Laura Amélia Damous Duailibe

Biografia

Nasceu a 10 de abril de 1945 em Turiaçu-MA. Filha de Jamil Miguel Damous e Dolores Estrela Damous. Em São Luís estudou no Colégio Santa Teresa, de onde saiu como professora normalista. Cursou Filosofia na Universidade Federal do Maranhão.

Ocupou cargos em órgãos públicos ligados a atividades culturais. Foi Diretora do Teatro Arthur Azevedo, Superintendente de Interiorização da Cultura, e Secretária de Estado da Cultura, entre 1987 e 1989, quando desenvolveu o programa de municipalização da cultura, responsável pela implantação de 36 Secretarias Municipais de Cultura, revitalização e inauguração do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. Foi ainda Subchefe da Casa Civil do Governo do Maranhão. Atualmente, exerce o cargo de Gestora de Programas Especiais da Casa Civil do Governo do Estado. Integrou o Conselho Estadual da Cultura, quando Secretária de Estado da Cultura.

Entre outras distinções, recebeu as seguintes comendas do Governo do Estado do Maranhão: Medalha do Mérito Timbira, Medalha do Mérito Grã-Cruz da Ordem Timbira, Medalha do Mérito Cultural João Lisboa e Medalha Comemorativa aos 400 anos de São Luís. Foi agraciada com Medalha Comemorativa 400 anos de São Luís pela Assembleia Legislativa do Maranhão. Professora Honoris Causa da Faculdade de São Luís.

Sua obra, como escritora, é inteiramente dedicada à poesia, já havendo publicado os seguintes livros: Brevíssima canção do amor constante, São Luís: Sioge, 1987; Traje de luzes, São Luís: Sioge, 1993; Cimitarra, São Luís: UEMA, 2001; Arabesco, 2010.  Inventário dos sentidos: poesia reunida. São Luís: Editora 360º, 2013.

Participa da antologia Poesia maranhense no século XX, organizada por Assis Brasil (Rio de Janeiro/São Luís: Imago/Sioge, 1994) e do Dicionário crítico de escritoras brasileiras, de Nelly Novaes Coelho (São Paulo: Escrituras Editora, 2002), dentre outras.

Bibliografia

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Discursos de Posse

Excelentíssimo Senhor Governador José Reinaldo Carneiro Tavares e sua digna esposa Alexandra Tavares,
Digníssimas autoridades aqui presentes ou representadas,
Senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras, escritor Jomar Moraes,
Senhores Acadêmicos, que a partir de hoje serão meus confrades,
Senhoras e Senhores convidados:

Com este ato de posse, que não será apenas formal e solene, mas também, e principalmente, um ato fundador e efetivo, desejo concelebrar solenemente com todos os membros desta Casa e perante esta seleta assembleia de convidados, entre os quais vejo tantas pessoas queridas – e até muitas que aqui não estão fisicamente, mas que sinto presentes e felizes, na sublime dimensão dos que sobrepairam em espírito e verdade – desejo concelebrar, dizia, meu compromisso de não somente estar, mas de ser acadêmica, pela espontânea e fiel observância do que necessário para sê-lo em plenitude.

Neste ano, em que a Academia atinge o nonagésimo quinto aniversário de sua fundação, fato que já nos coloca nas antevésperas das festividades do Centenário, venho sentar-me entre vós, senhores acadêmicos, para reafirmar o pacto solenizado em princípios do século passado, justamente neste salão, pelos doze fundadores pioneiros que, sacerdotes de uma nova religião, juraram por si mesmos e em nome das gerações futuras, que o candelabro de quarenta chamas votivas, então feito luzeiro de certezas e esperanças, jamais se apagaria, graças ao instituto das sucessões, que existe para repor as velas que, transformadas em estrelas, foram luzir nas constelações de outros céus. E foram, não porque de nós se desligaram, mas para que, lá do alto, mais e melhor nos orientem a caminhada, inundando de luz nossos caminhos.

Diante de mim, a Cadeira N° 6, a cuja história se ligam particularmente quatro grandes vultos da cultura maranhense. Entre o patrono e meu antecessor imediato, sobre os quais me deterei, estas palavras de respeitosa evocação ao fundador e ao segundo ocupante, ambos idealistas, insatisfeitos com um mundo que desejavam transformar para melhor. Ambos sonhadores, inquietos e, portanto, figuras proativas, que haveriam de também ser poetas. E de fato o foram. Nos tempos agitados da década de 30, exerceram o governo do Estado. E na mesma ordem em que ocuparam o Palácio dos Leões, chegaram à Academia, para se fazerem titulares da Cadeira que a partir desta noite passo a ocupar.

Já é chegado o momento de dizer que me estou referindo ao general José Luso Torres, que manejava a pena de fino e fluente cronista com a mesma competência com que dominava as armas de sua profissão oficial, e ao cônsul José Maria dos Reis Perdigão, jornalista veemente, de estilo tão vibrante qual sua oratória patrioticamente incendiária, e homem de grande coragem pessoal.

Luso Torres, exímio sonetista, se foi o epigramático autor dos sonetos-perfis de Chapas, também foi o elegante estilista de currente calamo, livro em que reuniu uma seleção de crônicas anteriormente publicadas na Pacotilha, e que não eram textos ligeiros ou escritos sem cuidado ou meditação, mas profundas reflexões de um observador atento e privilegiado.

Desse veio algo plácido e sereno que era Luso Torres, ao tratar com delicadeza e elegância os seus temas, diferia radicalmente Reis Perdigão lidando com as labaredas crepitantes de seu Da fornalha de Nabucodonozor, livro escrito no exílio argentino. Era ele um autêntico herói brasileiro. E herói dotado de todo caráter.

Lembremos o Patrono, o nome tutelar da Cadeira N° 6.

Frederico José Corrêa, maranhense de Caxias, onde nasceu a 18 de dezembro de 1817, era, como toda a gente, bacharel em Direito, para repetir a boutade célebre de Eça de Queiroz. Mas repeti-la, não para falar de um bacharel qualquer, como Eça não foi, nem Frederico José Corrêa seria jamais. Logo ele, que pelos profundos conhecimentos acumulados sedimentou vasta cultura humanística em razão da qual possuía saber de jurisconsulto, tirocínio de advogado que lhe permitiu manter uma das bancas mais concorridas de seu tempo em São Luís, conhecimento das grandes literaturas modernas e da Antiguidade clássica, domínio da política por seus fundamentos filosóficos, além de ter feito, nesse campo, um aprendizado prático e progressivo: primeiramente, vereador em sua cidade natal, de cuja Câmara Municipal foi presidente. Depois, deputado provincial em repetidas legislaturas, vice-presidente da Província, cujo governo exerceu, comandante superior da Guarda Nacional, em São Luís e titular, por seguidos anos, da Procuradoria Fiscal da Fazenda Provincial.

Eis aí o resumo da vida pública de Frederico José Corrêa, que no plano intelectual propriamente dito desempenhou papel dos mais relevantes.

Graduado pela famosa Escola de Direito de Pernambuco, quando ela ainda era sediada em Olinda, integrou a turma de bacharéis de 1840. Por essa época, o Romantismo palidamente anunciado entre nós pelos Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, era uma novidade que pairava no ar, à espera de outro Gonçalves que viria a ser seu primeiro grande expoente: o nosso Gonçalves Dias, cujo livro de estreia, Primeiros cantos, circulou no início de 1847, e que, pelo extraordinário sucesso que logo alcançou, de norte a sul do país, produziu forte impressão nos espíritos, inclusive no de Frederico José Corrêa, levando-o a publicar, no ano seguinte, um volume de título algo rebarbativo e de conteúdo que não o confirmava: Inspirações poéticas. Foram as Inspirações, repito, é forçoso dizê-lo, um mau primeiro passo na vida literária, sobretudo para quem, contando trinta e um anos de idade, já não era um jovem, para os padrões da época, e que, dotado de espírito crítico, não o teve em grau suficiente para exercê-lo quanto a si mesmo. É de crer que, por esse livro e por outros que no gênero viesse a publicar, Frederico José Corrêa jamais seria alçado à Galeria dos Patronos da Academia.

Mas o crítico que nele havia orientou-o para outros domínios nos quais sua vocação mais adequadamente se realizou. Ao lado de algumas traduções, vieram Pensamentos e máximas, em 1865, e Meditações, em 1874, livros onde demonstra admirável capacidade de refletir acerca de palpitantes problemas de seu tempo. Já o filólogo que tinha da língua portuguesa uma visão equilibrada, que rejeitava estrangeirismos desnecessários, mas reconhecia a imperiosa necessidade de certas importações, revelou-se no Novo glossário das palavras e frases viciosas introduzidas no português e de outras que a necessidade reclama. Este seu último livro, editado em 1880, portanto um ano antes do falecimento do autor, anuncia, no longo título autoexplicativo, a maturidade do mestre encanecido em aturados estudos da língua, e em razão dos quais aprendeu a defendê-la com ardor, porém sem engessá-la sob o guante de uma xenofobia míope e empobrecedora.

A essa altura, o crítico arguto e dotado dos indispensáveis instrumentos para o exercício de sua missão, já se revelara através de Um livro de crítica, editado em 1878. Trata-se de um trabalho corajoso e que, por haver aparecido há exatos 125 anos, é hoje muito raro e de difícil acesso aos interessados.

Estou confiante, senhor Presidente da Academia, em seu propósito de reeditar brevemente Um livro de crítica, a fim de que as ideias nele esposadas voltem a circular entre nós, para que sejam reavaliadas. Esse livro, como é sabido, investe contra o Panteon maranhense e seu autor, Antônio Henriques Leal, cognominado o Plutarco Maranhense. O Panteon, pelo fato de reunir dezenove biografias de grandes figuras do chamado Grupo Maranhense, entre os quis releva citar Odorico Mendes, Sotero dos Reis, João Francisco Lisboa e Gonçalves Dias, é um ícone da cultura maranhense. E, como verdadeiro Panteon que é, encerra, com as honras devidas, eternos padrões de glória de que muito se orgulha nosso povo.

Agora, meu antecessor imediato, Eloy Coelho Netto. Ele é autor de um pequeno-grande livro, por sinal o último dos doze que publicou. Livro cujo subtítulo se ajustaria à perfeição a uma biografia que dele se escrevesse. Falo de uma biografia do Apóstolo Paulo, que tem por subtítulo Homem e santo. Essa, a síntese da imagem que dele guardo: a de um homem como todos os demais, porém dotado das virtuosas qualidades que somente os revestidos de beatitude, e até de santidade, possuem.

Filho único de ricos fazendeiros do sertão maranhense, muito cedo entendeu que havia outra riqueza a conquistar e amealhar como patrimônio maior: a riqueza do saber, que foi amealhando em estabelecimentos educacionais de sua cidade natal, Balsas, de Carolina, de São Luís e de Fortaleza.

Na capital cearense, deteve-se para concluir o Curso Médio e para graduar-se em Direito. E enquanto lá permaneceu, nos anos juvenis da vida universitária, fez-se professor, lecionando português no Ginásio Farias de Brito. Não por necessidade de suprir carências materiais, jovem rico que era, mas pela necessidade de repartir com os semelhantes o pão do saber, sublime e essencial. E também como oportuna preparação ao magistério, que ele, para tal labor vocacionado, iria exercer, de volta à terra do nascimento, no Ginásio Balsense, que ajudou a fundar e também dirigiu.

O educador que deu a essa atividade o sentido de missão a ser cumprida, revelou-se, ainda, incansável e obstinado, quando à frente da diretoria maranhense da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, quando professor de Direito Constitucional da Universidade Federal do Maranhão, e no exercício do cargo de secretário de Educação e Cultura. Também secretário de Governo e do Interior e Justiça de nosso Estado, passou por esses distinguidos cargos deixando uma trajetória de dignidade e competência exemplares.

O unânime testemunho que recolhi de muitos que com ele conviveram nesta Casa é consagrador: homem fraterno, de espírito conciliador, cooperativo, amava realmente a Academia, a cujas sessões sempre esteve presente, mesmo já em dias de saúde muito abalada, quando nem sempre podia permanecer até o final dos trabalhos. Mas o gosto de estar aqui, entre seus confrades, motivava dona Jesus a acompanhá-lo e a ficar pacientemente esperando pelo tempo que lhe fosse possível permanecer.

Dona Jesus, sua solícita e constante companheira, que me honra com sua presença nesta noite, pelo que muito afetuosamente agradeço, bem assim a todos os familiares de Eloy Coelho Netto, cuja memória haverei de honrar, porque reconheço nele o homem de letras que retratou no romance Arrozais em festa uma etapa do desenvolvimento agrícola de Balsas, que a cantou em poemas, e que fez, com a Geo-história do Maranhão, a pioneira inserção do sul do Estado em nossos estudos sobre a matéria.

A mão do poema
é a que me cabe
inteira. A outra, eu a
carrego pesada e
alheia.

E é fiel à mão do poema, que escrevo este breve louvor à poesia, sem nenhuma outra pretensão, a não ser dividir com todos o contentamento que sentimos quando somos tocados por uma emoção especial. Este é o dia em que se celebra a poesia, em meio ao reconhecimento e agradecimento pela honra e distinção que os senhores membros desta Casa me concederam, ao trazer-me para este convívio enriquecedor e fraterno.

O tratado de Aristóteles, Poética, de onde procede toda reflexão sobre os gêneros literários, abstém-se de descrever em detalhes uma forma original que seria, em simetria com a narrativa ou com o teatro, algo de equivalente à Poesia, no sentido moderno da palavra. Os dois grandes modos literários, o dramático e o narrativo, encontravam uma expressão, indiferentemente, na prosa e no verso. Ou melhor, sendo a prosa relativamente rara na Antiguidade, seria viável dizer que, para os antigos toda forma literária é poética: a palavra poética, do verbo poiein, do grego, fabricar, construir, criar, produzir, deu-nos a série lexical poíesis (poesia), poietikós (poética), poíema (poema), poietés (poeta).

A palavra poesia tendeu muito rapidamente a especializar-se numa acepção literária, mas também se pode aplicar a qualquer tipo de fabricação ou construção concreta. Em todo caso, ela é empregada com um epíteto que indica sua caracterização específica em literatura, prosa trágica, poesia épica, lírica, e demais.

No interior da poesia encontram-se distinguidos três gêneros miméticos: a tragédia, a epopeia e a comédia. Mas nada que designe uma escrita específica baseada na utilização do verso. Aristóteles, na Poética, contesta a pertinência axiomática do metro: “Não saberíamos, de fato, designar por um termo comum […] as imitações que se podem fazer com a ajuda do trímetros, de metros elegíacos ou de outros metros do mesmo gênero.” E é Aristóteles quem explica ainda que, tanto Homero quanto Empédocles utilizam, ambos, o metro, mas é Homero que pode ser justamente chamado de poeta, ao passo que o outro, Empédocles, deve ser chamado de “naturalista”, porém por motivos que não dizem respeito à forma de sua escrita, mas ao seu conteúdo. E mais adiante, ele diz: “A diferença entre o historiador e o poeta não se deve ao fato de que um se exprime em versos e o outro em prosa; mas a diferença vem do fato que um diz o que ocorreu, e outro, aquilo que podemos esperar que ocorra.”

O reconhecimento da poesia que é formulada por esse texto, em ruptura com o julgamento negativo de Platão, que, no Livro III de A república, expulsa o poeta da cidade, sob pretexto de que ele dá uma imagem falsa da realidade, não deve desprezar algo essencial: que a poesia não parece, no que diz respeito à sua forma, merecer constituir um gênero autônomo. Se ele vem insinuar-se nos moldes identificáveis que são a epopeia, a tragédia ou o ditirambo, ela perde, nessa aliança, toda característica de originalidade. Mas quando ela se exprime diferentemente, ou seja, não nesses gêneros, ela escapa ao caráter mimético e, assim, exclui-se, como a história, do campo da poética.

A maneira de reintroduzir a poesia no esquema de uma teoria de gêneros far-se-á por uma via diferente daquela seguida por Aristóteles. Posto que a referência ao metro não é, pelo menos, na Antiguidade, realmente pertinente e que, da mesma forma, a relação à mimese anula qualquer probabilidade de isolar uma forma original, é em oposição a esta última lei que vai se constituir um terceiro partido (Genette) no qual vão se federar “todas as espécies de poemas não miméticos.” Tomando-se ele próprio como assunto, o poeta abordava o domínio da imitação da realidade em troca daquele da introspecção individual. Essa tendência literária que negligencia a atitude de tomar o mundo como modelo, que parece traduzir, de maneira incontrolada, a interioridade do criador e reproduzir uma fala que ele dirige a si mesmo, corresponde àquilo que chamamos de lirismo. Desde então, vai-se impor o hábito de introduzir essa forma num paradigma estético com três entradas possíveis, cujas características são lembradas por Stephen Dedalus, o herói de Joyce. Diz ele:

A forma lírica, em que o artista apresenta sua imagem numa relação imediata consigo mesmo; a forma épica, em que ele apresenta sua imagem numa relação intermediária dele mesmo com os outros; a forma dramática, em que ele apresenta sua imagem numa relação imediata com os outros.

O texto poético encerra em si mesmo sua finalidade, que é causar emoção. E cumpre-a plenamente, na medida em que dota palavras muitas vezes comuns, e até desgastadas, de um sentido novo que as imanta de beleza e originalidade. De originalidade e de beleza altamente potencializadas e, portanto, capazes de instaurar uma verdade estética fundada num código que lhe é específico. Ao lermos, por exemplo, o verso de Augusto dos Anjos, “Meu coração tem catedrais imensas”, somos envolvidos de emoção por sua beleza e, ao contrário de especular se uma catedral cabe num coração, naturalmente atentamos para a força da imagem, que, além de original, é concisa, e diz, em tão poucas palavras, mais e melhor do que uma página inteira poderia dizer.

A poesia se diferencia das outras expressões linguísticas por uma dosagem mais forte de função poética. Ela é, antes de mais nada, trabalho sobre a linguagem; ela é ornamento gratuito que se desvia do falar comum, da linha reta, do caminho regular. Paul Valéry dizia:

O poema não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer das suas cinzas e tornar-se de novo indefinidamente aquilo que acabou de ser. A poesia é reconhecida por essa propriedade que consiste em tender a se reproduzir em sua forma: ela nos incita a reconstituí-la identicamente. Eis aí uma propriedade admirável e, entre todas, a mais característica.

Sabe-se que Mallarmé, admirado e comentado por Valéry, sonhava com uma língua original que, liberta das necessidades práticas, pudesse se oferecer ao uso poético numa virgindade absoluta. Ele preparava, assim, todas as transgressões da poesia moderna em busca de uma forma brilhante visivelmente liberta da necessidade de sentido prático.

É difícil, em se falando de poesia, calar em relação à questão do nascimento dos poemas. Segundo a análise tradicional, contrariamente ao que se passa no caso dos gêneros narrativo ou dramático, a poesia não procede de uma vontade refletida do autor. Preocupados em defender esse caráter de excesso, de transbordamento, “o desregramento dos sentidos” evocado por Rimbaud, os teóricos aplicaram-se em atribuir uma dimensão mágica à fala poética. Nesse esforço, foi-lhes de grande valia um diálogo de Platão, o Íon, no qual o filósofo associa o ato poético a uma espécie de fúria sagrada, também nomeada, no sentido forte, de entusiasmo. “O poeta é coisa leve, coisa alada, coisa santa, e ainda não é capaz de criar até o momento em que se torne um homem habitado por um deus, até o momento em que tenha perdido a cabeça e que seu próprio espírito não lhe pertença mais” (Íon – Platão).

Sei que é mais do confrade Américo Azevedo Neto a missão de falar de minhas atividades literárias e do possível valor que elas tenham.

Desejo, porém, pedir-vos permissão, senhoras e senhores, para algumas evocações de natureza íntima e sentimental.

Posto assim, venho tentar compor, recompor, achar a nascente do meu caminho em direção à Poesia, e que como bússola norteia, permeia a minha vida, de maneira irresistível e fundamental.

Em poema de refinada execução barroca, Rapsodia para el Mulo, o poeta cubano Lezama Lima, alegorizou a figura do poeta com a figura de um animal obstinado e enceguecido que marcha em direção ao abismo. Como o poeta, o mulo padece em sua marcha, mas resiste até cumprir o seu destino: encarar o abismo.

Que destino será este, de onde veio, quanta força trouxe consigo, que determinou um certo momento da minha vida em que, confusa e atordoada entre a necessidade de escrever o que sentia e as obrigações e atribuições do meu cotidiano, vi-me impelida a começar esta marcha obstinada, onde longos silêncios foram impostos, sofridos retornos escavados; enfim, sempre um abismo a ser habitado, preenchido, vivenciado? Ao fazer essas perguntas, vêm-me os versos de Cecília Meireles: “e nesse abismo do meu sonho,/ alheia a todo outro desejo/ me decomponho e recomponho”.

Impossível não remontar esta constatação, sem buscar o tempo da minha infância em Turiaçu, onde nasci festejada pelos meus pais, meus tios, meus avós, não sem decepcionar o meu avô Miguel Damous, que, ao saber do meu nascimento, imediatamente diminuiu o tamanho do meu “dote” de doze para seis cabeças de gado, visto que, como todo bom libanês, preferia um homem como primeiro neto. Mas o que perdi, se assim se pode falar, em cabeças de gado, ganhei em corações generosos, inclusive o dele, cheios de amor e carinhosa atenção, que se estendeu a toda a minha rica infância.

Turiaçu e seus cheiros: cheiro de castanha assada de caju, cheiro de figos maduros que papai cuidadosamente empacotava em saquinhos de tecido, cheiro do jardim de mamãe, que quanto mais chovia, mais cheirava. Turiaçu dos pombos dos meus avós paternos Miguel e Amélia, que às tardinhas revoavam o flamboyant avistado do banco de pedra da calçada da tia Olga. Turiaçu das histórias do meu pai, da sua viagem ao Líbano, ao Egito, e do boi Sultão, que na minha fantasia era um corajoso camelo a desafiar o deserto da nossa fazenda Bonfim, em Capoeira Grande. Turiaçu onde os meus irmãos Sâmia Jamile (tão especial que nos deixou cedo demais, mas em tempo de se perpetuar em Júlia e Mariana), Jamil Miguel, poeta e compositor de rara sensibilidade e talento, Carlos Miguel, o Comandante Miguel, dono das nuvens e do vento, irmãos que começaram a chegar quando eu tinha sete anos. Vieram para completar a família de Jamil e Dolores. Turiaçu dos meus queridos tios maternos Sebastião, Concita, Teresinha, Leonor, Manoel, Raimundo. Turiaçu dos meus tios paternos Lia, Carlos, Sussu, Olga. Todos eles, sempre presentes em minha infância e nas minhas lembranças. Turiaçu, da casa dos meus avós Raimundo e Laura Estrela, do quarto da casa do meu avô, onde dentro do armário, gloriosos e bem cuidados, encapados com tecido em xadrez azul e branco, os livros da Coleção Tesouro da Juventude. Com certeza, foram eles a minha primeira referência de leitura prazerosa e constante. Quantas viagens, quantos passeios fiz, sem sair daquele quarto.

Desde então, o encantamento. Não podia mais ver livros, sem a imediata vontade de querer tê-los à mão. Assim vieram: Fábulas de La Fontaine, Monteiro Lobato, Coleção Menina e Moça, Histórias e Lendas dos Irmãos Grimm, Almanaques do Tico-Tico e tantos outros, já a compor o que seria minha “biblioteca” (batizada de Olimpo), impiedosamente dizimada pela minha irmã Sâmia (esta, não muito chegada às letras), quando vim estudar no Colégio Santa Teresa, das Irmãs Doroteias, em São Luís: minha querida irmã Sâmia Jamile que, ao enfrentar o sofrimento com infinita e dolorida coragem, deixou inscrita na lembrança dos que a conheceram toda uma obra de resistência, coragem e amor.

Antes mesmo de completar oito anos, chego a São Luís para, em regime de internato, prosseguir meus estudos no Colégio Santa Teresa. Colégio Santa Teresa e seus fantasmas, seus ensinamentos e seus livros. Livros! Livros! Nunca os tinha visto arrumados e tantos em um só lugar! Ali descobri Cervantes, Shakespeare, Thomas Merton, As Irmãs Brontë, Antoine Saint-Exupéry, Pearl S. Buck e tantos outros, para o “desespero” da Madre Oliveira (responsável pela biblioteca), que achava que eu não tinha idade para ler esses autores.

As muitas amizades, as colegas queridas, as madres sempre prontas a ajudar, as ladainhas de maio, as quermesses, o Grêmio Cultural Paula Frassinetti e suas horas de arte! (Por ocasião de uma delas, sob a direção do nosso poeta Américo Azevedo Neto, que hoje aqui me recebe, vi-me representando uma índia tabajara!). Belas e felizes recordações! Quantas e muitas vezes delas me vali para prosseguir e levar adiante sem amarguras e abatimento o que a vida me reservara.

São Luís e um mundo a descobrir: a livraria de seu Antônio Neves, na rua Grande, onde, encantada, com o assessoramento sempre gentil e oportuno do seu proprietário e mais gentil ainda a forma de pagamento, proporcionava-me a aquisição de livros, pela primeira vez.

Em 1965, a professora normalista teria outro destino a cumprir: casada com o engenheiro José Carlos Murad Duailibe, teria quatro filhos, Mônica, Nagib Duailibe Neto, Karina e Carla, todos “criados e diplomados” (como se diz em Turiaçu) e que são a obra mais preciosa da minha vida, com falhas e desacertos, mas, sempre, com muito amor. Vieram, bem mais depois, meus netos Sâmia Jamile e Lucas, de Mônica e Paulo Humberto Coelho; e José Carlos Murad Duailibe Neto, de Carla e Carlos Serra Martins. Meus netos, pelos quais me declaro, irremediavelmente, apaixonada.

Viúva aos 32 anos, ingresso no serviço público pelas mãos do meu querido amigo Bernardo Almeida, então presidente da Fundação Cultural do Maranhão. Conheci, ali um ser humano de rara qualidade: o poeta e pesquisador da cultura popular, Valdelino Cécio Soares Dias que, com seu sorriso largo, acolhedor e amigo, me ensinou o que sei da cultura popular maranhense. Hoje, continua presente na minha vida e na de todos que o conheceram. É uma das estrelas da constelação dos meus mortos.

De então até ir para subchefia da Casa Civil, no governo Roseana Sarney, e já agora, no governo José Reinaldo Tavares, acumulei uma rica experiência no setor cultural da administração pública, seja em assessorias especiais, seja na direção do Teatro Artur Azevedo, seja na extinta Superintendência de Interiorização da Cultura, seja como secretária Estadual da Cultura, onde sucedi a Jomar Moraes, e fui sucedida por Américo Azevedo Neto. Empenhei-me na concepção e execução de muitos projetos importantes, e conheci mais de perto numerosas pessoas com as quais muito aprendi. Pessoas que não menciono, pelo temor da omissão. Tenho a consciência de haver feito o possível, com os recursos existentes e com os que consegui disponibilizar.

Já ao término, é de meu dever indeclinável agradecer a todos quantos aqui vieram para prestigiar com suas presenças este ato de sagração e consagração.

A todos e a cada um, teria e tenho uma palavra especial de gratidão. Na impossibilidade de fazê-lo, peço que todos se vejam e sintam representados simbolicamente nestas menções especiais: ao governador José Reinaldo Tavares, aos meus filhos, meus netos, meus irmãos e ao compositor Chico Saldanha, meu companheiro, e autor da antológica toada Boi de Itamirim, pelo caminhar juntos.

Tentei, tento, conciliar ao longo de minha vida o “destino” das minhas mãos. A mão do poema, e a outra, que se desdobra em mão de mãe, de avó, de amiga, de trabalhadora, de companheira, de mulher, que luta para cumprir o seu destino e encarar com honestidade e coragem o abismo.

Por fim, a poeta de Turiaçu chega a esta Casa, com emoção e humildade, prometendo honrá-la até que, por caprichos de uma imortalidade que não nos torna imorríveis, a Cadeira N° 6 seja, uma vez mais, declarada vaga.

Muito obrigada!

 

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