Sebastião Moreira Duarte

Biografia

Nasceu no sítio Olho d’Água do Melão, município de Baixio-CE, a 2 de março de 1944. Filho de Cícero Moreira da Silva e de Raimunda Alodias Duarte. Fez o primário em Cajazeiras-PB e o secundário nos Aspirantados Salesianos de Recife, Carpina e Jaboatão. Em São Paulo, frequentou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Abandonando a vida religiosa, radicou-se no Maranhão, a partir de 1965.

Licenciado em Filosofia e Pedagogia, é professor aposentado da Universidade Federal do Maranhão, onde ingressou em 1972. Mestre em Administração Universitária pela Universidade do Alabama, e doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. No Brasil, exerceu atividades docentes e administrativas em universidades do Maranhão e da Paraíba. Foi visiting scholar das universidades de San Diego, na Califórnia, e de Illinois (Urbana-Champaign), além de professor da Universidade do Tennesse, em Knoxville, nos Estados Unidos. Tem publicado diversos trabalhos em periódicos educacionais e literários do Brasil e do exterior. Entre 1999 e 2001 foi um dos colaboradores da coluna Sacada, de O Imparcial. Coordenador editorial da coleção Maranhão Sempre, pela qual foram publicados 24 títulos da bibliografia maranhense, com o selo da Editora Siciliano (SP) e sob o patrocínio do Governo do Estado do Maranhão. Atualmente presta colaboração editorial ao Instituto Geia, pelo qual tem trabalhado em numerosas publicações.

Bibliografia

  • a) Poesia: Novena de Natal. São Luís: UFMA/Prexae/Funarte, 1977;
  • Canto essencial. Campina Grande: Bruxaxá, 1979;
  • Calendário lúdico. São Luís: Sotaque Norte, 1998.
  • b) Ensaio: O périplo e o porto.  São Luís: Edufma, 1990;
  • Estudos sobre o mosaico.  São Luís: Edufma, 1992;
  • Epica americana: O Guesa, de Sousândrade, e o Canto general, de Pablo Neruda. Urbana, IL (USA): University of Illinois (este livro, ainda inédito, resulta de tese de doutoramento);
  • A épica e a época de Sousândrade. São Luís: Edições AML, 2002.
  • c) Crônica: Crônicas de Campo Serrano. Campina Grande: Pontaria, 1980.
  • d) Memória: Do miolo do sertão. João Pessoa: Grafset, 1988;
  • (2. ed., Brasília, Senado Federal, 1992;
  • 3. ed., São Luís: Sotaque Norte, 2012).
  • e) Álbuns Históricos (com fotos de Albani Ramos): Brinquedos encantados. São Luís: Instituto Geia, 2003. (Ed. trilíngue: port.-esp.-ingl.);
  • São Luís: Alma e história. São Luís: Instituto Geia, 2007. (Ed. trilíngue: port.-franc.-ingl.);
  • Maranhão: História, cultura, natureza. São Luís: Instituto Geia, 2010. (Ed. trilíngue: port.-franc.-ingl.);
  • Alcântara: Alma e história. São Luís: 2011. (Ed. bilíngue: port.-ingl.).
  • f) Tradução: de John Dewey: Meu credo pedagógico. Campina Grande: Grafset, 1980;
  • de Peggy Sharpe: Espelho na rua: a cidade na obra de Eça de Queirós. Rio de Janeiro: Presença, 1989;
  • de Roberto Malighetti: O Quilombo de Frechal.  Brasília: Edições do Senado Federal (v. 81), 2007.
  • g) Edição de Texto, com Introdução e Notas: Padre Mestre Inácio Rolim, do Pe. Heliodoro Pires. (Teresina: Gráfica e Editora Estado do Piauí, 1991);
  • Extrato de gramática grega, do Padre Inácio de Sousa Rolim.  Teresina: Halley, 1993;
  • Noções da história natural, do Pe. Inácio de Sousa Rolim.  Teresina: Halley, 1993;
  • Virgílio brasileiro (1º v. Bucólicas e Geórgicas), de Manuel Odorico Mendes, São Luís: Edufma, 1995;
  • Antologia poética, de José Chagas.  São Luís: Edufma;
  • Rio de Janeiro: Topbooks, 1998; Traduções de Voltaire (tragédias Mérope e Tancredo). São Luís: Edições AML, 1999;
  • Vida e obra do Padre Rolim (contendo o Extrato de gramática grega e Noções da história natural, do Pe. Inácio de Sousa Rolim, e O educador dos sertões, de Deusdedit Leitão, com prefácio de SMD. Brasília: Senado Federal, 2000;
  • As armas e os barões assassinalados.  São Luís: Sotaque Norte, 2000; A Balaiada, de Astolfo Serra. 3. ed. São Luís: Instituto Geia, 2008;
  • Memórias e Memórias inacabadas, de Humberto de Campos. São Luís: Instituto Geia, 2009;
  • Diário secreto (2 v.), de Humberto de Campos. São Luís: Instituto Geia, 2010;
  • Compêndio histórico-político dos princípios da lavoura do Maranhão, de Raimundo José de Sousa Gaioso. 3. ed. São Luís: Instituto Geia, 201. Dr. Bruxelas & Cia, de Fulgêncio Pinto. São Luís: Instituto Geia, 2013.
  • h) Discursos e conferências: Na Casa de Antônio Lobo (com José Chagas). São Luís: Edições AML, 1998. Posse na Academia Maranhense de Letras (com José Maria Cabral Marques). São Luís: Edições AML, 2002;
  • Na Casa dos Cem Anos (com Carlos de Lima). São Luís: Edições AML, 2008;
  • Padre Inácio Rolim, ontem e hoje. São Luís: Sotaque Norte, 2010;
  • A José Sarney, em seus 80 anos. São Luís: Edições AML, 2012.

Discursos de Posse

Tão finos, imperceptíveis, imponderáveis são os fios com que se fabrica o tecido da vida, e tão ao capricho dos deuses se trama a sua urdidura, que, muitas vezes, no emaranhado deste fingimento divino, o que chamaríamos livre­-arbítrio será apenas a falácia consoladora de nos imaginarmos guiados pelos clarões da consciência ou tangidos pelos fulgores da razão.

Se assim não fosse, minhas senhoras e meus senhores, como vos explicar, como entender eu mesmo, como ao menos intuir, na contextura mais recôndita de meu ser, as motivações que me dirigissem à epifania desta noite, à convergência dos passos que me trouxessem a este encontro, neste lugar e neste instante, em que, por vosso magnânimo beneplácito, senhores acadêmicos, passo a ocupar, nesta Casa, a Cadeira número 1, sucedendo, sem poder substituir, a Antenor Mourão Bogéa?

Casa de Antônio Lobo! – direi, tomando para mim, e para esta circunstância, as palavras de José Sarney em sua chegada à Academia Brasileira de Letras – nos horizontes da Província, “nada mais alto, aqui é o infinito.”1 Pois que estamos em Atenas, esta é a sua Acrópole. Aqui se guarda o paládio a selar a perpetuidade dos valores mais nobres da cultura maranhense, a pulsação mais visível de toda a sua vida espiritual.

Compreendereis, por isso, meus confrades, que me reúno ao vosso convívio com a unção e a compunção do sacerdote em sua primeira missa, quando, no meio do altar, concentra-­se a pedir ao Anjo do Senhor lhe queime os lábios com uma brasa acesa, como ao profeta Isaías, para que se faça digno mensageiro do verbo. Verbo de Deus ou verbo do homem, tudo é verbo divino, e uma só missão e um só sacerdócio é pôr­-se a seu serviço. Deus de tal modo sabia da elevação com que distinguira o ser humano ao conceder­-lhe a dádiva da palavra, que, querendo-­a para si mesmo, fez-­se Verbo e fez­-se carne e habitou entre nós. Imponho­me, pois, antes de tudo, a humildade de rogar­-lhe a graça da devida purificação, para que eu possa situar­-me à altura de oficiar esta liturgia, em que crentes e descrentes, sursum corda, proclamamos fé unânime na ressurreição da carne e na vida eterna. Este é o momento taumatúrgico, em que, pelo milagre da imortalidade acadêmica, ressurgem e se fazem presentes ao nosso chamado quatro portentos do espírito, marcados com o mesmo signo, um a um: pois, a despeito da multiplicidade caleidoscópica em que desdobraram os seus dias, todos se unificam no papel que exerceram ou nos papéis que deixaram como educadores. São de ontem e são de hoje, são mais de hoje que de ontem, na medida em que foram menos ouvidos ou menos entendidos por seus coetâneos.

Almeida Oliveira

Antônio de Almeida Oliveira, o patrono da Cadeira, é o primeiro deles. Ainda não me acostumei a contemplá-­lo sem assombro. Custa­-me contabilizar o cabedal de realizações com que, em sua curta existência de 44 anos, credenciou-­se à perene gratidão e à reverência de quantos, depois dele, hajam abraçado o ideal da educação. “Sublime engenho” que recebeu “o toque da inteligência sobrenatural” – eis como lhe resume o perfil o meu antecessor.  “A sua fecunda atividade mental  – testemunha Barbosa de Godois, que o conheceu em pessoa – perlustrou diversos ramos de conhecimentos, sendo difícil afirmar­-se em qual deles mais se distinguiu, tal era a superioridade com que tratava dos assuntos a que se consagrava, com uma admirável dedicação ao trabalho, por mais exaustivo que fosse”.

Nascido em Codó, a 17 de outubro de 1843, Almeida Oliveira foi publicista, jurisconsulto, parlamentar, governador de província, conselheiro e ministro do Império. Sobretudo, foi educador e pedagogista. Bacharel em Direito em 1866, pela Faculdade do Recife, foi, por breve tempo, promotor público em Guimarães e, logo depois, advogado em São Luís. Aplicando os dotes de sua inteligência à ciência jurídica, e não apenas ao foro, escreveu quatro tratados de sua especialidade: A assinação de dez dias no foro comercial e civil, publicado na capital de Santa Catarina, em 1879 e em 1883; O benefício da restituição in integrum, saído no Rio de Janeiro, pela Garnier, em 1886; A lei das execuções; comentário à lei de 5‑10‑1885 e regulamento de 23‑6‑1886, também no Rio, em 1887; e A prescrição no direito civil e comercial, em edição póstuma aos cuidados de Francisco da Cunha Machado, em 1896.

Com essas obras – o julgamento é de Antenor Bogéa – escritas em fase tumultuária de nosso Direito Civil, Direito que se nutria das fontes obsolescentes do Livro III das Ordenações Filipinas e aspirava a rejuvenescer‑se nas águas lustrais da Consolidação das leis civis, de Teixeira de Freitas, com essas obras, Almeida Oliveira lançou as coordenadas daqueles institutos de Direito substantivo e adjetivo, ministrando ensinamentos e rumos que logo se impuseram ao magistério jurídico e à jurisprudência de nossas Cortes de justiça.

E se a mudança das instituições fez perder atualidade à bibliografia jurídica de Almeida Oliveira, suas obras pedagógicas e seus empreendimentos educacionais permanecem, em larga substância, pelo que foram: um manifesto candente, um programa em aberto, uma carta não respondida, uma conta em cobrança.

“Apóstolo da instrução popular” – é como lhe chama aquele que o tomou como patrono nesta Academia. De fato, Almeida Oliveira avulta, no século 19, como voz isolada a clamar contra o descaso das autoridades brasileiras pela educação pública. O seu zelo profético só me parece encontrar paralelo em Horace Mann, nos Estados Unidos, ou em Domingos Sarmiento, na Argentina. Extraordinário antecipador dos tempos, republicano da primeira hora, ainda que tenha servido em altos postos ao governo monárquico, as suas ideias alimentam-­se na mesma fonte inspiradora daqueles dois pioneiros: escolas podem fazer­-se sem democracia, democracia não se faz sem escolas. O povo é soberano: eduquemos o soberano.

Em coerência com tal percepção, já aos 27 anos, em 1870, Almeida Oliveira reunia­-se a outros maranhenses ilustres, para fundar, em prédio que hoje abriga a Assembleia Legislativa do Estado, a Sociedade 11 de Agosto, destinada a oferecer cursos noturnos gratuitos para as classes operárias de São Luís. Contando, de início, com 80 sócios benfeitores e 258 efetivos, a entidade matriculava, de início, 150 alunos, número que em 1873 passava a 390, e no ano seguinte, a 449.

“A partir dessa época – comenta Jerônimo de Viveiros – rara é a realização pedagógica ou obra de benemerência, levada a efeito no Maranhão, que não tivesse à frente a prestigiosa associação”. O Curso Normal, por exemplo, criado por uma lei de 1847: de governo a governo, um depois do outro discursando sobre sua importância, protelavam­-se os atos que o trouxessem à realidade material. A Sociedade 11 de Agosto toma a seu encargo organizá-­lo, ainda que não tenha conseguido levá-­lo adiante, até à diplomação dos seus alunos.

Era aquele não mais que um curso de preparação de professoras para o ensino primário, mas, para que se tenha uma ideia da altura em que desenvolvia o seu programa escolar, seja­-me permitido apresentar­-lhe o corpo docente, para que se faça o confronto com o rol de professores que encontramos em muitas de nossas escolas nos dias correntes: Joaquim Teixeira de Sousa, em Gramática e Língua Portuguesa; padre Raimundo Alves da Fonseca, em Moral, Doutrina Cristã, Pedagogia, Geografia Física e Cosmografia; Dr. Francisco Correia Leal, em Física, Química e História Natural; Dr. Antônio Jansen Matos Pereira, em História Santa e Profana, Rudimentos de Direito Natural Público e Economia Política; Dr. Agostinho Autran, em Desenho Linear.

Sob o patrocínio da mesma sociedade, Almeida Oliveira estabeleceu, ainda em 1872, junto com Antônio Enes de Sousa, uma Biblioteca Popular, cujo acervo chegou a reunir cerca de oito mil volumes. Barbosa de Godois informa: a Biblioteca

durou muitos anos, mantida exclusivamente pelo Dr. Almeida Oliveira, que, ainda mesmo depois que fixou residência no Rio de Janeiro, continuara a sustentá‑la. Tendo de passar a novas diretorias e sem a intervenção direta do seu ínclito fundador, foi essa instituição decaindo aos poucos, após um decênio de existência próspera, até que teve de extinguir‑se, passando os seus livros para uma antiga e já fechada biblioteca pública do Estado, donde foram extraviadas não poucas obras, sendo as restantes destruídas pelas traças.

E se, apesar de tão profícuas iniciativas, a Sociedade 11 de Agosto veio a desaparecer em 1882, experiências outras de nossa história educacional mais recente servirão para demonstrar, sem nenhum paradoxo, que talvez estivesse aí mesmo, na extinção daquela entidade, a prova indesmentível do mérito de seus empreendimentos.

À ação, Almeida Oliveira logo associou a pregação, no afã de acertar o passo de sua província patriarcal e latifundiária com o progresso que, noutras fronteiras, se fazia mediante o labor de cidadãos instruídos. É assim que seu impulso criativo se dedica ao que chamará de “conversas públicas”, conferências populares sobre temas de educação. Em um ano só (1871), pronuncia e publica três delas: A necessidade da instrução, A instrução e a ignorância, A sociabilidade e o princípio de associação. Por ocasião da instalação da Biblioteca Pública, em 1872, escreve um Discurso sobre a educação do sexo feminino. Também se incluirá em sua bibliografia pedagógica o texto de O arado carta aos lavradores maranhenses, de 1878, porque bem entendia Almeida Oliveira que o trabalho, fonte primordial de riqueza, é também fonte de toda cultura e, portanto, de toda educação.

Eis, para ele, “o maior princípio moral que se conhece: […] sem instrução e sem trabalho nada de bom pode a criatura humana fazer”. E de tamanha convicção se acendia o seu espírito quanto a esse ponto que, já nas primeiras páginas de sua obra fundamental, discute a questão da propriedade da terra, da extinção do cativeiro e do trabalho livre.

A obra fundamental a que me refiro é O ensino público, destinada, conforme diz seu subtítulo, a mostrar o estado em que se acha e as reformas que exige a instrução pública no Brasil. Em seu juízo sobre esse livro, afirma Barbosa de Godois que Almeida Oliveira terá sido, “não haverá exagero em dizer-­se, o primeiro que, neste país, se ocupou do ensino público, com um largo descortino e profundeza de estudos pedagógicos”. De minha parte, confesso que, tanto quanto me é dado conhecer, não existe no Brasil do século passado nenhum escrito educacional que se lhe compare em sentido pragmático e abrangência programática. E acrescentarei com o autor citado:

Proceder a pesquisas acuradas de dados estatísticos da vida escolar no país, estudar o movimento pedagógico que se operava fora daqui, investigar métodos, aprofundar as diferentes questões que se agitavam no estrangeiro, em torno das escolas, e apreciar, com vivo interesse, tudo que se referia ao objetivo que o preocupava, era uma coisa que pasma haver sido levada a efeito entre nós.

Nada escapa à percuciente investigação de Almeida Oliveira. Alicerçando na educação o seu programa de reforma política do país, ele propõe ideias que vão desde a obrigatoriedade, a gratuidade e a liberdade de ensino, até a educação mista, escolas profissionais, escolas especiais de agricultura, indústria e comércio, escolas noturnas e de menores desvalidos, escolas normais, conferências pedagógicas, formação de bibliotecas, além da estrutura e organização do ensino, do magistério, da disciplina escolar.

Só o muito amor a este fundamental problema – comento ainda uma vez com o Fundador da Cadeira numero 1 – poderia levá‑lo [a Almeida Oliveira] a tanta atividade despendida nesse terreno, num meio como era o nosso, e o de todo o País, nesse tempo, em que de tudo se trataria com empenho e dedicação, menos de instruir os filhos dos pobres, que eram exatamente os que mais necessitavam desse apoio.

Sendo-­me impossível apresentar o quadro todo da pequena enciclopédia que é O ensino público, não me contenho e tomo­-lhe de empréstimo o seguinte trecho, que, perante este auditório, servirá, também, para deixar uma ideia do escassíssimo público com que podia contar um escritor brasileiro daqueles tempos. O autor analisa o recenseamento da capital maranhense, “que passa por uma das mais cultas do Império.” “São Luís – são suas palavras – divide­-se em três freguesias de populações pouco mais ou menos iguais.

Dentre elas a mais importante é sem dúvida a de Nossa Senhora da Vitória: aí está o comércio e mor parte do funcionalismo público. Pois bem: nessa freguesia, que tem mais instrução que as outras, e que deu 9.012 habitantes, foram contados 5.176 analfabetos.

Como, porém, neste número se compreendem os escravos, que andam por 2.623, subtraídos eles, ficam, para 6.389 habitantes livres, 2.553 ignorantes não escravos.

Ora, 2.553 são 39% de 6.389. Portanto, se numa cidade como a que tomei para base do cálculo, os ignorantes dão 39% da população livre, não exagero dizendo que noutras partes eles darão 40, 60, 70, 80 e 90%. Donde resulta que sendo 64 o médio entre 39 e 90 e adicionando‑se a esse algarismo os 16% de escravos, seguramente

80% da população geral são ignorantes.

E se, afinal, é meu dever deixar estreme de dúvida todo o meu entusiasmo por esse livro, anuncio como um dos meus primeiros propósitos, nesta Academia que efusivamente me recebe, o de devolvê-­lo ao leitor de hoje, em moderna edição, como fonte imprescindível à pesquisa da História da Educação brasileira.

Almeida Oliveira faleceu a 27 de outubro de 1887. Falei, ao iniciar, do assombro que me assalta o espírito diante de seu perfil de alucinado pela causa, entre nós ainda perdida, da educação. Maior assombro me causa sabê-­lo praticamente desconhecido em nossos dias. Em Codó, sua cidade natal, nem uma rua conserva-­lhe a memória, e não será o caso de fecharmos o olho a tal incúria, concedendo que os munícipes seus concidadãos sejam mais propensos a cultuar pais de santo que pais da pátria. Também a capital do Estado não lhe fez melhor imagem: passaram­-se o sesquicentenário de seu nascimento e o centenário de sua morte. Em nenhuma das duas ocasiões, o Maranhão lembrou­-lhe o nome sequer. Com todo rigor, cumpriu-­se a seu respeito o que previu o Fundador da Cadeira:

O Dr. Almeida Oliveira […] não se podia iludir a respeito dos frutos que o seu livro poderia produzir. A indiferença, mascarada com uns lugares‑comuns bastante corriqueiros, sobre a importância da instrução pública, teria de ser o único resultado que colheria do seu fatigante trabalho. [… ]. [Algumas das] suas obras e ideias […] seriam consideradas frutos da loucura. […] E assim o trabalho abnegado e longo dum homem de talento e bem inspirado passou, após o seu desaparecimento, por um eclipse, de que a muito custo se libertará.

Barbosa de Godois

Falei de Almeida Oliveira e já estava a falar de Antônio Batista Barbosa de Godois. Este é aquele à distância de um lapso geracional, curto embora, mas que, infelizmente, não permitiu recebesse um da mão do outro a bandeira do apostolado pedagógico. Perdeu­-se, com isso, a oportunidade de formar-­se um dos elos vigorosos que, reforçado pela propaganda republicana, poderia formar, entre nós, a corrente de atualização social que levasse a uma escola aberta para todos, arejada por teorias inovadoras, métodos modernos, administradores esclarecidos, mestres numerosos.

Barbosa de Godois, nascido em São Luís a 10 de novembro de 1860, era menino quando aqui chegava Almeida Oliveira recém-­formado no Recife. Tendo-­o conhecido em sua juventude, é a si mesmo que se descreve, quando relembra aquele cujo exemplo iluminou­-lhe o caminho:

Recordamo‑nos com respeito e saudade da veneração que lhe consagrávamos, – diz ele de Almeida Oliveira – nós, os moços desse tempo, pelas suas luzes, probidade admirável e grande modéstia, e a que ele correspondia com a afabilidade que lhe era peculiar, de quem se sente bem animando a mocidade no trilho das letras, sem que, entretanto, das suas palavras e feitos, transpirasse qualquer pensamento oculto de vaidade pessoal.

Muitos anos depois, encontramo‑nos novamente. Já ele era, então, parlamentar e conselheiro da Coroa. Mas, apesar disso, era o mesmo homem de outrora, despretensioso e amável, delicado e serviçal à nossa terra.

Veja­-se, em comparação, o próprio Barbosa de Godois retratado nas memórias de Dunshee de Abranches:

Espírito moderado e cultíssimo, afável e polido, falando sempre à meia‑voz, a sua calma contrastava com a grita constante que, horas seguidas, se fazia em torno de sua mesa de redator‑chefe” [da Pacotilha].

E para que fique bem à mostra a verdadeira marca de sua personalidade, registre-­se o episódio, ocorrido em fevereiro de 1897, quando Benedito Leite manifestara­-se, da tribuna da Assembleia Legislativa, profundamente ferido com as críticas à sua probidade, que, do referido jornal, lhe dirigia Barbosa de Godois. Estava rompida, conforme seria de se esperar, uma amizade que vinha desde os bancos acadêmicos. E no entanto, fazendo distinção entre o erro e a pessoa errada, segundo recomendava Santo Agostinho, nada impediu viesse o mesmo Barbosa de Godois a ser o braço direito de Benedito Leite, numa das passagens mais gloriosas da História do Maranhão.

Foi, aliás, aquele governante quem emprestou mãos às mãos do destino, para que se estampasse a imagem definitiva de Barbosa de Godois na memória do futuro. Formado em Direito pela Escola do Recife, em 1884, este foi promotor público, jornalista, deputado, funcionário público, homem de governo. Mas o que mais lhe deu imortalidade ao nome foi, bem o sabemos, a renovação educacional que lhe confiou Benedito Leite, na passagem do século, movimento de que resultou a reforma da Escola Normal e o funcionamento da Escola Modelo do Maranhão.

Com essa empreitada, o jornalista dava lugar ao pedagogo, guardando ele, no entanto, a mesma consciência de que sua luta, nesta outra arena, seria a extensão da campanha regeneradora que desenvolvera na imprensa, aliada ao empenho dos Novos Atenienses por despertar o Maranhão daquela “tristíssima e ca­liginosa noite – como a viu e viveu Antônio Lobo – em que, por tão longo tempo, viveram imersas as suas letras.” Conhecedor do ideário de Almeida Oliveira, Barbosa de Godois também consideraria enorme contrassenso promover a literatura numa sociedade de analfabetos. Daí que a sua bibliografia seja um duplo serviço, às letras e à educação: Instrução cívica; resumo didático; História do Maranhão, em dois volumes; Escrita rudimentar; O mestre e a escola; Higiene pedagógica; Os ramos da educação na escola primária; Síntese de história da educação; Um programa de história; Cantos escolares são obras suas, publicadas todas em São Luís, durante cerca de duas décadas de atividade infatigável por parte de seu autor. Noves fora aquilo que a ordem do dia lhes subtraiu de imediata utilidade curricular, aí estão textos didáticos dos melhores que já se escreveram entre nós e que deveriam ser consultados com todo proveito ainda em nossos tempos, em que vemos circular, sob o rótulo de livros escolares, coletâneas inomináveis de parvoíces, e em que se aceitam e, mesmo, se publicam, até sob a capa de teses doutorais, parágrafos pecaminosos de ataque à Gramática e ao bom senso.

No acanhado meio que era o Maranhão do começo do século 20, surpreende­me esteja Barbosa de Godois em perfeita sintonia com os avanços dos grandes centros civilizados no terreno da educação. Cito exemplos: “Na Europa, vêm a ser talvez a Rússia e a Dinamarca as nações em que as Escolas Normais têm o programa menos vasto, sendo que o da Rússia rivaliza com o da E. N. do Maranhão, tendo de menos o ensino de Física e Química e a prática de ensino.” […] “Visitei a Escola Modelo – escreve um ilustre visitante ao Maranhão, Sr. J. Higgins. – Fiquei simplesmente maravilhado. Esta escola não se envergonharia de se achar em qualquer centro civilizado do mundo! Lembrei­me das escolas americanas, da high shcool dos Estados Unidos.”

É o caso de nos indagarmos por que ontem, com tanta escassez de recursos, tanto se sabia, e hoje, com tanta abundância de tudo, tão pouco se estuda. Não será que a dissipação dos meios fez perder de vista os fins da tarefa educativa?

Não precisarei dizer que Barbosa de Godois se consagra como um dos fundadores desta Casa. Aposentado de sua jornada gloriosa como educador entre os maiores do Maranhão, transferiu­-se para o Rio de Janeiro, onde pôde ainda voltar ao jornalismo. Passou ao outro lado da vida a 4 de setembro de 1923. Seu nome é um dos que mais fortemente ficaram soldados à História do Maranhão. Ele é um dos raros casos de dupla imortalidade, como acadêmico e como autor da letra do Hino do seu Estado natal.

Luís Carvalho

A Barbosa de Godois sucedeu Luís Carvalho. Não era maranhense: foi do Maranhão. Nasceu em Oeiras, no Piauí, em 1880, e veio para São Luís aos quatorze anos. Foi vice­-presidente da Oficina dos Novos e viu nascer a Academia Maranhense de Letras. Bacharel em Direito pelo Recife, foi advogado, político, poeta, professor. Faleceu em São Luís, em 1963.

Afora o minudente roteiro biográfico que lhe traçou Antenor Bogéa, desde a vida do estudante entre Oeiras, Teresina, São Luís e Recife, até à faina advocatícia, o magistério, a direção da Faculdade de Direito de São Luís, a militância política e a produção poética, o que hoje temos de, e sobre, Luís Carvalho é nada ou quase nada. De Antônio Lobo, em Os novos atenienses, à Antologia da Academia Maranhense de Letras, reitera-­se que eram de sua lavra os livros inéditos Âmbula, de poesias, e Primeiras águas, de crônicas, contos e discursos. Marcados por essa nódoa inapagável da cultura brasileira, que é o extravio de documentos, esses escritos se perderam sem se publicarem, e nem a família do autor guarda qualquer rastro de onde possam ser achados. Dele encontramos invariavelmente transcritos três sonetos encimados pelo título No Riachão. Por gentileza de seu filho, dr. Carlos Carvalho, obtive o recorte de um jornal, datado de 23 de março de 1974, cujo título não pudemos precisar, e onde, além deste antes citado, encontrei os sonetos Natal, Esquiva, Asas, e Mística, assinados por seu pai. Antenor Bogéa refere outros: Numa Noite de Inverno, Em um Cartão Postal, Baladilha, Meus Filhos, No Bosque.

Copio um desses sonetos, se posso contribuir para que se conserve o que ainda resta do que deixou o seu autor:

ASAS
Asas! Pudesse eu, homem, tê-las. Tê‑las
De ano luzindo, alígeras, de penas.
Asas que, aflando, me levassem pelas
Alturas, asas pálpitas, serenas.
Tê-las assim para voar centenas
De vezes! Ir às nuvens brancas, vê-las,
Ver o céu, ver o sol, ver as pequenas,
As pequeninas, tímidas estrelas.

E subir e voar, que o espaço é vasto:
Fazer de cada ponto luminoso
Um pouso alegre, luminoso e casto!
Viver longe dos míseros humanos,
Viver sorrindo, como um Deus glorioso,
Sem amor, sem pesar, sem desenganos…

Li esta e outras peças de Luís Carvalho. Ouvi o seu filho. Conversei com pessoas que o conheceram de perto. Fixei o olhar sobre o bico de pena que dele nos deixou Anita Rabelo. Recolhendo impressões que se gravaram em meu ouvido interior, creio não desfigurar-­lhe a pessoa, desenhando-­a sumariamente nas seguintes linhas: era um homem incomum, que fez opção preferencial pela austeridade e elegância fin‑de‑siècle/belle époque. Do cultivado cavanhaque, à Washington Luís, ao cultivo do soneto formalmente escorreito, tudo em si e ao seu redor transmitia a certeza do fino trato, aí incluído o da língua, a qual, entre outros feitos, serviu com os bons préstimos de sua colaboração ao Dicionário de Cândido Figueiredo. Rigoroso por ser asséptico, era um asceta em tempo integral, pois elegância, para ele, era a vestimenta da probidade, expressão externa da saúde moral que se traduz em ser feliz.

Reconheçamos que um homem dessa envergadura faz falta aos nossos dias, dominados por uma avalanche, parece que interminável e irremovível, de vulgaridade privada e pública e notória, prazerosa, a grosso, para o baixo ventre, lucrativa para as vendas a varejo, e, no geral, embrutecedora das consciências.

Antenor Bogéa

E eis redivivo e verdadeiro aos nossos olhos Antenor Bogéa, o amigo inesquecível, o político plutárquico, o educador da política, o cientista do Direito, o mestre de bíblica sabedoria. Até ontem o pranteávamos. Hoje, com ele nos rejubilamos, a contemplá-­lo sub specie aeternitatis, pisando outra vez o tapete vermelho deste salão, assomando a esta tribuna, testa larga, cabelos grisalhos, óculos carregados, pronunciando o seu discurso, indicando as palavras com a ponta dos dedos, preocupado em que as vírgulas estejam todas em seus lugares, preciso e esmerado em tudo. Ele vem para nos falar, e o que mais traz consigo é a sua enorme capacidade de ouvir.

Quando, pela primeira vez, conheci Antenor Bogéa, eu não conheci Antenor Bogéa. Conheci seu filho Ricardo. Foi em meados de 1965: recém-­saído do Seminário, eu me encontrava em Coroatá, vendendo pano a metro na loja de meu irmão e dando aulas à noite no Colégio Viriato Corrêa. Era um ano de agitadas eleições, as primeiras depois do 1° de Abril de 1964, quando ainda se acreditava possível dar uma resposta, pelas urnas, aos golpistas do novo regime. Ricardo fora procurar-­me com um convite: que eu me filiasse ao Partido Democrata Cristão. Fiz­-lhe ver que, sim, eu carregava comigo, vindo de São Paulo, alguma simpatia por uma agremiação política que, ademais do epíteto de cristã, alistava em suas fileiras, a despeito de Jânio Quadros, nomes como Carvalho Pinto, Franco Montoro, Queiroz Filho, e – por incrível que hoje isto pareça – Roberto Cardoso Alves, o Robertão depois famigerado por aquela outra leitura da Oração de São Francisco. Mas que entendesse o meu distinto interlocutor: eu me sentia ainda por demais calouro no curso de maranhensidade que estava iniciando, a duras penas e de forma a mais intensiva. Bem pouco lhe aproveitaria o meu contributo. Ricardo Bogéa entendeu e agradeceu. Ficamos amigos. Visitei-­o bem um ano depois, em São Luís, e ele ainda guardava detalhes daquele primeiro encontro. Eu nunca esqueci que ele nunca me disse, em nenhum momento, que era filho de um candidato a vice­governador do Maranhão.

A segunda vez que eu conheci Antenor Bogéa, conheci Antenor Bogéa Filho. Estávamos em fins de 1973, começo de 1974. Eu era professor da Universidade do Maranhão, prestes a participar, junto com alguns colegas da América Latina, de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Quem conhece as entranhas de nossas instituições públicas sabe o que suscita a simples notícia de fatos como esse. Foram Sofia e Antenor Bogéa, ex­-bolsistas do mesmo Programa, que nos ensinaram, a mim e a quatro outros companheiros, a superar dificuldades de outra forma intransponíveis, dentro de nossa própria Casa, antes, e, depois, quando ainda éramos noviços da cultura americana. Tive ensejo de agradecer de novo ao filho de Antenor Bogéa este gesto de fraterna atenção, quando aqui esteve recentemente, para entregar a um instituto de ensino parte da biblioteca de seu pai.

A terceira vez em que conheci Antenor Bogéa foi ao Mestre Antenor Bogéa que eu conheci. Corria o primeiro semestre de 1977. A cidade de São Luís preparava-­se para hospedar um Encontro Nacional de Faculdades de Direito. Encarregados de organizar o evento, os professores Antenor Bogéa e Doroteu Ribeiro descobriram que na Universidade havia alguém recém-­chegado de uma pós­-graduação, com um diploma em Administração Universitária. Presumindo que isso lhes servisse de algum valimento, convidaram-­me, sem propriamente me conhecerem, a que os auxiliasse nesse encargo. Retribuí­lhes com o que em mim já havia acumulado de veneração por dois luminares da ciência jurídica em nosso meio. Recordo com a mais viva saudade a noite em que entreguei a Antenor Bogéa um esboço do que projetáramos realizar, e ele, retendo os olhos sobre a mesa de trabalho, desculpava-­se comigo pelo trabalho em sobrecarga de que me incumbira.

E peço aos presentes entendam a comoção irreprimível que sinto quando rememoro um episódio de extrema singeleza, a que não haveria de conferir maior importância, não fosse, nesta noite epifânica, a revelação, para minh’alma, dos fios tênues, distintos e distantes no tempo, que se entreteceram para sustentar­-me do Alto e me conduzirem até a esta culminância: numa tarde, no velho prédio da Reitoria da Universidade onde se estabelecera a comissão organizadora do Encontro, deparo, logo ao chegar, o professor Antenor Bogéa ocupado em ler uns escritos, de autoria de alguém que, da forma como ali se assinava, era desconhecido para ele.

– Quem é este Moreira Duarte?
Com o pudor de uma freirinha em primeiros votos, respondo­lhe:
– Sou eu, professor.
Silêncio longo, pesando toneladas. E a voz de Antenor Bogéa:
– Você me empresta este seu caderno de versos?
Entre mais constrangido e mais surpreso, concordei com seu pedido.

Os dias se passaram, espaçamos nossas reuniões, realizou­-se o Encontro programado, e o Mestre não me devolvia meus papéis, nem falava mais neles. Que destino tomara aquela produção primigênia? Como dirigir­-me a Antenor Bogéa? Revejo-­o na Faculdade de Direito e, num átimo de violência interior, deponho a couraça da timidez:
– O Sr. ainda se lembra daqueles poemas?
Sim, como não? Levei­os à Academia, li alguns deles numa sessão, entreguei­os a Jomar Moraes, no Sioge*.

Imaginemos juntos o frio que me atravessou a espinha àquela notícia. Cumpria­-me enfrentar Jomar Moraes. Transcorridos alguns meses e nada me falando o Diretor do Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado sobre a publicação do meu livro, que mensagem deveria eu colher de seu silêncio? Jomar, municiado de competência insubstituível, exercia, como ainda hoje, as funções de severo curador das Letras no Maranhão. Eu não arregimentava coragem para admirá-­lo senão a distância. Meu apreço à sua autoridade intelectual combinava-­se com seu temperamento nada afeito a fáceis concessões amigueiras, de modo a não me permitirem mais que uma chamada telefônica, cum timore et tremore. E que expressivo se torna o verbo ser, português, na inflexão de frases em tudo e por tudo intraduzíveis:

– Jomar, e que tal lhe pareceu a minha poesia?
– É…

Não morreu ali mesmo mais um medíocre versejador de província, porque, um ano e pouco depois, este foi nascer na Paraíba, para onde eu havia sido recambiado como professor visitante. Mas as palavras de Jomar Moraes, sem que valessem uma maldição de Montezuma contra a minha obra, acompanharam­-me o bastante para me proibirem de tornar conhecido, na cidade de São Luís, a não ser de mão a mão, entre poucos amigos, meu Canto essencial, em cuja capa, ademais de tudo, a editora cometeu a obscenidade de imprimir o rosto enorme e inteiro de seu autor, que melhor ficaria coberto por uma folha de parreira, como a respeito de Papini disse Agrippino Grieco.

E embora sabedor de que não acrescentei, com isso, nenhuma joia a esta Academia, trouxe-­lhe aquele livrinho como prestação de entrada, porque já não posso ver como acaso ou sucesso gratuito tenha recaído sobre os meus ombros perenizar, com minha presença visível, a presença constante e invisível de Antenor Bogéa em sua Casa. Serei o primeiro a reconhecer a supina desproporção que discerne as minhas forças e a missão que me espera. Mas indago de que mensageiro divino haveria eu jamais de receber, algum dia na vida, o sopro prenunciador que me preparasse à fiel execução de tal mandado. Ao mesmo tempo, pela meridiana clareza de simetria entre o episódio ocorrido há mais de vinte anos e o fato que nesta solenidade se concretiza, como recusar-­me a creditar só e tão só à bondade de Antenor Bogéa – à sua inumerável bondade humana e à bondade em que do outro mundo ele continua a multiplicar-­se entre os seus – a outorga que ele me fez desta nova incumbência, e que, de onde estiver ele bem o saberá, eu jamais saberei cumprir à altura?

Quando o mundo perdeu o papa João XXIII, eu, ainda no Seminário, li, sobre o grande morto, um dos panegíricos que mais me impressionaram, recortado de uma revista italiana que guardo até hoje. O título dizia só: “Era bom”.

Isto foi Antenor Bogéa. Creio que toda a sua biografia se resume em não mais que duas palavras: aquelas com que, nos Atos dos apóstolos, São Pedro descreve a trajetória de Cristo entre os homens: Pertransiit benefaciendo (At. 10, 38) – passou fazendo o bem. Se estivesse em meu poder, sugeriria fosse esse o epitáfio do meu antecessor. Consideremos, a propósito, a citação shakespeareana em que ele compendia a vida de Barbosa de Godois: “Tudo o que for necessário ao bem do homem, tudo o que nos for dado como encargo nós o faremos com a graça de Deus, da melhor forma possível, na época própria e no tempo certo”. Aí está, no estabelecimento desses valores, nem carece lembrá-­lo, Antenor Bogéa esculpindo-­se a si mesmo. Na verdade, ao longo dos mais de trinta anos que acumulo de vida maranhense, posso assegurar que nunca ouvi de ninguém o mais mínimo comentário restritivo à sua pessoa, e tal unanimidade não é graça fácil de alcançar-­se em nosso piccolo mondo provincial, como estamos inteirados de saber desde o famoso sermão do padre Antônio Vieira.

Mas Antenor Bogéa não se contentou simplesmente em querer bem e ser benquisto por todos: calibrando­-se mais e mais na tendência para a bondade que era de seu natural, como uma espécie de sabedoria congênita, coordenou, de dentro de si, suas convicções mais arraigadamente católicas, para exercitar-­se em inteira bondade na arena do serviço público e da política, como se encarnasse o papel de um Mahatma Gandhi ou um Alcides de Gasperi maranhense.

Nascido em Grajaú, no dia 8 de outubro de 1909, filho de Abraão Fernandes Bogéa e Francisca Mourão Bogéa, Antenor Américo Mourão Bogéa guardaria sempre a impregnação do barro calcado por seus pés na infância interiorana, passada entre a cidade natal e Vitória do Mearim. Chamado a São Luís em atendimento às obrigações de estudante, aqui frequentou as classes de sua tia Zuleide Bogéa e de Jerônimo de Viveiros. Aos vinte anos, fez-­se aluno da Faculdade de Direito de São Luís, de onde saiu bacharel em 1932.

Era a época de levantes, golpes, intentonas, movimentos insurrecionais que jovens tenentes, com o apoio e aplauso de grande massa populacional, ateavam como fogueiras de sul a norte do Brasil, inconformados com o atraso em que se arrastava o país. Os ideais revolucionários despertaram em Antenor Bogéa as forças atávicas da militância política, como ele mesmo afirma:

Não atingira a maioridade e nem adquirira capacidade eleitoral, e já me identificava com o grupo juvenil inconformado com os rumos da política nacional. Lembro‑me, como se fora ontem, do otimismo sadio com que o nosso grupo, no internato do Instituto Viveiros, em 1925, acompanhava a marcha epopeica da Coluna Prestes‑Miguel Costa, no mediterrâneo brasileiro. Rememoro o entusiasmo com que recebi a notícia da presença na terra maranhense, através de Carolina, das tropas revolucionárias comandadas por Siqueira Campos, Juarez Távora, Cordeiro de Farias, João Alberto, e Djalma Dutra./ Confraternizava ao depois com os caravaneiros da Aliança Liberal, cultivava a amizade de Tarquínio Lopes Filho e Carlos Augusto de Araújo Costa, e penetrava em 1930, através de Pádua Resende, no labirinto da conspiração que culminou, nesta capital, com a Revolução de 8 de outubro daquele ano.

Por esses caminhos, antes mesmo de terminar a Faculdade, era o jovem Antenor nomeado auxiliar de gabinete da Junta Governativa Revolucionária do Maranhão e, ainda em 1930, investido prefeito de sua cidade natal. Em 1932, assume­-se promotor público da comarca de Grajaú, por ato do interventor Seroa da Mota. Oito anos depois, por decreto de Paulo Martins de Sousa Ramos, estará à frente da 2ª. Promotoria Pública de São Luís. Mais adiante, passa a servir à Imprensa Oficial, primeiro como Diretor da Divisão de Imprensa e, em seguida, como Diretor do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda.

Viviam­-se, em especial naqueles anos trinta, horas de exaltações fáceis, de exuberância verbal, de gesticulação demasiada. Reis Perdigão, personagem presencial de muitas cenas vividas neste período, lembra a parcimônia de palavras e a atenção concentrada com que, em contraste com a vigência circunstante, Antenor Bogéa redigia notas de serviço ou, por essa época, com o pseudônimo de Juca Burity, entregava ao Diário da Tarde reportagens e crônicas literárias, escritas com apuro de linguagem e sóbria elegância de estilo.

Foi, na certa, por esse timbre de seu caráter que Paulo Ramos persuadiu­-se em chamá-­lo do Departamento de Imprensa para confiar­-lhe a 1ª. Delegacia de São Luís e, em 1942, a Chefatura de Polícia. Intensificam­-se os laços de amizade entre os dois homens públicos: em 1943, Antenor Bogéa é feito secretário particular daquele interventor e chefe de gabinete do governo estadual. E antes de resignar o cargo, Paulo Ramos nomeia­-o Procurador Adjunto do Estado.

Novos ares respiram-­se pelo Brasil afora, a partir de 1945, com a euforia do fim da Guerra e com a queda de Getúlio Vargas. Desencantado com os desvios getulistas à proposta que o atraíra duas décadas antes, Antenor Bogéa aceita o convite de seu vizinho Alarico Pacheco e, filiado à UDN, disputa uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte de 1946, para a qual é eleito como representante das Oposições Coligadas do Maranhão. No Congresso ordinário em que se converteu a Constituinte, debate projetos de legislação criminal que o tornam conhecido e respeitado por especialistas como Roberto Lyra e Nelson Hungria. De sua folha de serviços nesse período, destacam­-se sua presença na Comissão de Inquérito sobre atividades delituosas da Ditadura e sua atuação como vice­-presidente da Comissão Permanente do Serviço Militar. O que, porém, mais sobreleva seu destemor cívico e sua isenção política foi o voto que emitiu contra a cassação do mandato dos parlamentares do Partido Comunista Brasileiro a 7 de janeiro de 1948, acompanhada da serena e segura defesa de sua posição apresentada na tribuna da Câmara.

Os seus méritos reconduziram-­no, em nova eleição, a representar o povo do Maranhão no Congresso Nacional, nas eleições de outubro de 1950, compondo outra vez o grupo das Oposições Coligadas, junto com Paulo Ramos, Clodomir Millet e José Neiva. Eram os anos pesados do vitorinismo, cujas armas e manhas, à época, pensava-­se fossem as mais terríveis que jamais os maranhenses enfrentariam. Em sua trincheira indormida, Antenor Bogéa obriga-­se a difícil manobra, quando, em 1954, divergindo do Diretório Regional da UDN, funda o PDC maranhense, lançando-­se outra vez candidato à Câmara dos Deputados. Sua resistência de peito aberto ao despotismo provincial rendeu-­lhe só a suplência ao posto pretendido, mas não abdicou de suas posições este educador dos costumes políticos de sua terra: voltou em 1962, disposto a pleitear o Senado, junto com Clodomir Millet, contra Vitorino Freire e Sebastião Archer. A fraude eleitoral não haveria de permitir-­lhe qualquer vantagem. Mas – lembra-­o Benedito Buzar – a tranquila intrepidez de sua apelação aos tribunais armou o gatilho do recenseamento eleitoral que, sob o Regime Militar, disparou o tiro certeiro e final contra o mandonismo vitorinista no Maranhão.

O novo mapa que o militarismo impõe à política brasileira a partir de 1964 obriga a irreversíveis modificações e a acirradas disputas no cenário maranhense. Vitorino Freire, amigo dos generais no poder, obtém intervir no Diretório maranhense do PSD e rompe com Newton Bello. Este, vendo­-se sem legenda, costura uma aliança com o PDC, da qual saem candidatos Antônio da Costa Rodrigues e Antenor Mourão Bogéa, respectivamente, a governador e vice­-governador do Estado. A imprensa e os políticos não assimilam tal acordo. Chegava ao fim a carreira política de um dos nossos mestres de concórdia e benquerença.

O que, no entanto, vale fixar como síntese de toda a caminhada de Antenor Bogéa pela espinhenta vereda da política é esta lei fatal: ele fez oposição quando a oposição não podia chegar ao governo e esteve com o governo quando o governo não podia mais ganhar eleição. Esse comportamento, que faria muito político de hoje torcer o nariz ou apodar como ingenuidade de um coração bondadoso, era, na verdade, outro comando que a Antenor se lhe impunha dos refolhos da alma e, por isso, não poderia ceder a exceções: a ética, o agir de modo a oferecer o próprio procedimento como norma para todo o universo da moralidade humana.

Vejamos como, ao referir-se a seu antecessor, Antenor Bogéa explicitava os princípios por que se guiava a si mesmo:

Longe, bem longe se situava Luís Carvalho daquela área conspurcada em que bacorejam os políticos oportunistas, praticantes da filosofia suína da ‘engorda’ na pocilga das ‘facilidades’; longe, muito longe se punha de outra convivência não menos vitanda: a dos simuladores, peritos em embair com um sorriso estudado, ruminando a ‘rasteira’ eliminatória, o parceiro ambicioso ou de maior capacidade. Ainda mais distante se colocava ele de outra súcia: a dos fraudadores leigos ou togados que, estimulados pelo conivência de escalões judiciários de maior hierarquia, arruinaram e perverteram o processo eletivo em numerosos setores do Estado, agora e só.

Renunciando à pugna pela educação da política, Antenor Bogéa volta-­se, com maior vigor, à política da educação, como professor de Direito. Direito Penal, que, por onde andou, foi essa a sua insígnia de identificação, desde quando, ainda em 1944, foi nomeado catedrático junto à velha Faculdade de São Luís, até aos congressos internacionais de criminalistas, em que integrou a Comissão Oficial Brasileira; à presidência da Secção Maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil, para a qual, eleito em 1959, foi reeleito sucessivas vezes, chegando à direção, também por diversas vezes, da sua Faculdade de Direito; do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, do Conselho Estadual de Cultura, e à vice­-presidência da Academia Maranhense de Letras.

Seu legado bibliográfico situa­-se, de toda coerência, na área que ocupou magna pars em sua própria razão de viver: o humanismo jurídico, de que se embebem ensaios como aquele Do Concurso de Agentes na Chamada Criminalidade Animal, incluído nos Estudos de direito e processo penal, em homenagem a Nelson Hungria; e o humanismo da formação clássica, que tão bem se documenta em sua mais extensa produção no campo das Letras: Encontro com o passado. Neste livro, que é um diário do cruzeiro que ele e sua esposa, Francisca Martins Bogéa, fizeram através do Mediterrâneo, em 1979, verifica-­se o cruzamento, em cuidadosa anotação, dos vestígios de um duplo passado: do passado histórico que serviu de berço à cultura ocidental, e do passado pessoal que deu vida e alento ao grande educador. Como ele o diz:

Muitas recordações de leituras de nossa juventude – recordações passadas de certa nostalgia – vieram à tona de nossa consciência, naquela temporada de cruzeiro. Porque, em verdade, ao nos pormos em contacto com os locais ou cidades visitadas, assomava à nossa memória, por espontâneo processo de associação de ideias, um quê de misteriosa emoção ao rememorarmos os grandes filhos daquelas paragens.

E se o estilo é o homem, Antenor Bogéa é sempre igual a si mesmo em cada página que escreveu. Conheci-­o como uns dos poucos que restaram de uma grande geração de maranhenses, sempre atentos, com vigilante disciplina, em manter distância mínima entre o falar e o escrever, entre a linguagem formal e a informal. Sem ter tido com ele a intimidade de um discípulo, deduzo de seus escritos o desvelo pelo apuro da forma, pelo mot juste, ainda que o fosse desencavar de fontes as mais remotas, arcaicas até, da língua. E se o homem é o estilo, veja-­se na inteireza da palavra a integridade daquele a quem o Maranhão acostumou-­se a chamar de “reserva moral”, com a ressalva de que a expressão tantas vezes gasta e descabida para tanta gente, é, no caso de Antenor Bogéa, o reconhecimento da obra de todo consumada que ele deixou como patrimônio à sua terra e a sua gente.

Esqueci-­me de dizer que meu último encontro com Antenor Bogéa deu­-se quando, ele já enfermo, e sem que eu jamais me sonhasse oficiante desta cerimônia, promovi-­lhe a edição do ensaio Periculosidade: sua aferição e consequências penais, que abre recente coletânea de escritos em homenagem à sua pessoa, a José Maria Ramos Martins e a Doroteu Ribeiro.

Estas, minhas senhoras e meus senhores, as quatro figuras excelsas cuja memória é confiada à minha guarda neste Silogeu. Diante deles, sinto­-me, como aquele filósofo medieval, um anão em ombros de gigantes. Concordarei com Fernando Pessoa: “Eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho de minha altura”, e proclamarei que há, nesta noite, um descompasso invencível entre o meu eu e a minha circunstância.

A pergunta que andei fazendo, senhores acadêmicos, por noites e dias passados, na preparação dos votos à divindade do Verbo que, em vossa presença, estou a proferir, foi sobre o sentido transcendente do vosso gesto generoso, acolhendo­-me ao vosso convívio. Mas é o meu desmerecimento que dá maior substância à vossa magnanimidade.

Apenas, se pode a minha palavra ajudar a refazer as misteriosas andanças que houveram de convergir para esta noite, permiti­-me contar-­vos outro episódio de minha vida, em que mais um fio entremostra-se em sua tênue tessitura: em 1969, transcorridos já quatro anos de tirocínio em meu aprendizado do Maranhão, tive que mudar­-me para São Paulo, por uns seis meses. Minha demora parecia longa demais à minha família, e eis eu me apresso em voltar a São Luís. À noite de minha chegada perdido e achado entre os meus, só no dia seguinte pude me dar conta que havia esquecido no aeroporto do Tirirical o principal de meus apetrechos de viagem. Corremos a apanhá­-lo. Eram os tempos terríveis da luta armada contra a Ditadura Militar. Não sei que perigo inspirou a quem o meu esquecimento. Sei que o paguei caro: minha mala havia sido violada, nela estando a faltar, junto com algumas peças de vestuário, todos os livros que eu trazia. Os livros, e mais dois álbuns fotográficos, que reuniam tudo, exatamente tudo, que eu pudera acumular de recordações pessoais, desde a primeira foto de minha infância, passando pelas do tempo de Seminário, até às da última semana em São Paulo.

Seria como se uma força imperscrutável e inamovível estivesse me obrigando a varrer do meu eu profundo todo e qualquer rastro de vida anterior à maranhense. Para aprender o Maranhão, eu deveria partir literalmente do zero, plantar­-me outra vez, nascer-­me de novo.

E os meus livros? Olho em torno: sobre a mesa, em casa, estava o único que me restara e que eu trazia como leitura de bordo, comprado num “sebo”, na breve parada no Recife. Em sua página de rosto, atravessando-­a em linha ascendente de um lado a outro, lia­-se com toda clareza o nome do primeiro possuidor, de quem até então eu nunca ouvira falar: Antônio Lobo. Entreguei recentemente esse livro – a vida de Alphonse Daudet, escrita por seu filho Léon – a Jomar Moraes, que materializa aos nossos olhos o grande maranhense que deu seu nome a esta Casa.

Meus confrades, sei que uma eleição acadêmica é feita de aclamação e conclamação. A primeira deve durar pouco, pois que ninguém é de ferro. A conclamação será para a vida inteira, para que resulte perene mais que o bronze a monumentalidade da obra comum.

Mas uma eleição acadêmica é também um encontro de gerações. Na Academia Maranhense de Letras dou­-me como representante e prestador de contas daquela geração que foi tangida do outro Nordeste pela seca de 1958 e encontrou um oásis nas terras verdes dos cocais maranhenses. Meu irmão mais velho foi o primeiro de nossa família, e como seguindo, sem o saber, as pegadas dos nossos avós paternos, que foram sepultados em Bacabal, em 1942, lá se estabeleceu e nos trouxe a todos, depois, da cidade de Cajazeiras, na Paraíba. Hoje, paraibanos, cearenses, cearenses da Paraíba, como eu mesmo, paraibanos do Rio Grande do Norte, como os irmãos Claudino, somos todos do Maranhão. Cada um, como pôde, tirou, vem tirando, o seu curso de maranhense, na vida da escola ou na escola da vida. Com anéis nos dedos ou calos nas mãos, derramando suor nos mais variados campos da atividade humana – no comércio, na indústria, na administração pública, no magistério, na magistratura, na política, ou no duro cotidiano do lavrador, do trabalhador braçal, do ajudante de pedreiro, do mascate anônimo – deram, têm dado, tudo de si para o engrandecimento de seu novo chão. Pois como disse o maior de todos nós, o cantador José Chagas:

Quem pelo mundo se
erra e morre e nasce de
novo é filho de cada
terra e é filho de cada
povo.

A um dos soldados que empunhava a bandeira para fincá­-la ao chão, no tope da ilha de Iwojima, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, perguntaram-­lhe como pudera chegar àquelas alturas. Ele respondeu com outra pergunta:

– Não viram o batalhão que eu trazia atrás de mim?

É-me impossível nomear a quantos, vindos desde aqueles árduos anos cinquenta, sustentaram-­me com seu exemplo e sua bravura, e hoje postam-­se a meu lado, tomando-­me o braço para que eu não desfaleça nos umbrais deste Cenáculo. E eu cometeria uma incivilidade, se, declinando o nome de alguns, esquecesse outros tantos que, por igual direito, mereceriam ingresso comigo neste ambiente. Estou certo, no entanto, que todos se sentirão homenageados, se cito o nome daqueles que, entre nós, mais nos replenaram o coração com o orgulho de termos renascido maranhenses. Para a unanimidade de nosso reconhecimento, e para representar a todos, cito o exemplo dos irmãos Valdecy e João Claudino Fernandes, capitães de um grupo empresarial que emprega hoje cerca de quinze mil pessoas, maranhenses em sua grande maioria.

Acima de tudo, porém, minhas senhores e meus senhores, eu não seria eu mesmo, se, para concluir, não elevasse a mente aos céus num gesto de gratidão que não tem como se conduzir pelo estreito estuário das palavras.

Invoco genuflexo os meus orixás mais íntimos, que me un­giram com os óleos sacramentais das primeiras bênçãos, que me traçaram o roteiro, me abençoaram o caminho, me guiaram os passos nas curvas da noite escura.

“Porque o sangue de Cristo jorrou sobre os meus olhos, a

minha visão é universal, e tem dimensões que ninguém sabe” – direi com o poeta. Estou em Deus e na matéria, e uno e múltiplo, revisito o menino muito pobre que fui, no estorricado mundo sertanejo, e que um dia, no Oratório Festivo do Padre Manuel Alves dos Santos, em Cajazeiras, na Paraíba, encontrou em João Bosco e em Maria Auxiliadora o Mestre e a Mãe dos anos mais sagrados de sua formação. João Bosco, o sacerdote João Bosco, o italianíssimo Dom Bosco, que, no século passado, soube fazer-­se moleque de rua com os moleques de rua para ganhar-­lhes as almas, o São João Bosco da Congregação Salesiana, o único de todos os santos da Igreja Católica a ser canonizado como educador, “pai e mestre da juventude”. Maria Auxiliadora, a Virgem dos sonhos de Dom Bosco, que o fez humilde, forte e robusto como empreendedor e pioneiro, que o escolheu arauto de sua bondade, pregoeiro de sua proteção maternal. A Dom Bosco e à Virgem Mãe Auxiliadora, com a fé de quem não precisa mais acreditar porque viu, sentiu, apalpou a materialidade dos fatos, entrego em primícias o pouco que pude amealhar para esta celebração. Eles fundiram pétalas de ipê no ouro de meus dias. A eles, e somente a eles, que anteviram­na em desígnios inefáveis e a foram tecendo por fios imperceptíveis, ao longo do tempo, pertence essa noite incomparável e o júbilo que nela se contém, “esta glória que fica, eleva, honra e consola”.

O inefável sente-­o só o coração: ficam de fora as emoções indescritíveis.

 

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