José Maria Ramos Martins

Biografia

Nasceu em Timon-MA, a 27 de março de 1920. Filho de Urbano de Souza Martins e Ana Otília Ramos Martins. Em 1942 Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito de Salvador, continuando-o na Faculdade de Direito de São Luís, por se haver transferido para capital maranhense em 1944, a fim de prestar serviço militar como oficial da reserva do Exército. Bacharel em Ciência Jurídica e Sociais em 1946; bacharel e licenciado em Filosofia, 1956, pela Faculdade de Filosofia, Ciências  e Letras de São Luís. Entre os seus cursos de extensão universitária, citam-se: Sobre Reforma Universitária, Didática do Ensino Superior, Metodologia da Ciência e Filosofia Contemporânea, todos em 1970, e ainda de Filosofia das Ciências em 1974.

Fundador e primeiro delegado do SENAC e do SESC no Piauí (1947/1952), Diretor regional do SENAC e do SESC no Maranhão (1957/1959), Secretário da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Maranhão (1955/1957), Consultor Jurídico do Estado do Maranhão (1960), Procurador Geral do Estado do Maranhão (1961), Advogado da Petrobrás no Maranhão, Membro do Conselho Política Criminal e Penitenciária do Estado do Maranhão, Presidente da Escola Superior da Advocacia-ESA, Professor de Sociologia Jurídica da Escola Superior de Magistratura do Maranhão, Coordenador e Professor do curso de Mestrado em Direito do CEUMA-Centro de Ensino Unificado do Maranhão (1997/2001).

Presidente, durante vários anos, da Aliança Francesa no Maranhão, havendo recebido do governo francês, as Palmes Académiques. Esta e outras distinções honorarias foram doadas ao Memorial Cristo Rei, da Universidade Federal do Maranhão.

Na Universidade Federal do Maranhão exerceu as seguintes funções de magistério e administrativas: Professor assistente de Psicologia (1957); Livre Docente por concurso e Introdução à Ciência do Direito (1957); Professor Catedrático de Direito Penal (1958); Professor Titular de Filosofia Geral (1959); Professor Honoris Causa de Ciências Humanas e Aplicada da Faculdade de Filosofia de São Luís (2001); Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e posteriormente, do Instituto de Filosofia da UFMA (1965/1972); Vice-Reitor(1973) Reitor na Universidade Federal do Maranhão (1975/1979), de cujo Conselho Diretoré membro efetivo.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas e do Conselho Estadual de Educação do Maranhão.

De seus numerosos trabalhos citam-se: Da noção de espaço ao fenômeno jurídico (tese de concurso). São Luís: 1955; Ciência e crime (tese de concurso).São Luís: 1957; Direito Educacional (conferência).São Luís: 1983; Tendências filosóficas no Brasil. São Luís: UFMA, 1983; Discursos e conferências.São Luís: AAUFMA, 1997; Do direito natural ao direito alternativo (conferência), 1998; Um programa de sociologia jurídica. São Luís: Ediceuma, 1998 ( 2ª edição, 2007).

Bibliografia

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Discursos de Posse

Minhas Senhoras, Meus Senhores,
Autoridades cujas presenças honram esta solenidade,
Senhores Acadêmicos,
Senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras:

Já havia eu me habituado a viver à margem de acontecimentos dessa natureza, no anonimato da planície niveladora, “entre árvores discretas que, benevolamente, dissimulem a minha já de 1 si apagada individualidade,” quando o inesperado desenlace de meu primo e cunhado Mário Meireles, ocupante da Cadeira Nº 9, desta instituição, me abriu a insólita oportunidade de substituí-lo, graças à pressão carinhosa de amigos desta Academia.

Temeroso em razão da idade avançada, que me desaconselhava tal pretensão, não pude, entretanto, resistir à força do afeto de tantos, que afinal prevaleceu, com a cumplicidade da maioria dos acadêmicos, que no dia 16 de outubro do ano passado sufragaram o meu nome. É nessa condição que aqui me encontro, vacilante quanto aos méritos que me atribuem, mas confiante na responsabilidade coletiva dos que em mim votaram e que são, portanto, os avalistas do meu ingresso nesta Casa.

Na forma regimental, devo evocar, sucintamente embora, os antecessores da Cadeira e apreciar, mais demoradamente, a vida e a obra do patrono, no caso Gonçalves Dias (1823–1864) e do último ocupante, historiador Mário Meireles (1915-2003).

Foi fundador da Cadeira Inácio Xavier de Carvalho (1871-1944), poeta simbolista, autor de vários poemas, dentre os quais vale mencionar os incluídos nos livros: Fruto selvagem e Missas negras. Com o seu falecimento, a 17 de maio de 1944, sucedeu-lhe Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). Eleito a 16 de janeiro de 1946, não chegou a tomar posse, pois faleceu a 10 de maio do mesmo ano. Maranhense de São Luís, Catulo é o popular poeta seresteiro, músico e cantor, ainda hoje lembrado por suas inúmeras canções, coligidas e publicadas em livro, tais como: O Marrueiro, Mata Iluminada, Sertão em Flor, Poemas Bravios, Um Boêmio no Céu e o inesquecível Luar do Sertão:

Ó que saudade
do luar da minha terra,
lá na serra,
branquejando folhas secas
pelo chão!
Este luar, cá da cidade,
tão escuro,
não tem aquela saudade
do luar
lá do sertão!

Na sua linguagem simples, é esse um dos poemas mais belos da língua portuguesa, hoje cantado em diversos idiomas e cuja música serviu de prefixo, durante muitos anos, à Rádio Nacional, emissora oficial do Governo. Nas palavras expressivas de Alberto de Oliveira, Catulo é o “poeta do povo e da raça, e só poeta, que só pode dar poesia, como as abelhas só podem dar mel.”

Como bem acentuou José do Patrocínio Filho, em 1928, portanto ainda em vida do poeta, ele é o trovador autenticamente brasileiro, que nos vem dizer “a pujança e a energia da raça, cantando a arrancada dos vaqueiros e o orgulho generoso do sertanejo”; escrita em língua original, sua poesia ultrapassou nossas fronteiras, tornando-se conhecida na América Latina e em Portugal.

O Patrono

Para cantar os grandes feitos d’Os Lusíadas, Camões invoca as ninfas do Tejo:

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no Universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

Quem eu poderei invocar, para falar de Gonçalves Dias? Não dispondo sequer de uma “agreste avena ou frauta ruda”, invoco e confio no auxílio dos manitós do Canto do Piaga.

Tão grande foi e continua a ser a projeção de Gonçalves Dias, no cenário literário nacional e português, com repercussão em outros países, como representante maior e mais autêntico do romantismo e do indianismo em nossa pátria, que se torna quase impossível, até mesmo a um especialista de sua vida e de sua obra, apresentar aspectos novos de sua personalidade múltipla, a um só tempo poeta, dramaturgo e humanista de vasta erudição, com inúmeros trabalhos publicados nesses campos, e o pleno domínio das principais línguas modernas: francês, inglês, italiano, espanhol e alemão, além do latim, de que era professor no Imperial Colégio de Pedro II.

Referindo-se a Gonçalves Dias, diz José Chagas: “Neste chão nasceu aquele cuja voz iria fazer ecoar o verdadeiro grito nativo de nossa emancipação lírica”. E logo adiante:

Temos nós como patrono, não um filósofo, mas um poeta, cujo nome por si só preenche todo o nosso país, porque foi o autêntico propulsor da lírica americana, o codificador de nossa poesia, o criador do espírito de nacionalidade em nossa cultura. Foi ele a alma da plêiade que formou o Grupo Maranhense, inspirador daquele cognome (Atenas Brasileira). Um gênio que, já tendo no sangue a tridimensionalidade de nossa formação étnica, soube, por isso mesmo, exprimir, como ninguém, o sentimento nativo e abrir, com seu canto, os caminhos certos 2 para o despertar de nossa consciência cívica e cultural.

Os biógrafos de Gonçalves Dias são numerosos e ilustres: Manuel Bandeira, Lúcia Miguel Pereira, Henriques Leal, Josué Montello, entre vários outros. Sua obra tem sido estudada em Portugal e em outros países da Europa, bem assim em algumas universidades americanas. Um trabalho valioso, de publicação recente (1998), sob o título – Gonçalves Dias: vida e obra, se deve ao Presidente desta Casa, acadêmico Jomar Moraes, trabalho esse que me pareceu dos mais importantes, pela minúcia das informações, pela retificação de falhas encontradas em outros biógrafos e judiciosa apreciação crítica de algumas passagens da obra gonçalvina.

Digo algumas passagens, porque a obra de Gonçalves Dias atinge tal vulto que, não obstante a perda irreparável de inúmeros trabalhos, ainda assim, para analisá-la e apreciá-la toda, seriam necessários vários volumes. Falar, portanto, de Gonçalves Dias em São Luís, diante de tantas pessoas competentes, mormente sendo eu um inexpert no assunto, é francamente uma temeridade. Dizer o quê? Que ele nasceu ali, em Caxias, a 10 de agosto de 1823, no sítio Boa Vista, em Aldeias Altas? Mas isso todo colegial de São Luís e de outras cidades do Maranhão sabe. Que é o poeta maior, emblemático das letras maranhenses?

Aluno do Colégio dos Jesuítas, que funcionava no prédio onde está hoje instalada a sede da Universidade Federal do Maranhão, eu próprio, aos oito anos de idade, já era despertado para o culto a Gonçalves Dias, quando, a 3 de novembro, data de seu falecimento, um grupo de intelectuais sempre se reunia em torno de sua estátua, para lhe render a costumeira homenagem. Nós os alunos, exatamente no horário da saída das aulas (5 horas), ouvíamos atentos as palavras inflamadas dos oradores que se sucediam. Anos mais tarde, essa homenagem cresceu em número de participantes. É que o professor Luiz Rego, diretor do Colégio São Luís, fazia canalizar para a praça o grosso dos alunos de seu colégio, numa espécie de disciplina ao mesmo tempo militar e patriótica.

Jamais pude esquecer esse tempo. A praça era o nosso recreio diário, após as 17 horas. Corríamos à vontade, mas sem danificar seus belos e bem cuidados canteiros, cuja profusão e variedade de flores nos faziam parar por instantes, aspirando o suave perfume e deliciando-nos com o variegado das cores. Ao contrário do que ocorre hoje, era a praça muito limpa, com suas palmeiras esbeltas e alinhadas, sem que houvesse a falta de uma só. Por outro lado, não havia, a lhe tirar a beleza natural, como ocorre agora, essa imensa quantidade de veículos.

Em continuidade à praça Gonçalves Dias, ficava o chamado largo dos Remédios, com a igreja, cuja lateral se prol ongava até à descida do Jenipapeiro. Nesse largo amplo e convidativo, pois durante os festejos o bonde Gonçalves Dias só chegava até à rua Barão de Itapary, se realizava a mais tradicional, concorrida e ornamentada festa de largo, famosa até mesmo fora de nosso Estado.

Não sendo eu poeta, como realmente não sou, não se há de esperar de mim uma crítica literária à obra poética de Gonçalves Dias, cujo valor tem sido ressaltado, às dezenas, por analistas do mais alto nível. Limito-me a ligeiros aspectos que me prenderam a atenção desde os bancos acadêmicos, quando, estudante de Direito na Bahia, fui compulsoriamente elevado a representante da cultura literária maranhense. Para mim, um desses aspectos significativos é o ritmo que Gonçalves Dias imprime ao Canto do Piaga e a vários outros, ritmo que, como uma espécie de música de fundo, nos faz ouvir o soar dos maracás e a marcação das batidas dos pés dos indígenas, em suas danças típicas:

Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga.
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.
Esta noite – era a lua já morta –
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
E mais adiante, na II parte:
Tu não viste no céu um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem – vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?

Embora o canto seja um presságio do Piaga, em razão da rouca voz que lhe fala, que prevê “algemas pesadas, com que a tribo Tupi vai gemer”, imprime Gonçalves Dias aos versos um ritmo tal, que nos dá a ideia do movimento característico das danças indígenas, forma de expressão a mais importante, tanto nos momentos de alegria, como nos de tristeza ou de preparação para a guerra.

Outro aspecto que vale aqui uma referência é quanto ao canto do sabiá nas palmeiras, tal como consta da bela e conhecida Canção do Exílio, escrita em Coimbra em julho de 1843, quando tinha o poeta apenas 20 anos de idade! Saudoso de sua terra natal, os versos lhe saem da pena com a suavidade de uma brisa do mar: “Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o Sabiá/ As aves, que aqui gorjeiam/ Não gorjeiam como lá”. Por três vezes, repete Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o sabiá,” com ligeira modificação na última estrofe: “Não permita Deus que eu morra/ Sem que eu volte para lá/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá/ Sem qu’inda aviste as palmeiras/ Onde canta o Sabiá!”

Disseram alguns críticos, que certamente não conheceram visualmente a região dos cocais, que sabiá não canta em palmeira. Gonçalves Dias teria cometido uma liberdade poética, idealizando sabiá cantando em palmeira. Enganaram-se tais censores. Na região dos cocais, que eu pessoalmente conheci muito bem e onde nasceu e viveu até os 12 anos Gonçalves Dias, a “mata” de babaçu era compacta (pelo menos naquele tempo). Tirando pequenos arbustos, tudo mais formava um oceano de palmeiras a perder de vista. Os sabiás que lá cantavam eram nativos da região, aclimatados ao ambiente. Como tive oportunidade de observar inúmeras vezes, ficavam os sabiás pousados nas folhas das palmeiras, cantando alegremente, num verdadeiro desafio. E eu, de alçapão armado, não conseguia atraí-los, por falta de “chama”. Dizia-me então o morador da região, que me acompanhava: “não se importe, meu patrão, que eu vou pegar um filhote no ninho e, quando você voltar, terá seu sabiá.

Em artigo publicado em O Estado do Maranhão, datado de 6 de dezembro de 2003, sobre o assunto, afirma o acadêmico José Chagas, com sua autoridade de poeta, baseado em informação constante da revista Galileu, que o sabiá é hoje considerado a ave nacional do Brasil, e que há uma variedade muito grande de sabiás, entre os quais os nossos conhecidos sabiá-do-alagado ou sabiá-do-mangue, sabiá-laranjeira e sabiá-da-mata.

Tendo vivido sua meninice nesse ambiente de palmeiras, teve Gonçalves Dias, com sua sensibilidade de poeta, oportunidade de deliciar-se com o canto mavioso dos sabiás, tão abundantes na região, e apreciar-lhes demoradamente a sutil melodia, que jamais pôde esquecer e que, em Portugal, longe da terra querida, a saudade transformou em versos…

Ainda mesmo que a largos traços, como o estou fazendo, não poderia deixar sem referência o poema I – Juca Pirama, todo ele uma joia de primeira grandeza. Vejamos as estrofes em que o velho Tupi recrimina o filho por ter chorado. Gonçalves Dias, como Beethoven na música, atinge o patético:

Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!

Não cabe neste discurso despretensioso transcrever todo o poema, que todo ele é primoroso. Outros compromissos regimentais me impedem de discorrer ainda mais sobre a obra poética de Gonçalves Dias. Esquecendo o lado romântico de sua poesia, mal sofrendo a compulsão imposta por Ainda Uma Vez – Adeus!, digo duas palavras sobre a Canção do Tamoio, em que este, já velho, dá conselhos, a propósito do nascimento de uma criança:

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

[…]
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

É conselho este, todos percebem, de uma perenidade que vale até nossos dias.

Acode-me ao espírito, neste momento, o período de 1939 a 1943, quando, estudante na Bahia, costumava frequentar, sempre que abertas ao público, as reuniões culturais havidas no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, bem assim no Gabinete Português de Leitura. A esse tempo, Rui Barbosa na prosa e Castro Alves na poesia eram os ídolos baianos. Influenciado por meu saudoso e inesquecível amigo Josaphat Marinho, embrenhei-me no estudo das obras de ambos os autores, com ele comentando as passagens que me prendiam mais a atenção. Ao longo do tempo, destes me tornei um admirador incondicional, de tal modo que, hoje, mais de 60 anos decorridos, ainda me emociono na releitura de suas obras, que me fazem retornar ao tempo de minha mocidade.

Mas, perguntar-me-ão os que ora me ouvem, por que relembrar, aqui e agora, palestras e conferências que ocorreram há tanto tempo na Bahia? Explico-me: sob a liderança de Carlos Chiachio, que era baiano adotivo, seguido do poeta Hélio Simões e de uma plêiade de jovens intelectuais, publicava-se o Jornal de Ala, órgão de divulgação da ala moça e renovadora da poesia baiana. Emblemático como Gonçalves Dias, Castro Alves era sempre relembrado e, na oportunidade, faziam os conferencistas referência elogiosa ao nosso cantor dos Timbiras. Maranhense, embora no anonimato de minha condição de estudante de primeiras letras de Direito em meio à alta cultura baiana, eu me sentia lisonjeado; afinal, Gonçalves Dias em Caxias e eu em Timon éramos vizinhos.

Permitam-me, pois, retribua eu, hoje, nesta nossa Academia Maranhense de Letras, depois de tantos anos, aquelas referências sempre feitas à obra de Gonçalves Dias, recordando aqui alguns trechos da obra poética de Castro Alves, aquele que, aos 17 anos, sentiu dentro de si o “borbulhar do gênio” e que, não obstante pequeno, só fitava os Andes.

Referindo-se ao poeta, assim se pronuncia Rui Barbosa, que foi seu contemporâneo, tanto no Recife, como na Faculdade de Direito de São Paulo: “O mais íntimo de sua alma, impetuosamente apaixonada pela verdade, pelo belo, pelo bem, comunicou sempre com as alturas alpinas do seu gênio por um jato contínuo dessa lava sagrada, que fazia dos seus lábios uma 3 cratera incendiada em sentimentos sublimes”.

Deus me concedeu a graça, mesmo na idade provecta, de não maldizer dos poetas, de não lhes tecer críticas, nem lhes querer empanar o brilho de profetas das grandes mudanças por que tem passado a humanidade. Que seria de nós, pobres mortais, sem essa suprassensibilidade que lhes orna o espírito, sem esse poder mágico de ver o invisível, de sentir o imponderável, de até “ver e entender estrelas”, como acontecia com Olavo Bilac?

Compreende-se que cada poeta há de ter maneira própria de interpretar a sua circunstância, de vivê-la e, muitas vezes, em lampejos de gênio, de até antever o porvir. É natural, portanto, que os poetas nossos contemporâneos tenham concepções diferentes, inclusive da arte poética. É seu direito de poeta. Seus sentimentos, sua visão de mundo são outras, que não a de Gonçalves Dias, com seu indianismo, e Castro Alves, com seus voos de condor.

Os poetas, como bem acentua Mello Mourão, “não se maculam com o efêmero pensamento do tempo, com o falso primado da razão do tempo e, por isso, produzem uma poesia pura. Falam o dialeto morto da grandeza humana, como se não tivessem saído da eternidade senão para uma breve estada 4 na terra”.  As Academias de Letras hoje, mais do que ontem, admitem elementos de várias vertentes culturais, que lhes dão, no conjunto, certo matiz de universalidade, o que enriquece seu patrimônio de conhecimento. Os próprios poetas contemporâneos, quando inovam na forma, as mudanças substanciais são de fundo, de conteúdo, numa linguagem semiótica, algumas vezes hermética, em que o mais importante da mensagem fica subentendido ou expresso de maneira subliminar. Mas é sem dúvida uma literatura densa de realidade social, de análise e crítica das estruturas políticas, num anseio permanente por mais justiça.

Com a devida vênia, portanto, releiamos alguns trechos da poesia Quem Dá aos Pobres, Empresta a Deus, de Castro Alves:

Eu que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis – aos miseráveis grandes –,
Eu, que sou cego, – mas só peço luzes…
Que sou pequeno, – mas só fito os Andes…
Canto nest’hora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande nada dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão…
E mais adiante, já que não devo transcrever todo o poema:
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram – foi no chão da história…
Se tropeçaram – foi na eternidade…
Se naufragaram – foi no mar da glória…
Há duas cousas neste mundo santas:
O rir do infante, – o descansar do morto…
O berço – é a barca que encalhou na vida,
A cova – é a barca do sidéreo porto…

No apoucado conhecimento que tenho dessa arte excelsa (que me perdoem os competentes na matéria), só me cabe aplaudir e admirar os poetas, esses privilegiados dos deuses, capazes de inspirações tão sublimes!

Sobre os escravos, que “cerraram os olhos no cativeiro”, eis, numa quadra-síntese, o que nos diz Castro Alves:

Caminheiro, do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou.
Não lhe toqueis no leito do noivado:
Há pouco a liberdade o desposou.

Sem querer abusar da paciência dos ouvintes, leio mais alguns versos, tirados de O Navio Negreiro:

Era um sonho dantesco… O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar do açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

E no final do poema:

E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!…
Silêncio!… Musa! Chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança…
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteada dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha.
Que servires a um povo de mortalha!

Só a arte é capaz de dar vazão a sentimentos de tal magnitude. Já havia eu dito, em trabalho anterior, que “nossos hábitos racionalistas nos impedem, quase sempre, de admitir as verdades do coração ou a verdade afetiva, uma como adequação dos nossos sentimentos àquilo que nos afeta, que nos sensibiliza. São como que dois mundos (o racional e o afetivo) dentro do nosso mundo interior. E não podemos, a priori, dizer qual dos dois (se o da inteligência, se o dos sentimentos) é o mais verdadeiro. Se, acaso, se opõem, cria-se-nos o dilema: decidirmo-nos pela inteligência, ou seguir a via dos sentimentos? São dois caminhos diferentes, que nos levam a mundos também diferentes: um desbravado e construído pela razão; outro, ancestral, afetivo, que nos prende 5 a nossas raízes…”

Quem pode – pergunto agora – ouvir uma bela música, ou a declamação vivenciada de uma bela poesia, sem sentir certo enlevo, um como êxtase, que nos transporta espiritualmente para além do cotidiano? Sem dúvida, a emoção nos chega por outra via, que não a da racionalidade, e nos introduz no universo pouco explorado de nossa afetividade. Que me importa a mim, eu que não sou um virtuose da arte musical, não ter, por exemplo, o pleno domínio da partitura, se o que me basta é me toquem o coração alguns acordes?

Tal como afirma Souriau, a ciência é a estética da inteligência. Como a poesia, ambas nos fascinam, porque são belas. Aqui fica, pois, singelamente embora, minha homenagem e minha saudade da velha Bahia, de onde trouxe o gosto pelos estudos sérios, a princípio no campo das letras, depois, no das ciências sociais e, sobretudo, no da filosofia. A esse tempo, tornei-me seu súdito fiel, lendo A República, de Platão. No livro VII, apresenta-nos a alegoria da caverna, que Mello Mourão, numa síntese admirável, assim descreve:

Todos conhecem o episódio da Caverna de Platão, exemplar para a distinção entre o que é e o que parece ser: uns homens viviam numa caverna, donde nunca saíam. Do mundo exterior conheciam apenas as sombras que se desenhavam no chão ou nas paredes da caverna, sempre que alguém passava diante de sua abertura, para a qual tinham voltadas as costas.
Acreditavam, então, que todos os seres que viviam fora da gruta eram puras sombras. Um dia, um dos habitantes da caverna veio à superfície da terra e viu os homens de carne e osso que ali se moviam. Voltou à gruta e contou aos outros que as pessoas não eram aquelas sombras. Eram seres humanos perfeitos e acabados, e as sombras eram apenas a projeção de suas figuras.

Não acreditaram. Denunciaram-no como mentiroso. Julgaram-no como impostor e o mataram, para que não continuasse a perturbar a paz da caverna, destruindo a verdade que sabiam. Foi – e será sempre uma temeridade – para o homem de todos os tempos, sair das cavernas em que o conhecimento se limita àquilo que parece ser e, 7 pois, a um falso conhecimento.

Muitos anos mais tarde, já reitor da Universidade Federal do Maranhão, indo frequentemente a Brasília, por dever do cargo, encontrei-me com o Josaphat, a essa época senador da República. Marcamos um encontro em seu apartamento. A conversa se alongou pela noite a dentro, a relembrar uma convivência de quase cinco anos, quando ambos morávamos numa bela casa senhorial, à avenida Joana Angélica, Nº 126. Foram momentos de recordações inesquecíveis! Na verdade, é esse o prazer maior da velhice: recordar o passado. Enquanto o jovem vive da esperança, o velho revive na saudade – um olhar interior e retrospectivo da longa estrada percorrida, aqui e ali pontilhada de recordações! Afinal, como bem o disse o poeta Júlio Dantas, “Olhemos para traz/ lembremo-nos da vida…/ A saudade de um velho é uma estrada florida!”

O último ocupante

Embora já decorrido um ano do seu falecimento, ainda podemos dizer que é por demais recente o desaparecimento do professor Mário Meireles de nosso convívio, tal a sua presença marcante nesta Casa e em nosso meio cultural. Último ocupante da Cadeira Nº 9 desta Academia, que tem como patrono Gonçalves Dias, ingressou ele neste Sodalício aos 33 anos, trazendo como bagagem, por singular que pareça, uma coletânea de poesias. É que, no Maranhão, os moços, entre l7 e 25 anos, são todos poetas. Os verdadeiros permanecem; os efêmeros, com o tempo, desaparecem.

Desde muito cedo, demonstrou Mário especial vocação para os estudos históricos. Morávamos na mesma rua de Santaninha, eu uma quadra abaixo da dele. Encontrávamo-nos, invariavelmente, todos os dias, ou em sua casa (sua mãe era irmã de meu pai), ou à noite, quando ia à minha (creio que a esse tempo, com 17 ou 18 anos, já estivesse ele arrastando a asa para minha irmã Maria José, com quem se casaria, um ano mais nova e estudante do Colégio Santa Teresa).

Suas conversas sempre giravam em torno de aspectos históricos, ora comentando as notícias dos jornais relativas a nosso Estado, ao Brasil ou a outros países, ora ilustrando, com episódios da história universal, algum fato que se estivesse relatando.

Fez o curso ginasial no Instituto Viveiros, na rua da Paz, canto com o beco dos Craveiros, num sobradão ainda lá existente. Já funcionário do Ministério da Fazenda, foi transferido para Salvador, na Bahia. Aqui, chegou a matricular-se na Faculdade de Direito da Bahia, mas, em virtude da incompatibilidade dos horários de trabalho e das aulas, não pôde prosseguir os estudos. Anos mais tarde, tendo sido nomeado delegado do Imposto de Renda no Maranhão e, a seguir, ingressado nesta Academia, passou a liderar, juntamente com Clodoaldo Cardoso, então Presidente da Casa, o movimento em favor da criação, nesta capital, de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, fato que contou, de logo, com a simpatia e a participação da Arquidiocese de São Luís.

Pensando na futura Universidade do Maranhão, os arautos do movimento conseguiram a criação da Faculdade de Filosofia, que seria o núcleo inicial da Universidade. Luiz Rego, com seu proverbial dinamismo e extraordinária capacidade de penetrar nos meandros ministeriais, obtém a autorização de funcionamento da Faculdade, conforme Decreto Nº 32.306, de 23 de abril de 1953, com os cursos de Letras Neolatinas, Geografia e História, Pedagogia e Filosofia

Convidado para compor o corpo docente do curso de Geografia e História (a esse tempo, um só curso), Mário ingressa no ensino superior, como professor fundador da cadeira de História da América. Aposentado, posteriormente, como delegado do Imposto de Renda, dedica-se integralmente aos estudos históricos, realizando pesquisas com os alunos e aprofundando a análise de documentos relativos à história do Maranhão. São desse período numerosos trabalhos.

Vale ressaltar que a Faculdade de Filosofia contou, de logo, com o integral apoio e efetiva participação desta Academia. Para dizer a verdade, ela nasceu aqui. Foi aqui que a ideia se corporificou e se indicaram os seus primeiros professores: Bacelar Portela, Luiz Rego, Odilon Soares, Mata Roma, Mário Meireles e Ruben Almeida. Para o Curso de Filosofia, a indicação de professores ficou a cargo da Arquidiocese de São Luís, então sob o comando de dom José de Medeiros Delgado, arcebispo de São Luís. Era sua vontade tivesse esse curso um tronco comum, bifurcando-se, em seguida, nas graduações: Filosofia propriamente dita e Teologia.

A primeira tentativa de funcionamento de uma universidade em São Luís (a Universidade do Maranhão, criada por dom Del gado) se inviabilizou em razão dos altos custos. Além da nec essidade de equipamentos para cursos de elevada tecnologia, como, por exemplo, o de Medicina, impunha-se a imediata mobilização de um grande número de professores, que teriam de ser recrutados, dada a escassez de nosso meio, em outros Estados da Federação. Prevaleceram, então, a prudência e o bom senso: fazer-se a fusão da Universidade Católica, com suas unidades existentes, com as Faculdades Federais de Direito, Farmácia e Odontologia, fato que deu origem à atual Universidade Federal do Maranhão. Esta, por um processo natural de evolução do ensino superior em nossa capital, foi instituída na década de 1960, pela Lei Federal Nº 5.152, de 21 de outubro de 1966, sob forma de fundação, e instalada no ano seguinte, tendo como presidente da fundação o professor Clodoaldo Cardoso, como reitor da Universidade o professor Pedro Neiva de Santana, como vice-reitor administrativo o professor Mário Meireles, e como vice-reitor pedagógico o cônego Ribamar Carvalho.

Com a criação da Federal, o ensino superior rapidamente se desenvolveu em nosso Estado. Veio a Universidade Estadual, sob forma de federação de escolas, vieram as faculdades particulares, algumas já reunidas em Centro, como é o caso do Ceuma, de tal maneira que, com esse incremento, passamos a respirar, em São Luís, um ar de cidade universitária!

Que diferença, entretanto, se comparada esta situação com a de algumas décadas atrás! Lembro-me bem que, em 1946, concluinte de Direito nesta capital, nas costumeiras conversas em frente ao Café do Chico, ali, na Praça João Lisboa, aventei para alguns políticos presentes a hipótese de criar-se em nossa terra uma universidade, a exemplo do que já acontecera no Ceará, graças aos esforços do professor Martins Filho. A resposta foi desoladora: o Maranhão não tem clima, não tem ambiente para se instalar uma universidade. Era a nossa velha mentalidade retrógrada e estreita. Já Fran Pacheco, no começo do século passado, lavrara o seu protesto. O sonho de Sousândrade, de criar em São Luís a Universidade Atlântida, se desfez “ante o motejo alvar dos incapazes e a indiferença molestadora das supostas pessoas 8 práticas”  Com certeza, – dizemos nós – não leram os políticos daquela época a advertência de Fernando Pessoa (1888/1935): “Viver não é necessário; o que é necessário é criar.” “É preciso deixar de pensar pequeno e pensar grande.” Será que conseguimos sair da caverna? Pelo ensino, já havia dito Rui Barbosa, em 9 1882, é preciso fazer Sacrifícios de Guerra!  Nos Estados Unidos (e isto em 1848), Horace Mann, que não era socialista, considerava a “escola pública” a maior invenção humana de todos os tempos e a educação generalizada o meio de contrabalançar a 10 tendência de dominação do capital e a servilidade do trabalho.  Entre nós, no começo da segunda metade do século passado, ou seja, em 1953, lamentava Anísio Teixeira: “Só muito lentamente é que a escola comum se emancipou dos modelos intelectualistas para dar lugar à escola moderna, prática e eficiente, com um programa de atividades e não de ‘matérias,’ iniciadora nas artes do trabalho e do pensamento reflexivo, ensinando o aluno a viver inteligentemente e a participar responsavelmente da sua sociedade.”

Concluído este parêntese, façamos, a seguir, uma ligeira síntese do curriculum vitae do professor Mário Meireles. Exerceu ele, entre muitos outros, os cargos de delegado do Imposto de Renda, no qual foi aposentado em 1965; diretor do Banco do Maranhão; chefe da Casa Civil do governador Pedro Neiva de Santana; professor de História Universal no Colégio Cysne (1940); professor fundador de História da América da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – 1953; chefe do Departamento de História da Ufma; chefe de Gabinete do reitor da Ufma; vice reitor da Ufma.

Participou, ainda, de inúmeros seminários e conferências, dentro e fora do Estado; era sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e do Conselho de Cultura do Maranhão e sócio correspondente de várias instituições similares, tais como a Academia Paulista de Letras, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro, a Academia Carioca de Letras, a Academia de Letras de Santos e os Institutos Geográficos e Históricos do Rio de Janeiro, de S. Paulo e da Paraíba. Foi agraciado com numerosas comendas e medalhas, dentre as quais a de cavaleiro da Ordem das Palmes Academiques, concedida pelo governo francês.

Das mais de duas dezenas de obras publicadas, vale referenciar: Gonçalves Dias e Ana Amélia; Panorama da literatura maranhense; História do Maranhão; França Equinocial; Catulo, seresteiro e poeta; História da Independência do Maranhão e História da Arquidiocese de São Luís.

Tantas foram as suas atividades culturais, que seu curriculum vitae contém cerca de 100 itens Como historiador, adquiriu Mário Meireles projeção nacional e até internacional. Suas obras são comumente mencionadas por autores de outros Estados e de países, como Portugal e França.

Convivendo conosco até o ano passado e em plena capacidade física e mental, não podemos pensar em Mário Meireles como um ausente. Extremamente conhecido e  estimado em nosso meio, sua atividade de escritor exerceu-a até a véspera de sua morte, deixando alguns trabalhos inconclusos. A seu respeito, assim se pronunciou Américo Azevedo Neto, jornalista, teatrólogo e poeta, membro desta Academia de Letras, em artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão, de 5 de março de 1988, admirado de sua simplicidade no trato das pessoas que o procuravam:

“Francamente – pensei – um homem desses, com um volume de conhecimentos desse, não poderia, nunca, estar em mangas de camisa. Essa é uma das culturas que, pela imponência, pela importância, pela majestade, solicita sempre paletó.”

Agradecimento

Encerrando minhas palavras, cumpre-me agradecer, em primeiro lugar, ao grupo de amigos acadêmicos, que porfiada e afetivamente me convenceu a enfrentar os riscos da candidatura a membro desta instituição. Relutei quanto pude, pois me parecia a empreitada superior às minhas forças, debilitadas pela idade. Mas, não há resistir ao poder do afeto, quando sincero e espontâneo.

Agradeço, igualmente, aos que sufragaram o meu nome em outubro do ano passado, alguns até sem me conhecerem pessoalmente, mas, abrindo-me um crédito de confiança, atenderam ao apelo que lhes foi feito. Aos que não votaram, estou certo de que contarei com sua cortesia, tolerando-me o convívio.

Reitero meus agradecimentos às autoridades, aos parentes, aos amigos e convidados, cujas presenças honram e abrilhantam esta festa. Alguns já me haviam demonstrado o seu carinho através de telegramas e telefonemas.

Por último, dois agradecimentos especiais. O primeiro, ao Presidente desta Casa, dr. Jomar Moraes, amigo de muitos anos e de todas as horas, que me fez reverter ao tempo de moço, propiciando-me, além de outras informações, a leitura de obras relacionadas com os ocupantes desta Cadeira. Os inúmeros afazeres de minha vida profissional haviam deixado à margem os poetas, pela pressão mesma dos compromissos diários. Ele me abriu a oportunidade de renascer para esse mundo mágico e encantado, todo ele construído de abstrações e utopias, é certo, mas que nos apaixona e revigora o espírito. Não é possível viver autenticamente, sem um ideal, em função do qual se vive e até, se for o caso, se morre; sem construir uma utopia, sem se apaixonar pelo que quer que seja, num anseio pelo impossível ou pelo apenas virtual. Quem tem um ideal – já havia dito Ingenieros – vive dele. Os primeiros cristãos deram exemplos heroicos disso. Daí a afirmação de Hegel: nada de grande foi feito no mundo sem paixão.

O segundo agradecimento é a minha esposa e a minha filha, ambas aqui presentes. Inabalável em sua fé, minha Maria seguiu sempre as pegadas do Cirineu bíblico: há 57 anos carrega comigo, cristãmente, esta pesada cruz, ofício esse cada vez mais difícil com o passar dos anos. Primeira interlocutora de meus escritos, se algo não lhe parece bem, já sei que é preciso reformular. Enfrentando, comigo, em mais de meio século de existência, as turbulências da vida, tem sido sempre minha segurança, meu ponto de apoio. Quanto a minha filha Iomara, é ela o braço forte no atendimento de meus compromissos e na realização de meus trabalhos. Modificando, portanto, um pouco o que a canção já popularizou e guardando-as no coração, como num escrínio sagrado, posso apenas dizer, com todo o meu afeto: “só nós três é que sabemos o quanto nos queremos bem”.

Muito obrigado.

 

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