua infância na Paraíba, por mim publicado e republicado três vezes. A 4ª edição, comemorativa do 89º aniversário natalício do poeta, em 2013, é uma volta sentimental à terra de seu nascimento. Como dizia o soneto 25 desse livro termina com estes versos:

“Maio diminuía as nossas penas

e me criou em tempo de poesia.”

E para encerrar com as palavras do poeta, em honra de quem vai esta crônica, que fale ele próprio na abertura de “Os telhados”:

“No alto dos mirantes

me fiz e me desfiz.

Soprai-me brisas errantes

sobre toda São Luís.”

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