Acordes registrados na memória

Violonista maranhense Turibio Santos, recém-eleito para a Academia Maranhense de Letras, se prepara para lançar livro de memórias.
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RIO – Caminhos, encruzilhadas e mistérios…, autobiografia de Turibio Santos é menos uma autobiografia do que um detalhado diário dos mais de 50 anos de carreira do mais destacado violonista clássico brasileiro. Traça a impressionante trajetória de quem atuou em praticamente todos os palcos do mundo e, ao mesmo tempo, contém comentários que revelam muito do artista e do homem, hoje com 71 anos.

“A solidão do violonista clássico é uma coisa de doido”, diz ele ao falar da sensação que geralmente o acompanha em concertos e recitais. “A palavra já diz tudo: só… A única artista que vi se referindo a isso é Adriana Calcanhotto, sozinha no palco, com seu violão e suas canções”.

Uma sensação maior quando no exterior. Turibio viveu na França de 1965 a 1974 e, mesmo nos 10 anos seguintes, quando de volta ao Brasil, muitas vezes foi tocar, gravar ou editar em Paris. Foi quando a solidão se fez mais notada. \”Sem família, sem amigos, sem botequim\”, lembra ele, ao esclarecer que esse tempo de ausências ficou para trás.

A ideia do livro é de outro violonista clássico, Marcelo Kayath, hoje menos ativo do que quando os dois se conheceram. Marcelo ficou impressionado com a quantidade de informações sobre suas atividades guardadas por Turibio desde o primeiro concerto, em 1962, em sua São Luís natal. “Na verdade, devo o arquivo à iniciativa de minha mãe, Neide. E também a Hermínio Bello de Carvalho, que foi ensinando a ela a melhor maneira de organizá-lo”, recorda.

Marcelo, Hermínio e outros amigos estão presentes em vários momentos da história. Assim como Celso Faria, Jó Nunes e Carlos Andrade, o Carlão. Os três dialogam com Turibio no DVD que acompanha o livro que a ArtViva lançará na noite de 17 deste mês, na Livraria Travessa de Ipanema. Celso Faria defendeu tese sobre as primeiras adições pesquisadas por Turibio e editadas na França. Jó é o luthier cujos violões ele tanto aprecia. E Carlão, dono da Visom, pôs Turibio novamente em contato com sua imensa obra gravada.

Figuras – O número de personagens ilustres na carreira de Turibio é também impressionante. São grandes nomes da história do violão no século XX, com os quais ele conviveu e aprendeu. “O chamado violão clássico vem de uma tradição interrompida na Europa quando a qualidade do instrumento não acompanhou a da literatura criada, principalmente, por Marcelo Giuliani e Fernando Sor”, explica Turibio. “Faltava volume ao violão, resistência às cordas e outros

detalhes. Tudo mudou em 1850, quando o luthier Antonio de Torres começou a fabricar os seus modelos. Muito por isso Francisco Tarrega, pianista, aderiu ao violão e fez história”, completa.

O violão espanhol, informa Turibio, é nutrido por transcrições. Andrés Segovia, por exemplo, mestre de várias gerações, inclusive a de Turibio, transpôs para o violão clássico a técnica do flamengo. O violão brasileiro tem outra essência. É onde entra \”um gigante chamado Villa-Lobos. Villa-Lobos é para o violão o que Chopin foi para o piano”, diz Turibio, que já gravou toda a obra violonística do compositor.

“Ele provocou uma revolução na música brasileira, a ser seguida por outros que escreveram para o instrumento, como [Francisco] Mignone, Radamés [Gnattali], todos. Villa-Lobos levou para suas composições a tradição brasileira das serestas, das valsas, dos choros”, completou.

Clássico – A forma elitizada com que muitos se referem ao violão clássico, como se ele estivesse muito acima do chamado violão popular, incomoda Turibio. “Os europeus talvez possam pensar assim. Afinal, eles não têm uma música popular com a riqueza da nossa”. Razão pela qual ele (mais um músico clássico brasileiro com o bom senso de rejeitar o termo \”erudito\”) tocou e gravou com vários instrumentistas e cantores do universo popular, como Paulo Moura e Rafael Rabello, Elizeth Cardoso e Alaíde Costa. Fez mais, ao pesquisar com a mesma entrega a obra de artistas como João Pernambuco, Garoto, Dilermando Reis. No repertório gravado, há presença de compositores que não escreveram para violão. Por exemplo, Ernesto Nazareth. “É difícil solar no violão obras feitas para piano, como as de Nazareth”, admite. “Duo de violões, tudo bem, mas um só violão não consegue extrair de suas cordas as mesmas notas escritas para as teclas do piano. De qualquer maneira, para o violonista clássico tocar o popular é preciso certo jeito, determinada atitude, quase como a de brincar com a música”, completa.

Aliás, em outros idiomas, como \”jouer\” em francês e \”to play\” em inglês, tocar é sinônimo de brincar. Turibio Santos, que por 24 anos dirigiu o Museu Villa-Lobos, somou à carreira de solista a de professor. Esta, de valiosa contribuição à história do violão no Brasil. Foi ele quem criou os dois primeiros cursos na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na UniRio. “Não havia no Brasil a formação acadêmica para o violão”, lembra.

Os que se dedicavam ao instrumento se matriculavam em cursos de harmonia, composição, orquestração. Depois de se formarem em violão naquelas escolas, cada um deles se tornou professor em cursos que se espalharam pelo Brasil. “A primeira leva de alunos tinha tanta qualidade que foi com ela que criamos, em 1982, a Orquestra de Violões. Em todos os sentidos, um sucesso”.

O livro trata não só o modo como Turibio pensa a vida e a música como narra seus encontros, ou mesmo amizades, com gênios do violão: Segovia (que, revelado pelo pai, acabou aproximando o menino do violão), Julian Brean, John Williams, Oscar Cáceres, Leo Brouwer e tantos mais. Naturalmente, com um lugar todo especial para Villa-Lobos.

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