Alex Brasil

Biografia

Nasceu a 28 de dezembro de 1954 no povoado Saco, município de Codó. Fillho de Raimundo da Silva Garcia e Maria das Dores Duailibe Garcia. Ainda no interior, iniciou seus estudos em Lima Campos, passando depois por Bacabal e Rosário e transferindo-se finalmente para São Luís, onde terminou o primeiro grau, no Centro Educacional do Maranhão, e, o segundo, no Liceu Maranhense. Na década de 1970, iniciou os cursos de Engenharia Civil, de Agronomia e de Direito, sem se adaptar a nenhum deles, para, afinal, concluir o de Jornalismo e Radialismo, na área de Comunicação Social, na Universidade Federal do Maranhão. Após os estudos, insatisfeito com os empregos públicos no Banco do Brasil e no Banco do Nordeste, trabalhou em televisão, jornalismo e publicidade. Nesta última atividade encontrou, afinal, seu caminho profissional como diretor-proprietário da AB Propaganda.

Poeta, contista, jornalista e publicitário, Alex Brasil participa da vida intelectual da cidade, colaborando com movimentos, homenageando artistas e fazendo-se presença constante em acontecimentos culturais. Foi distinguido com o título de Cidadão de São Luís, outorgado pela Câmara Municipal.

Bibliografia

a) poesia: Planeta vermelho. São Luís: Sioge, 1979; Idade do ouro negro. São Luís: Gráfica São Luís, 1980; O sonho deve continuar. São Luís: Sistema Difusora, 1981; Crepúsculo vinte. São Luís: Star Gráfica, 1982; Inferno verde. São Luís: Sioge, 1983; Brasil, não chores mais. São Luís: Sioge, 1985; Crianças do apocalipse. São Luís: Sioge, 1986; A solidão é cinza. São Luís: Grafica São Luís, 1986; Peregrino das emoções. São Luís: Sioge, 1987; Meninos de São Luís. São Luís: Gráfica Escolar, 1992; A voz do coração. São Luís: Gráfica Escolar, 1993; Ilha verde. São Luís: Gráfica Escolar, 1995; Pátria amarga, Brasil. São Luís: Unigraf, 1998; Razões do coração. São Luís: Unigraf, 2000; Todas as estações (antologia) São Luís. Unigraf, 2003; Amor.com. São Luís: 2013: Lithograf.

b) prosa: Amores perdidos (contos). São Luís: Sioge, 1987; Lençóis proibidos (contos). São Luís. Minerva, 2007; Quatro discursos. São Luís. Minerva, 2007; Último sol nascente (contos). São Luís: 2012; Lithograf.

Discursos de Posse

Ilustríssimo Senhor Doutor Jomar Moraes, Presidente da Academia Maranhense de Letras, Demais Autoridades, Senhoras e Senhores:

Certa vez, diante do Teatro Artur Azevedo, observei um diálogo entre dois anônimos e humildes funcionários daquele templo, sobre o poeta Nauro Machado, que passava solitário, alheio às superficialidades da selva de pedra. Um dizia ao outro, em tom respeitoso: “Dizem que ele é um imortal. Será que não morre, como qualquer um de nós?” O outro respondeu: “Morre, mas é imortal. Por que, eu não sei.”

Relembro agora esta cena, sabendo que muitos perguntam o que é ser imortal, conscientes que são da inexorabilidade da morte, e não sabem a resposta e muito menos que há “imortais” não só nas academias, mas também fora delas e que muitas vezes são, eles próprios, também imortais no sentido usado aqui, “uma imortalidade inteiramente deste Mundo”, como a considerou Ernest Becker, em seu livro A negação da morte. Uma imortalidade sem nenhuma conotação religiosa.

Se o homem é um ser-para-a-morte, como diziam os existencialistas, essa finitude, no entanto, pode ser contrariada com atos que se eternizam e nos eternizam para além de nossos tempos, através das artes, das ideias revolucionárias ou dos gestos de coragem e bondade.

Os gregos, pais de todo o nosso racionalismo ocidental, já sabiam dessa imortalidade e que o altruísmo do espírito humano permanece e merece ser perpetuado na memória das gerações futuras. Já a visão de imortalidade do Iluminismo é a de que “imortalidade significa ser amado por muitas pessoas anônimas”.

Péricles, que viveu cercado de filósofos e artistas, 431 anos antes de Cristo, exaltando as bravuras de alguns heróis atenienses mortos em defesa da pátria, disse o seguinte:

De fato, deram-lhe suas vidas para o bem comum e, assim fazendo, ganharam o louvor imperecível e o túmulo mais insigne, não aquele em que estão sepultados, mas aquele no qual as suas glórias sobrevivem relembradas para sempre. Com efeito, a terra inteira é o túmulo dos homens valorosos… Fazei agora destes homens, portanto, o vosso exemplo, e tendo em vista que a felicidade é liberdade e a liberdade é coragem.

Como vemos, merece também a glória aquele que cultiva a esperança e luta pela justiça. Todos respeitarão o juiz, se ele for justo; todos respeitarão o religioso, se ele for porta-voz da bondade, mas se o juiz é injusto, dizemos não às suas sentenças; se o padre é a inquisição, o denunciaremos a Deus. Não é a riqueza, nem a cultura, nem a nobreza ou qualquer forma de poder que torna alguém digno de lembrança na memória das gerações futuras, é a própria dignidade que há nos seus atos que o torna exemplo perene à posteridade. É o seu olhar único sobre a vida que o distingue. Este homem procura que horas são, mas quer saber o que é o tempo. Ele diz que a mulher é bela, mas quer saber o que é a beleza. Ele diz que está apaixonado, mas quer saber o que é o amor. Ele vê a criança abandonada e pergunta: o que posso fazer diante desta cena, quem são os culpados, quais são as causas? O homem digno de lembrança é um operário da humanidade, ele não se conforma, tem um olhar crítico sobre a vida e o Mundo, e este olhar está no coração daqueles que sabem que a vida é para ser vivida, repartida e preservada, como uma chama sagrada, porque, como dizia o poeta Bandeira Tribuzi, “O infinito maior é o próprio homem.”

“A opção de continuar empurrando a pedra ladeira acima é que supera o nada da existência”. A história da humanidade não é só a biografia de grandes homens, mas a contribuição de homens criativos e participativos, cada um na relatividade de sua importância na construção de um Mundo melhor e sempre novo, como assim o via Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caeiro: “Sei o pasmo existencial/ Que tem uma criança se, ao nascer,/ Reparasse que nascera deveras…/ Sinto-me nascido a cada momento/ Para a eterna novidade do Mundo.”

Desta forma, a humanidade caminha graças, também, à vida de homens, poetas e não poetas, que observam a eterna novidade, além dos preconceitos, do senso comum, da ignorância e da insensibilidade.

Portanto, imortal é o homem criativo, aquele que vê o que todos veem, mas que pensa e faz o que ninguém pensou e fez.

Aquele que ao ver uma pedra rolando, não viu apenas uma pedra rolando, mas viu a roda, este é imortal. Aquele que ao ver o fogo ameaçador, não apenas viu o perigo de se queimar, mas a potencialidade de iluminar os caminhos do futuro, controlando a chama em favor da civilização, este é imortal. Aquele que ao ver a planta germinar e não viu apenas uma árvore crescer, mas viu a agricultura, este é imortal. Aquele que ao ver um pedaço de madeira, também viu um instrumento, ou uma alavanca, este é imortal. Aquele que ao ver rabiscos, viu o alfabeto e que, ao ver o alfabeto, viu as palavras e os poemas, os romances, a literatura, este é imortal. Aquele que ao ver o outro, não vê apenas uma imagem semelhante, mas exatamente o outro, a quem amará como a si mesmo, este é imortal. Aquele que vê as leis e a sociedade com suas incongruências, mas ainda assim compreende que Deus não criou pobres e ricos, apenas criou o Mundo e suas reservas como heranças, e nós é que ainda não soubemos administrá-las, este é imortal.

Imortal é o que realiza a prospecção da própria vida – e da vida mesma –, como fizeram e fazem os ocupantes destas Cadeiras, projetando-se um após outro, e um pelo outro, sucessivamente. “A minha sombra há de ficar aqui” – vaticinou Augusto dos Anjos sobre si mesmo.

Estas pessoas, que constituem um por cento de um por cento da humanidade e que apesar de serem raras ainda assim não se consideram semideuses, estas pessoas são imortais, porque têm a humilde consciência de que se tornam apenas instrumentos na construção de um Mundo mais belo, mais justo e mais humano. Os imortais que tomaram assento antes de mim, na Cadeira que me acomodará nesta casa, morreram; mas cada um que substituiu o anterior, fez ecoar o nome e os feitos desse antecessor, imortalizando-o.

Estes seres, de certa forma iluminados, estão nas academias, mas não só estão nas academias, onde seu número é limitado. Estão em toda parte. Podem estar nesta plateia (e estão, porque neste instante vejo-os diante de mim, pessoas que admiro e respeito pelo seus atos e ideias). Estão também no anonimato das periferias, cumprindo, às vezes, a sagrada missão de iluminar vidas desvalidas, desvendando caminhos por onde seus companheiros devem trilhar, praticando o imortal gesto de amar e exercendo a solidariedade e a fraternidade que os farão eternos na lembrança dos seus e na harmonia do mundo em volta.

Estes seres raros não são vegetais, estão sempre tentando traduzir o Mundo, os mistérios do existir; espantam-se diante do próprio cotidiano, como diz o poema de Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
poço sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte/linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte
será arte?

É arte sim, a arte de traduzir os desígnios de Deus, que nos quer, a todos, imortais, e mais que imortais, divinos, porque o homem, apesar da jornada dolorosa da existência, nasceu para, afinal, ser feliz, numa felicidade construída com a consciência do respeito e da responsabilidade diante do milagre da vida.

E a propósito de tudo que falei até agora, afirmo, sem a mínima dúvida, que aqui, na Casa de Antônio Lobo, aqui na Academia Maranhense de Letras, ao longo de sua história e neste momento, habitam homens, ausentes e presentes, que são exemplos de imortalidade pelas suas ideias, pelos seus atos e pelas suas contribuições, cada um em sua missão particular, operando na construção de um humanismo pleno.

E aqui, lembro o nosso Presidente, Professor Jomar Moraes, um escritor atuante, defensor e entusiasta operoso da cultura maranhense, a quem, de certa forma, minha biografia se interliga por ter sido ele quem publicou o meu primeiro livro, Planeta vermelho, pelo Sioge, generosidade que nunca esquecerei.

E como a Academia vive para que os seus patronos e acadêmicos permaneçam imortais, passo a lembrar e homenagear, pelos seus feitos, o patrono da Cadeira número 30, pensador Raimundo Teixeira Mendes; o fundador da Cadeira, poeta Alarico da Cunha; e o meu antecessor, escritor Antônio de Oliveira.

Raimundo Teixeira Mendes nasceu em Caxias, aos 5 de janeiro de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, aos 28 de junho de 1927. Filho do engenheiro Raimundo Teixeira Mendes e de dona Inês do Vale Teixeira Mendes, muito cedo transferiu-se para a capital do país, estudando inicialmente num colégio jesuíta e depois na então Escola Politécnica, sempre aplicado aos estudos e com raros dotes de oração.

Fervilhavam no Brasil as ideias positivistas de Auguste Comte, divididas neste país e na França em duas vertentes, a dos seguidores de Littrê e a dos seguidores de Laffitte. Entre os colegas da antiga Escola Politécnica, Teixeira Mendes encontra Miguel Lemos, tornando-se grandes e inseparáveis amigos, ligados ambos à vertente litreísta do Positivismo e ambos com forte atuação junto ao meio. Depois de serem suspensos por dois anos, em consequência de censuras públicas que fizeram ao diretor da Escola, aproveitaram para viajar até Paris, partindo juntos a 3 de outubro de 1877, com pouco mais de 20 anos de idade cada um.

Teixeira Mendes permanecerá em Paris por um ano, ocupando-se ali dos estudos da Matemática, autor que era, com tão pouca idade, de livros já publicados sobre essa matéria. Voltando ao Rio de Janeiro, reingressa na Escola Politécnica, celeiro de positivistas, onde presta exames brilhantes. Enquanto isso, Miguel Lemos inicia na França o curso de Medicina e se relaciona com os seguidores de Laffitte, abandonando de vez a vertente positivista liderada por Littrê. De lá, Miguel Lemos estabelece com Teixeira Mendes, agora também um ferrenho seguidor de Laffitte, uma intensa correspondência, correspondência essa publicada em livro que se constitui hoje em documento raro.

É oportuno dizer que é rica a bibliografia de Teixeira Mendes, e o Maranhão está no dever de juntar essa obra, para que os leitores brasileiros possam ajuizar melhor a enorme contribuição de Teixeira Mendes em relação à cultura do país. Basta consultar o Catálogo da Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Fundação da Igreja Positivista do Brasil, evento promovido pela Biblioteca Nacional em 1981, para se ter uma ideia dessa intensa atividade de Teixeira Mendes.

Com Miguel Lemos (quando este retornou da França), ambos agora exacerbados seguidores da corrente ortodoxa de Laffitte, exerce forte liderança junto ao movimento positivista do Brasil, colocando-se, ao lado do próprio Miguel Lemos, como o mais importante nome da vertente comtista que extrapola para o fanatismo religioso, fundando com alguns outros a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, logrando, no entanto, o nosso conterrâneo, conquistas extremamente significativas para o desenvolvimento da sociedade brasileira.

Filósofo, ensaísta e poeta, foi o idealizador de nossa bandeira nacional. Manifestou-se contra a criação da universidade brasileira, não por que fosse inimigo dos estudos superiores, mas por saber que grande parcela de nossas instituições universitárias atuaria como estimulador de nossa bacharelice endêmica, hoje tornada epidêmica pela proliferação de centenas de faculdades que são, antes de tudo, facilidades anunciadas e oferecidas como um produto comercial qualquer. Essa a razão por que apresentou argumentos a favor dos cursos profissionalizantes nos estabelecimentos de ensino superior do país, a fim de contemplar a imensa massa de trabalhadores. É significativa a sua atuação, quando analisou, através de conferências públicas, o Projeto do Governo Provisório, de autoria principalmente de Rui Barbosa, contribuindo decisivamente para a elaboração da nossa primeira Constituição Republicana.

Ivan Lins, em sua História do Positivismo no Brasil, edição de 1967, assim se refere a Teixeira Mendes:

Contribuição interessante de Teixeira Mendes e que o torna um precursor de nossa legislação trabalhista, é o Projeto de melhoria das condições do proletariado por ele submetido em 25 de dezembro de 1889, ao Governo Provisório, por intermédio de Benjamin Constant. O Projeto de Teixeira Mendes, que foi elaborado depois de consulta e troca de vistas com cerca de 400 operários de oficinas do Estado, foi procedido de uma explanação sobre o papel do proletariado e a urgência de incorporá-lo à sociedade onde, na frase de Auguste Comte, apenas se acha acampado. Expunha [acrescenta Ivan Lins] a teoria positivista do salário e regulava não só este último, mas ainda as horas de trabalho, os dias de descanso, os acidentes de trabalho e as pensões a conceder aos operários chegados à velhice, ou às suas famílias.

Eis, a seguir, um pequeno trecho que também escolhemos desse projeto de Teixeira Mendes, todo ele exemplar, tornando-se difícil para nós a escolha deste trecho:

[…] a elevação do caráter brasileiro consiste essencialmente na elevação do proletariado, porque ele constitui a quase totalidade da nação: é ele que forma propriamente o povo; é dele que saem e é para ele que revertem todas as outras classes sociais. Como, pois, conceber a regeneração de nossa Pátria mantendo a família proletária no grau de abatimento em que até hoje ela se acha em todo o Mundo?

Pelo cinquentenário de morte de Teixeira Mendes, a Academia Brasileira de Letras prestou-lhe significativa homenagem na sessão de 27 de outubro de 1977, manifestando-se na ocasião alguns acadêmicos, a partir do depoimento de Paulo Carneiro, que assim iniciou sua fala:

Sr. Presidente, a 28 de junho de 1927 morria Teixeira Mendes. Faz 50 anos. A não ser no pequeno círculo dos seus discípulos e correligionários, nenhuma homenagem foi, até agora, prestada ao insigne brasileiro. Nem um só jornal assinalou o cinquentenário de seu desaparecimento; nem uma só das nossas instituições oficiais recordou o papel proeminente que lhe coube na propaganda da Abolição, na fundação da República, na criação de nossa bandeira, na instituição de preceitos morais para nossa política internacional. Ninguém evocou a memória do homem de excepcional inteligência – que foi, pela sua cultura enciclopédica, o mestre da sua geração. Ao desaparecer, foi ele, entretanto, objeto das mais expressivas homenagens em todo o Brasil. O Presidente da República decretou que fosse a nossa bandeira hasteada em funeral em todo o nosso território…

Paulo Carneiro continuou enumerando as homenagens a Teixeira Mendes, por ocasião da morte dele, que, para não me alongar, deixo de citá-las. Adiante, na sua fala, acrescentou o seguinte na Academia Brasileira de Letras sobre este maranhense:

Foi, para muitos, surpreendente o choque emocional em todo o País pelo seu falecimento. O Brasil, de repente, teve consciência de que possuía, discreto, humilde, quase recluso na sua célula apostólica, um grande sábio e um grande santo, como todos os jornais de então o qualificaram. Para que não fique esquecido, no Rio de Janeiro, esse grande maranhense que aqui viveu e lutou até os 72 anos, um grupo de seus admiradores e amigos resolveu oferecer à cidade o seu busto, esculpido por Bruno Giorgi, réplica do que já foi por nós inaugurado em São Luís do Maranhão, graças ao prestimoso concurso do Governador Pedro Neiva de Santana e do Prefeito Haroldo Tavares.

Ninguém soube me informar onde se encontra esse busto de Teixeira Mendes, colocado inicialmente numa praça do bairro de São Francisco, em nossa cidade. Na Academia Maranhense de Letras, ele é o patrono da Cadeira número 30, que passo a ocupar, fundada por Alarico da Cunha.

Alarico José da Cunha nasceu em Timon (antigo São José dos Matões, depois Parnarama) no Maranhão, a 31 de dezembro de 1883. Poeta, jornalista, folclorista, sociólogo, professor e tradutor, autor de aproximadamente duas dezenas de livros, quase todos publicados, dos quais, destacam-se: Discurso maçônico, Ode à mendiga, Exaltação à beleza, Nostalgia do céu, Oração fúnebre, Epopeia de Toulon, As exéquias de D. Francisco, Impressões de Tutoia, entre outros, deixando ainda alguns inéditos. Membro da Academia Piauiense de Letras e da Associação Piauiense de Imprensa, residiu em Parnaíba, onde foi vice-cônsul de Portugal. Em 1950, tornou-se membro da Academia Maranhense de Letras, falecendo no Rio de Janeiro, a 22 de setembro de 1965. Um ano depois, era eleito para esta Cadeira número 30 o pesquisador e escritor Antônio de Oliveira.

Antônio Barbosa de Oliveira nasceu em Curador, então município de Barra do Corda, hoje Presidente Dutra, no Maranhão, a 4 de março de 1911, e faleceu em Niterói a 26 de junho de 2003.

Estudou as primeiras letras ainda no interior do Estado, transferindo-se para São Luís, onde se matriculou no Centro Caixeiral e depois no Liceu Maranhense. Na década de 30 do século passado, foi um dos integrantes do famoso Cenáculo Graça Aranha, sob a forte liderança de Antônio Lopes, de quem era dileto discípulo, ao lado de Franklin de Oliveira, Manoel Caetano Bandeira de Mello e Josué Montello – este, seu grande companheiro de leituras e estimado amigo. Além do Cenáculo, participou ativamente do Centro Maranhense de Artes e Letras e do Movimento Renovação. Funcionário da Faculdade de Direito de São Luís, organizou a biblioteca dessa instituição, ao mesmo tempo em que nela fazia o curso de Direito. Antes de terminá-lo, transferiu-se para o Rio de Janeiro, colando grau na então Capital Federal, em 1949. No Rio, trabalhou em jornais, chegando a redator de publicidade. Depois, funcionário público federal, tornou-se assistente do Gabinete Civil da Presidência da República.

Em 1966, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras, tomando posse em 1968. Aposentando-se pelo Ministério da Fazenda, continuou como pesquisador e escritor de qualidade, publicando em 1980, pelo Sioge, alguns de seus ensaios no livro Camilo no Maranhão e outros ensaios. Antônio de Oliveira foi um devotado admirador de Sousândrade, cuja obra conhecia profundamente, e muito fez para difundi-la, contribuindo substancial e efetivamente para o processo de revisão do poeta, sobre quem escreveu numerosos e importantes trabalhos.

Para Jomar Moraes, amigo de Antônio de Oliveira por mais de três décadas e o editor de seu único livro publicado, “na verdade, mais do que laborioso produtor de obras literárias, Antônio de Oliveira foi um ávido consumidor delas.” Por isso acercou-se de uma vasta e seleta biblioteca particular cuidada com zelo tão excessivo, que chegava a ser ciúme e egoísmo. Somente quando não mais podia ler, desfez-se de alguns preciosos livros, entre os quais todos os de Sousândrade. O restante desse tesouro terminou sendo adquirido pela Academia e aqui se encontra ainda à espera de um lugar onde seja devidamente arranjado.

Por isso, também, por ser um bibliófilo em tempo integral e um leitor voraz, Antônio de Oliveira acumulou sólida cultura literária e conhecimentos bibliográficos que fariam inveja a qualquer livreiro qualificado, desses que hoje raramente encontramos. Aqueles que o conheceram na intimidade, referem-se ao seu jeito humano e educado de ser, sua figura bondosa e gentil, seus gestos largos de amigo sincero e generoso. Uma rara figura humana, como também foram Teixeira Mendes e Alarico da Cunha, vivenciando os três, curiosamente, um humanismo cristão, que os aproxima através de uma vida repleta de beleza e santidade.

Candidato em 2002 a uma vaga nesta Academia Maranhense de Letras, e estando Antônio de Oliveira ainda vivo, quis, no Rio de Janeiro, conhecê-lo e pedir-lhe o voto. Em companhia do poeta Nauro Machado e de sua filha, doutora Maria Isabel, fui visitá-lo num asilo em Niterói, encontrando-o já cego e praticamente alheio a tudo o que se passava à sua volta. Quando ouviu o nome do poeta Nauro, conhecido seu, fragmentos de lembranças vieram-lhe à tona, balbuciando palavras soltas sobre o Maranhão, como Maioba, Anil, bumba-boi, ficando o poeta e eu emocionados de vê-lo naquele estado, repetindo o nome da esposa já falecida.

Folheando um livro, que ele sabia ser maranhense, pude aquilatar o amor que devotava à sua terra pela maneira quase obsessiva, mas especialmente carinhosa, como repetia incansavelmente o gesto. Essa delicadeza que o aureolava naquele instante, era o prenúncio de uma imortalidade que o conservaria para sempre no meu pensamento. Mal sabia eu naquele instante que, perdendo aquela eleição, dois anos depois, ao pleitear novamente ingresso nesta casa, seria eu mesmo o ocupante da Cadeira que o acolhera aqui por mais de 30 anos.

Dito isto, devo confessar que é a partir das ideias, ideais e lutas de homens como estes, que inspiro os meus atos e travo as minhas próprias lutas, sentindo-me honrado por estar aqui, entre mestres e sábios, podendo chamá-los de confrades, depois de uma longa jornada que exibe em minha alma um filme onde minha infância e este momento se interligam numa ponte de livros e de biografias que me ensinaram e ensinam a compreender a dura realidade do existir e do viver.

Há um poema do poeta José Sarney, sintético, do qual gosto muito, intitulado Homilia do Juízo Final, que diz o seguinte: “ – José!/ onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas?/ – Estão aqui, neste balde de juçaras e sofrimentos”. Gosto deste poema, porque ele é de certa forma a metáfora de minha vida, pois não importam os sonhos que sonhei e realizei; não importa onde eu esteja; o que eu tenha feito ou farei, as minhas raízes telúricas sempre me enlaçam de saudades e mergulham minha alma num balde de bacaba e sofrimento, à beira do igarapé do meu povoado para onde sempre volto nas horas de solidão e angústia de homem cosmopolita que agora sou.

O riacho do meu povoado ainda conversa comigo, mesmo quando leio Platão, quando avalio a teoria da relatividade, a teoria quântica ou as manchetes dos jornais. É a partir da simplicidade da lavoura azul de minha infância, lembrando aqui o poeta José Chagas (também nascido nos confins do Nordeste, mas que se recusou a ser nordestinado), que elaboro a minha visão de Mundo e as minhas convicções sobre a própria vida e a morte.

Eu acredito no exercício da humildade necessária para promover o respeito e a concórdia entre os semelhantes.

Eu acredito que o mais difícil não é praticar o bem ou o mal, mas praticar a justiça que deixa em paz a nossa consciência em relação aos nossos atos.

Eu acredito que praticar o bem faz bem a nós mesmos e aos outros, e que o fruto da ação positiva é a amizade, a gratidão e a elevação do espírito.

Eu acredito que a tolerância com as nossas fraquezas e com os defeitos do próximo, corrige e dignifica o ser humano.

Eu acredito que o poder exercido com ódio, arrogância e arbitrariedade, como uma espada fria, pronta a decepar os mais fracos, é o podre poder que destrói coisas belas, que expressa a nossa barbárie atávica; creio que o poder não deve ser exercido como uma simples potência física, onde não há moralidade ou ética alguma, mas com responsabilidade, sabedoria e equilíbrio, que só os grandes de espírito e alma não pequena sabem exercer.

Eu penso que não vivemos no “melhor de todos os mundos possíveis”, mas devemos e podemos fazer o possível com o mundo que temos.

Eu penso que Deus é maior que a realidade, Ele está em tudo e fora de tudo, é particular e universal; creio que o Universo foi criado de modo a gerar a vida, porque o Universo é Deus e nós somos reflexos desse Deus.

Eu penso que as fontes da virtude e da sabedoria estão na coragem, na temperança, na justiça, na fé, na esperança e no amor.

Penso que o novo sempre vem, que cabe às novas gerações, através do estudo, corrigirem nossos erros, cabe aos mais jovens desvendarem outros caminhos e outras alternativas por onde os nossos descendentes caminharão rumo ao futuro sempre em evolução.

Penso que, se há alguma vitória na minha história pessoal, é a consciência de que não existe sucesso sem estudo, trabalho e colaboração mútua, e que qualquer sucesso não dá o direito de nos acharmos semideuses ou iluminados, porém muito mais responsáveis pelo aperfeiçoamento pessoal e social e mais compreensivos com o fracasso dos outros.

Embora eu saiba que a vida é uma eterna renovação e uma busca incessante de novos horizontes, eu não mais pergunto a Deus o que Ele pode fazer por mim, mas o que eu posso fazer pelos outros, agradecendo a esse Deus por estar aqui entre amigos, festejando a vitória do espírito humano com a ajuda Dele.

Sou mais que um lutador; sou um sobrevivente. Mas não quero parecer herói, mito ou número um em nada. Venci o analfabetismo, venci a fome, venci meu complexo de inferioridade, e logo depois, o meu orgulho e soberba. Eu meço as minhas vitórias, a partir de meus sonhos de criança no povoado humilde onde nasci, onde muitos anjos de minha infância tão logo se foram sem conhecer o mar e os amores que tanto sonhávamos conhecer.

Queria amar e ser amado. Amei e fui amado. Amo e sou amado. Queria ser chofer de caminhão para viajar mundo adentro e mundo afora. Sou chofer de minha própria vida e no meu caminhão de sonhos posso viajar pelas estradas que bem me aprouver, guiado pelo meu coração.

Queria apenas ler e escrever, simplesmente. Li e leio obras primas, escrevi livros que outras pessoas leem. Pensei que morreria antes dos 40 anos, hoje acho que morrerei aos 100, e ainda dizem que agora sou imortal. Sou um sobrevivente, porque meço as minhas vitórias a partir dos meus sonhos de criança. E não tenho inveja dos números 1. Os muito poderosos são escravos do poder. Os muito famosos são escravos da fama. Os belos são escravos da beleza. Os ricos são escravos do dinheiro. Os gênios sofrem na visão alucinada da vida. Eu apenas sei o que eles são, porque são e como chegaram a ser, e sou suficientemente feliz por tentar sempre ser senhor de mim mesmo e de meus sonhos, que compartilho solidariamente e como posso com os meus semelhantes e meus próximos – companheiros na breve viagem da vida que nos cabe no imenso mistério do existir.

Finalmente, penso que, se a noite é filha da ignorância e das guerras cotidianas, é necessário que brote a luz das sepulturas dos sábios e santos imortais, a luz eterna que ilumina, com o pensamento livre e a consciência límpida, o futuro onde o homem não mais seja o lobo do homem, mas o irmão do seu irmão, no respeito mútuo e na fraternidade cristã.

Declaro, parafraseando o filósofo inglês Bertrand Russell, que depois de tudo que os meus sentidos provaram, carrego e destaco em meu coração “três grandes paixões, simples mas esmagadoramente fortes: o desejo de amar, a busca do conhecimento e uma compaixão insuportável pelo sofrimento da humanidade” e das formas todas de vida.

Por fim, voltando ao tema da imortalidade, recordo este conselho genial que li e que, afinal, me basta: “O máximo que qualquer um de nós parece poder fazer é criar alguma coisa – e largá-la na confusão, fazer dela uma oferenda […] à força vital” espalhada no universo.

Muito obrigado e que Deus nos abençoe!

 

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