Jomar da Silva Moraes

Biografia

Nasceu em Guimarães-MA, a 6 de maio de 1940.  Filho de José Alipio de Moraes Filho e Marcolina Cyriaca da Silva. Pesquisador, ensaísta, cronista, crítico e historiador da literatura maranhense. Editor de textos; mantém assídua colaboração na imprensa de São Luís.

Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, colou grau em 24 de julho de 1976. Especialista em Direito Empresarial (curso realizado em São Luís, de 31 de julho de 1976 a 5 de fevereiro de 1977, com 360 horas/aula; convênio UFMA/INCRA/UnB. Especialista em Comunicação Social, áreas de Rádio e TV, Publicidade e Propaganda (curso realizado em 5 etapas, de 6 de julho de 1982 a 21 de abril de 1984, com 600 horas/aula. São Luís, UFMA. Mestre em História, com área de concentração em História do Brasil, Convênio UFMA/UFPE. Recife, 2002. Doutor Honoris Causa da UEMA – Universidade Estadual do Maranhão. São Luís, 6 de agosto de 2010.

Sua primeira função foi soldado da Polícia Militar do Maranhão, onde permaneceu de 1959 a 1967, chegando, por cursos, à graduação de 3° sargento. Diretor do Serviço de Administração da Secretaria de Educação e Cultura (1970-71); diretor da Biblioteca Pública do Estado (1971-73); diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Fundação Cultural do Maranhão (1973-75); diretor do Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado-Sioge (1975-80); diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão (1981-85); secretário de Estado da Cultura do Estado do Maranhão (1985-87).

Pertenceu, em dois mandatos consecutivos, ao Conselho de Administração do Instituto de Previdência do Estado do Maranhão-IPEM e ao Conselho Estadual de Cultura, que posteriormente presidiu, na condição de secretário da Cultura. Representou a Academia Maranhense de Letras no Conselho Universitário da Universidade Federal do Maranhão em cinco mandatos de dois anos cada. Integrou, de 1987 a 1988, a Comissão Nacional do Centenário da Abolição e a Comissão Nacional do Guia Brasileiro de Fontes para a História da África, da Escravidão Negra e do Negro na Sociedade Atual.

Foi estagiário da Escola Superior de Guerra (Rio de Janeiro, 1980).

Membro correspondente dos Institutos Históricos e Geográficos do Piauí e do Distrito Federal, da Academia Paraibana de Letras e da Academia Paranaense de Letras.

Cidadão honorário de São Luís, de Buriti Bravo e de Alcântara.

Auditor Fiscal do Estado do Maranhão; advogado da Universidade Federal do Maranhão, desde setembro de 1984 e, a contar de 1990, procurador federal com exercício na referida Instituição de Ensino Superior, da qual foi procurador-chefe no período de novembro de 1996 a agosto de 2006.

Detentor das medalhas: Santos Dumont, do Ministério da Aeronáutica; Brigadeiro Falcão da Polícia Militar do Maranhão; João Lisboa, do Conselho Estadual de Cultura do Maranhão; do Sesquicentenário da Adesão do Maranhão à Independência, do Mérito Timbira, da Ordem dos Timbiras (grande oficial) de comendador do 4º Centenário de São Luís do Governo do Maranhão; comendador da Ordem de Rio Branco (Brasil) e da Ordem Nacional do Mérito de Portugal; Medalha Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; Padre Antônio Vieira, da UBE-RJ, e Simão Estácio da Silveira, da Câmara Municipal de São Luís.

Agraciado ainda com a medalha do 4º Centenário de São Luís, outorgada pela Assembleia Legislativa do Estado e, com as Palmas Universitárias, conferidas pela Universidade Federal do Maranhão.

Distinguido com 11 prêmios literários e com os diplomas de Personalidade Cultural (1980) e de Mérito Cultural (1981, 1988, 2000 e 2005) da União Brasileira de Escritores – Seção do Rio de Janeiro.

Bibliografia

  • Seara em flor (poesia); Rio: CPAD, 1963; Graça Aranha. São Luís: Legenda, 1968; Vida e obra de Antônio Lobo. São Luís: Legenda, 1969; Bibliografia crítica da literatura maranhense. São Luís: Departamento de Cultura do Estado, 1972; Guia histórico da Biblioteca Pública Benedito Leite. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 1973; Tributo & desenvolvimento. São Luís: Sec. da Fazenda, 1975; Apontamentos de literatura maranhense. São Luís: Sioge, 1976 (2.e 3.ed., São Luís: Sioge, 1979); O físico e o sítio. São Luís: Sioge, 1980; O rei touro e outras lendas maranhenses. São Luís: Sioge, 1980 (2ª ed. Imperatriz: Ética, 2008); Guia de São Luís do Maranhão. São Luís: Legenda, 1989 (2.ed. rev. e aumentada, São Luís: Legenda, 1995); Ana Jansen, rainha do Maranhão. São Luís: Edições AML, 1989 (2ª ed., ALUMAR, 1999; 3ª ed., Imperatriz: Ética, 2007; 4ª ed., São Luís: Edições AML, 2012); No império dos incas; notas e impressões de uma viagem ao Peru, levando, a tiracolo, O Guesa, de Sousândrade. São Luís: Legenda, 1991; Programa completo de português e literatura para o vestibular da UEMA; julho de 96; com resumos interpretativos de Maria da tempestade, de João Mohana, e Noite sobre Alcântara, de Josué Montello. São Luís: Legenda, 1996; Gonçalves Dias: vida e obra. São Luís: Alumar, 1998 (v. 16 da coleção Documentos Maranhenses).

 

Em coautoria: Cadeira 10. São Luís: Legenda, 1970 (com Antônio de Oliveira); De Pindaro à raposa ou Castro Alves! quem diria… acabou num aranhol. São Luís: Ed. part., 1977 (com José Chagas); Mano a mano. São Luís: Sioge, 1980 (com Joila Moraes).

 

Edições de textos, com introduções e notas:

Harpa de oiro, de Sousândrade. São Luís: Func, 1969; Os novos atenienses, 2.ed., de Antônio Lobo. São Luís: AML, 1970 (3ª ed., São Luís: Edições AML, 2008); Dois estudos maranhenses, de Antônio Lopes. São Luís: Func, 1975; Relação sumária das cousas do Maranhão, 7ª ed., de Simão Estácio da Silveira. São Luís: UFMA/Sioge, 1979 (8ª ed., São Paulo: Siciliano, 2001; 9ª ed., São Luís: Edições AML, 2013); Semanário Maranhense, 1867-68 (ed. fac-similar). São Luís: Sioge, 1979; O Guesa, de Sousândrade (ed. fac-similar). São Luís: Sioge, 1979; O Censor Maranhense, 1825-30 (ed. fac-similar). São Luís: Sioge, 1980; O Argos da Lei, 1825 (ed. fac-similar). São Luís: Sioge, 1980; O Arquivo, 1846 (ed. fac-similar). São Luís: Sioge, 1980; A casca da caneleira, 2.ed., de Joaquim Serra et alii. São Luís: Sioge, 1980; 30 sonetos de amor, ternura e encantamento, de Gonçalves Dias et alii. São Luís: Edições AML, 1984; Perfis acadêmicos. São Luís: AML, 1986 (2.ed., 1987; 3.ed., 1993; 4. ed., 1999; 5ª ed., 2013)Fanfarras, de Teófilo Dias (ed. fac-similar). São Luís: Secma, 1987; Echo da Juventude, 1864-65 (ed. fac-similar). São Luís: Secma, 1987; Maranhão 1908: álbum fotográfico de Gaudêncio Cunha. Rio de Janeiro/São Luís: Spala/Secretaria da Cultura, 1987 (2ª ed., São Luís: Edições AML, 2008); Almanak do Maranhão, 1849 (ed. fac-similar). São Luís, AML, 1990; Frutuoso Ferreira, o poeta devolvido (pesquisa, crítica textual, introdução e notas). São Luís: Legenda, 1991; O alienista, de Machado de Assis; I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. São Luís: Legenda, 1991. Obras de João Francisco Lisboa, v. IV. São Luís: Alumar, 1991; A festa de Nossa Senhora dos Remédios, folhetim de João Francisco Lisboa. São Luís: Legenda, 1992; Folhinha de algibeira para o ano de 1843 (ed. fac-similar). São Luís: AML, 1992; O cativeiro, 2ª. ed., de Dunshee de Abranches. São Luís: Alumar, 1992; (3ª ed., São Luís: Edições AML, 2013); A esfinge do Grajaú. 2. ed., de Dunshee de Abranches. São Luís: Alumar, 1993; Dez estudos históricos, de Mário M. Meireles. São Luís: Alumar, 1994; Mensagem, de Fernando Pessoa. São Luís: AML, 1995; Crônica da Companhia de Jesus no Maranhão, de Jacinto de Carvalho, S. J. São Luís: Alumar, 1995; Velhos ritmos, de Mata Roma. São Luís: AML/ Lithograf, 1996; O meu próprio romance, 4. ed., de Graça Aranha. São Luís: Alumar, 1996; Poesia e prosa escolhidas de Gonçalves Dias e Machado de Assis. São Luís: Edufma, 1997; História dos animais e árvores do Maranhão, 3ª. ed., de Frei Cristóvão de Lisboa. São Luís: Alumar, 1998; Poesia e prosa escolhidas de Cruz e Sousa e Artur Azevedo. São Luís: Edições AML, 1998; Estatuto e regimento interno da Academia Maranhense de Letras (em apêndice, Estatutos e Regimento Interno anteriores; Pesquisa, organização e notas. São Luís: Edições AML, 2002.(2ª ed., São Luís: Edições AML, 2013);Livro do Centenário da Academia Maranhense de Letras – 1908/2008. São Luís: Edições AML, 2009; Canção do abandono, 2. ed., de Olímpio Cruz. São Luís: Clara/Legenda, 2010; Cousa alguma.;.. &+ Alguma coisa de/sobre Vespasiano Ramos. São Luís: UEMA, 2010; Promotor da 3ª edição revista e ampliada do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, de César Augusto Marques. São Luís: Edições AML, 2008. 1.038p. Reedição acrescida de 809 verbetes e à qual adicionou 105 ilustrações e 1.508 notas de retificação, esclarecimento ou atualização. Vol. 20 da coleção Documentos Maranhenses, da AML, patrocinada por Alumar. 21x32cm, encadernado; Editor e revisor final do Catálogo dos manuscritos existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. São Luís: FUNC/AML, 2002. 662p.; Coeditor, com Frederick G. Williams, de Sousândrade: inéditos. São Luís: Departamento de Cultura do Estado, 1970, e de Sousândrade: prosa. São Luís: Sioge, 1979; Poesia e prosa reunidas de Sousândrade. São Luís: Edições AML, 2003 (volume que reúne O Guesa e O Guesa, o Zac, Novo Éden, Harpa de oiro e Liras perdidas, Trabalhos em prosa, Documentos diversos e Projeto da primeira Constituição do Estado do Maranhão); revisor técnico de O Guesa, ed.,organizada por Luiza Lobo. São Luís/Rio de Janeiro: Edições AML/Ponteio, 2012; promotor da 4ª edição das Obras de João Francisco Lisboa, 4 volumes. São Luís: Edições AML, 2012 (coleção Documentos Maranhenses) e da 3ª ed. de Poranduba maranhense ou Relação histórica da Província do Maranhão, de Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres Maranhão. São Luís: Edições AML, 2012 (coleção Documentos Maranhenses); Notícia acerca da vida e obra de João Francisco Lisboa de Antônio Henrique Leal. São Luís: Edições AML, 2012; O mulato (2ª edição maranhense). São Luís: Edições AML/Secretaria de Estado da Educação, 2013; Sertanejas (poesias), de Trajano Galvão, 2ª edição. São Luís: Edições AML/Secretaria de Estado da Educação, 2013.  

Preparador dos textos, revisor, autor de introduções e notas, além de idealizador das capas destes livros publicados em coedição AML/EDUEMA, da coleção Publicações do Centenário, Série Fundadores. São Luís: AML/EDUEMA, 2008: Fundação do Maranhão, 2ª ed., de José Ribeiro do Amaral; Silhuetas, 2ª. ed., de Domingos Barbosa; Coisas de vida (contos), 2ª ed., de Alfredo de Assis; História do Maranhão, 2ª ed., de Barbosa de Godóis; Por onde Deus não andou (romance), 2ª ed., de Godofredo Viana; Harpas de fogo (poesias), 2ª ed., de Corrêa de Araújo; O Palácio das Lágrimas (novela maranhense), 2. ed., de Clodoaldo Freitas; Missas negras (poesia), 2. ed., de I. Xavier de Carvalho; Natal (quadros), 2ª ed., de Astolfo Marques; Os novos atenienses (subsídios para a história literária do Maranhão), 3ª ed., de Antônio Lobo; Poesias (1907-1908), 2. ed., de Vieira da Silva; O Maranhão subsídios históricos e corográficos), 3. ed., de Fran Paxeco.

Discursos de Posse

DISCURSO DE POSSE

Quando um povo, através de preceitos orais contidos em lendas, adivinhações, máximas e ditos rimados consagra princípios e elege verdades, dá a todos nós a medida por que devem ser aferidos os seus padrões morais e filosóficos.

Na enunciação dessa crença, afirma que o casamento e a morte — os dois maiores acontecimentos, são decididos no céu, desejando, com tal assertiva, apenas significar que, em nossa vida, nada ocorre senão por determinação divina. Exmo. Sr. Presidente da Academia Maranhense de Letras,O nosso povo refere o princípio de que, transcendendo as delimitações todas de nosso querer, o destino de cada um é ditado pela onisciência de Deus, que nos dá a vida e, com ela, um mapa cheio de convenções e caminhos, para o itinerário que se nos impõe cumprir.

Digníssimas Autoridades,
Senhores Acadêmicos,
Senhoras minhas,
Meus Senhores:

Venho hoje a esta Casa, a mais alta instituição cultural de minha terra, para tomar posse da Cátedra de Antônio Henriques Leal, que antes de ser minha, por vossa expressa vontade, já o fora de um ilustre chefe de Estado e do jurisconsulto eminente a quem tenho a honra de suceder. Isto sem falar no intelectual que a fundou, maranhense que fez nome e ganhou prestígio em nossa terra, pela força construtiva de seu talento e de sua honradez.

Seria eu ainda bem criança quando, numa das noites maiores da Academia, o desembargador Henrique Costa Fernandes ingressava em seu quadro de sócios efetivos, como ocupante da Cadeira 10, recebendo de Mário Martins Meireles a saudação de praxe.

Desse recuado ano de 1948 em diante, cada um percorreu os caminhos de sua própria destinação, conforme Deus foi servido.

Ao menino que trazia no sangue algum talento e tivera, como Sousândrade e Urbano Santos, o seu nascimento em Guimarães, uma caminhada sofrida e sinuosa foi imposta. E ele a tem cumprido alegremente, até aqui.

Aparentemente não estava no roteiro de peregrinações do moço humilde, nascido pobre de bens materiais, que na ânsia de lutar pela vida já foi tudo quanto nada seja, esta passagem pela Academia.

Não que a sua ligação à Ilustre Companhia representasse fato estranho ao seu clã. Afinal de contas, os irmãos portugueses vindos para o Maranhão, onde filharam com negras da terra, deixaram uma descendência que tem profundas e entranhadas afinidades com a história de nosso talento e da nossa inteligência. E no dia em que, valendo­-se dos subsídios que tantas mãos generosas recolheram, alguém se impuser às honras do nosso respeito pelo levantamento crítico de toda a história literária do Maranhão, a assertiva que hoje poderia ser inquinada de suspeita e comprometida, terá a confirmação que bem merece.

Quero agora fazer­-vos uma confidência: quando o professor Carlos Cunha se preparava a fim de tomar posse como novo acadêmico, chamou­-me para datilógrafo de sua oração.

E certamente desejando pagar­-me os serviços prestados, deu­-me as sobras do papel que lhe fora especialmente presenteado pelo nosso comum amigo em Caxias, industrial José Castro, com a seguinte recomendação:

— Guarda esse papel com muito cuidado. Nele escreverás o teu discurso de posse na Academia.

Os tempos passaram, e eu não alimentava pretensões de, pelo menos tão cedo, ingressar na Academia. Mas guardei o papel. E ele aqui está. Comigo ainda restam algumas folhas que publicamente coloco à disposição do primeiro moço que ingresse nesta Casa, a que estão ligadas as mais expressivas figuras de todos os tempos desta província literária, nascidas na capital ou vindas dos mais diversos pontos do interior, que tudo é Maranhão. Entre as regiões tributárias desse imenso caudal de cultura e talento, a grande contribuição do vale do Itapecuru.

Já é tese brilhantemente defendida a de que os rios — e digo eu: principalmente os de não mui grande volume — exercem extraordinária influência sobre o talento criador dos que lhes nascem às margens ou mesmo distante delas, bastando que estejam sob os limites de sua influência.

Assim aconteceu ao nosso Itapecuru, cantante rio de pedras eriçadas, fertilizando a zona maranhense que igualou a abundância de riquezas representadas em termos de gado, babaçu, arroz e algodão, à prodigalidade — espantosa prodigalidade — de inteligência! De lá vieram para orgulho do Maranhão e admiração do Brasil, Gonçalves Dias, César Marques, Teixeira Mendes, Almeida Oliveira, João Lisboa, Dias Carneiro, Frederico José Correia, Pedro Nunes Leal, Teófilo Dias, José Cândido de Morais e Silva, Gomes de Sousa e mais próximos de nós, Coelho Neto, Vespasiano Ramos e Viriato Correia, todos eles, nomes vinculados a esta corporação cultural.

Também de lá, grande bacia do Itapecuru, viria Antônio Henriques Leal, valor cuja luminosidade não carece de adereços para se realçada.

O lugar é sagrado, o momento, sublime; e, por isso mesmo, qual novo Moisés em meio à sarça ardente da cultura e da inteligência de Antônio Henriques Leal, sinto que é preciso descalçar as sandálias.

Escritor militante, prestou serviço realmente grandioso ao Maranhão, não só no campo literário, como também na qualidade de médico, educador e político, originando-­se de projeto de sua iniciativa, quando no exercício do mandato de deputado provincial, a lei que autorizava o governo a conceder bolsas a estudantes que, concluindo o curso com distinção e sendo pobres, desejassem continuar seus estudos na Europa. Foi também de sua autoria um projeto de lei dispondo sobre a catequese dos índios.

O seu nacionalismo proclamava a necessidade imperiosa de que todos se voltassem para a terra comum, a buscar nos seus elementos constitutivos o leitmotiv de nossa literatura, chegando mesmo a sentenciar que “não temos que invejar ou pedir emprestado a estranhos”.

Em Lisboa, manteve polêmicas literárias com Latino Coelho e escreveu admiráveis artigos em defesa do Brasil, acusado, pela imprensa portuguesa, de culpado da Guerra do Paraguai. De seu valor como jornalista, diria tudo apenas esta afirmação de Joaquim Serra: “O dr. Henriques Leal é jornalista consumado. Na imprensa do Maranhão o seu nome é um dos mais ilustres. Em todos os jornais que redigiu deu mostras de possuir talento pronto e cultivado”.

O biógrafo e ensaísta percuciente dos quatro volumes que formam o Pantheon maranhense, revela­se ainda um homem de qualidades morais indiscutíveis. Perfilou para a posteridade muitas mais representativas figuras do Maranhão, todas já falecidas ao tempo em que produziu a obra que o imortalizaria, conferindo-­lhe o cognome de Plutarco Maranhense.

Em que pesem as críticas muitas vezes injustas de Frederico José Correia, lançando contra o autor do Pantheon, objeções fulminantes, contraditas e emprazamentos, o trabalho resistiu à ação do tempo e permanece vivo, como excelente fonte de consulta para o estudo dos maranhenses nele biografados. E de lá até hoje um fato interessante acontece: Um livro de crítica, de Frederico José Correia, ainda é citado e consultado apenas por ser uma contestação ao Pantheon maranhense. E diga-­se, embora de passagem, que a Frederico não faltaram razões para investir contra o nosso Plutarco, acusado de colocar no Pantheon somente os seus amigos, fazendo vista grossa a personalidades da estatura de um regente João Bráulio Muniz, único maranhense a exercer funções monárquicas. Seria isso, talvez, efeito da política vigente nas chamadas igrejinhas literárias. E quem haverá escapado a esse doce e enleante fascínio das igrejinhas? Poucos, muito poucos, serão os que possam responder pela negativa. Há, nelas, toda uma liturgia estabelecida, com segredos e mistérios quase divinais.

E os santos do Pantheon maranhense não são santos de igrejinhas, mas santos de portentosas catedrais.

Sotero dos Reis, opinando a respeito da Notícia Acerca da Vida e Obras de João Francisco Lisboa, que Henriques Leal escreveu como introdução às Obras completas do grande publicista maranhense, diz:

Foi uma soberba estreia que fez do seu talento, o que o torna impreterivelmente conhecido, não só dentro como fora do país, porque trabalho tão bem desempenhado não pode deixar de adquirir-lhe nome onde quer que se fale a língua portuguesa. E é de notar que não presta ele unicamente serviço às letras pátrias com o seu incontestável talento de escritor, mas também colecionando e revendo os escritos das nossas principais celebridades, como Gonçalves Dias e João Lisboa, muitos dos quais se teriam irremediavelmente perdido sem a sua diligência em procurá-los e coordená-los.

José Veríssimo atinaria para esse aspecto da ação de nosso Plutarco, ao afirmar: “Foi Henriques Leal o erudito que registrou em livros preciosos para a nossa História política e literária essa época gloriosa de sua terra”.

De tudo quando li de Henriques Leal, tem minha particular predileção o estudo introdutório produzido para as Obras completas de João Lisboa, editadas sob sua direção e graças aos seus esforços, logo após o falecimento do Tímon Brasileiro.

Bem distante dos cronistas que escreveram farta quantidade de informações acerca da terra e da gente maranhense, e havendo já transposto nosso primeiro ciclo literário, de importância quase que exclusivamente histórica, chegávamos a 1821, ano em que o Maranhão punha a funcionar a Tipografia Imperial Nacional. Esse é um fato de grande significação para a história de nossa cultura. Começou a surgir, no exercício de sua missão educativa, a imprensa. Os jornais, refletindo a ebulição de espíritos própria dos instantes que antecedem os grandes eventos, apareciam e desapareciam com tanta frequência, que em menos de dez anos, já se contavam às dezenas.

O ano de 1821 assinala o início de uma fase áurea para o Maranhão, sendo marco de nova e brilhante etapa literária, a publicação do Hino à Tarde, de Odorico Mendes. Daí por diante, o chamado grupo maranhense, formado por tantos e tão grandes valores, entrou em cena, trazendo para a terra natal o cognome glorioso de Atenas Brasileira.

Dessa geração privilegiada fez parte Antônio Henriques Leal, a quem o destino, além de fazer tão grande quanto os seus maiores contemporâneos, conferiu a tarefa meritória de preservar, pelas maneiras mais diversas, considerável parcela de fatos e atos literários que sem o seu concurso poderiam francamente estar hoje perdidos para sempre.

Econômica e politicamente, a Província ia bem, obrigado, com muitos de seus filhos entre os ministros, parlamentares e conselheiros mais proeminentes do Império.

E nesse ambiente de orgulho pela terra, Atenas conhecia seus dias de grande glória e prestígio.

O exuberante ciclo cultural parecia ter ainda muitos lustros pela frente, e eis que se abate, como um anjo exterminador inclemente, o lutuoso biênio 1863/64, impondo ao Maranhão a dor profunda de chorar pelos mortos mais caros e mais queridos.

De Portugal e logo depois da Inglaterra, chegam notícias de que João Lisboa e Gomes de Sousa não mais vivem. Nem ainda estão aliviados os grandes lacrimais da terra comum, e é mesmo em seu regaço maternal que tomba Trajano Galvão, educador emérito e precursor da poesia social do negro escravo.

A dor não passa e a ferida não sara, pois Odorico Mendes, no mês seguinte, morre em Londres; e Gonçalves Dias, buscando para túmulo a terra que lhe fora berço, naufraga no Baixio dos Atins, avistando, longe, o vulto das palmeiras que tão enternecidamente cantara.

Está entre os que lastimam tão grandes perdas, Antônio Henriques Leal, que para transmitir à posteridade sinais da grandeza dos mortos queridos, toma a si a tarefa gloriosa e árdua de escrever o Pantheon maranhense. Diz, em nota ao primeiro tomo, que sua recompensa maior estaria diretamente vinculada à fama e admiração que do trabalho resultassem para a memória dos varões biografados.

“Trabalho precioso, superior a tudo quanto se fez no gênero no período passado”, é como Brito Broca, na Introdução ao Estudo crítico da literatura brasileira, classifica a obra marcantemente característica de Henriques Leal.

Ao investir­me das altas dignidades de novo ocupante da Cadeira 10, sinto aceitar um desafio: o de arcar, doravante, com pesadas responsabilidades. Estudando a história de minha Cadeira, vejo que a cultura e a inteligência foram­lhes presentes, desde sua fundação, há mais de meio século. Instituída sob a égide da luminosidade espiritual do Plutarco Maranhense, teve por primeiro titular o ensaísta, tradutor e contista Raul Astolfo Marques, que ligou o seu nome definitivamente às nossas letras.

Astolfo Marques é um dos exemplos mais eloquentes de quanto vale a coragem de lutar, enfrentando os embates da vida. Foi nesta mesma Casa que ele começou a trabalhar, na modesta função de servente da Biblioteca Pública, meio honesto de prover o ganha­-pão cotidiano.

Humberto de Campos dá notícias de Astolfo Marques atravessando a então rua da Paz, a fim de comprar, na Casa Trasmontana, refresco para Antônio Lobo e Fran Pacheco. E quem vendia, esticado nas pontas dos pés, detrás do balcão, era o menino Humberto.

Anos depois, entretanto, funda-­se também aqui, a Academia Maranhense de Letras. Está entre os luminares que a integram, Astolfo Marques, cujo amor ao ensaio e à pesquisa pode ser facilmente avaliado pelo patrono que escolheu — Antônio Henriques Leal — e pelos trabalhos biobibliográficos que escreveu, boa parte dos quais, publicados na Revista do Norte.

Quando, por seu falecimento, a Cadeira é declarada vaga, ocupa-­a, por pouco tempo, no entanto, o dr. Luís Domingues da Silva, maranhense dos mais ilustres, que brilhou na Câmara Federal e, entre nós, governou o Estado.

Com o falecimento do dr. Luís Domingues, durante muitos anos a Cadeira 10 haveria de permanecer vazia de ocupante, porém cheia de glórias dos que a ela se ligaram perpetuamente, pelo patronato ou pela posse efetiva.

Contudo, valeu a pena esperar. O homem que, no decorrer de tão prolongados anos a ocuparia, era alguém capaz de recuperar o tempo perdido, se me permitem relembrar Proust.

Falo do desembargador Henrique Costa Fernandes, que prestou à nossa terra serviços de assinalada relevância. Dedicado ao Direito, em que, após bacharelar-­se, conquistou com brilhantismo o grau de doutor, Henrique Costa Fernandes inscreveu-­se entre os grandes jurisconsultos maranhenses de seu tempo.

Autoridade em doutrina e hermenêutica, deixou espalhada por um sem número de jornais e revistas, volumosa contribuição aos estudos jurídicos, fruto de sua cultura profissional, que lamentamos não tenha sido recolhida em livros. Exerceu, em sua carreira, além da advocacia, as funções de promotor público, juiz de Direito, procurador­geral do Estado e desembargador, presidindo por várias vezes os egrégios Tribunais de Justiça e Regional Eleitoral do Maranhão.

Catedrático nas Faculdades de Direito de Manaus e São Luís, ministrou os seus ensinamentos a várias gerações. E na imprensa, deixou farto material para o estudo da língua portuguesa, disseminado em jornais maranhenses, assinando, sob o pseudônimo de Pantaleão Teles, artigos em que deixa comprovada boa cultura filológica.

A sua folha de serviços inclui ainda o desempenho, em várias legislaturas, do mandato de representante do povo maranhense na Assembleia Legislativa.

Pena que, reunindo tanta cultura e inteligência, não haja deixado obra que esteja à altura de seu valor intelectual. Entretanto, Administrações maranhenses é livro que aí está, servindo para dizer do espírito de pesquisa e indagação de seu autor, a par de apreciável espírito crítico na interpretação dos períodos administrativos, que estuda detalhadamente.

Mas em tão alta conta hoje tenho, pelas investigações realizadas, a capacidade intelectual do desembargador Costa Fernandes, que não alimento a menor dúvida de que ele poderia, se quisesse, realizar­-se melhor como escritor.

Cada um, entretanto, possui as suas tendências e predileções naturais. O desembargador Henrique Costa Fernandes foi, sobretudo, um jurista. E como tal, encontrou a sua plena realização.

E agora, o que nele mais me comove: não obstante toda essa grandeza, jamais deixou de ser um homem simples, um homem bom. Esse o testemunho dos que com ele conviveram.

E eu vos asseguro, pois, que tenho prazer e orgulho de, nesta Casa, sucedê­-lo.

A minha geração, que viverá o ano 2000, assistiu, emocionada e perplexa, ao primeiro grande passo dessa que será a extraordinária caminhada do homem pelo infinito profundo, em busca de mundos outros para conhecer e explorar.

Estamos sentindo um mundo em crise de estruturas, onde a quase desesperada busca de renovação para os padrões ultrapassados pela própria dinâmica dos tempos presentes, exige de todos nós, profundo senso de equilíbrio e posições corajosas. Os intelectuais, reconhecemos a necessidade imperiosa de ajustamento à época, ou do contrário não transmitiremos aos outros homens a mensagem dos dias que correm, que essa é a própria razão de ser de todos nós.

Assumo as responsabilidades graves e honras de membro da Academia Maranhense de Letras, na certeza de que o fato não representa uma vitória individual, mas coletiva. E desejaria ser, aqui, intérprete e porta-­voz dos anseios e as aspirações dos que ficaram lá fora, a provar que, em se tratando de maranhenses, quarenta Cadeiras não bastam para quantos sejam ilustres e inteligentes.

Por isso que aqui não venho em meu próprio nome, que tal não seria cabível, mas no de todos aqueles que já deram mostras de que o fogo sagrado de Atenas haverá de ser mantido bem alto e bem aceso, para a perpetuidade das nossas glórias de raça inteligente.

Um povo que tem, dentro e fora da Academia, poetas, escritores e jornalistas do quilate de Nauro Machado, Franklin de Oliveira, Osvaldino Marques, Manuel Caetano Bandeira de Melo, Nunes Pereira, José Sarney, João Mohana, Ribamar Carvalho, Bacelar Portela, Reginaldo Teles e muitos, muitos outros, não se arreceia da perda de sua vitalidade espiritual.

Assim fomos no passado; somos assim neste presente que nos enche das maiores esperanças para o grande futuro que começa a chegar.

Senhor Presidente,
Senhores acadêmicos:

Ao penetrar neste templo em que tão generosamente me concedestes assento, sinto­-me invadido por uma emoção muito grande e muito intensa. E transfiro à minha terra e à minha gente todas as glórias deste momento que não me pertence a mim, porque é um legado espiritual das mulheres, dos homens e das crianças que me são mãe, esposa, filhos e irmãos.

Bendigo a minha sina de moço humilde, para quem todas as vitórias são grandes feitos, e pago à memória esmaecível de meu Pai, o tributo do meu reconhecimento por tudo quanto, porventura, seja ou venha a ser.

Orgulha-­me haver iniciado minha vida pública na condição de integrante das fileiras da Polícia Militar do meu Estado, glorificada pela bravura e pelo heroísmo, ao longo de sua existência secular. Ali servi ao governo de minha terra e tive a forja em que retemperei a disposição congênita para enfrentar a vida, no decurso de sete dos mais belos anos de minha juventude.

Rendo, neste instante, as minhas homenagens mais sinceras e mais comovidas à cidade de Buriti Bravo, que não sendo a terra do meu nascimento, é o chão do meu amor, porque o berço da esposa querida e dos filhos idolatrados.

Honra­-me sobremodo ser recebido por Antônio de Oliveira, um grande e leal amigo que se fez meu companheiro de lutas e meu irmão de ideais. A ele devo muito das alegrias desta noite.

O que de mim para o bem da Academia seja requerido e esteja ao alcance de minhas modestas possibilidades, terei prazer e orgulho em realizar.

Prometo formar ao lado dos que se empenham para manter sempre bem vidas tão gloriosas tradições de inteligência, estudo e cultura, contribuindo para que a Academia se renove conservando-­se e se conserve renovando-­se, para que as gerações vindouras recebam de nós um organismo referto das glórias de que é legítimo depositário, porém estuante de vitalidade.

Recebo o simbolismo da imortalidade acadêmica, bem certo de que ele me foi conferido mais como estímulo, que por merecimento, representando avultado crédito de confiança a que desejo corresponder. E creio em Deus que, se a mim não me faltarem vida e saúde, assim como da falta de talento e capacidade de trabalho injusto seria lamentar­-me, haverei de saldar esse débito — formidável débito contraído — sem nenhum vexame ou incômodo aos bondosos avalistas.

Lutarei, através do estudo e do trabalho intelectual o que humilde mais honestamente realizo, para não permitir que os fantasmas do remorso de uma ação mal praticada perturbem o sono bom dos que votaram em mim. E aos que não me sufragaram o nome, empenhar­-me-­ei, de corpo e alma, por levar a certeza de que, se o fizessem, não haveriam desgraçadamente caído em pecado mortal.

 

DISCURSO DE RECEPÇÃO por Antônio de Oliveira

Um cientista patrício, creio que o saudoso autor de O torrão maranhense, ressaltou, num dos seus notáveis ensaios, a influência exercida pelos rios sobre a inteligência humana. Verdadeira ou não a tese do famoso etnógrafo, naturalista do Museu Nacional, o que podemos afirmar é que em nosso Estado parece verificar­-se a sua confirmação.

À orla do Itapecuru, rio de indiscutíveis tradições históricas, nasceram muitos desses homens representativos que se acham perfilados na galeria de retratos deste ilustre areópago de nossas letras. Poderia citar­-vos os nomes de todos os que ali estão, prestando-­lhes, destarte, a merecida homenagem. Não seria exagero incluir­-se entre eles o nosso harmonioso Trajano Galvão de Carvalho, pioneiro da poesia abolicionista, que, embora nascido às margens do barrento Mearim, desfrutou a meninice junto às festivas ribanceiras do Itapecuru.

Acha-­se presente a esta solenidade um dos mais brilhantes companheiros de minha geração, o poeta e ensaísta Manuel Caetano Bandeira de Melo, secretário geral do Conselho Federal de Cultura, nascido em Caxias, portanto em terras banhadas pelo nosso rio sagrado.

É, assim, o Taboucurou dos cronistas franceses e, em outras arrevesadas grafias, o Tapucuru dos conquistadores lusitanos, um manancial privilegiado.

Quando, exatamente há um ano, em idêntica solenidade, tomei posse na Cadeira patronímica de Raimundo Teixeira Mendes, oriundo da mesma Caxias que se abre em flor de um lado e do outro do grande rio imortalizado no poema singelo de Dias Carneiro, referi­-me à tese raimundiana, que talvez não passe de uma dessas coincidências.

Contudo, pareceu-­me oportuno revivê­-la neste momento, ao evocar a figura extraordinária de Antônio Henriques Leal, glorioso patrono do nosso recipiendário. Não desejo, entretanto, sobrepor­-me ao elogio de Jomar Moraes à figura daquele que inspirou ao saudoso Astolfo Marques, um dos seus notáveis “apuntos biobibliográficos”.

Henriques Leal exercitou efetivamente memorável e hercúlea tarefa ao cinzelar as dezenove soberbas colunas do seu Pantheon, com que conquistou a antonomásia de Plutarco Maranhense, não obstante os espinhos de mandacaru de Frederico José Correia.

Todos se lembram dos apelos de Graça Aranha no sentido da reforma dos quadros sociais da Academia Brasileira de Letras, a fim de que esta, para que não viesse a perecer, providenciasse com urgência uma transfusão de sangue moço.

A Academia Maranhense de Letras, sabiamente e sem aperturas de uma autodestruição, aos poucos vai renovando, com o predomínio de gente nova, “pra frente”, como se diz agora, o seu quadro de sócios.

Contemplai esta galeria de retratos dos gloriosos patronos e fundadores desta Casa, que se notabilizaram em todos os ramos do saber. Muitos salientaram­-se pela inteligência e pela cultura, como esse até há pouco injustiçado Joaquim de Sousândrade, cuja poesia de vanguarda, ao passar por esclarecida revisão, vai granjeando o que não conseguiu em vida de seu autor: compreensão e renome.

Antônio Henriques Leal, o Plutarco Maranhense, credor de nossa eterna gratidão, foi admirável arquiteto desse gigantesco monumento de dezenove altaneiras colunas que, repito, resistiram às terríveis arremetidas do panfletário de Um livro de crítica.

Detende­-vos mais uma vez ante estas fisionomias serenas, hirtas na sua perenidade, entre as quais se encontram as daqueles denodados obreiros idealizadores desta Casa Senhorial, o ardoroso grupo remanescente da Oficina dos Novos. Todos envoltos na áurea da imortalidade. Glorifiquemos, pois, todos esses nossos deuses tutelares, principalmente o patrono da Cadeira que hoje tem novo ocupante. Sentou­-se nela, até bem pouco, um dos maiores ornamentos das letras e da magistratura do nosso Estado, o saudoso desembargador Henrique Costa Fernandes.

Vede, pois, senhor Jomar Moraes, a responsabilidade que pesa sobre os vossos ombros, ao empossar­-vos nesta Cátedra de gloriosas tradições.

Conta seu autorizado biógrafo haver Antônio Henriques Leal deixado dois trabalhos romanceados: um, inspirado na vida, paixão e morte do nosso mártir Bequimão, e o outro, sobre Evaristo da Veiga. Quem nos poderá dizer onde se encontram os originais dessas produções de real interesse para as letras maranhenses? É esta a indagação que ouso fazer­-vos, neste instante, na certeza de que, grande pesquisador que sois, dentro em breve podereis dar­-nos a resposta, já que vindes com o louvável propósito de dinamizar este Sodalício. Há muito que lavrar nesta seara inesgotável, mercê de Deus. Felizmente o imenso potencial de nossas reservas está agora sendo ativa e inteligentemente explorado, graças à figura moça e operosa que em boa hora lhe rege os destinos.

Senhor Jomar Moraes, chegou também a vossa vez.

Rogo também não vos esqueçais, nas indagações ligadas à rica personalidade do vosso patrono, de estudar a figura interessante de Hugo Leal, filho do autor do Pantheon, malogrado romancista e poeta de voo de garça real nas Rosas de maio, livro que o contista de A vida maranhense classificou de “primoroso”.

Abrindo um parêntese em meio a esta parlenda, congratulo­-me com o brilhante grupo de jovens dirigentes da página literária Azulejos, gráfica e substancialmente impecável, que valioso serviço vem prestando às letras e à cultura de nossa terra. Por sinal, num de seus últimos números, estampou um capítulo do vosso livro inédito Bronzes eternos, dedicado ao ensaísta de Locubrações, e ladeado por um poema do altíssimo Nauro Machado e por uma luminosa página de Lago Burnett.

Consenti que vos leia alguns períodos desse formoso perfil, que facilmente seriam memorizados por qualquer criança de escola:

Os primeiros a chegar junto ao busto de Antônio Henriques Leal, na Praça do Pantheon, foram Marta e Marisa. Logo após surgia o professor, acompanhado de Irene, Cláudio e Miriam. Os demais não tardaram, de sorte que num espaço de dez minutos o grupo estava completo.

E teve início a palestra, falando o professor:

— Disse a vocês que estudaríamos hoje a vida e a obra de Antônio Henriques Leal, cognominado o Plutarco Maranhense. Devo, então, informar que Plutarco era o nome de um grande sábio grego que foi moralista, professor, historiador e biógrafo. O nosso Henriques Leal, homem de grande cultura e correção moral, também foi professor, biógrafo e historiador.

Por isso andou bem, como sempre, esta Academia, ao premiar os vossos Bronzes eternos.

Quero evocar, nesta solenidade, a figura ilustre do apóstolo e pregador Antônio Vieira, a quem o Maranhão, segundo um dos seus biógrafos, o jesuíta, E. Carel, muito está no dever de erguer condigno monumento, num dos seus mais atraentes logradouros.

Também desejo fazer­-vos, ao jeito do ardoroso advogado dos nossos silvícolas, esta indagação: — Por que deixastes de remeter ao pobre autor desta arenga os elementos necessários à vossa biografia?

Provavelmente não mo remetestes apenas movido por um sentimento de modéstia. Não resistirei, entretanto, à tentação de transcrever estas excelentes linhas autobiográficas, em quase tudo semelhantes às deste enfadonho confrade que tem a grata honra de vos receber:

Dizes que ainda não tens minha biografia. Eu também não a tenho ainda. Sou um sujeito sem história alguma. O que te poderia dizer, assim de supetão, é que conto 29 anos de idade, sou detentor de três prêmios literários de nossa Academia e, antes que me iniciasse na imprensa daqui, já o fizera, desde os 14 anos, em jornais e revistas do Rio e São Paulo. No Rio publiquei meu primeiro livro, aos 23 anos. E não conheço o Rio. Comecei a vida de maneira muito humilde, tendo que sentar praça como soldado de nossa Polícia Militar, onde cheguei ao “elevadíssimo” posto de 3º sargento. Fui delegado de polícia em duas cidades do interior maranhense, uma das quais — Buriti Bravo — é o chão do meu amor. Lá encontrei minha esposa. E de lá são também meus três filhinhos. Sou o único indivíduo a ter o título de cidadão honorário de Buriti Bravo. O único! Hoje, sou funcionário público federal, postalista, por concurso em que brilhei, graças a Deus. Sou muito pobre e sempre o fui. Mas sempre venci conquistando, jamais pedindo, naquela postura subserviente que, segundo o Padre Vieira, humilha e deixa o cabra moralmente aniquilado.

Sinto que não tenho mais história. Mas a verdade é que nunca me faltou disposição para lutar pela vida. E, a considerar de onde venho, já fiz muito; embora nada seja, já dei o “murro”, como se diz: Em Buriti Bravo ajudei a fundar o Ginásio Presidente Kennedy, que neste ano forma sua primeira turma. Quando, mês passado, o vi desfilar, chorei. Acho que já dei sentido e explicação a minha vida. Lá também fundei e presidi o Centro Cultural Félix Aires e os jornaizinhos semanais A Luz e O Eco, ambos por mim escritos e mimeografados. A duras penas.

Senhor Jomar Moraes:

Um dia, quando escreverdes as vossas memórias, rogo­-vos desde já a inclusão nelas deste capítulo, digno da pena de um Raul Brandão ou, sem sair de casa, da de Humberto de Campos. Pela amostra, sois um memorialista nato. Obrigado, porque assim me poupastes de improvisar a vossa biografia. E agradecido, também, pelo gozo do bem urdido trecho de prosa.

Certa vez, falando de si mesmo, afirmara Camilo Castelo Branco ser ele o escritor de mais atrapalhada biografia. A vossa, como vimos, não chega a ser como a do artista das Novelas do Minho. Não é, pois, a vossa biografia como a do grande mestre da língua, cheia de lances dramáticos; mas considerando a vossa origem humilde, já fizestes bastante.

Retomando o fio da história de vossa vida literária, senhor acadêmico, não desejo concluir esta saudação sem antes relacionar, para fim de registro, as vossas interessantes produções.

Publicastes, primeiramente, Seara em flor, Rio de Janeiro, 1963, livro que sem razão repudiais, pois constitui o primeiro botão do vosso hoje matizado canteiro. Depois, o ensaio intitulado Graça Aranha, publicado em São Luís, 1968, durante as comemorações do centenário de nascimento desse extraordinário agitador de ideias e também notável memorialista de O meu próprio romance. Finalmente, destes à estampa, neste ano de 1969, em São Luís, o vosso premiado Vida e obra de Antônio Lobo, com que merecidamente conquistastes o direito de ingresso nesta Casa.

Gostaria também de apreciar, embora ligeiramente, a vossa atividade como excelente jornalista e atilado repórter que sois. Vossas magníficas reportagens em Legenda e outras publicações desta cidade dos meus quindins, algumas justamente premiadas, mereciam estudo à parte, neste meu pobre discurso de saudação.

Era isto, queridos confrades, o que eu pretendia dizer­-vos, nesta hora ecumênica de renovação de valores. A mocidade, mais uma vez, acaba de obter o almejado ingresso nesse Cenáculo, através de uma de suas mais representativas figuras.

Assumis, porém, senhor acadêmico Jomar Moraes, sob a vossa palavra de honra, o solene compromisso de zelar pelas nossas melhores tradições e de ajudar­-nos a manter vivo o calor desta flama, razão de ser da Casa de Antônio Lobo e de nossa existência de homens dedicados às letras.

Escolhestes, é verdade, o mais obscuro camarada para vos dar, no limiar deste templo, o fraterno e caloroso aperto de mãos das boas vindas.

Alegramo-­nos todos em ter­-vos como nosso companheiro.

Conquanto pobre e inteiramente desprovida de bens materiais, esta Casa tem como riqueza tudo aquilo que nos pode vir do espírito e da inteligência. Por isso que ela conserva aquele orgulho de primo pobre, que a fez manter­-se honrada e altiva em todas as vicissitudes por que tem passado.

Seu glorioso e único patrimônio é o da cultura, representado, entre outros valores, pelos quatro alentados volumes desse imenso Pantheon maranhense, cujo autor acabastes de elogiar brilhantemente.

Tudo o que possuímos aí está, nobre companheiro, nestes autores que se tornaram os mais brilhantes de nossa literatura, imortalizados nesses retratos, nesses vultos sagrados dos nossos maiores que assistem, silenciosos, porém felizes, à espadeirada do ritual com que fostes armado paladino.

Assim, podeis pronunciar, ao sentar­vos na Cadeira que de agora em diante vos pertence pelos séculos dos séculos, as mesmas palavras que o vosso patrono espargiu, como olentes camélias, na portada do seu imortal Pantheon.

Depositai, senhor acadêmico, sobre as lápides memoriais destes ícones benditos, as flores imarcescíveis da vossa juventude e da vossa inteligência.

Sede, portanto, bem­vindo!

A sedutora imortalidade vos espera!

 

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