José Neres

Biografia

Filho de José Furtado da Costa e de Maria Raimunda Neres Silva, José Neres nasceu em São José de Ribamar em 17 de fevereiro de 1970 fez estudos iniciais em Brasília e Goiás (Luziânia), locais onde passou a infância. De volta ao Maranhão, cursou Letras Português e Espanhol (UFMA), especializou-se em Literatura Brasileira (PUC-MG) e depois fez mestrado em Educação (UCB). Trabalha ou já trabalhou como professor de língua (portuguesa e espanhola) e literatura (brasileira, espanhola, hispano-americana e maranhense) nas seguintes instituições de ensino: Colégio Brasil, Centro de Ensino Universitário José Maria do Amaral, Faculdade Atenas Maranhense, Faculdade Pitágoras, Faculdade Santa Fé e Universidade Federal do Maranhão, além de haver prestado serviços para a Universidade Estadual do Maranhão, Instituto Superior Franciscano e Centro Sul Brasileiro de Pesquisa e Pós-Graduação.

José Neres é detentor dos seguintes prêmios e honrarias: Menção Honrosa e Honra ao Mérito, ambos concedidos pelo Instituto da Poesia Internacional; Prêmio Odylo Costa, filho, concedido pela Prefeitura de São Luís pelo livro Resto de Vidas Perdidas; Prêmio A Importância do Livro no Brasil do Século XX. Concedido pela Academia Brasileira de Letras em parceria com o jornal Folha Dirigida e Medalha do Bicentenário de João Lisboa, concedida pela Academia Maranhense de Letras, além de ser patrono e paraninfo de diversas turmas de formandos em cursos superiores.

Como pesquisador, José Neres sempre teve interesse por assuntos ligados à literatura, principalmente a maranhense, à Educação e aos estudos linguísticos. No mestrado, orientado pelo professor Afonso Celso Tanus Galvão, desenvolveu pesquisa sobre os processos metacognitivos e autorregulativos na aprendizagem de estudantes de pré-vestibulares e sobre estudo deliberado.

Em 2014, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras, ocupando a cadeira 36, deixada vaga pelo falecimento do grande intelectual Ubiratan Teixeira, e será recebido pela professora e acadêmica Ceres Costa Fernandes em 20 de março de 2015.

Bibliografia

Além de colaborar em jornais e revistas, como O Estado do Maranhão, Jornal Pequeno, De Repente, Literatura Conhecimento Prático e Língua Portuguesa Conhecimento Prático, publicou também os seguintes livros: Negra Rosa & Outros Poemas (1999), Poemas de Desamor (2000), A Mulher de Potifar (2002), Restos de Vidas Perdidas (2006), Montello: O Benjamim da Academia (2008), Estratégias para Matar um Leitor em Formação (2005), O Último Desejo de Catirina (2010), Sombras na Escuridão (2010) e Lousa Rabiscada (2013). É coautor de Os Epigramas de Artur (2000) e O Discurso e as Ideias (2010) (ambos com Dino Cavalcante), O Verso e o Silêncio de Adelino Fontoura (2011), (Com Jheysse Lima Coelho e Viviane Ferreira) e Maranhão na Ponta da Língua (2011) (com Lindalva Barros), além de organizar o livro de ensaios Tábua de Papel (2010).

José Neres é também autor de diversos artigos científicos sobre Literatura, Educação e Língua Portuguesa, além de ser criador e editor do informativo Ilhavirtualpontocom, que tem como objetivo divulgar as letras maranhenses.

Além dos livros individuais e em parceria, o escritor também escreveu prefácios para diversas obras e participa dos como colaborador dos seguintes livros: 15 Contos+ (I e II), organizado por Helena Frenzel (2012 e 2013); A Importância do Livro no Brasil do Século XXI, organizado por Maria de Lourdes de Aguiar Freire (2006); Poesia de Amor para Sempre (2004); O Beijo (2000); Antologia Del’Secchi X e XI (2000) e Mil Poetas Brasileiros, organizado por Tony Carré (1995).

Discursos de Posse

 

O grande teatrólogo e pensador espanhol Pedro Calderón de la Barca, em uma de suas mais felizes frases disse que “La vida es sueño y los sueños sueños sueños son”. Não há dúvida de que vida e sonhos estão intimamente interligados. Os sonhos alimentam a vida, dando às pessoas uma razão a mais para prosseguir nos íngremes e tortuosos caminhos que são percorridos dia após dia. Ao mesmo tempo, a vida também impulsiona os sonhos, trazendo para estes um pouco desse tempero cotidiano sem o qual o ato de dormir seria algo tão somente biológico e, talvez, desprovido dessa magia que nos ajuda a despertar no dia seguinte com a certeza – ou pelo menos com a esperança – de que o novo dia será bem melhor do que o anterior.

Como às vezes nossos sonhos e nossa vida parecem estar em rota de desencontro, temos a sensação de que a vida simplesmente vivida não nos basta e que a vida “só é possível reinventadas”, como nos ensinou a grande escritora Cecília Meireles. E como reinventar essa vida? E como viver além dos reflexos impostos pela natureza? É nesse espaço tão tênue e para muitos imperceptível que entram os sonhos, as artes, a vida reinventada, a ficção, a poesia, enfim, a Literatura.

Meus caros amigos aqui reunidos nesta noite de festa, de recordações, de alegrias e de reflexões, desde que realizei o sonho de ser eleito para esta ilustre Casa, no dia 30 de outubro de 2014, muitas pessoas me cumprimentam pelas ruas chamando-me antecipada e erroneamente de imortal. Imortal… Essa palavra soa estranha e até certo modo de forma irônica para quem com alguns meses de nascido, ainda sem nem mesmo ter consciência do que seria vida, arte ou sonho, ouvia a notícia de que seguramente as próximas horas seriam as últimas para aquele ser pequenino que mal chegava ao mundo e já recebia uma vela e muitas orações. Contrariando a lógica que corria de boca em boca, aquela criança pálida, magra e quase sem força conseguiu a sua primeira grande vitória: sobreviveu!

Mas um mergulho alguns meses antes desse episódio acima narrado mostra que aquele garoto parecia fadado a contrariar o senso da lógica e a nadar contra as correntezas das muitas adversidades. O menino é fruto do enlace nunca oficializado entre um pescador – José Furtado da Costa –,  que durante o dia jogava a rede ao mar e dali tirava o alimento com o qual nutria o corpo e  alimentava os sonhos daquela família que dele dependia, e que durante diversas noites alugou seu sono na condição de guarda noturno, ficando acordado para que muitas pessoas pudesses repousar tranquilamente e sonhar;  e de uma professora leiga _ Maria Raimunda Neres Silva –  que mal havia completado a educação básica, mas que se desdobrava para dar o mínimo de educação a seus filhos e aos filhos daqueles que a ela confiavam o ensino e a  aprendizagem das primeiras, e possivelmente únicas, letras àqueles meninos e àquelas meninas que se nutriam de pão, peixe, carinho, esperanças  e de sonhos.

Estar aqui hoje, senhores e senhoras, ingressando na Casa de Antônio Lobo, na mais alta esfera da intelectualidade de meu Estado, parece também ser um ato de transgressão daquele garoto que pouco aproveitou dos carinhos dos pais biológicos e que cedo encontrou em outro lar o recanto adequado para nutrir o corpo e o espírito e, principalmente, para despertar naquele menino o gosto pela leitura e pela palavra escrita.

O novo lar era formado por uma tia – Geny Furtado da Costa –, exemplar dona de casa, e um padrinho – Luís Bartolomeu Ferreira –, que ganhava a vida colorindo o mundo na profissão de pintor de paredes e que nas raras horas vagas era também compositor e apreciador da boa música, além de voraz leitor de romances policiais. Foi nesse mundo colorido que o garoto continuou sua sina de desafiar o próprio destino. Os olhos míopes demoraram muito a perceberem as verdadeiras formas por detrás dos vultos. Na escola, a letra dos professores era reproduzida pelo movimento das mãos dos mestres no quadro de giz. Os ouvidos atentos e as mãos ágeis eram duas maneiras mais eficazes de acompanhar os conteúdos ministrados nas aulas. A memória era o substituto ideal para o pouco alcance dos olhos. Em diversos momentos de sua vida, aquele menino teve que buscar forças e esperanças no mundo dos sonhos, pois o mundo real, se não lhe fechava a cara, também pouco lhe sorria.

Mas esses poucos sorrisos e as poucas oportunidades foram transformados em vitórias pelo garoto. Vieram os estudos básicos, os secundários, o curso superior, os cursos de pós-graduação lato e stricto sensu. As páginas lidas foram aos poucos se transformando em palavras escritas. A imaginação, as observações e as discussões acadêmicas ganharam forma de artigos, resenhas, livros, estudos acadêmicos e científicos, cursos ministrados, palestras proferidas, participações em bancas, mesas- redondas, eventos de todos os níveis. Aos poucos, graças a seus textos e a sua obstinação pelas palavras escritas, o garoto tímido deixou o anonimato, pelo menos em uma parte de sua província, e tentou transformar seus sonhos outrora quase impossíveis e delirantes, verdadeiras quimeras do absurdo, em voos.

Lembrando o poeta Luiz Guimarães Júnior, posso inclusive dizer que

Meu sonho é como a canoa

que voa, voa, voa e voa

nas águas do ribeirão.

Para tudo voltar para o mar, seja o mar de Maranhão, seja o mar de São José de Ribamar, cidade onde nasci, mas onde infelizmente não me criei.

E um desses sonhos inacreditáveis é este que hoje sai da abstração e entra na biografia do menino que se tornou adulto, constituiu família, teve filhos, lutou, sofreu, ganhou e perdeu, mas nunca desistiu. Entrar para o quadro de membros da Casa de Antônio Lobo é um sonho acalentado por muitos, mas concretizado por poucos. Então vivam os sonhos. Vivamos os sonhos. Façamos de cada um deles um degrau na longa escada que é nossa própria vida.

Hoje, esta noite de festa e de alegria é também de saudades e de pesar, pois para que eu ingressasse nesta Casa, um amigo, infelizmente, teve que cessar sua atuação e deixar uma vacância que jamais poderá ser preenchida. As pessoas são insubstituíveis e, conforme lembrou em sua crônica de estreia no jornal O Estado do Maranhão, o nobre amigo, colega de longas conversas e doravante também confrade Sebastião Moreira Duarte, pode haver sucessão de pessoas, mas nunca a substituição.

Dessa forma, o teatrólogo, contista, jornalista e romancista Ubiratan Teixeira, meu antecessor nesta cadeira 36, jamais será substituído e a cerimônia de hoje não é um ato de substituição de uma pessoa por outra, mas tão somente um momento de sucessão, uma cerimônia solene na qual o passado e o presente se encontram, e, por alguns momentos, andam de mãos dadas rumo a um futuro incerto. Em momentos como este, os patronos e antigos ocupantes das cadeiras desta Casa se reencontram em discursos, palmas e alegrias, deixam o incômodo vazio do silêncio e voltam a reinar em uma Casa que foi e que sempre será de cada um deles.

É com muito orgulho, então, que assumo agora a responsabilidade de trazer novamente à luz das recordações os nomes, os feitos, as obras e um pouco da vida dos ilustres nomes que dignificaram esta cadeira que de hoje até o último segundo da minha vida ocuparei.

TASSO FRAGOSO

Comecemos falando do homem que foi escolhido como patrono desta trigésima sexta Cadeira da Casa de Antônio Lobo, o general, historiador e escritor Augusto Tasso Fragoso, augusto no nome e augusto também nas ações que marcaram sua vida. Falemos um pouco sobre nosso patrono.

Filho enlace do português Joaquim Coelho Fragoso com a brasileira Maria Custódia de Sousa Fragoso, Augusto Tasso Fragoso veio ao mundo em São Luís do Maranhão no dia 28 de agosto de 1869. Possivelmente motivado pelo pai, que era um homem voltado não apenas para o comércio, mas também para os aspectos culturais, o futuro general, desde a juventude se viu inclinado tanto à vida militar quanto às letras, principalmente à historiografia.

Em sua terra natal, o jovem Tasso Fragoso foi alfabetizado e começou a penetrar no mundo das palavras escritas e também nos traumas dos castigos físicos, sendo raramente elogiado por seus muitos acertos durante as chamadas arguições e severamente punido nas raras vezes em que a resposta desejada pelo seu sempre lembrado professor Pires não acudia à memória. As quase sempre injustas palmatoradas recebidas durante seus primeiros estudos não fizeram dele um homem rancoroso ou desejoso de vingança. Ao contrário, fez com que aquele rapaz desenvolvesse forte senso de justiça e o enorme desejo de defender os mais fracos, sentimentos que iriam acompanhá-lo durante toda a vida.

Após uma década e meia vivendo em sua cidade de nascimento, era hora de expandir seus horizontes. Ingressou nas forças armadas e entre 1885 e 1889 estudou na Escola Militar, instituição na qual se graduou em Artilharia. Logo depois ingressou na Escola Superior de Guerra, onde se bacharelou em Matemática, Ciências Físicas e Engenharia Militar. Nessa época também, além de travar amizade com Euclides da Cunha e Cândido Rondon, entrou em contato com as ideias de Benjamim Constant, de quem se tornou discípulo e a quem se referia como o maior mestre de todos os tempos, segundo informação de Francisco de Paula e Azevedo Pondé, que fez belíssima homenagem ao General durante as comemorações de seu centenário de nascimento.

As atuações políticas e militares de Tasso Fragoso foram de vital importância para a História do Brasil. Em variados momentos, ele apareceu de forma decisiva quando o povo precisava de sua intervenção, de sua força e de sua coragem de enfrentar situações quase sempre adversas. Antes mesmo de ser graduado como oficial, ele já participava com sucesso de uma missão militar que culminou com a Proclamação da República em 1889. Seu nome começa então a ganhar projeção nacional, levando-o a ser indicado pelo Maranhão para compor o quadro dos deputados responsáveis pela elaboração da Constituição de 1891. Ele não aceitou tal incumbência, assim como também recusou, logo depois, ser intendente (cargo equivalente hoje a prefeito) do então Distrito Federal.

Cinco anos após a Proclamação da República, durante a Revolta da Armada, que tentava anular os poderes políticos de Floriano Peixoto, Tasso Fragoso foi gravemente ferido, mas mesmo sem estar totalmente recuperado, reapresentou-se ao quartel para continuar cumprindo suas obrigações para com a Pátria. Embora tenha recebido diversas indicações para exercer cargos executivos e administrativos no Governo, Tasso Fragoso quase sempre decidia por declinar os convites quando considerava que não poderia contribuir tanto quanto queria com a administração pública. Após muita insistência, acabou assumindo alguns cargos públicos, como, por exemplo, intendente do Departamento de Obra e Viação Geral, chefe da Casa Militar no governo de Venceslau Brás, chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro e ministro do Supremo Tribunal Militar.

Contudo, o momento mais lembrado da longa trajetória militar do patrono da cadeira 36 da Academia Maranhense de Letras foi quando, em 1930, integrou, juntamente com outros militares, a junta governativa militar provisória que depôs o então presidente da República Washington Luís e impediu que o candidato eleito Júlio Prestes assumisse a presidência. No meio desse tumultuado momento histórico, Augusto Tasso Fragoso chegou a assumir o cargo de presidente do Brasil no curto período compreendido entre 24 de outubro e 03 de novembro daquele histórico ano de 1930, entregando depois o cargo a Getúlio Vargas.

Esse episódio é descrito pelo respeitado historiador Pedro Calmon, no sexto volume de sua famosa obra História do Brasil, com as seguintes palavras:

Alguns generais, desgostosos com a política oficial e pessimistas em face a seu insucesso, desejavam evitar que o país se dividisse em dois exércitos que se destroem, como nos Estados Unidos da América nos tempos de Lincoln. Um deles, por ventura o de maior renome, Tasso Fragoso, acreditava na derrota do governo. (…) Consultado antes por Lindolfo Collor, dissera repugnar tomar arma contra a legalidade, mas lhe faltava entusiasmo para ajudá-la. (CALMON, 1963, p. 2275).

A princípio, pode causar espanto que um homem de armas possa ter sido escolhido para patronear uma cadeira de uma das instituições culturais mais antigas do Brasil, como esta nobre Academia Maranhense de Letras, também conhecida como Casa de Antônio Lobo. Esse espanto também foi declarado pelo pesquisador Antônio Noberto, quando tomou posse no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, na cadeira 43, também patroneada, pelo ilustre general e político maranhense. Contudo, todos os que começam a se debruçar sobre a vida e obra desse homem de armas e de letras são logo levados pela admiração. Lembro-me também que assim que fui eleito para esta Casa, o sempre amigo e agora também confrade Sebastião Moreira Duarte, ao me indagar sobre quem seria o patrono deste assento a que doravante ocuparei, me disse com sua voz de tenor: “Você vai se encantar com a história desse homem”. Outro amigo acadêmico, o escritor e desembargador Lourival Serejo, na primeira reunião da Academia a que compareci após a eleição, me mostrou um pequeno quadro na parede e me disse apontando para um selo que compõem o conjunto: “Veja, ali está Tasso Fragoso, um dos poucos maranhenses que foram homenageados pelos Correios com um selo comemorativo”.

Não foi apenas por sua atuação política e militar que Augusto Tasso Fragoso foi lembrado para patronear uma cadeira nesta Casa, mas também por suas incursões no campo das letras, mais notadamente no território da historiografia. Além de colaborações com artigos em revistas de cunho acadêmico provavelmente desde a segunda metade dos anos oitenta do século XIX, nosso militar-escritor também escreveu dois importantes livros que comentam em analisam momentos da História do Brasil. Em 1922, pela Imprensa Militar, ele publicou A Batalha do Passo Rosário, livro no qual “abordou o maior choque militar jamais travado em territórios brasileiros, durante a Guerra Cisplatina, em 20 de fevereiro de 1827”, conforme explica o historiador Mário Maestri (2012) em um dos raros artigos científicos dedicados ao escritor maranhense. Não se contentando em narrar e comentar os fatos, Fragoso aproveitou parte do seu livro para propor um estudo mais aprofundado sobre a história militar no Brasil.

Mas seu trabalho de maior fôlego foi História da Guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai, publicado em 1934 pela Imprensa do Estado Maior do Exército. Esse trabalho é tido até hoje como uma espécie de paradigma para a construção de uma história crítica da vida militar brasileira. Partindo de exaustivas pesquisas em fontes documentais oriundas dos quatro países envolvidos no conflito, o general, que era visivelmente influenciado pelas ideias positivistas, analisa os fatos que desencadearam o conflito, bem como os reflexos disso nas relações entre os países envolvidos.

Depois de ocupar diversos cargos públicos, de exercer importantes papéis na vida política brasileira e de ter seu nome citado entre as mais importantes personalidades de sua época, Tasso Fragoso continuou dedicando seu tempo à nação, até ser compulsoriamente aposentado por haver completado setenta anos de idade, vindo a falecer seis anos depois, exatamente no dia 20 de setembro de 1945, não sem antes deixar para a posteridade outros trabalhos historiográficos de sua lavra, como é o caso de A Revolução Farroupilha, Os Sofismas e as Contradições do Doutor Max Fleiuss e Franceses no Rio de Janeiro.

Por sua atuação no campo da História, bem como por sua erudição e respeito aos métodos históricos da época, Tasso Fragoso passou a ser conhecido como pai da História Militar Crítica no Brasil, seus trabalhos, mesmo que hoje pouco divulgados, são importantes fontes de pesquisa sobre a formação histórica e social brasileira.

Com esses breves comentários sobre a vida e a obra desse valoroso intelectual maranhense, acredito que todos os presentes já devem estar convencidos de sua importância para as letras brasileira e de sua merecida escolha para patronear a cadeira 36 desta Academia.

BACELAR PORTELA

O fundador e, consequentemente, primeiro ocupante desta citada cadeira foi o médico, professor, pesquisador e escritor João Bacelar Portela.

Nascido na cidade de Santa Quitéria, no dia 16 de junho de 1906, filho do casal Viriato Oliveira dos Santos e Rosa Bacelar Portela, o jovem João Bacelar Portela, seguindo os passos de tantos outros meninos de sua época, cedo teve que emigrar para a capital piauiense, a fim de iniciar seus estudos primários.

Concluídos os estudos iniciais, ele regressou à terra natal e foi trazido para São Luís, onde foi matriculado no Seminário Santo Antônio. Mas seu espírito inquieto, questionador e voltado para o mundo das ciências parece não ter se adaptado às rígidas normas estabelecidas por aquela secular instituição de ensino.

Apaixonado pelos números, o jovem Bacelar Portela alimentou o sonho de graduar-se em Engenharia, chegando a frequentar o curso por um ano, contudo, atendendo a pedidos da família, voltou-se para a área da saúde e cursou a Faculdade de Farmácia por dois anos, com o intuito de depois transferir-se para Medicina, que passou a ser seu foco de estudo. Porém, algumas alterações na Legislação da época serviram como entrave a seus objetivos. Ele teve então que prestar novo exame para ingressar naquele curso superior da Escola de Medicina da Praia Vermelha, instituição pela qual se formou em 1932.

Aproximadamente três anos após colar grau, Bacelar Portela contraiu núpcias com a senhora Maria Alice Abreu, com quem teve cinco filhos – Delzita, Maria Yêdda, Edna, Edenir e João Filho.

Contudo, o fato de dedicar-se com afinco à família e à carreira medica não apagou naquele homem o interesse pelas letras, pelo magistério e por outras áreas do conhecimento, com, por exemplo a matemática e o estudo da obra de grandes vultos de nossas letras.

O magistério foi um dos caminhos seguidos por esse intelectual maranhense que nunca se contentava com os conhecimentos adquiridos e sempre buscava aprender mais e mais. O casamento entre o senso de pesquisador e o dom do magistério fez com que ele concorresse a vagas de professor em diversas instituições de ensino. E para lograr os resultados desejados, lia, pesquisava, escrevia e defendia suas teses.

Para concorrer ao posto de catedrático de Fisiologia da Escola de Farmácia e Odontologia da capital maranhense, escreveu a tese intitulada Da Função dos Canais Semicirculares, trabalho esse que foi publicado em forma de livro em Teresina, no ano de 1941, e que foi muito elogiado por intelectuais como Domingos Vieira Filho, que comentou haver sido a referida tese alvo de diversas discussões “pelo ousado dos princípios”, sendo seu autor “saudado com efusão nos meios científicos do país”.

Foi também com a finalidade de concorrer a outra cátedra, desta feita para a disciplina Noções de Psicologia Geral e Psicologia Educacional, que ele escreveu outro de seus importantes trabalhos, a tese A Noção de Espaço, que também foi muito elogiada e ainda hoje pode servir como referências para os estudos sobre as variadas percepções do espaço.

Outro trabalho de relevo do Doutor Bacelar Portela é um livro publicado em 1975, pela Editora da Universidade Federal do Maranhão, sobre a vida e a obra do grande matemático maranhense Joaquim Gomes de Sousa. Possivelmente a paixão pelas ciências exatas e pela trajetória dos grandes homens de nossa história tenham feito Bacelar Portela dedicar grande parte de sua vida a buscar referências e a estudar a vasta produção intelectual daquele genial maranhense que causava espanto por suas deduções matemáticas.

Homem bastante requisitado para conferências e palestras, Bacelar Portela não se esquivava de suas responsabilidades como médico, professor, pesquisador e pai de família. Mesmo assim encontrava tempo para desenvolver diversos trabalhos voltados para variados campos do saber humano. Lutando para dar maior visibilidade aos valores de nossa terra, ele muito discursou sobre nossas letras e escreveu ensaios sobre autores como Nina Rodrigues, Nauro Machado, Gonçalves Dias e José Nascimento Morais, além de produzir um até hoje lembrado e estudado ensaio intitulado: Psicologia Geral do Indígena: processo de maturação psicológica do índio no contexto de sua cultura, trabalho que até hoje desperta muito interesse por seu pioneirismo.

Por seu engajamento cultural e por sua brilhante inteligência, Bacelar Portela acabou sendo eleito, no dia 1º de julho de 1950, para a cadeira 36 da Academia Maranhense de Letras, e tomou posse cerca de cinco semanas depois, no dia 10 de agosto, sendo recebido por Achilles Lisboa. A data da posse de Bacelar Portela é emblemática para esta Casa por ser aniversário do grande poeta Gonçalves Dias e também data oficial da fundação desta Academia.

Além de digno membro da Academia Maranhense de Letras, nosso escritor recebeu muitas outras honrarias, como, apenas para citar algumas: membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, Cavaleiro da Ordem de São Silvestre, Professor Emérito da Universidade Federal do Maranhão e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, além de haver sido agraciado com a Medalha Gonçalves Dias por esta Academia.

João Bacelar Portela faleceu em 31 julho de 1978. No dia seguinte, os principais jornais do Estado comunicavam em notícias sintéticas a grande perda. Todos elogiavam a bela trajetória intelectual do acadêmico e traçavam um breve perfil biobibliográfico do falecido escritor. Sete dias após o passamento do intelectual maranhense, o colunista Wady Sauaia publicou em O Imparcial uma bela crônica na qual relembrava algumas passagens pitorescas da vida de Bacelar Portela, destacando seu talento nato para a medicina e para o magistério. Depois disso a morte de nosso escritor foi eclipsada pela notícia do passamento do Papa Paulo VI. Atualmente, como lembra o poeta e ensaísta Nauro Machado, Bacelar Portela tem seu nome injustamente relegado ao esquecimento.

Para concluir esse breve esboço biobibliográfico desse notável maranhense, transcrevo aqui um cromo literário criado por Fernando Viana em que descreve o primeiro ocupante desta cadeira.

Levando em conta o apaixonado arroubo
Com que outrora abusou da Poesia,
Achou-se o cirurgião, à revelia,
Dentro do Trianon de Antônio Lobo

Profissional consciente, ativo e probo,
Firmou-se com vigor na cirurgia,
E, entre os maiores cirurgiões do globo,
Há-de seu nome figurar um dia.

Estatura meã, sorriso franco
Traz, de harmonia com o cabelo branco,
No rosto vivo, o olhar mordaz e arguto.

Vovô moço de anúncio de elixir,
Fuma tanto que se há-de concluir
Que vive pendurado num charuto…

UBIRATAN TEIXEIRA

É também com carinho e admiração que começo a falar agora de meu antecessor, o múltiplo intelectual Ubiratan Teixeira, um homem que fez da própria vida um tablado e que fez da palavra sua grande arma de combate contra tudo aquilo que ele julgava injusto.

Filho do casal Raimundo de Araújo Teixeira e Rosa Sanches Pereira Teixeira, Ubiratan Pereira Teixeira nasceu em São Luís do Maranhão no dia 14 de outubro de 1931. Ainda na infância, perdeu parte da família biológica, que foi vitimada pela tuberculose, sendo então criado por uma tia e pelo marido desta. Em um depoimento, ele comentou que “apesar de ter tido uma infância e uma adolescência cercadas de mimos e cuidados especiais, arte e literatura não tinham guarida com o sargento Viégas”.

O contato com as letras e com as artes em geral veio do convívio com mestres dos melhores colégios da cidade na época: Jardim Decroly, onde fez os estudos iniciais, e Colégio São Luís, onde começou amizade com o professor Luiz Rego e com muitos outros intelectuais. Como não podia dedicar-se à leitura de forma explícita, tinha que recorrer a diversos subterfúgios para poder mergulhar no mundo da leitura. Foi escondido, então, que aos dez ou doze anos leu o primeiro livro que marcou sua vida:  Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Depois vieram inúmeras outras leituras, cursos, graduações e uma formação humanística sólida, mas em constante construção.

Da leitura para a escrita foi um passo natural para aquele homem que bebeu na fonte de mestres como Antônio Martins de Araújo, João Mohana, Fernando Moreira, Luiz Rego e muitos outros que contribuíram para que aquele rapaz simples se tornasse um dos mais respeitados escritores das letras maranhenses.

O que também contribuiu para que Ubiratan Teixeira moldasse seu estilo foram as lides com o jornalismo. Em sua vida profissional, ele escreveu sobre praticamente tudo e acabou se especializando na crítica voltada para a arte, escrevendo sobre cinema, artes plásticas e, principalmente, teatro e literatura.

Seu talento o levou a concorrer a uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, na vacância ocasionada pelo passamento de João Bacelar Portela. Seguindo os rituais para ingresso nesta Casa, ele foi eleito no dia 07 de dezembro de 1978 e tomou posse no dia 04 de outubro do ano seguinte, sendo recepcionado Bernardo Almeida, em concorrida cerimônia.

Acredito que todos os que estão aqui presentes conheceram Ubiratan Teixeira, que era carinhosamente chamado de Velho Bira pelos companheiros e admiradores, então antes de passar para o estudo da obra de meu antecessor, recorro novamente a um membro da família Viana, desta vez ao consagrado poeta e romancista Waldemiro Viana, que, em poucos versos, traçou um perfil de nosso homenageado. Aqui está um trecho do soneto dedicado ao autor de Vela ao Crucificado:

À vontade ao pregar no anfiteatro,
debochado, brigão, quase niilista,
adora uma postura antielitista
e é o bambambã das artes do Teatro.

Contista, novelista, jornalista,
milhões de istas e o diabo a quatro
apesar do semblante tenso e atro
nas conversas atrai, seduz, conquista.

É esse um interessante retrato em 3 x 4 de um homem que conquistava com sua conversa franca e com seu jeito despojado de cerimonialismo.

Conforme veremos a seguir, a obra de Ubiratan Teixeira é vasta e bastante diversificada, indo do conto à literatura infanto-juvenil e passando por teatro, novela e memória. Em cada página escrita, Ubiratan Teixeira deixava suas digitais em forma de um estilo inconfundível que valorizava as classes menos favorecidas na prosa de ficção sem esquecer as mais delicadas e elaboradas obras de arte nos ensaios e crônicas sobre a cultura em geral.

Eis aqui, elencadas suas obras publicadas:

  • Pequeno Dicionário de Teatro – (1972) – ampliado e relançado em 2005 com o título de Dicionário de Teatro
  • Sol dos navegantes (1975) – conto
  • Educação Artística para o 1º grau (1975) – obra técnica
  • Histórias de amar e morrer (1978) – conto
  • Vela ao crucificado (1979) – conto – Reeditado em 2010 com acréscimo da peça teatral (adaptada por Wílson Martins) e do roteiro cinematográfico (elaborado por Frederico Machado)
  • Caminho sem tempo (1979) – teatro
  • O Banquete (1986) – novela
  • Bento e o boi – (1987) teatro
  • O teatro que fiz, o espetáculo que vivi (1989) – memória
  • Búli-Búli (1992) – literatura infantil
  • A Ilha (1998) – novela
  • Pessoas – (1999) – contos
  • Labirintos (2009) – Novela
  • Diário de Campo (2010) – crônicas
  • Bastidores (2012) – crônicas

Como não poderia deixar de ser, meu primeiro contato com Ubiratan Teixeira veio através das páginas dos livros. Era o ano de 1987. Eu era estudante do curso de Construção Civil da antiga Escola Técnica Federal do Maranhão, que depois teve sua identidade alterada para Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e atualmente se chama Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifma). Mesmo fazendo um curso no qual os cálculos eram um imperativo, sempre que podia eu estava na biblioteca da instituição, vasculhando as prateleiras em busca de algo para ler. Um dia, quase por acidente, meus dedos ávidos de novidades tocaram a capa de um pequeno volume intitulado O Banquete.

Naquela época, eu acabava de regressar ao meu torrão natal e ainda me sentia um estrangeiro na própria terra. Procurava conhecer então o terreno onde pisava a partir de incessantes leituras das obras dos autores locais. Lia tudo o que passava diante dos meus olhos, mas confesso que me senti incomodado diante daquela narrativa pouco convencional. O livro foi lido em algumas horas, mas a sensação de desconforto diante daquelas inusitadas cenas me acompanhou durante semanas. Posso dizer que foi esse livro de Ubiratan Teixeira que abriu caminho para que eu mergulhasse mais profundamente na produção em prosa de nosso Maranhão.

Anos depois, já estudando Letras na Universidade Federal do Maranhão, assaltou-me a certeza de que nós mesmos, maranhenses de nascimento ou por adoção, desconhecíamos nossa produção literária. Havia (e ainda há) um fértil terreno vazio a ser explorado com relação aos estudos das letras de nosso Estado. Comecei então a colecionar recortes de jornais que falassem sobre obras, autores e momentos literários de minha província. Eis que novamente Ubiratan Teixeira cruza com meu caminho…

Um dos primeiros jornais que guardei era uma reportagem sobre as dificuldades encontradas por um escritor em nosso Estado. Ilustrando o texto estava uma imensa foto de Ubiratan Teixeira diante de uma máquina de escrever. Como pano de fundo, uma estante com livros, livros, muitos livros. Mal sabia eu que alguns anos depois, aquele escritor tão estimado sairia das páginas dos jornais e se tornaria uma realidade diante de meus olhos em eventos, lançamentos de livros, palestras, feiras literárias, festivais de literatura e bate-papo com estudantes.

Quando em 2005 para 2006, conquistei, com o livro Restos de Vidas Perdidas, o prêmio Odylo Costa, filho no Concurso Cidade de São Luís, novamente Ubiratan Teixeira aparecia diante de mim em forma de jurado. Somente alguns meses depois do resultado divulgado soube que ele havia sido um dos avaliadores, o que me deixou deveras honrado e que, ao meu ver, valorizou ainda mais o prêmio por mim recebido.

Além dos contatos pessoais com o Ubiratan ser humano, tive na condição de estudioso da literatura maranhense inúmeros momentos com o Ubiratan de papel, em forma de livros e de artigos de jornal. Li avidamente muitos de seus trabalhos sem ter a menor ideia de que hoje estaria aqui, no mesmo local onde o vi pela última vez, fazendo-lhe esta homenagem.

Como já disse, obra de Ubiratan Teixeira é vasta e variada, indo desde trabalhos técnicos até obras voltadas para o público infanto-juvenil, passando por contos, novelas, romances, peças de teatro, crônicas e depoimentos. Cada página sua era temperada com um estilo próprio, reconhecível à distância pelos admirados de seus textos.

Como cronista, Ubiratan Teixeira atuou durante décadas na imprensa maranhense, produzindo uma infinidade de textos sobre inúmeros assuntos, mas com preferência pela discussão sobre a vida intelectual de nossa cidade. Ele era um crítico ácido e feroz do abandono cultural não só da Ilha, mas de todo o Estado. Reclamava com frequência da falta de assistência aos artistas e produtores culturais e derramava-se de felicidade quando via que algum projeto estava dando certo. Contudo, infelizmente esses arroubos de alegria não eram tão constantes em suas páginas, pois o que imperava e ainda impera em nossa terra é o abandono dos artistas e produtores culturais e o olvido por parte de algumas das autoridades constituídas.

Em seus contos, nosso escritor optou por dar voz aos desvalidos, às pessoas que tiveram sua dignidade e até mesmo a cidadania negadas por um processo social e histórico que se repete ao longo dos tempos. Basta lembrar o conto Vela ao Crucificado, uma brilhante metáfora das condições desumanas de uma família que se vê sem ter o que fazer diante de uma situação indesejada da morte de um de seus filhos. Nessa breve, mas contundente passagem, o narrador não se limita a contar uma história, mas sim busca levar o leitor a uma reflexão sobre a própria condição desumana em que vive uma parcela da sociedade. Na obra, pessoas, insetos, miséria e sofrimento se mesclam simbioticamente, formando um todo compacto em que prevalece a desesperança em dias melhores.

Ainda com relação à narrativa curta, aproveito também para destacar o conto Cinderela do Lixão, que se encontra enfeixado no volume Pessoas, de 1999. Como o próprio título já indica, trata-se da história de alguém que sobrevive à margem da sociedade. O conto é narrado por um homem que se autodenomina um Predador e que naquela noite sai à caça de sua vítima. No decorrer da narrativa, dois universos sociais se bifurcam e depois se fundem: de um lado está o jornalista que deseja saciar sua libido nas jovens carnes de uma garota bela e aparentemente ingênua. Do outro, está o mundo-cão que se descortina nas cidades assim que as pessoas voltam para suas casas depois de um dia de trabalho. Quando esses dois universos paralelos se encontram, alguém tem que sair perdendo. E Ubiratan Teixeira demonstrava em seus contos que quem perde é a sociedade como um todo.

Em suas novelas, o prosador maranhense preferia uma forma mais arrojada de narrar as histórias perpetradas, que podem até parecer absurdas em alguns trechos para quem não está acostumado com os meandros da ficção moderna, mas que mantém um forte traço de coerência quando vistas no conjunto. A mistura de eventos inusitados dentro de situações verossímeis e a fragmentação do enredo desnorteiam o leitor e muitas vezes exigem uma leitura mais atenta de determinados trechos. É o que acontece, por exemplo, em O Banquete e A Ilha. O próprio autor, ciente de que sua obra poderia despertar dúvidas, adverte que:

Os menos avisados podem ser tentados a incluir esta história no gênero ficção científica: no que cometerão uma injustiça de avaliação à rica vida cotidiana desta fantástica cidade de São Luís e arredores. A começar pelos personagens, todos carinhosamente resgatados do dia-a-dia de nossa vida cultural, e das locações por onde essa gente se movimenta. No meu entender raras cidades brasileiras guardam um acervo de lendas tão ricos como São Luís. (TEIXEIRA, 1998, pág. 5)

A contribuição de Ubiratan Teixeira para o teatro parecia ser sua maior fonte de orgulho. Ele adorava contar e escrever sobre sua atuação no palco, nos bastidores ou na elaboração de seus textos. Algumas obras desse autor são essenciais para qualquer pessoa que pretenda conhecer um pouco da produção teatral no Maranhão. É o caso do pequenino, mas muito interessante O teatro que fiz; o espetáculo que vivi, que traz uma radiografia do movimento teatral em São Luís a partir da segunda metade do século XX, e do depoimento cedido a Aldo Leite para compor o livro Memórias do Teatro Maranhense. Esse depoimento, por sinal, ajuda a completar as ideias iniciadas no volume anteriormente citado.

Indiscutível também é a importância de seu Pequeno Dicionário de Teatro, que depois se avolumou e recebeu o título de Dicionário de Teatro, ao ser reeditado pelo Instituto Geia, em 2005. O livro, desde sua primeira edição, em 1972, mereceu elogios de diversos profissionais ligados às artes cênicas. Esse trabalho traz uma diversidade de termos técnicos e já se tornou uma referência obrigatória para estudantes e professores. Segundo palavras da escritora e pesquisadora Arlete Nogueira da Cruz, esse livro é bem mais que uma coleção de verbetes, transformou-se em um documento sobre a arte em geral.

Sabedor de que reunir crônicas publicadas em jornais ao longo de décadas é uma tarefa árdua, Ubiratan Teixeira, quase no final de sua jornada, reuniu vários de seus textos sobre teatro em dois livros: Diário de Campo e Bastidores. Nessas duas obras, o leitor encontra muito mais que textos sobre a produção e a representação cênica no Maranhão. Encontra o testemunho de um homem que não apenas registrou a história de uma época, mas que também que viveu e que ajudou a construir essa própria história do teatro em nossas terras durante mais de meio século.

Para terminar esses breves comentários sobre a obra de meu antecessor, falarei um pouco de uma de suas facetas menos conhecidas, a de autor de obra voltada para o público infantil. Seu único livro publicado nesse gênero foi Búli-Búli, com ilustrações de Jesus Santos. O livro é uma alegoria que versa sobre assuntos diversos, como família, leituras, amizade, transformações e morte. Em determinado momento o narrador começou a entender que:

Neste mundo em que vivemos tudo tem um começo e tem um fim para os nossos olhos. Comecei a sentir que tudo o que é um dia muda. (TEIXEIRA, 1992, p. 24).

Ele tinha razão, tudo muda. Mesmo com a saúde abalada, Ubiratan Teixeira continuou produzindo suas crônicas e alegrando seus admiradores. Até que o guerreiro das palavras silenciou.

Lembro-me de que fiquei aquele final de semana inteiro lendo e escrevendo, sem acesso ao rádio, televisão ou à internet. Na segunda-feira, como de costume, acordei cedo, e comecei a me preparar para mais uma semana de trabalho. Ao abrir o jornal, a notícia era péssima: Ubiratan Teixeira havia falecido.

Era ainda muito cedo e minhas aulas só começariam depois das nove. Decidi então ir pela última vez ao encontro daquele homem casmurro e brincalhão ao mesmo tempo. E foi aqui, neste mesmo salão, que me despedi de Ubiratan Teixeira, do lado físico apenas, pois suas palavras e suas obras acompanharão para sempre seus leitores e seus admiradores. E eu, senhores e senhoras, sou um dos leitores e admiradores dessa vasta obra.

Chegando à Universidade Federal do Maranhão, dirigi-me à sala de aula. Naquele espaço ainda vazio, lembrei-me daquela fotografia de Ubiratan diante da máquina de escrever. Liguei o computador e escrevi um artigo de despedida para aquele grande teatrólogo, cronista e prosador. Mas não poderia ser um texto comum. Ele merecia algo que trouxesse tudo o que ele mais amava e tudo por que ele lutou durante sua jornada. Então escrevi o breve texto intitulado Um Espetáculo Chamado Ubiratan, que dias depois saiu publicado em O Estado do Maranhão.

Peço permissão a vocês para ler essa pequena crônica, na qual em dez curtíssimas cenas, repasso um pouco do que foi aquele homem que fez de sua vida um palco voltado para as letras. Eis o texto:

As letras maranhenses perderam um grande escritor. Ubiratan Teixeira foi um homem dedicado à vida cultural da cidade e que fez de sua vida uma grande obra de arte. Como forma de homenagem, colocamos a seguir um esboço de um espetáculo que já aconteceu e que nunca mais vai se repetir. As dez cenas a seguir são apenas fruto da imaginação de um leitor e admirador que sentirá falta dos textos, do estilo e das ironias refinadas desse cultor das palavras.

Cena 1 – (Um quarto iluminado. Pessoas entram e saem. Sussurros) As cortinas da vida se abrem e, sob um raio de luz, aparece no palco da vida a criança que será registrada com o nome de Ubiratan Teixeira. Silêncio total. O silêncio é cortado por um forte vagido de criança. Depois, festa e alegria.

Cena 2 – (Uma rua de um bairro. Muitas crianças em cena.) O garoto cresce, leva uma vida de menino solto pelos bairros de sua infância e juventude. Encanta-se com as primeiras leituras. Encontra refúgio nas palavras. Aos poucos percebe que viver é mais que respirar, andar, correr. Descobre que viver é também sonhar, produzir e lutar por dias melhores.

Cena 3 – (Em sala de aula) O adolescente rebelde procura nas palavras uma forma não apenas de sobrevivência, mas sim uma razão de viver. Recebe elogios de diversos mestres e percebe que seu caminho está diretamente ligado à paixão pelo texto escrito. O teatro aos poucos vai entrando em sua vida.

Cena 4 – (Uma sala de espelhos. Ubiratan anda de um lado para o outro, inquieto) Para muitos, o jovem sonhador, de forma alucinada, divide-se entre as reportagens, as crônicas, as polêmicas jornalísticas, a família, o teatro, os estudos, os amigos e sua paixão por sua esposa.  Mas, na verdade, ele não se dividia. Ele se multiplicava para doar-se a tudo e a todos, para ser pai, esposo, profissional, pesquisador e amigo.

Cena 5 – (Ubiratan diante de sua máquina de escrever, cercado de livros) O escritor ganha vulto. Os livros começam a aparecer: Pequeno dicionário de Teatro, Sol dos navegantes, História de amar e morrer, Vela ao crucificado, Caminhos sem tempo, O banquete, Bento e o boi, O teatro que fiz; o espetáculo que vi, Búli-Búli, A Ilha, Pessoas, Dicionário de Teatro, Labirintos, Diário de campo e Bastidores.

Cena 6 – (Salão da Academia Maranhense de Letras – Várias cenas em sequência aleatória) Ubiratan toma posse na Academia. Faz seu discurso. Reúne-se com os confrades. Recebe prêmios e homenagens. Lança livros. Assiste a eventos. Sempre acompanhado da esposa, da família e de diversos amigos.

Cena 7 – (Um pátio de escola) Ubiratan Teixeira conversa com estudantes. Conta passagens de sua vida. Ri com os jovens. Responde a diversas perguntas. Reclama sobre a invisibilidade do autor maranhense. Incita a juventude a ler, a pesquisar, a estudar.

Cena 8 – (Um tablado de teatro) O teatrólogo e diretor Ubiratan Teixeira orienta seus atores. Faz a marcação das cenas. Repete as falas. Reclama das falhas perceptíveis apenas a seus olhos e ouvidos treinados pelo tempo e pela experiência de quem viveu vários anos ligado às artes dramáticas.

Cena 9 – (Diante da mesa de trabalho) O articulista escreve sua crônica semanal. Vocifera contra a enfermidade que o devora. Consulta um dicionário. Volta a escrever. O papel em branco é seu desafio diário. Coloca o ponto final na crônica e a envia para o jornal. Levanta-se. Olha ao redor. Abre a porta e sai pela porta da frente, de onde emana um jorro de luz. Missão cumprida.

Cena 10 – Lentamente as luzes se apagam, as cortinas descem. Luzes. Orações.

Aplausos!

Para concluir, pois sei que muito já me alonguei, devo dizer que me sinto honrado por ingressar nesta nobre Casa, assim também como me sinto honrado em pertencer a uma geração que fez da literatura uma das razões de sua vida. Hagamenom de Jesus, Antônio Ailton, Bioque Mesito, Ricardo Leão, Dino Cavalcante, Samarone Marinho, Lindalva Barros, Jorgeane Braga, Dyl Pires, Geane Fiddan, Geraldo Iensen, Marcos Fábio Belo Matos, Lúcia Santos, Bruno Azevêdo, eu e muitos outros que começaram suas incursões no mundo das letras nos anos 90 do século passado somos herdeiros de grandes nomes como Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, José Chagas, João Mohana, Arlete Nogueira da Cruz, Salgado Maranhão, Ribamar Galiza, Conceição Aboud Neves, Josué Montello, Ferreira Gullar, Lucy Teixeira, Sebastião Moreira Duarte, Sonia Almeida, Clóvis Ramos, Dagmar Destêrro,  Jomar Moraes, Nascimento Moraes Filho, Luís Augusto Cassas, Ubiratan Teixeira, José Maria Nascimento,  Raimundo Fontenelle, Paulo Melo Souza, Celso Borges, Rossini Corrêa, Alberico Carneiro, Waldemiro Viana, José Ewerton Neto e de tantos outros que não caberiam nestas páginas, mas que nos serviram como modelo de intelectuais que tanto lutam e lutaram para que nossa terra fosse reconhecida como lugar de arte e de cultura.

Ao entrar para esta Casa, trago comigo o agradecimento a tantas gerações que me servem e me serviram como fonte de conhecimento. A todos o meu muito obrigado.

REFERÊNCIAS

CALMON, Pedro.  História do Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963. v. VI.

CRUZ, Arlete Nogueira da. Sal e Sol. Rio de Janeiro: Iago, 2006

MAESTRI, Mário. Tasso Fragoso e a Guerra da Tríplice Aliança: história e ideologia. In: Revista O Olho da História nº 18. Salvador, jul-2012.

NOBERTO, Antônio. Discurso de posse do escritor Antônio Noberto na cadeira de número 43 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, patroneada por Tasso Fragoso. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, nº 39, São Luís: IHGM, dez-2011.

VIANA, Fernando [Feliciano Ventura]. Passarela e outros perfis. São Luís: AML/SIOGE, 1991.

VIANA, Waldemiro. Passarela do centenário e outros perfis. São Luís: AML, 2008.

 
DISCURSO DE RECEPÇÃO por Ceres Costa Fernandes

Escritor e professor José Neres Costa

A minha primeira palavra será de agradecimento pelo júbilo que me trouxe vosso carinhoso convite. Por conhecer-vos, não hesitei em aceitar o desafio, o privilégio de abrir-vos as portas e dar-vos as boas-vindas na hora ímpar do vosso encontro com esta Academia. Faz-se mister reconhecer que, nesta hora, a minha função é apenas simbólica. Estas gloriosas portas foram, na verdade, abertas pelo vosso talento, pela cultural e multiforme bagagem que trazeis convosco: as obras editadas, as alongadas pesquisas e os estudos efetuados, e, principalmente, na apreciação, na crítica e divulgação dos numerosos autores maranhenses a quem tendes dedicado grande parte da vossa, não tão longa, mas intensa vida intelectual, obras  que agora vos acompanham nesta chegada vitoriosa..

Eis-me aqui para saudar-vos.

Minhas Senhoras, Meus Senhores,

Recebemos, em nosso convívio, o jovem escritor, intelectual e educador José Neres Costa, a quem saudamos agora como o mais novo membro da Academia Maranhense de Letras e, também, como o benjamim entre seus pares.  O recém-chegado terá a árdua missão de suceder, não substituir, figuras das mais proeminentes deste sodalício, o médico, escritor, cientista e professor Bacelar Portela, membro fundador de vários cursos da Universidade Federal do Maranhão, e o nosso querido Ubiratan Teixeira, dramaturgo, contista e cronista, dos maiores desta Casa, último ocupante da Cadeira n 36.

Senhoras e Senhores

Não tenhamos, porém, cuidados, os legados culturais e literários deixados por eles permanecerão enriquecendo esta Casa e a cultura maranhense. O jovem que chega para ocupar a Cadeira nº 36, patroneada por Tasso Fragoso e ocupada por seus antecessores, terá a obrigação estatutária e o compromisso moral e afetivo de preservar-lhes os feitos. Para que a imortalidade acadêmica se consubstancie e sejam agregados os antigos valores aos novos.

 “A imortalidade não é patrimônio dos acadêmicos, mas da Academia”, diz Otto Lara Rezende, na sua oração de posse da Academia Brasileira de Letras. E, na mesma oração, advoga que: “a renovação se faça sempre sem precipitação e sempre sem preconceito de qualquer espécie, inclusive sem o receio do que é novo, como nova sempre nova e inovadora, há de ser a juventude”.

 

O desconhecimento da história das academias, particularmente da Academia Maranhense de Letras, leva pessoas alheias a essas instituições a cultivarem a concepção errônea de que existe uma idade acadêmica, uma idade obrigatória de amadurecimento biológico para os candidatos serem aceitos na convivência irmã dos confrades. Não nos é desconhecido que quando acontece o amadurecimento literário, o ponto exato em que o escritor está modelado, depurado no crisol da atividade intelectual, pronto para o reconhecimento, a idade biológica muitas vezes está em descompasso com o amadurecimento do seu talento. Cada ser humano tem o seu momento de desabroche. Graciliano Ramos, Giuseppe Lampedusa, Abgar Renault, entre outros, só mostraram o melhor de sua literatura em idade um tanto distante da juventude; outros compuseram suas melhores obras, mal saídos do período extenso que cobre hoje a adolescência. Quem duvidará disso ao ler as obras de juventude de Gonçalves Dias, Castro Alves, Rimbaud e Aluísio Azevedo, dentre tantos.

Senhoras e Senhores,

Se a função primordial das academias é defender e preservar a cultura de um povo, desempenhar o papel de sua guardiã; é verdade também que temos o dever, acadêmico, e não academicista, de promover e apoiar a renovação  da nossa língua e dos valores literários.

Diz-nos Mário Meireles, na Antologia da Academia Maranhense de Letras, quando da celebração do seu cinquentenário – 1908 /1958 –, a respeito do contexto literário e cultural em que foi fundada a  AML:

Na penúltima e quinta, na fase do decadentismo, que (se) fixa entre os anos de 1894 e 1932, é que nasce a Academia Maranhense de Letras, como núcleo propulsor da energia que se fazia necessário concentrar para a consecução do ideal objetivado.

          Fundam-na, em sessão que se realizou às 19 horas do dia 10 de agosto de 1908, na Biblioteca Pública do Estado, então funcionando no prédio que hoje é sede própria do sodalício (aqui entre estas paredes), Antônio Lobo, diretor do estabelecimento, Ribeiro do Amaral, Barbosa de Godóis, Domingos Barbosa, Corrêa de Araújo, Vieira da Silva, Astolfo Marques, Alfredo de Assis, Xavier de Carvalho, Godofredo Viana, maranhenses todos, e Fran Paxeco, português e Clodoaldo Freitas, piauiense. (grifos nossos)

 

 

Fato deveras curioso a notar: o grupo era majoritariamente composto de jovens, o mais idoso, Ribeiro do Amaral, o primeiro presidente, contava com a provecta idade de 55 anos. O mais jovem, Vieira da Silva, somava apenas 21 anos! A maioria situava-se entre a faixa dos 20 aos 30 anos.

Essa tendência ao acolhimento da juventude não se esgotou à época da fundação. Bem mais adiante, registramos alguns dos nossos mais relevantes nomes, que também ingressaram na Academia Maranhense de Letras, no vigor da juventude: José Sarney, 22 anos, Jomar Moraes, 29 e Josué Montello, 31; e note-se, nenhum deles, à época, alcançou a láurea por meio  de  influência política ou financeira  que, de resto, não as possuíam.

Senhoras e Senhores,

O menino José Ribamar Neres veio a nascer na mesma cidade do santo de seu nome.  Mas o nome e o lugar de nascimento, ao contrário do que se espera que eu o diga, não lhe conferiu predestinação alguma. Neres não cria raízes na cidade mágica das romarias. Seria arrancado dali com apenas dois meses de nascido. Acompanhando a família, interna-se país adentro, com seus padrinhos, que o tomam para criar, e que, seguindo a tendência da época, vão para Brasília, cidade nascente, buscar oportunidades de trabalho..

Em Brasília, cursa a alfabetização e inicia os estudos básicos no Centro de Ensino nº 02, no Gama. O tempo das boas oportunidades de trabalho vão se esgotando no Distrito Federal e a família segue em busca de um novo eldorado. Muda-se para Luziânia – Goiás. Lá, nos colégios Estrela Dalva e Alceu de Araújo Roriz, o menino estuda até a sétima série. Após esse tempo, retorna a São Luís, lugar onde termina o ensino básico e se encerra o périplo familiar.

Quando o talento existe, o valor porventura determinante da biografia é desimportante. Mas, sutis desvios de percurso embutidos no destino podem conduzir a uma não imediatamente percebida epifania a iluminar uma vocação. Conta-me José Neres que, no Distrito Federal e em Luziânia, foi alfabetizado e estudou os primeiros textos, não com as cartilhas tipo “Ivo viu a uva”, mas com poemas de Cora Coralina e depois Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e Mário Quintana. Não é pouca coisa. Quantas crianças tiveram coincidente o início da sua educação com o encontro da arte?

Não terá sido isso fundamental no despertar literário do menino que fez em São Luís cursos técnicos, desde o antigo segundo grau, pensou em ser engenheiro e matemático, e depois achou o seu caminho no estudo de Letras?

Seguindo a sua escolha, Neres faz o Curso de Letras na Universidade Federal do Maranhão, seguido de Especialização em Literatura Brasileira, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e, já mirando o magistério, outra de suas vocações despertadas, faz o Mestrado em Educação na Universidade Católica de Brasília.

Ele lembra o primeiro livro lido: “A Tulipa Negra”, de Alexandre Dumas, pai, aos oito anos.  Depois desse livro (diz ele) não parei mais de ler. “De lá para cá foram inúmeros os autores lidos. Alguns não deixam de frequentar minhas leituras como é o caso de Neruda, Borges, Cortázar, Camus, Guimarães Rosa, Isabel Allende, Rubem Fonseca, Gullar, Augusto dos Anjos Josué Montello, Mia Couto… Sempre gostei de ler e escrever, a par de jogar futebol,.”  Outra paixão confessa, importante saber, desde que Neres  não é de confessar muita coisa.

   O gosto pelo ensino surge, talvez, ele não afirma, com a ajuda que prestava aos colegas desde muito cedo. Apaixonado pela leitura e pela matemática, era-lhe fácil e prazeroso assumir o papel de professor. José Neres nasceu professor como quem nasce músico ou pintor. Curiosamente, só vai despertar para isso no decorrer do Curso de Letras.

Aí, começa o périplo de José Neres, ministrando aulas em diversos colégios de ensino médio, até fixar-se, em 2001, na Faculdade Atenas Maranhense – FAMA, onde é professor emérito e, a partir de 2013, na Universidade Federal do Maranhão, como professor substituto.

Recebeu Prêmios e títulos:

2102 – Medalha do Bicentenário de João Francisco Lisboa, Academia Maranhense de Letras.

2006 – A Importância do livro no Brasil do Século XXI, Academia Brasileira de Letras/folha Dirigida.

2005 – Prêmio  Odylo Costa, filho (contos), Prefeitura de São Luís

1994 – Honra ao Mérito (Poema), Instituto de Poesia Internacional.

1994 – Menção Honrosa (conjunto de poemas), Instituto de Poesia Internacional.

Membro de corpo editorial da revista Ágora Ateniense (desde 2010)  e Revista de Letras da FAMA (desde 2004).

Livros publicados:

Lousa rabiscada – artigos reunidos. São Luís, 2013;

Maranhão na ponta da língua: palavras e expressões maranhenses, com Lindalva Barros. São Luís 2011;

O Último desejo de Catirina. Edição digital. São Luís, 2010;

Sombras na escuridão, contos, edição digital, São Luís,  2010;

Montello, o Benjamin da Academia, Ed.Carajás, 2008;

50 Pequenas traições. Contos Edição do autor, São Luís, 2007;

Restos de vidas perdidas. Ed. Carajás, 2003;

Estratégias para matar um escritor em formação. São Luís, 2005

Negra Rosa e outros poemas.  Cancioneiro. 2 ed. São Luís, 2003.

Poemas de desamor. São Luís 2003;

A mulher de Potifar. São Luís, 2002;

O discurso e as ideias, com Dino Cavalcante. São Luís, 2002.

Acrescentemos aos já editados mais de uma centena de artigos e ensaios publicados em jornais, que estão a merecer edição.

Dos trabalhos editados, na intenção de não tornar demasiado o vosso tempo, destacarei apenas três, que muito me agradam.

      De José Neres, contista, escolhi e vos apresento o livro 50 pequenas traições, na linha minimalista de Dalton Trevisan, influência confessa do autor. Sua leitura lembra também as peripécias dos contos do Decameron de Boccaccio, pelas situações divertidas, permeadas de sensualidade e fina ironia.. É interessante notar que as traições são sempre femininas. As mulheres são as protagonistas e revelam-se bem mais espertas que os homens, a quem enganam. Os contos mínimos narram mais situações que histórias. Neres consegue captar, usando linguagem rápida, concisa e irônica, sentimentos, desvios de personalidade, desejos escusos e paixões. Minicontos exemplares com desfechos no clímax da narrativa, como se quer de contos bem feitos.

                ATRÁS DA PORTA

 

          Cinicamente, dizia para a esposa:

– Mulher minha tem é que ficar em casa. Não anda em festa, não. Eu posso sair e voltar na hora que quiser, entendeu?

      Ela concordava com a cabeça.

– E tem mais, quando eu chegar, nada de perguntar onde eu estive ou com quem eu saí. Certo?

       Ela assentia com a cabeça.

      – Finalmente, quando eu for para as farras, deixarei minha alma atrás da porta para te proteger. O que vou usar com as outras mulheres é o corpo. Certo?  A minha alma ficará aqui, atrás da porta…

     Um dia sentiu-se mal na festa. Voltou mais cedo para casa, No quarto do casal, encontrou apenas a alma da esposa dependurada atrás da porta, bem ao lado da dele.

De José Neres, poeta, apresento-vos, Negra Rosa e outros poemas, o belo cancioneiro, composto de oito cantos, que narra a lenda envolvendo a profecia da negra virgem, predestinada a matar o touro negro com uma estrela na testa, o Rei D. Sebastião encantado. Nua, com um punhal de prata na mão, descalça na areia branca, em noite de lua cheia, ela golpeará o touro e, em vencendo essa luta, libertará  todo o seu povo:

Canto VI:

OURO E PRATA

Linda negra Rosa,

A religião

Mudar não posso

Não posso ter teu

Belo corpo não,

Mas posso viver

No teu coração

Libertar escravo

É matar patrão,

Não posso viver

Sem meu coração.

Toma ouro e prata,

Salva teu irmão,

Sei o que é viver em escravidão.

Adeus, vou embora,

Não volto mais não,

Leva prata e ouro

E meu coração

Quem já foi escravo

Do teu olhar não

Pode ter patrão.

Do ensaísta e pesquisador, destaco, Montello, o benjamin da academia. São Luís, Carajás, 2008. Trata-se de um ensaio, resultante de longa e acurada pesquisa sobre a vida do escritor Josué Montello, uma das admirações e influência literária. O ensaio concentra-se na trajetória que Josué percorreu, de desconhecido escritor de província a membro prestigiado e o mais jovem, na ocasião do seu ingresso na Academia Brasileira de Letras. Não sem antes adentrar a nossa própria Academia.

Pesquisa viva, texto de linguagem instigante, escrito a modo de romance de ação, leva o leitor a seguir com interesse os passos de Josué (diga-se, a bem da verdade, cuidadosamente planejados pelo próprio, como ele bem o confessa), rumo à Academia Brasileira de Letras, um dos seus bem demarcados objetivos de vida.

O texto de José Neres romantiza a narrativa, prende o leitor interessado no desfecho, mesmo que o final seja de todos consabido. Mantém o suspense até o momento em que, vitorioso, Josué Montello assume a Cadeira nº 29 da ABL com apenas 37  anos e confirma o assinalado no  título da obra.

Senhoras e Senhores,

Da bagagem cultural multiforme de professor de Letras, poeta, contista, crítico literário, pesquisador e ensaísta, que carrega nosso homenageado, ressalto a importância dos seus textos de crítica literária, publicados na mídia, que tratam dos escritores maranhenses, principalmente dos escritores recentes. O conhecimento e estudo destes nomes, dos escritores que produziram e produzem suas obras escritas a partir da segunda metade do século XX, praticamente inexistem na história da Literatura Maranhense, ressaltando-se pouquíssimas e honrosas exceções.

Os textos escritos por Neres, que chegam quase a duas centenas, refletem uma dedicação certamente decorrente de seu ofício como professor e  do incansável leitor e estudioso da literatura brasileira e da  literatura  maranhense.

José Neres estuda e ensinando aprende, conforme nos ilumina Guimarães Rosa. Mas não se contenta em ser mestre e aprendiz. Quer dividir esta aprendizagem com muitos e prolongar a sua sala de aula nos periódicos e através da comunicação eletrônica e virtual, lidando com a delicada matéria da crítica literária.

Entendemos que o escritor José Neres Costa está empreendendo uma cruzada em prol do reconhecimento e leitura dos autores maranhenses contemporâneos, guardadas as devidas proporções, semelhante à que se empenhava, no passado, Antônio Lobo.

Prefaciando o livro Vida e obra de Antônio Lobo, de Jomar Morais, José Sarney o chama de “agitador de ideias, animando com a vibração do seu talento, as coisas do espírito, na São Luís do seu tempo.” Antônio Lobo foi professor secundário, bibliotecário, ensaísta e critico literário. O intelectual que dá nome a nossa Casa, e um dos líderes do movimento de jovens intelectuais que fundou a Academia Maranhense de Letras em 1908.

Permitam-me ilustrar o que digo, com este excerto, retirado de uma conferência proferida, em 1939, por Assis Brasil, denominada Recordações de Antônio Lobo,

Diz Assis Brasil:

Há egoístas que guardam consigo o que aprendem para sua exclusiva utilidade ou sem utilidade alguma. Constitui, ao contrário, prazer verdadeiro para Antônio Lobo transformar as suas palestras em lições ou informações que têm o precioso condão de interessar e prender pela simplicidade e clareza com que ele expõe, parecendo que apenas relembra o que o auditor já conhece. Aquilo que, de mais sugestivo ou cientificamente proveitoso colheu na leitura dos últimos livros e revistas que recebeu da Europa. (Alfredo de Assis Castro. IN Lobo Antônio. Os novos atenienses – orelha. 3 ed. São Luís: AML/ADUEMA, 2008).

Senhoras e Senhores,

Sentindo a falta de fortuna crítica sobre o autor para compor esta peça, falta que assola os escritores maranhenses contemporâneos, e sobrelevando  o grande número de textos de José Neres espalhados,  e ainda não reunidos em livro, brilho ainda somente entrevisto, atrevi-me a pedir ao nosso poeta maior, Nauro Machado, coração de perene acolhimento aos intelectuais jovens, a quem dá força e lidera, tão acessível e humilde monstro sagrado, como se grande não fora, uma apreciação do nosso jovem escritor José  Neres, por quem temos uma amizade e admiração conjunta. E, sem nada combinarmos, a apreciação é a que vos apresento a seguir:

           Diz Nauro Machado: “O que interessa sobremaneira no escritor-professor José Neres, dono de um estilo sóbrio e de uma escorreita fluência vocabular, além da imparcialidade dos seus trabalhos ensaísticos, é o estudo minucioso das características a cada um dos escritores por ele analisados e como que pretendendo dar uma continuidade, futuramente àquilo feito, em sua época, por Antônio Lobo, em livro sugestivamente chamado Os novos atenienses, dedicado, todo ele, à literatura escrita exclusivamente por maranhenses: o que ele, Neres, tem feito através de nossos periódicos, sempre escrevendo sobre os livros aqui lançados e por ele considerados de valor.

……………………………………………………………………………………………………………….  

Acredito que José Neres desenvolverá ao longo do tempo, pelo seu valor inquestionável, e profundo conhecimento dos que aqui forjaram e forjam uma obra a ratificar a grandeza do que literariamente ainda somos, um painel radioso para a expectativa do grandioso futuro que nos aguarda..

 

Interessante é que ambos, eu e Nauro, fomos buscar no divulgador dos talentos da sua época, Antônio Lobo, o parâmetro para definir o que tenta fazer  o jovem escritor que agora nos chega com a literatura maranhense que é produzida na contemporaneidade..

Esse trabalho também merece do acadêmico e polígrafo, Ronaldo Costa Fernandes, outra referência da literatura maranhense da atualidade, várias vezes premiado, nacional e internacionalmente, a apreciação e o reconhecimento, diz ele:

     José Neres vem se revelando um pesquisador da literatura maranhense, contribuindo para que a nossa expressão literária tenha mais amplitude e chegue a um número maior de leitores. É um trabalho árduo, que certamente dará ainda mais bons frutos, que amadurecerão ao longo dos anos, decantados pela experiência e argúcia. José Neres é uma dessas figuras do meio cultural maranhense que merece incentivo por seu tirocínio, inteligência e escrita ágil e incisiva.

José Neres segue a linha de ampliação do espaço da sala de aula, como um serviço que os professores podem e devem oferecer à comunidade. Esse desejo de difundir nossa cultura literária é claramente expresso pelo novel acadêmico, em entrevista à Maranharte:

Quando era garoto, quase não ouvi falar das grandes figuras do Maranhão. Sabia quase nada da minha terra. Ao voltar, já quase adulto, encantei-me com as maravilhas as quais não pude aproveitar na infância e na adolescência. Comecei então a pesquisar e cada vez percebia que quem foi criado aqui também pouco sabia. Li tudo o que pude e comecei a colecionar reportagens de jornais e revistas.

Revela com emoção e entusiasmo na voz: “A parte crítica é uma necessidade. Diz ele, Fico pensando que se explora tão pouco os nossos escritores com pouquíssimos mergulhos na crítica. Então tento ocupar um espaço, que parece que ninguém quer o de estudar nossos autores contemporâneos.”

.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

É consabido que o pragmatismo e a lei do menor esforço sempre foram a mola propulsora das inovações e do progresso. A posteridade, diz Emile Faguet, só aprecia os escritores sucintos; “la posterité n’aime que les écrivains concis”.

E sabem quem cita esta frase? Algum escritor pós-moderno? Não, Fernando Pessoa,  no seu ensaio Da Literatura moderna: IN Obra em prosa. Ed Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1990, p 488. Ensaio sem data, mas, provavelmente escrito em 1925.

E prossegue Pessoa:

     A fama, no referente aos poetas menores e aos prosadores menores, estreitar-se-á de antologia para antologia. Dagora a cem anos será impossível lançar uma edição completa de Byron, ou de Shelley ou de Goethe, o poeta, ou de Hugo. Mesmo as modernas seleções deles serão cada vez mais podadas pela tensão e pela tempestade do tempo [..].

Cada nação terá os seus grandes livros fundamentais e uma ou duas antologias do restante. A competição entre os mortos é mais terrível do que a competição entre os vivos; os mortos são mais numerosos.

          

             Fernando Pessoa concorda com o caminho que nos aponta Faguet, o caminho que a literatura, daí por diante, seguiria, como premonição dos nossos tempos urgentes. Repito: A posteridade só aprecia os escritores concisos.

O professor José Neres Costa acompanha os ”tempos urgentes”, a tendência da comunicação virtual como meio de expandir os seus trabalhos.

       Queiramos ou não, na era das tecnologias, em que as inovações eletrônicas facilitam a comunicação verbal, a leitura de livros é menos atrativa que a comunicação virtual.

É o próprio Neres quem nos fala de suas preocupações a esse respeito:

   

         Por notar que havia um vácuo de estudos e comentários sobre a literatura Maranhense no mundo virtual, resolvi também criar um blog, um site e o jornal virtual (Ilhavirtualpontocom), um mensário digitalizado que já está na vigésima segunda edição e que serve para divulgar as letras maranhenses em todo o mundo e ao mesmo tempo serve para estimular nos estudantes e demais colaboradores o interesse pelo estudo das obras e autores de nosso estado.

     José Neres vai mais a fundo na busca da conquista de leitores para a literatura maranhense: desenvolve um projeto de pesquisa, financiado pela Faculdade Atenas Maranhense – FAMA – denominado Sistema Literário Maranhense: Hipertexto e Hipermídia, no qual a preocupação dos pesquisadores é pesquisar o cenário literário maranhense; organizar o espólio de escritores do estado do Maranhão em site da Internet e uma coleção em suporte eletrônico (CD_ROM hipertextual e hipermídia), na tentativa de trazer à tona a figura de escritores consagrados pela história da literatura, bem como a de alguns escritores pouco conhecidos no meio acadêmico.

Acadêmico José Neres Costa,

Numa feliz coincidência, vós que saudastes Josué Montello como o mais jovem dentre seus pares, no livro Montello, o benjamim da Academia, nos chegas para compor nossa confraria também na condição de benjamim. É uma condição que muitos dos nossos já usufruíram e agora é vossa. O tempo passará e, certamente, daremos entrada a outro e mais outro benjamim, o que nos é prazeroso, porque significa renovação, permeada pela permanência e constância.

Viriato Corrêa, no discurso de recepção de Josué, chama atenção para a idade de seu recipendiário :

Senhor Josué Montello, na Academia, a vida começa aos quarenta. Os que entraram aqui com idade inferior que a vossa representam a minoria. São muito poucos e servem para mostrar que, nesta casa, apesar dos cabelos brancos dos homens que a compõem, se tem confiança e se tem fé na mocidade, desde que ela venha carregada de brilho, de flores e de frutos, como a vossa…

 

       Faço minhas estas doces palavras de Viriato e digo: chegastes aqui por vosso brilho, flores e frutos. É-me prazeroso abrir-vos as portas desta Casa. A minha palavra é a palavra de todas as confreiras e confrades.

Sede bem-vindo. Entrai / e tomai assento/ entre os companheiros,/ confrade José /Neres Costa.
Sede bem-vindo. Entrai / e tomai assento/ entre os companheiros,/ confrade José /Neres Costa.

Textos Escolhidos

CRÔNICAS
MEMÓRIAS DE UM CASARÃO ABANDONADO

            Mais uma vez chega o período chuvoso à nossa Cidade. Com ele sempre volta o meu antigo temor de que cada chuva seja a última minha. Tal qual um leproso, sinto minhas partes se soltando. Sinto que cedo ou tarde darei meu último suspiro. Meu último, sonoro e dolorido suspiro. Igual ao dos meus irmãos que já se foram.

Tenho ainda na memória meus dias de glória. Tempos longevos e irrecuperáveis. Todos acreditavam que eu seria eterno. As paredes largas, recheadas de pedras, cal e óleo de baleia, eram a garantia de uma vida longa e sem problemas. Ninguém daquele tempo acreditaria que um dia eu chegaria a este estado decrépito, em que até mesmo um vento mais forte pode ser uma ameaça mortal.

Meus primeiros donos me ergueram como símbolo de riqueza e ostentação. Quantos barões e abastados senhores de escravos não passaram pelos meus portais! Quantas conspirações políticas não foram articuladas em minhas amplas salas! Quantas negras não foram desvirginadas à força em meus escuros corredores na calada da noite! Quantas senhoras brancas não receberam seus amantes – brancos, negros ou mulatos – em meus inúmeros aposentos de luxo! Sobre tudo isso guardo um silêncio sem fim. Sou detentor de segredos que dariam fama e dinheiro a qualquer pesquisador interessado nas picuinhas de nossa cidade. Sou uma testemunha muda da História dessa gente que me destrói aos poucos em sua eterna indiferença sobre meu estado de conservação.

Um dia, as manchetes dos jornais gritados nas ruas me trouxeram um alento: a Cidade como um todo acabava de virar Patrimônio da Humanidade. Céus! Patrimônio da Humanidade! Isso era a minha salvação. Seria restaurado. Minhas paredes gretadas finalmente seriam reconstituídas. Meus azulejos não seriam mais roubados, não mais serviriam como souvenir para turistas e transeuntes inescrupulosos que me feriam com seus canivetes suíços. Pedaços de minha vida não seriam mais cobiçados por museus da Europa, ávidos de enriquecimento de seus acervos à custa do desonesto furor dos inúmeros caçadores de raridades.

Mas não passou de uma ilusão. De uma triste ilusão. Vi, consternado, alguns de meus irmãos mais bem localizados sendo restaurados. Vi ruas, becos, igrejas e calçadas sendo recuperadas… E eu sendo esquecido!… O tempo áureo voltava para uns, e a certeza da total inutilidade era evidenciada para outros. E eu estava entre os outros… Acompanhei velhos companheiros recuperarem o viço da juventude e serem reinaugurados com festas, com bandas de música, com discursos tão vazios quanto verborrágicos. E eu me senti cada vez mais solitário. Os flashes das máquinas e a luz das filmadoras não mais refletiam em minhas carcomidas paredes. A cidade ficou cega para mim.

Vários espaços vazios começaram a aparecer nas tomadas aéreas. Eram meus irmãos abandonados que sucumbiam sob o peso dos temporais. Os tratores vinham, limpavam o terreno e poucos dias depois a Cidade era presenteada com um novo estacionamento rotativo. É… O bem-estar dos automóveis é muito mais importante que a história de um povo… Fazer o quê? É o famoso preço do progresso.

Nuvens escuras se aproximam. Sinto já as primeiras gotas batendo contra o que restou de minhas telhas. Parece que uma tempestade se aproxima. Pelo rádio de um passante, ouvi que o temporal hoje será forte. Sinto que meus dias chegam ao fim. Talvez amanhã uma foto de meus escombros ilustre uma página de jornal. Semana que vem os motoristas terão mais um lugar para seus carros. Começou a chuva…

O INCÔMODO SILÊNCIO

            Geralmente, as pessoas reclamam do excesso de barulho a incomodar as boas e reconfortantes noites de sono. Quando se trata de uma festa ou de qualquer outro evento mal programado, é comum que um vizinho menos festeiro pegue o telefone e faça uma denúncia anônima para uma espécie de Disk-Silêncio. Em boa parte dos casos o problema é prontamente resolvido, e as pessoas incomodadas podem desfrutar de seu tranqüilo e restaurador sono.

No entanto, há algo que incomoda muito mais que o barulho das festas: o silêncio cultural que envolve todo o nosso estado. E isso, infelizmente, uma simples denúncia não tem o poder de solucionar.

O Maranhão é nacionalmente conhecido por oferecer ao Brasil como um todo nomes de inegável valor artístico. Na música, nas letras, nas artes plásticas ou em qualquer outra forma de expressão artístico-cultural há sempre um ou mais nomes de personalidades maranhenses a constar da lista dos mais significativos expoentes da plêiade. Contudo, quando se trata de divulgar seus valores dentro do próprio Estado, parece que o adágio popular que diz que “santo de casa não faz milagres” é levado bastante a sério.

Pouco parece importar se todos os anos dezenas de livros são publicados, se várias exposições são organizadas, se alguns CDs são lançados e se inúmeras palestras são proferidas. Os artistas, com muito esforço, conseguem alguns espaços na mídia, mas a divulgação se limita à indicação do local e da data do evento, seguidos de alguns comentários bem gerais e, normalmente, isentos de qualquer senso crítico. Passada a euforia da exposição de seu trabalho ao público, o artista novamente se vê relegado ao limbo do ostracismo. O silêncio que paira sobre sua produção intelectual supera em muito os esforços despendidos para a divulgação da mesma. Por causa disso, não é incomum encontrar pessoas de promissor talento que deixaram de publicar seus trabalhos e que trocaram a alegria das experiências artísticas pela dor da decepção.

Em casos assim, engavetar projetos torna-se o meio mais simples de evitar o constrangimento de se ver sozinho com a família e alguns poucos amigos no meio de um salão, durante uma solenidade projetada para dezenas de pessoas. Quando o dono do evento já tem um nome consolidado ou tem contatos com a mídia, consegue uma boa divulgação, concede entrevistas à imprensa e tem alguns poucos minutos de glória, mas nem isso é garantia de público. Mesmo quando há um bom número de pessoas presentes à exposição, ao show ou ao lançamento, fica sempre presente na cabeça do artista a quase certeza de que uma semana após a festividade seu nome continuará tão esquecido quanto antes.

Folheando os jornais diários, qualquer leitor poderá encontrar uma grande quantidade de páginas destinadas ao colunismo social, às festas de uma elite economicamente dominante, aos resultados dos jogos… e quase nada destinado aos aspectos culturais e à divulgação de ideias verdadeiramente relevantes. Mais uma prova de que as futilidades do dia-a-dia são bem mais importantes que as tentativas de produzir algo que contribua com a formação geral do povo.

Infelizmente, enquanto muitos vivem preocupando-se com os ruídos das festas e das casas de espetáculos – algo fácil de ser resolvido – a maioria das pessoas dorme tranquilamente embaladas pelo assombroso silêncio cultural que serve, ao mesmo tempo, de véu, máscara e  mortalha para um povo que  outrora se orgulhava de  poder passear de cabeça erguida por um estado que tinha como capital uma agora quase esquecida Atenas Brasileira.

            É… Esse tipo de silêncio realmente incomoda! E como incomoda…

UMA NOVA RECEITA DE MULHER

            As apenas muito bonitas que me perdoem, mas, em pleno século XXI, tão somente o fato de ser muito bela não é mais o fundamental.

É preciso que por trás de pele e cabelos sedosos haja também uma poderosa massa encefálica sempre pronta para resolver os inúmeros problemas do cotidiano, sempre pronta para aprender e para ensinar, sempre preparada para cuidar do corpo sem descuidar do espírito.

É preciso que as curvas bem delineadas escondam bem mais que horas e mais horas de academia, de intermináveis sessões de step e de jump, mas que tragam também as marcas das indispensáveis preocupações com a saúde física e mental.

É essencial que por baixo das camadas de cosméticos haja estampado um pleno sorriso de felicidade e o brilho de um olhar que, mesmo sem maquiagem, façam as pessoas perceberem  que o interior  pode muito bem superar o exterior, quando as marcas do tempo não mais puderem ser disfarçadas.

Não se pode esquecer também que os estudos constantes, os cursos feitos e os livros lidos fazem parte de uma bagagem invisível que não cabe em nenhuma bolsa ou nécessaire, mas que, nas horas decisivas, deixam claro se uma mulher irá passar para a posteridade por seus feitos, por suas ideias ou se apenas teve massa e ocupou lugar no espaço.

É de extrema importância ter a consciência de que pernas grossas ou finas, longas ou curtas, bem delineadas ou não, com o sem celulite levam sempre para algum lugar ou para lugar algum, dependendo das ordens recebidas de um cérebro que foi ou não trabalhado para estar sempre alerta às constantes mudanças que podem alterar rotas e caminhos, e que podem transformar o roteiro aparentemente mais curto em estrada esburacada sem qualquer perspectiva de um ponto de chegada.

É primordial também que a mulher saiba que, em nosso mundo competitivo, cada ponto de chegada possa transformar-se em um novo ponto de partida, pois ninguém deve contentar-se com o simples fato de chegar a algum lugar, mas sim deve alegrar-se com a possibilidade de recuperar as forças para empreender novas jornadas navegar por mares nunca antes navegados, em busca de novos espaços e de novas perspectivas.

Finalmente, é de vital importância que a mulher nunca deixe de lado a sensibilidade, o poder de administrar o tempo, a capacidade de tirar das dores um sorriso, o desejo de vencer os obstáculos – por maiores que eles possam parecer, a coragem de enfrentar as adversidades muitas das vezes armada apenas com o senso de justiça e com a indestrutível armadura da feminilidade.

            Como se vê, neste novo século, os aspectos plásticos podem até ajudar, mas não são mais os requisitos únicos para que as mulheres possam orgulhar-se de serem as guerreiras do lar, do trabalho, da sociedade… da vida.

CONTOS
O BRINDE

            A bem da verdade, é preciso dizer: meu pai nunca deixou que nos faltasse comida. Sempre tivemos até mais que o necessário para uma vida confortável. O que nosso pai não nos dava em palavras, afagos e carinhos, ele nos dava em comida e sorrisos. Não consigo me lembrar da voz dele. Não consigo esquecer seu sorriso meigo de dentes perfeitos. Falava pouco. Sorria o suficiente para encantar com seu silêncio.

“Pai, tô com fome!”. Era a frase que ele mais ouvia dos filhos. Três ao todo: eu, minha irmã e meu irmão mais velho. Nosso pai nada falava. Sorria. Ia à geladeira e preparava algo bem gostoso para todos. Comíamos e bebíamos felizes.

Mas isso foi antes da grande crise.

A grande crise chegou e abalou a todos. Papai se esforçava ao máximo para manter a casa. Mamãe, sempre alheia a tudo, começou a perceber que a despensa ia ficando vazia. Ela falava menos que papai, com o defeito de nunca sorrir. Mas da voz dela eu me lembro. Era voz de sofrimento.

A frase continuava a mesma: “Pai, tô com fome”. A comida vinha em quantidade menor, mas sempre vinha. A diferença era que papai já não nos acompanhava durante as refeições. Depois mamãe também parou de sentar-se à mesa conosco. A crise aumentava. Mas era diminuída pelo sorriso de meu pai.

A geladeira estava vazia, mas a fome continuava. Papai, com o olhar, chamou mamãe para a cozinha. Ouvimos o choro dela. Sentido. Distante. Mas minutos depois esquecemos tudo com a visão de um belo bife, bem passado. Papai parou de aparecer para nós. Vez ou outra, apenas botava a cabeça para fora pela porta da cozinha e dava um sorriso. Mas agora era um sorriso triste, dolorido.

A carne servida não deixava que sentíssemos a ausência de nosso pai. Um dia nossa mãe nos serviu apenas uma sopa com pouca carne e muito osso. Reclamamos. Ameaçamos chamar papai para resolver o problema. Queríamos carne. Estávamos acostumados era com carne, não com osso. Mamãe suspirou fundo e foi para a cozinha.

“Filhos… Venham cá!” A frase imperativa, mas quase inaudível, vinha de uma voz já quase esquecida. Nosso pai, depois de muito tempo, falava de novo. Entramos alegres e cozinha e paramos de súbito. Sentado em uma cadeira perto do fogão estava papai. Ou melhor, o que restava dele. Apenas a cabeça se mexia, lentamente. O pulmão e o coração eram visíveis através do esqueleto que teve quase toda a sua carne cortada, congelada, frita, assada, cozida…

Ele não precisou dizer mais nada. Compreendemos tudo. De seus lábios tristes brotou um sorriso. O último sorriso que ele dividiu conosco. Mamãe pegou uma taça de cristal. A última que restava e levou-a até a cabeça de papai. As lágrimas dos dois se misturaram e gotejaram na taça. Ele olhou para nós, triste, mas com a satisfação estampada no rosto. Mamãe, fez um gesto de brinde em direção ao esqueleto de papai, para si própria e depois em nossa direção. Abriu a geladeira e ali guardou para sempre as lágrimas dos dois.

            Voltamos para a sala e nunca mais reclamamos da sopa de ossos que nos mantinha vivos.

DEVASTAÇÃO

            Impossível esquecer a primeira vez que vi Flora. Ela estava à beira do rio. Solitária. Vestida com muitos grilos e raríssimas borboletas. Sobre seu sexo, repousava um buquê de espinhadas e secas rosas, ladeadas por ramos de sensitivas e camomila. Silenciosa, ela mastigava mecanicamente um restinho de sonho. Suas mãos eram galhos ressequidos, mas suas unhas tinham ainda a maciez de perfumadas pétalas. Os grilos cobriam seu corpo. Deixavam pouco espaço para as multicoloridas borboletas.

Aproximei-me devagar. Com olhar experiente, vi que aquele terreno ainda era fértil. Ela murchava a cada tentativa de toque. Pacientemente, espantei um a um os grilos. As borboletas encontram o caminho de volta, cobrindo o corpo de cores e alegrias. Cautelosamente, afastei os ramos de sensitivas e os de camomila. Livrei-a das ressequidas rosas e vi que um jardim se escondia por trás dos espinhos. Um jardim. Uma fonte de néctar com aroma de jasmim, sândalo e alecrim ao mesmo tempo. Provei o mel que emanava daquela fonte. As mãos ganharam viço de verdejantes folhas e as unhas atingiram consistência suficiente para arranhar minhas costas enquanto eu depositava nela a semente guardada para aquele momento.

A cada encontro, Flora se renovava, alimentava-se de sonhos novos e o sorriso voltava a sua face. As borboletas esvoaçam pelo seu corpo, deixando entrever, em breves relances, suas perfeitas formas. O vento levava seu perfume para toda a região.

Saciado, depois de tanto me afogar na seiva que ela abundantemente me oferecia, fiz o que sempre fora meu costume: procurei outros campos.

            Quem chegou depois de mim jura que ali nunca houve flores, nunca houve perfume, que ela jamais sorriu e que jamais uma borboleta pousou sobre aquele ressequido corpo. Pois os que tentaram espantar os grilos que a cobriam só encontraram um tronco coberto de percevejos e, cobrindo o ventre, sedosas folhas de urtiga.

ARTIGOS

PARA APRENDER MAIS

Sempre que se aproxima o período avaliativo nas instituições de ensino, públicas ou particulares, diversos estudantes desaparecem da esfera social sob o pretexto de “estudar para a prova”.

Tal expressão, tantas vezes repetida ao longo dos tempos, pode ser indicativa de pelo menos duas situações: 1) o aluno prestou atenção ao conteúdo das aulas, revisou seus apontamentos, leu bastante sobre os assuntos ministrados… E, agora, na reta final da unidade de ensino, pretende apenas aprimorar seus conhecimentos a fim de superar a si mesmo, talvez buscando aprimorar alguma expertise; 2) o estudante tem consciência de que, por algum motivo, não conseguiu assimilar as lições e, às vésperas da prova, sabedor de que precisa de uma boa nota, procura recuperar o tempo perdido e alcançar a pontuação pretendida, mesmo que não tenha aprendido o suficiente.

Infelizmente, pelo que se nota, há a prevalência da situação 2 sobre a 1. Quase sempre, o imediatismo de “tirar uma boa nota”, independentemente do grau de aprendizagem ou pelo menos de retenção dos conteúdos ministrados pelos professores, ocupa mais a mente dos alunos do que o fato de aprender ou não. Para muitos, passar é mais importante que saber algo.

No entanto, tomando alguns simples cuidados e com mudanças de hábito, é possível conseguir boas notas e obter altos graus de aprendizagem ao mesmo tempo. O simples fato de prestar atenção às aulas, eliminando as conversas paralelas e as digressões, já ajuda a potencializar os efeitos do estudo.

Se, além de dar mais atenção às explicações do professor, o estudante conseguir autorregular-se para revisar diariamente o que foi visto na aula anterior, o percentual de assimilação dos conhecimentos já aumenta consideravelmente. Meia hora por dia de estudo deliberado para cada disciplina estudada por dia de aula fará uma grande diferença no final de um bimestre letivo.

Além dessas revisões sistemáticas, é preciso também ir além do que foi ministrado pelo professor, investindo em mais leituras, pesquisas em outras fontes e contato com filmes e documentários que tratem do mesmo assunto. Formar grupos de estudo para dirimir dúvidas, trocar informações e ampliar conhecimentos também é uma boa opção para complementar a aprendizagem. Contudo, em todos os encontros do grupo, deve-se manter o foco no objeto de estudo, a fim de evitar que assuntos alheios aos temas abordados tomem conta das conversas.

A velha desculpa da falta de tempo para estudar pode desaparecer com um mapeamento dos momentos disponíveis durante o dia, ocupando os horários ociosos ou destinados a tarefas que podem ser postergadas. Dessa forma, com planejamento, é possível utilizar intervalos entre as tarefas para atualizar leituras ou pelos menos revisar tópicos. Outra sugestão é baixar áudios ou vídeos com palestras e aulas sobre os temas em questão para vê-los ou ouvi-los durante a execução de tarefas cotidianas que permitam, como filas de banco, trajetos em coletivos ou salas de espera. Alguns tempos podem ser remanejados sem que se abra mão dos horários de trabalho ou de diversão com familiares e amigos.

            Estas são apenas algumas sugestões simples, mas que podem potencializar os estudos, fazendo com que as informações adquiridas em sala de aula deixem de ser algo circunstancial e passem a fazer parte do cotidiano do aluno. Então, quando o ato de estudar deixa de ser algo pontual, com o objetivo único de fazer uma prova, aumenta a autonomia intelectual do educando e, proporcionalmente, favorece a percepção de que é possível tirar boas notas a partir do que foi realmente aprendido e não apenas decorado para uma avaliação e esquecido no dia seguinte.

SEMPRE É TEMPO DE APRENDER

            A aluna chama o instrutor da academia e se queixa de que ela não consegue fazer determinado exercício. Ele olha para ela, solta um leve sorriso e diz que ela já passou da idade de aprender a executar aquele movimento. Segundo ele, as pessoas só conseguem aprender até determinada idade e, depois disso, é impossível adquirir novos conhecimentos. Recomenda que ela não faça mais aquele exercício, dá um outro risinho e vai para um canto da academia digitar mensagens em seu celular.

A cena acima não foi inventada. Ela é verídica e aconteceu, como fica claro, em uma academia, mas, infelizmente, é reproduzida, todos os dias, em diversos locais: universidades, escolas, centros de idiomas, ruas, mercados, shoppings, etc. algumas pessoas pensam que existe uma idade limite para a aprendizagem e que depois de determinado tempo de vida a capacidade de assimilar e processar novas informações acaba.

O instrutor do episódio acima descrito, além de agir com deselegância para com sua aluna, também demonstrou certo despreparo técnico no que se relaciona com o processo de ensino e aprendizagem. Ele, de alguma forma, acabou reproduzindo o senso comum que confunde etapas de desenvolvimento com idade certa para aprendizagem. O ser humano passa por diversas fases de desenvolvimento intelectual, físico e locomotor, mas, em todos os momentos está predisposto a aprender.

Claro que pode haver momentos em que estar em uma fase específica do desenvolvimento pode favorecer ou dificultar o aprendizado de determinados assuntos e facilitar ou não a assimilação de ações físicas ou cognitivas específicas, mas isso não significa que alguém possa estar impossibilitado de continuar aprendendo. Ou seja, o fato de haver uma ou várias limitações físicas ou cognitivas para a intelecção de determinado tipo de conhecimento não equivale a dizer que alguém não possa aprender algo que deveria haver aprendido em uma etapa anterior de seu desenvolvimento.

É aí que geralmente entra a intervenção de um bom profissional da educação, devidamente amparado pelos conhecimentos e técnicas fornecidos pela pedagogia e, mais modernamente, pela andragogia. As pessoas não aprendem da mesma forma e nem no mesmo ritmo que as outras e, mesmo recebendo as mesmas aulas e os mesmos impulsos, tendem a buscar soluções diferentes para problemas tidos como comuns a todos os aprendizes.

Dessa forma, com um bom acompanhamento de um profissional de educação, com a observância dos estágios de desenvolvimento e com o respeito aos ritmos individuais de processamento dos conhecimentos adquiridos, as possibilidades de aprendizagem fogem ao mero aspecto temporal e ganham uma outra dimensão que vai além dos escalonamentos etários do aprendiz.

Outro aspecto relevante na aprendizagem é saber quais são os objetivos que devem ser alcançados após a seção de estudos ou de treinamento. O ato de aprender deve ser paulatino e constante. As metas a serem atingidas, os resultados almejados e os efetivamente alcançados deveriam ser claros tanto para o professor/instrutor quanto para o aprendente, com o uso também de técnicas que incentivassem o educando a passar para a etapa seguinte sabendo onde falhou e como deve fazer para compensar suas deficiências. Contudo isso nem sempre acontece.

            Voltando para o instrutor da academia… Por estar mais preocupado com a mensagem do celular que com os objetivos de sua aluna, por não tentar saber em qual estágio ela estava e nem atentar para sua condição anterior ao chamado e também por não estar preparado para fazê-la sentir-se motivada a seguir na tentativa de superar os próprios limites, ele preferiu recomendar que ela estagnasse em sua trajetória a tentar fazê-la ver que os obstáculos podem servir como fonte de superação. E ele acabou perdendo uma ótima oportunidade de mostrar a sua aluna que existe, sim, um tempo para aprender, e que aquela era a hora.

POEMAS

TRÍSTICO 01 – MÉNAGE

Na cama, éramos sempre três:

Eu, você e a solidão.

Cada um esperando sua vez.

TRÍSTICO 2 – QUEDA

Quando dádiva se tornou dúvida e dívida,

A belingênua pobre menina escorregou nas escolhas,

Segurou-se em ilusões… c           na vida.

TRÍSTICO 03 – DE-CISÃO

Acuado entre o caos e os cães,

Rasguei a roupa da esperança

E fiz uma orgia com mil ilusões.

TRÍSTICO 04 – INSANIDADE

No meio da violência insana

Uma mãe clama, um homem reclama

E a clara inocência arde em chama…

TRÍSTICO 05 – URGENTE

Sempre é mais ou menos assim…

Quando alguém diz: “Quero muito falar contigo”

Quase nunca é algo bom para mim.

TRÍSTICO 07 – DÚVIDA

Para descobrir não sei o que faço

Se a diferença de gatinha para galinha

É uma linha ou um traço…

TRÍSTICO 08 – AZAR

Que sujeito esdrúxulo que sou!

Tentei matar a dúvida

E a dívida me cercou!…

Iconografia

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